terça-feira, janeiro 31, 2006

Mudança

Alguma coisa tem que mudar para que tudo fique na mesma. Só não sei bem o que.

Eu devia ter deixado isto em draft, a marinar, enquanto preparava o estrugido, mas a pressa dá nisto. Frases incompletas, ideias coxas, sem gasolina para chegar sequer ao fim da rua. Depois meto-me a caminho de S. Bento, a pé, passo pelo Príncipe Real, lembro-me de uma tarde de reconhecimento em Lisboa, que começou exactamente ali, de máquina fotográfica na mão, e quando entro na Praça das Flores, já estou em pleno flashback. Há dezenas de fotogramas que passam por um projector de slides imaginário. Cada pedra da calçada, cada árvore, cada prédio, cada loja, traz consigo a memória de dias felizes. Quando subo a escada íngreme em direcção àquele que já foi o meu 2º. andar direito vou mais leve, como se as folhas do calendário tivessem passado em branco pelos meses em que não morei no meu T0 com mezzanine. Mas já não é o meu cheiro, o nosso cheiro, que me recebe quando empurro a porta. Já não resta nada de mim. Passo os olhos pelos móveis, os mesmos, procuro sinais que sei que vou encontrar. Desisto. Interessam-me, os sinais, na proporção exacta da tua felicidade, e essa vê-se nos gestos, ouve-se na voz. Fixo o olhar na janela, o quadrado de alumínio (sacrilégio arquitectónico) sobre o jardim, nas buganvílias por onde, nas noites de Verão, subiam os acordes do piano martirizado pelo vizinho alemão. Mas não era sobre isso que queria escrever. Esses dias estão bem guardados, devidamente acondicionados numa caixinha verde alface, no terceiro compartimento da esquerda a contar da pálpebra direita. Na cómoda das recordações felizes, de sorriso rasgado. Têm o mesmo sorriso que o meu inominável tanto gosta. Também não é ele o tema desta posta. E se aqui cheguei foi apenas porque, a meio caminho entre o Príncipe Real e S. Bento, me lembrei do que queria escrever.

O assunto é a mudança, está escrito lá em cima, e o melhor é cumprir. Já basta o peso na consciência por continuarmos a defraudar as expectativas dos leitores que aqui entram à procura de sexo. Temos pena, mas o que há fica fechado a sete chaves e quando sai em surdina, se sai, fica por ali a pairar na esplanada no Moinho, para os lados de Carcavelos, ou enterrado nos canteiros da varanda da Parede. Seja, então, a mudança. Aquela que começou há quase um ano e que ainda não acabou, que muito possivelmente não irá acabar. A culpa foi do corte de cabelo. Não, a culpa foi do ‘ex’ que não via há anos e que disparou, sem apelo nem agravo, com um estás velha. Tive vontade de responder e tu uma baleia, mas percebi que se o problema dele tinha solução, o meu dificilmente sairia dos cuidados intensivos. Depois sim, veio o corte de cabelo, veio a metamorfose de guarda-roupa, os ganchinhos coloridos, e veio o sorriso. Mas sei que a mudança não é só exterior - essa está arrumada até que soem as sirenes e os carros de bombeiros me levem trôpega até ao N -, o problema está na outra, mais profunda, mais dolorosa, mas também mais consequente. É essa que ainda não acabou, que possivelmente nunca irá acabar, como não acaba uma tarde numa mesa de mármore de um café com história.

Com um Mr. Big assegurado, só faltava a confirmação

You Are Most Like Carrie!
You're quirky, flirty, and every guy's perfect first date.
But can the guy in question live up to your romantic ideal?
It's tough for you to find the right match - you're more than a little picky.
Never fear... You've got a great group of friends and a
great closet of clothes, no matter what!


Romantic prediction: You'll fall for someone this year...

Totally different from any guy you've dated.
[Vá lá, não demora mais de dois minutos...]

domingo, janeiro 29, 2006

2º andar direito*

(...)
e não me olhes, que o amor ainda acorda
deixa-o dormir o nosso amor, um bocadinho mais
deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais

E o homem, de pé
Parece um rapazinho a ver se compreende
e grita e diz que ele também não se vende
que quer a paz mas de outra maneira
e nem que essa noite fosse a derradeira
veio afirmar quer ela queira ou não queira
que os dois ainda têm muito a aprender

(...)


Somos tão novos, diz o homem
e agora é a vez de a mulher se impacientar
essa frase já começa a tresandar
é que não é só uma questão de idade
o amor não é o bilhete de identidade
é eu ou tu, seja quem for, ter vontade
de mudar e deixar mudar
(...)


2º andar direito, Sérgio Godinho
Pano-cru (1978)

* Reeditado, estava muito longo... uff

Neva em Lisboa

Pronto, a inveja passou. Está a nevar lá fora. Os farrapos milimétricos transformaram-se em verdadeiros flocos. O meu clio, cinzento à nascença, está branco como nunca foi. E eu sem uma máquina fotográfica :(

A inveja é uma coisa feia

A1 Santarém-Leiria www.brisa.pt

Duas sem três

Ia escrever sobre futebol. Pelas razões óbvias mudei de ideias. Mas um Benfica-Sporting há muito que deixou de ser um simples jogo de futebol. Disse-te um dia – num dia específico – que acreditava no destino. Em menos de um ano vi o Benfica ganhar por duas vezes ao Sporting na Luz. Hoje escrevi numa mensagem provocatória que 'não há duas sem três'. Enganei-me.

Vimos juntas o Jeux d' Enfants. Choramos juntas e prometemos que a partir dali só víamos desenhos animados. Foi quando me contaste dos jogos, os teus. Parada no sinal, pensavas que ele iria ligar se o terceiro carro a passar no cruzamento fosse azul. Verde, vermelho, cinzento. Ele não ia ligar. Lembro-me que o sentimos em dois momentos distintos nesse dia até que me enviaste uma mensagem que dizia: “De repente senti que o destino existe mesmo”. Mudavas de estação à espera de ouvir aquela música, porque se fosse aquela era sinal que irias esbarrar com ele. E da caixinha negra saíam os acordes desejados. Mas não o encontravas. Eu olhei para a mensagem, não para o jogo, aquele jogo que de repente não me interessava para nada. Olhei para a mensagem e sorri. Mesmo assim, persistias. Irredutível como todos os que verdadeiramente amaram. Paravas o carro e andavas sem pisar as pedras pretas da calçada. Se o fizesses ele não ia aparecer. Mas pisavas, nem que fosse só com a ponta do sapato. O destino, a partir desse momento, passou a existir. Jogos como os que fazíamos na infância. Rodar o pé da maça enquanto soletrávamos o alfabeto mentalmente, à espera que partisse naquela letra, porque só aquela nos interessava. Porque o destino só existe quando duas pessoas, no mesmo tempo e na mesma circunstância acreditam nele. Será que ainda ensinam estas tontices aos miúdos. Saberão eles pegar num malmequer, se bem que já quase não há malmequeres, há margaridas deslavadas engendradas em estufas, e arrancar pétalas numa espécie de oração proferida a meia voz: bem-me-quer-mal-me-quer-muito-pouco-ou-nada-bem-me-quer-mal-me-quer-muito-pouco-ou... O destino existe entre nós. É por isso que um Benfica-Sporting não é um simples jogo de futebol. E o Benfica perdeu.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

O outro crime do padre Amaro

Em jeito de balanço de final do ano de 2005 não fiz promessas vãs. Apenas formulei um desejo: trabalhar muito menos ao longo do ano que agora começa. Se soubesse melhor (de if I knew better), teria feito muitos mais desejos uma vez que vou chegar ao fim do mês de Janeiro com apenas três dias trabalhados. Quando fiz o desejo, ainda em 2005, não estava propriamente a pensar em ficar de baixa... mas que o desejo foi já parcialmente atendido, isso foi.
Hoje é o meu 23º dia sem fumar. (pausa, respirar fundo, suspiro). Até aqui, a sanidade ainda vai resistindo em nome de um pulmão lesionado e do medo de ter uma recaída. Mas a ansiedade já começa a apertar e a gritar por baba de camelo, chocolates, queques de chocolate, rebuçados, filipinos, enfim. A ementa é apenas uma pequena amostra daquilo com que durante o dia de hoje fui matando o "bicho".
Tenho tentando manter-me calma. (pausa, respirar fundo, concentar). Até à hora do telejornal de hoje, altura em que o nosso Primeiro apareceu na televisão para me dar cabo dos nervos. Então não é que até 2009, diz ele, deixará de ser preciso entregar IRS por que as finanças passarão a fazer a "presunção da dívida fiscal do contribuinte". Tipo estimativa da EDP? Sócrates anunciou-o em nome da desburocratização. A mim, parece-me mais uma ameaça. Fiquei com os nervos em franja. E comecei a pensar: e se for só uma passa, posso dar só uma passa... vai-se a ver e até me sabe mal. É isso, vai saber-me mal.. por isso posso dar só uma passa.
Na gaveta das necessidades um maço à minha espera. O coração palpita. ESTÁ VAZIO. Da palpitação à taquicárdia. Vasculho gavetas e bolsos. Nada. Desespero. Até qque fiz aquilo que não fazia há seguramente mais de uma década. Com as mãos a tremer à proporção do peso da consciência, devorei umme sabe mal. Adorei.a beata. Tal qual Padre Amaro. Soube-me pelo céu. Não enjoei, não Socorrooooooooooooooo!! Não posso voltar a cair em tentação.
Por isso, preparo-me agora para devorar uma tijela de grão cozido com azeite, um vício (outro) que remonta aos dias de inverno da minha infância.

Moral da história. Está tudo encaminhado para que o meu desejo de final de 2005 se mantenha ao longo do ano. Se não conseguir controlar-me, arrisco-me a engordar desalmadamente. Feitas as contas engorda + engorda = engorda muito = baixa de auto-estima = depressão = baixa!!

Don't R.I.P.

Morte aos barrigudos de farda azul. Morte aos tipos de bigode à anos 70. Morram os cabrões que andam pelas ruas da capital de bloco de multas na mão. Que se tropecem na porra dos bloqueadores e fiquem em estado vegetativo. Morram os polícias municipais que se escondem nas esquinas (só assim se expliquem que tivessem tempo para bloquear o pobre do Clio e passar a multa nos dois minutos que demorei a escolher o hidratante na farmácia do Camões. O senhor António bem me avisou...) à cata de mulheres indefesas. Morram! e devolvam-me os meus 49,95 euros que vão engordar as contas da CML e da DGV.

Madrid me mata

Tira gentilmente roubada no Pausa para Café.


Estava frio em Madrid. Aquele frio cortante a que não se habituam as pessoas que vivem perto do mar. Estava um gelo e mais uma vez não levei o sobretudo. Ainda não o vesti este ano. Tem sido gentil o Inverno de Lisboa. Mas não é do tempo que quero falar. Espanha é desde 1 de Janeiro mais um paraíso dos fundamentalistas antitabágicos. Não se fuma nos bares, nos restaurantes, no átrio dos hotéis, you name it. Lá voltei a passar três horas sentada num restaurante sem poder aceder um cigarro, com a agravante de o cicerone da noite ser um dos nossos excelsos governantes e parecer mal sair da mesa para matar o vício. Entre um ponto e outro éramos conduzidos por um charmoso espanhol e à chegada saíamos do carro e ficávamos uns minutos a enregelar, mãos a tremer, dentes a bater, e o pior é que os meus batem mesmo, e cigarro entre os dedos. A última paragem foi a embaixada portuguesa. A cena repetiu-se. Maços para fora, isqueiro na mão, e uma das pessoas que ia comigo a dizer vão entrando que nós vamos fumar um cigarro e lá ficam parados ao portão. Desculpem? Se bem me lembro das aulas de direito político, dadas com mestria pelo Basílio, deste portão para dentro é território português e que eu saiba em Portugal ainda se pode fumar. [Eu sei que tenho a mania] Lá fui, cigarro aceso na mão, porta dentro. Entro e segundos depois oiço uma tia histérica gritar em castelhano aqui no se fuma. Que eu saiba não há nada na lei que me proíba de fumar. Que no, que no se fuma. E vai a correr perguntar ao embaixador. À resposta afirmativa desfaz-se em sorrisos. Nas costas dela uma dezena de mãos, sem exagero, entra nos bolsos à procura dos cigarros.

Novos vícios


200 gramas comidas de enfiada, quadrado após quadrado.

Sem título*

Ponho os auscultadores para não me ouvir pensar. Não. Ponho os U2 a tocar para me concentrar no que devo. Nas palavras que amanhã sairão imprensas a negro. A minha estagiária, que não é propriamente minha, mas que eu gosto de tratar assim, passa a vida a queixar-se porque não temos música. Eu concordo com ela. A estagiária, que não é estagiária nenhuma, que vale mais que muitos jornalistas, lembra-me outras quatro meninas quando começaram nesta vida de jornaleiras. A minha menina passou uma tarde inteira numa comissão parlamentar a mandar sms. Despachava mensagens compulsivamente enquanto eu pensava com os meus botões, será que esta gaja sabe que está aqui para trabalhar. A mesma gaja que depois chegou à redacção e foi capaz de debitar tudo o que foi dito mais depressa do que eu. Não lhe escapou nada. Nunca lhe escapa nada. Eu simpatizo com esta miúda, com a forma como vê a vida, a paixão com que a vive. A minha estagiária gosta de histórias de amor. Como eu. Mas recusa-se a ver comédias românticas. É de lágrima fácil. Como eu. A minha estagiária escreve bem. Escreve sobre o amor. A forma como ela o vê. Como o vive. É delicodoce. É, mas é genuína. Tal como eu é viciada no mais perigoso dos jogos. A sedução. Depois disso já nada interessa. Sei como é princesa. Mas também sei que um dia precisamos de parar. Eu parei. Pelo menos por uns tempos. Aprendi a medir o peso de cada gesto, de cada palavra. É certo que não resisto a trazer aquela mini-saia no dia em que sei que preciso de ter o ego no seu expoente máximo. Não seduzo. Mas não passo despercebida. Mas há coisas que devemos guardar só para nós mesmo quando queremos gritá-las ao mundo inteiro. A rapariga é impulsiva. Como eu. Age primeiro, pensa depois. Mais vale arrependermo-nos do que deixámos por fazer, do que daquilo que fizemos. Mais vale cair, ficar cheia de nódoas negras, um braço ao peito, um penso na cabeça, mas com a certeza de que tentamos, não é? Eu gosto da minha estagiária. Ouve-me e lê-me quando me vê mais desanimada. Não dá conselhos, apenas oferece o ombro. Vai-me buscar cafés e comprar cigarros. Ofereceu-me um livro depois de eu a ter ‘levado’ ao parlamento. Diz-me que escrevo bem, que ofusco outras escritas. E mesmo que não fizesse nada disto, que não me massajasse o ego eu ia gostar dela. Gosto de pessoas com garra. Que enfrentam os desafios com um sorriso nos lábios.

*Temos pena, mas gastei a criatividade, bem escasso por estes dias, a parir o post, que por sinal não ficou grande coisa, mas foi o melhor que se pode arranjar.

terça-feira, janeiro 24, 2006

A room with a view


Paseo de La Castellana, Madrid

Lágrimas

A mentira tem pernas curtas, por isso se apanha mais depressa um mentiroso que um coxo. As lágrimas deixam, no momento exactamente antes de desaparecer, manchas azuladas nas folhas de papel branco. Não confiar em ninguém. É este o recado do dia.

domingo, janeiro 22, 2006

Eleições

À falta de sexo, temos política num blog apolítico.

Só para dizer que estou de luto e amanhã emigro.

Sobe ou desce?

Sonhei com elevadores e sei de quem é a culpa!

It’s the end of the world as we know it

Sei que prometi. Que disse que não fazia desta cidade um poço de tristezas. Sei que não gostas deste tom, Miranda. Sei que é por isso que te manténs longe. Mas hoje não consigo escrever mais nada e preciso de escrever. Preciso muito. Porque me dói o lado esquerdo do peito. Nos ataques cardíacos as dores são reflexivas. Sentem-se do lado direito, longe do coração. Começou de madrugada, quando entrei no Tóquio, quando pensava que ia, como sempre, libertar-me de todas as angústias. Enterrar os medos, seven feet under. Mas desta vez foi diferente. U2, Xutos, Morphine, REM, It’s the end of the world as we know it, mas a música não chegava aos pés, às pernas, aos braços. Não chegava porque entrava no cérebro e fazia ricochete nos pensamentos. Bem tentei mandá-los embora. Dizer-lhes que não tinha tempo para eles. Deixem-me. Vão pregar para outra freguesia e eles nada. Continuavam ali, para a frente e para atrás. Assustavam-me. Repeliam a música. Não consegui vibrar. Libertar-me. Como não consigo agora reagir. Queria dormir, só isso. Dormir para não pensar. It's the end of the world as we know it. Can't I have some time alone?

sexta-feira, janeiro 20, 2006

1.291.96

Conheci o senhor Manuel na segunda-feira e já só penso nele. Nele e no número que vai marcar os meus próximos dias, os meus próximos meses, provavelmente, todo o ano que ainda agora começou.

Primeiro, o senhor Manuel ganhou a minha confiança. Ouvi falar dele por terceiros. Bem. Era o melhor, honesto, às direitas. Acreditei e deixei-me levar. Conheci-o numa tarde fria deste Inverno, numa praceta cheia de carros estacionados, um céu a cair para a noite, uma mão que apertava a minha para sorrir com o rosto.

Entreguei-lhe parte do meu mundo, nessa tarde. E parti com a chave da outra metade.

No dia seguinte o senhor Manuel mandou recado. Do lado de lá da linha a palavra firme a defender a postura, a conduta, a integridade do senhor Manuel. Por isso estavam a ligar-me. Para que não houvesse dúvidas. Porque o senhor Manuel não queria ficar mal, perante mim, muito menos quando estávamos a ter a nossa primeira aproximação.

Correspondi. Confio, disse eu. Nem preciso de pormenores. Existe valor maior que a confiança?

Hoje, passados quatro dias, o senhor Manuel recebeu-me de braços abertos. Tinha as mãos sujas mas estendeu o pulso, orgulhoso, para que eu lho apertasse. Foi o que fiz, ansiosa pelas novidades, pela parte do meu mundo que me ia ser devolvida, pelas mudanças que ela traria, pelo sossego restabelecido.

O senhor Manuel mostrou-me tudo. Peça a peça. O que era velho, que fazia parte do passado, estava já pronto para ir para o lixo. O senhor Manuel justificou-me tudo. Isto não, por isto... isto não, por aquilo. E faziam sentido aquelas palavras, quis ver-me livre daquelas velharias, que foram parte de uma parte do meu mundo.

No fim, já sem conseguir controlar a ansiedade, apertei os dedos entre as mãos para suportar a espera. As palavras do senhor Manuel mergulhavam na minha cabeça já cansada, como o passado mergulhava num caixote também velho.

O cheque que passei ao senhor Manuel é de 1.291.96. Assim mesmo: mil, duzentos e noventa e um euros e noventa e seis cêntimos. Por extenso. Assinado por mim. Apeteceu-me gritar quando vi o valor, quando percebi que não estava a juntar mal os números. Em poucos frames tudo me veio à memória, as contas de somar e de subtrair, as de dividir que a minha mãe me ensinou, as de multiplicar que foram, para mim, desde miúda, as mais dificeis de acertar...

Talvez tivesse sido melhor trocar de carro... Ou talvez tivesse sido melhor não confiar no senhor Manuel, o mecânico mais caro que conheci até hoje.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Entre um blog e outro

Estou desanimada. Dias normais, não reajo bem a dias normais, são mais tristes que os tristes, os dias em que sofro por algo ou por alguém. Não há nada pior do que não desejar nada. Os dias são todos iguais. Vá, tem meia hora para mudar a minha vida.

E para que conste não me sinto assim, por acaso...

Luto Nacional

Sou uma mulher de hábitos. Peço desculpa, mas é o melhor que se pode arranjar. Sou fiel ao mesmo perfume há pelo menos três anos. Não perco uma tarde de leitura na melhor esplanada de Lisboa desde que a descobri. Compro o jornal, o ‘Público’, sempre o ‘Público’, no mesmo sítio. Tomo o primeiro café da manhã à porta de casa. Compro o mesmo champô há séculos. Não mudo de manteiga, de arroz e de iogurtes há uns anos. Não troco de velas, as mesmas, vermelhas ou azuis, desde que o ikea abriu. Faço uma ceia todas as noites antes de ir dormir, torradas com doce de pêra e um batido de chocolate, mesmo quando os olhos já pesam e os pestanas© batem a porta pela décima vez. Fumo a mesma marca desde que recomecei a fumar. Vou à mesma praia todos os anos. Na Serra não passo sem um passeio ao Carvalho grande. Na Häagen-Dazs peço sempre strawberry cheesecake. Sou uma mulher de hábitos e alguns cumpro-os religiosamente. É por isso que neste momento estou perto do caos. O N., o melhor cabeleiro de Lisboa e arredores, que consegue que eu tenha bom aspecto durante uns meses, que dança à minha volta enquanto me corta o cabelo, que não abre a boca por um segundo, que sabe melhor do que eu o que quero… o N. foi-se embora. Não deixou nova morada, não me escreveu um postal, abandonou-me, simplesmente. Perdi-lhe o rasto. É altura de decretar luto nacional.

Criação...

E ao quarto dia de folga, ainda não descansei...
E à quarta noite de sono, ainda não consegui dormir...
O meu mundo é imperfeito.
Até ver.