quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Fechar os olhos
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quarta-feira, janeiro 31, 2007
A room with a view
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terça-feira, janeiro 30, 2007
Cheguei
[para abrir o apetite...]

[ou não...]

[Básico. Muito básico. Não há tempo para mais. O despertador toca dentro de seis horas e há 36 que não deito a cabeça na almofada. Era só para dizer que cheguei.]
Escrito por Carrie às 16:46 5 comentários
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Regresso ao divã III
- Acordei e não voltei a dormir, Doutor. Era uma insónia.
- Tem a certeza?
- Ainda nem eram sete da manhã...
- E pensou em quê?
- Na minha vida, no que tenho de fazer a partir de agora.
- Então não era uma insónia...
- Não?
- É você que finalmente começa a acordar do passado. E o tempo para pensar no futuro já lhe parece curto.
Escrito por a dona da gata às 07:04 1 comentários
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domingo, janeiro 28, 2007
A neve, outra vez
Enquanto tomava o pequeno-almoço na pastelaria aqui do condomínio lia sossegadamente o Expresso. À minha volta havia burburinho e era eu a única pessoa sozinha na sala. Todos os outros estavam em pequenos grupo à conversa. Por isso só eu dei pelo escurecer do ambiente e levantei os olhos das páginas do Actual e da reportagem sobre Rossellini.
Nevava. Lá fora caíam grossos flocos de neve. Pelo segundo ano consecutivo nevava em Lisboa. Nevava em Belas, mais precisamente. Deixei o jornal para o lado e fiquei especada a olhar pela janela. Desde miúda que gosto de ver neve e, durante muitos anos, o meu sonho era ver nevar. Agora vivo num sítio onde o prazer me é dado a sentir pelo menos uma vez por ano. Faz amanhã um ano que o mesmo aconteceu e Lisboa vestiu-se de branco.
Hoje foi mais suave e nem os telhados chegaram a acumular os lindos flocos. Chegavam ao chão já em água.
Mas durante uns minutos eu voltei a ser criança. Sorri para dentro e telefonei a dizer que nevava. Recuperei um pouco dos meus sonhos de infância e só saí dali quando a chuva voltou e o meu rosto nem se molhava. Ainda levei o sorriso para casa.
Escrito por a dona da gata às 19:10 1 comentários
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Regresso ao divã II
Apertou as palmas da mão uma contra a outra.
- Não sei por onde começar, Doutor.
Silêncio.
- Não me aconteceu nada de novo.
Mais silêncio.
- De dia não se passa nada, insistiu, à noite é que não me deixam em paz.
- Os fantasmas?
- Sim, os fantasmas.
Escrito por a dona da gata às 10:06 0 comentários
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sexta-feira, janeiro 26, 2007
Regresso ao divã
Entrou de cabeça baixa e deitou-se no divã de sempre. Forrado num tecido aveludado verde e com uma almofada mais alta para encostar a cabeça. Ele mudava-lhe sempre o pedaço de papel que cobria a almofada e assegurava a higiene de cada paciente.
- Bem-vinda!
- Acha? Volto de má vontade.
Tinha-se despedido dele no dia em que assinara os papéis do divórcio. Julgara-se curada, a partir daí. Mas não. Os fantasmas tinham voltado em grande. E por isso ali estava, para espantá-los.
- Eles voltaram, doutor. E agora estou sozinha para enfrentá-los.
Suspirou.
- Não. Está comigo. Agora é que você está bem acompanhada.
Escrito por a dona da gata às 19:46 0 comentários
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domingo, janeiro 21, 2007
Quando sais de minha casa?
Há quase quatro anos a viver sozinha e ainda não aprendi a lidar com esta solidão que gasta. Não é uma solidão que partilho, mas um estado que me faz estar acompanhada por ti, na minha cabeça, com os fantasmas que teimam em não desaparecer. Mal me vês trancar a porta por dentro, cá estás tu para me lembrar da tua existência, do que passámos juntos, do que me fizeste passar, do que passarás agora e que eu não sei mas insito em adivinhar.
Quando é que sais de minha casa? É que eu mudei de morada e descobriste o novo lugar. Arranjei visitas e sabes sempre chegar quando elas vão embora, criei truques de companhia e sabes sempre vencê-los e deixar-me a pensar em ti.
Sempre foste um egoísta. Hoje, que nada sei de ti, a não ser que vives noutro país, tão longe daqui que me seria impossível rever-te, continuas a estar presente mais do que eu desejo, mais do que eu permito, mais do que devias estar. Não te quero na minha casa mas sentas-te ao meu lado no sofá como se não fosse nada contigo. Sobretudo deitas-te na minha e não me deixas dormir, ou entras nos meus sonhos como entras na minha casa: invisível, mas tão presente que não te posso ignorar.
Ao fim-de-semana tens mais tempo e apareces com mais frequência. Eu ainda tento ler um livro ou ver um filme. Mas obrigas-me a procurar alternativas, e nem sempre tenho companhia para um café. Estás nas páginas que leio e impedes-me de continuar, entras nas séries que vejo e retiras delas a atenção que merecem. E sempre que páro para descansar, lá estás tu, com aquele sorriso meio de lado, matreiro, próprio de quem acabou de fazer uma sacanice, aproximas-te e ficas ali, a olhar para mim, obrigas-me a desviar o olhar, e mudas de sítio para que nunca deixe de te ver.
Desapareceste sem deixar rasto, mas na verdade persegues-me todos os dias. Estou cansada que venhas atrás de mim. Estou cansada de não conseguir fechar-te a porta na cara e continuo a deixar-te entrar coladinho a mim, mesmo sem limpares os pés no tapete. És uma sombra que aparece sem sol. E eu estou cansada de te ter a meu lado. Esta forma é muito pior que a outra, a real, a que também vivemos em lágrimas.
Ou não será pior, mas boa também não é.
Escrito por a dona da gata às 16:19 14 comentários
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sexta-feira, janeiro 19, 2007
Saúde
Esta semana gastei 610 euros em consultas. Não há ordenado que aguente.
Estou melhorzinha, graças a Deus. Pobre. Mas melhorzinha...
Escrito por a dona da gata às 17:54 1 comentários
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quinta-feira, janeiro 18, 2007
Sem razão aparente
Escrevo sem ter o que dizer mas escrevo por opção. Não gosto de ver vazio o espaço de cada dia, o espaço de cada data que salta sempre que nenhuma de nós aqui vem. Não sei porque andam as outras meninas deste blog - especialmente tu, Carrie - tão ausentes, mas eu não quero estar ausente e não quero desabituar-me de vir aqui todos os dias, nem que seja para dizer olá. Olá a cada uma de vós, a quem por aqui passa, a mim própria que visito a página de quando em vez para ver se há novidades.
Eu não tenho nada para dizer, mas sei que sinto qualquer coisa que posso transmitir, que posso passar, que posso dizer aos outros, ou então só a mim quando só eu me compreendo e sei o que quero dizer. E às vezes também não sei. Venho aqui e não sei nada, não sinto nada, nada me impele a fazer o que quer que seja para alimentar este blog. Mas preciso de fazê-lo para saber que existimos, juntas, apesar de tudo, apesar das faltas de cada uma, apesar das faltas mais faltosas, apesar das ausências mais notadas. Eu venho como quem passa de visita.
Debito banalidades e sei que o faço. Mesmo assim não páro porque ainda não começou o Dr. House na televisão e porque ainda tenho tempo para escrever. Não páro porque os dedos aceleram no teclado e pedem que escreva, que diga mais, que deixe presente um sentido que fica no sentimento que o teclar deixa transparecer. Ninguém sabe a rapidez com que o faço. Só eu. E não sei porquê, porque não páro, porque não desisto. Hoje não me apetece abandonar o projecto.
Escrevo porque cada linha diz qualquer coisa mesmo que nada diga. Escrevo porque o sentido do meu escrever vale mais do que aquilo que aqui deixo impresso. Escrevo porque vivo ao fazê-lo. Escrevo porque me habituei a viver assim, mesmo quando nada mais me puxa para o sorriso. Pedem-me que acalme o teclar. Não me importo. Continuo nesta vontade de quem quer que saia alguma coisa de útil, mesmo tendo a certeza de que nada disso pode acontecer. Não está a acontecer. É pena. Mas também não faz mal.
Escrever é tão bom que satisfaz a alma. A minha está um bocadinho aqui, no dia de hoje. Espero ter mais conteúdo, um destes dias...
Escrito por a dona da gata às 23:59 2 comentários
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quarta-feira, janeiro 17, 2007
Ternuras
Sentaram-se os dois à mesa, ao meu colo. Ela quis comer a minha sopa e quase a deixei arrefecer para lhe dar, colher a colher, o creme espesso com sabor a legumes. Tirou a chucha e despachou a fralda porque queria estar ali, na minha perna, a comer da minha mão. Já tinha jantado, mas pouco importava. Não era fome que tinha, mas vontade de ser mimada.
Ele veio para a outra perna, aconchegou-se do lado direito e quase me impediram de comer, os dois, ali atracados sem quererem pai ou mãe. Apenas eu, pseudo-tia, prima, palavra que desconhecem para gente crescida, apenas eu era desejada por aqueles dois pedaços de gente. Ela 2, ele 4 anos.
Trouxeram primeiro oa livros do Noddy e contei duas histórias, mais uma da Dora e outra dos números e ainda outra, dos animais. Riam-se com as vozes que inventei só para os deliciar. Acertavam nas cores e nas perguntas que os livros fazem, assim para ensinar as crianças a crescer devagarinho, mas espertas. Contei com eles os cordeirinhos do comboio que não dormia. Acertei com eles as cores de cada fruto e decidimos de quais gostávamos, ou não.
Eu não jantei. Mas foi uma fim de dia como gosto de ter. Levei-os para a cama, um a um, primeiro com histórias - mais histórias - depois com canções que eles já sabem de cor. Embalei-os e dei-lhes um beijo de boa noite.
Eles nem sonham o quanto animaram o meu dia. Mas eu conto sonhar com eles.
Escrito por a dona da gata às 23:43 2 comentários
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Sentidos I
Um dia cinzento é um dia por viver.
Escrito por a dona da gata às 13:56 1 comentários
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Estados d'Alma [vii]
Capaz de matar por um cigarro.
Escrito por Carrie às 12:27 0 comentários
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segunda-feira, janeiro 15, 2007
Afectos [xi]
- E ela não precisa de saber o meu estado civil?
- Essa é fácil. Se não aconteceu nada desde ontem que se deva saber...
- Então qual é?
- Solteiro?
- Não.
- Divorciado?
- Não.
- Casado?!
- Não.
- ?????
- Apaixonado...
Escrito por Carrie às 13:16 4 comentários
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Do abalo sísmico
As melhores coisas da vida tendem a chegar pelas vias mais improváveis. Nas alturas mais inesperadas. Gostam de nos apanhar distraídas. Convencidas que a vida está em standby. Em modo de poupança de energia. Era assim que eu estava naqueles dias. Não percebi que o abalo sísmico podia ser um sinal. Um indício de que melhores dias estavam para vir. Para ficar durante muito tempo.
Escrito por Carrie às 12:45 0 comentários
Tempo [ii]
Ao fim de duas semanas percebo como tens razão.
Escrito por Carrie às 12:39 0 comentários
domingo, janeiro 14, 2007
Medo
Estava atordoada com uma enxaqueca que há muito não era tão brava. Na cabeça ecoavam-lhe as palavras da médica quando lhe pediu aquele exame. Ia fazê-lo no dia seguinte quando o relógio marcasse as três da tarde. Hora portuguesa. Enfiou-se na banheira depois de tomar aquilo a que chamava um "drunfe". Era um comprimido forte, capaz de a deixar com o estômago em fúria, mas também capaz de lhe roubar aquelas dores insuportáveis que tinham nascido de madrugada.
Regulou o chuveiro para um só feixe de água e não se importou quando lhe fez ricochete na cabeça, nos ombros, nas costas. Fechou os olhos e deixou-se levar por aquela massagem improvisada que às vezes lhe fazia bem. Era dada àquelas dores e já as conhecia bem. Já tinha alguns truques para combatê-las. Só não sabia como evitá-las. Deixou que a água lhe batesse forte no corpo e não deu importância à que saía para fora da banheira, molhando um tapete laranja berrante e o chão. Naquele momento só queria parar aquele sofrimento.
Pensou no exame. Pensou na preparação que andava a fazer. Tinha perdido um quilo num só dia. Precisava de mais dois. Só bebia água e chá. Tinham-lhe permitido café, mas não gostava. A enxaqueca seria fruto do medo, da falta de alimentação, de qualquer outra coisa que se tinha passado durante a noite e que ela não pôde ver.
Temia os resultados. Nunca tinha sido posta à prova, assim. Lembrava-se de uma outra ocasião em que uma outra médica lhe ameaçara um cancro, caso não se tratasse de imediato. Nessa altura não recuou e fez o que tinha de fazer. Mas agora não dependia dela. Dependia daquele exame que tanto lhe custava imaginar.
Faltavam dois dias. Só depois saberia se podia dormir descansada. E voltar a comer. Encostou a cabeça na almofada e sonhou com uma companhia: a mão da mãe, do namorado, de um irmão, de uma amiga. Só queria ter a certeza que não entraria sozinha naquele degredo. Sentiu-se pequenina e sem forças. Rezou uma oração e fechou os olhos.
Escrito por a dona da gata às 12:39 0 comentários
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sábado, janeiro 13, 2007
Panda
Deixo-te enrolado ao edredon num ressonar tranquilo que não me deixa dormir. Saio da cama e levantas a cabeça para perguntar onde vou. Venho aqui, escrever sobre ti, porque o teu barulho não me deixa descansar, mas a tua serenidade e o amor que tens por mim há muito exigem um post.
Saio da cama com a promessa de voltar, beijo-te o ombro e passo-te a mão pela cabeça. És um panda gigante adormecido na minha cama onde não consigo dormir contigo. Estás doente e isso preocupa-me. Mas és teimoso, mais teimoso que um asno, e não queres ir ao médico. Não sei como convencer-te a tratar de ti. De mim sabes tu tratar. Mimas-me como ninguém e tratas-me como uma princesa. Tu, o Rei, o Panda Rei que é também gigante e que não consigo abraçar de uma vez, és para mim o que nunca ninguém foi. Aprendo isso aos poucos. Deixo-te entrar devarinho no meu espaço ainda ocupado por fantasmas. E lá vêm os teus beijinhos, o teus miminhos, os teus presentes como se fizesse anos todos os dias. És especial.
Deixo-te a recuperar de uma noite mal dormida porque estás doente e não queres saber de ti. Estivesse eu mal e não terias dormido, preocupado. E eu, ao teu lado, só acordei com o barulho do teu ressonar. O teu sofrimento não me acordou, apenas o meu não me deixou dormir.
Oiço-te agora ao longe, num ressonar barulhento. Talvez volte para a cama, mais daqui a pouco, só para te ver sonhar.
Escrito por a dona da gata às 11:00 2 comentários
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quarta-feira, janeiro 10, 2007
Uma história por Dia
A minha mulher ganhava dois escudos a lavar casas à escova. Na terra, guardava as vacas desde os cinco anos e bebia água fresca da fonte. Veio para a cidade servir. Queres vir para a minha companhia? As mulheres dedicavam-se de alma e carinho porque precisavam, agora não precisam de nós para nada. As mulheres, senhor Guilhermino, precisam de se dedicar a algo ou a alguém; é esse o nosso fado, nada mudou, a conta bancária pode ter até quatro dígitos no início do mês, as contas podem até estar todas pagas, mas as mulheres precisam de se dedicar.
[Este é o fim do princípio da história do sr. Guilhermino. Uma daquelas personagens que só a Dia encontra, porque a Dia está sempre de olhos abertos para o mundo. Porque ela acha que nada de extraordinário lhe acontece. Porque tem um coração de manteiga. E porque escreve como ninguém.]
Escrito por Carrie às 16:56 1 comentários
Pode uma declaração de amor tornar-se banal?
Acordei com desejos de chuva. E ela lá estava do outro lado da janela hermeticamente fechada. Normalmente sofro com os dias de chuva. Aquele cinzento que se entranha nos ossos. Sobe pela medula e se aloja por cima da pálpebra esquerda. Não consigo reagir por muito que tente. Suplico aos ponteiros que se apressem. Que cheguem antes da hora. Que não façam esperar ninguém. Hoje, por algum motivo insondável foi diferente. Fiquei uns minutos sentada no chão em frente ao vidro, só para ver a chuva cair do outro lado. Pensei na frase com que adormeci ontem. Pode uma declaração de amor tornar-se banal? Pode um sentimento tanta vezes repetido perder o sentido original? Pode uma surpresa [quase] diariamente – e ainda que com variações - renovada tornar-se vulgar?
Gosto de surpresas. Gosto de ser surpreendida com um convite, com uma frase dita na mais despropositada das ocasiões. Mas gosto principalmente do impacto que as minhas surpresas têm nos outros. Mesmo quando estou longe penso na satisfação que pode causar um ramo de flores. E quando estou perto, um presente fora de horas. Uma mensagem apaixonada a meio de uma reunião, de um almoço. Frases inoportunas. Declarações sentidas. Não o faço à espera de um ‘obrigado’. Muito menos à espera que o retribuam. Faço-o apenas porque me faz sentir bem o sentimento de que fiz alguém um pouco mais feliz. Por muito pouco que seja. E ontem enquanto adormecia, sem a confirmação de um sorriso, pensava ‘pode uma declaração de amor tornar-se banal?’
Escrito por Carrie às 11:26 2 comentários
terça-feira, janeiro 09, 2007
Não há livro de instruções
As regras talvez sejam mais simples do que suponha. Estou mal habituada, é o que é.
Escrito por Carrie às 21:52 0 comentários
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Vazio
Nos últimos dias, ontem com mais propriedade, percebi uma das desvantagens de deixar de fumar. Sente-se mais a solidão. O cigarro é uma companhia que não nos abandona. Está sempre lá. Vantagem? Ganhei horas e horas de sono. Não aguento a noite sem um cigarro. Por isso durmo. Muito.
Escrito por Carrie às 12:03 4 comentários
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segunda-feira, janeiro 08, 2007
O dia em que o Natal acabou
Tirei bola a bola: uma dourada, outra vermelha, outra cor de prata. Tirei a estrela do topo e retirei as luzinhas que deram luz à casa durante três semanas seguidas, dia e noite, sem piscar. Desmontei cada ramo e acocheguei tudo na caixa da árvore de Natal. Também já arrumei o anjo que estava em cima da mesa. Arrumei o Natal nas caixas devidas.
Havia expectativas próprias da época. Achei que ias ligar-me para falarmos. Achei que passarias por cá, pelo País, para umas férias curtas. Não sei se o fizeste. Se passaste, não dissesete nada, nem sequer tentaste um telefonema vazio como é teu costume. Eu notei a ausência e quase chorei. Os dias foram difíceis e aumentaram as dores de barriga. A ansiedade também, servida com dores de cabeça e uma falta de apetite atroz. Nem os doces me seduziram... as fatias douradas pareceram-me pedras de calçada banhadas a açucar, mas sem sol; os sonhos não fizeram jus ao nome; e o Bolo Rei nunca foi o meu preferido, mesmo agora que há um Rei na minha vida. E tu, que não me deixas.
Disseram-me para não esperar mais por ti, que não valia a pena, que não merecias, que iria arrepender-me e que o sofrimento não compensava. Disseram-me que não vales nada, que nunca valeste, que só me fizeste mal, e enunciaram-me cada falha tua, cada dia em que chorei, cada vez que me desiludiste. Recordo esses tempos com mágoa. Mas já te perdoei.
Este Natal quis renascer, antecipar a Páscoa, no que ela traz de revolução. Mas não fui capaz. O ano não começou bem, e estes primeiros dias têm sido difíceis de levar. Mesmo assim, prometo a mim mesma fazer qualquer coisa, não esperar que aconteça, não esperar mais por ti. Vou ver se o meu inconsciente me deixa sossegar, serenar, dormir em paz. Vou esperar que não me apareças de noite, nos mais estranhos sonhos, nas mais diversas versões. Quero-te feliz. Mas procuro também a minha felicidade.
É que afinal o Natal não é todos os dias, e eu já pus nas caixas todas as decorações da época.
Escrito por a dona da gata às 16:45 1 comentários
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domingo, janeiro 07, 2007
Babel
E se um dia uma arma mudar a vida de muita gente? A arma usada para caçar, comprada pelos mais pobres para matar chacais, atinge o ser humano. E nesta Babel onde falamos línguas diferentes e por isso não nos entendemos, a arma da caça fere o ser humano, o mais frágil. E Inarritu dá a volta ao mundo, passa pelos Estados Unidos, pelo México, e por Marrocos, ainda vai ao Japão, num só filme que é um murro no estômago.
Babel não tem um Brad Pitt lindo ao virar da esquina, um Gael Garcia Bernal a despertar corações. Não. Tem dois homens, dois actores que ali não entram em capas de revista e são seres humanos que cometem erros. Não são heróis, nem aventureiros, nem nada que os afaste de nós próprios. São gente como nós a quem acontecem imprevistos. Como a qualquer um podia acontecer.
E a criança que quase mata vê depois morrer o irmão numa luta de atiradores. Tudo tinha começado assim: a ver quem atira melhor. E a arma que antes servia para matar o inimigo das cabras num deserto profundo, depois de dar a volta ao mundo, transforma-se no elemento perigoso do filme. Mesmo assim, é a língua a melhor arma, e a que nos faz mais falta.
Faz falta à japonesa que chega à adolescência morta por uma relação sexual; faz falta ao homem que tem a mulher nos braços e não parece haver quem a salve, faz falta às crianças que se vêem no meio de uma outra cultura onde degolar galinhas é uma festa, faz falta a cada um de nós, ao fim ao cabo, para percepcionarmos tudo o que se passa num filme cheio de sons, cheio de comunicação, pleno de histórias com um fio condutor que não podemos perder.
Babel é um grande filme. Deixa-nos calados por uns minutos.
PS: Obrigada aos meus companheiros de fita. Sem eles teria ido para casa dormir!
Escrito por a dona da gata às 11:15 2 comentários
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sexta-feira, janeiro 05, 2007
Conselho do dia
Reagir!
Escrito por a dona da gata às 15:43 3 comentários
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quarta-feira, janeiro 03, 2007
Não tenho paciência
Para nada. Para ninguém.
Estou farta deste meu mal-estar, desta minha forma de viver, desta incapacidade de ultrapassar um estado de espírito negativo, que acaba comigo, que não me deixa sorrir.
Oiço risos à minha volta e não consigo suportá-los. Oiço burburinho e vozes alegres e votos de Bom Ano e não consigo acompanhá-los. A minha vontade é fugir. Sair deste ano, do passado, deste século, deste ser que sou eu para depois reaparecer como outra pessoa numa qualquer parte do mundo onde consiga respirar. Agora não sou capaz.
Cada manhã afoga-se na cama com vontade de não sair. Cada refeição é evitada com desculpas mais ou menos diferentes e sem justificação nenhuma. Cada companhia é aceite como se de uma benção se tratasse. A minha mãe não precisa de mais do que uma palavra para saber que não estou bem.
Sinto-me a afunilar. Não posso olhar para frente porque não vejo nada. Espero que ao meu lado siga alguém, sempre que possível, porque não quero estar sozinha. Mas mesmo acompanhada sinto-me só. Quero sair deste estado que me mantém presa e não me deixa correr para fora dele.
Se a minha vida fosse um filme eu seria um ser aprisionado, agarrado às grades de uma cadeia, com uma luz pequenininha em cima a deixar entra uma nesga que nem dá para ter esperança. Não aconteceu nada para isto. Nada de novo se passou. Os meus dias não tiveram sobressaltos.
Sou apenas eu que continuo a existir.
Escrito por a dona da gata às 15:22 6 comentários
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Rejeição
Miraculosamente, ou não, consegui sobreviver ao primeiro dia sem tabaco. O mesmo não se pode dizer da noite. Acordei às duas, às quatro, às seis… às oito decidi que não vali a pena continuar às voltas na cama. As olheiras, que eu julgava serem efeito secundário do tabaco, estão hoje mais pronunciadas que nunca. A decisão de Ano Novo – a primeira que tomo em 32 anos de vida – ameaça deixar-me com os nervos em franja e ainda mais irascível [se é humanamente possível…]. Ao segundo dia deparo-me com um novo problema. O meu corpo rejeita os adesivos. Por mais que siga as instruções a porra do adesivo simplesmente não cola. O cérebro deve ter percebido que estou a tentar enganá-lo. Que esta nicotina não serve. O que ele quer mesmo é sentir o fumo a enrolar-se na boca. A sair lentamente numa expiração controlada. Fumar é um vício de mãos e de boca [sem segundas interpretações, sff]. E para isso não há adesivos. Há apenas força de vontade. Resta saber onde a encontrar. Principalmente desta vez, em que não existem motivos de força maior a sustentar a minha decisão…
Escrito por Carrie às 12:51 5 comentários
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terça-feira, janeiro 02, 2007
Tempo
Parece que 2007 tem minutos maiores.
Escrito por a dona da gata às 19:00 0 comentários
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segunda-feira, janeiro 01, 2007
Estados d’Alma [vi]*
Contando os minutos como um condenado no corredor da morte.
* Em versão 'quem-me-manda-tomar-resoluções-de-fim-de-ano?!'
Escrito por Carrie às 22:56 1 comentários
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domingo, dezembro 31, 2006
A importância de quem nos lê
Começámos por fazer este blog por brincadeira. Mais cidade que sexo em contraponto com o nome da série onde há também quatro mulheres da cidade, completamente diferentes, e com problemas e realidades muito semelhantes às de tantas de nós. É óbvio que a nossa identificação com elas exige algum exagero. Mas fez-se por graça.
Quisemos que este blog fosse nosso e nunca pensámos que poderia ser de tanta gente. À medida que o tempo foi passando, passaram por aqui não só amigos e conhecidos, mas também pessoas que nunca vimos, nomes que não identificamos, nick names desconhecidos. E começaram a deixar comentários...
Eu não costumo responder aos comentários. Não me levem a mal. Mas gosto de lê-los e fico contente sempre que um texto meu puxa pela opinião de alguém que, ainda por cima, a quer partilhar.
Em final de ano, e em jeito de Boas Festas, com o Ano Novo a chegar, pareceu-me razoável agradecer a quem por aqui passa, aos que nos lêem, aos que têm paciência para as nossas vidas, tantas vezes pormenores pessoais, tantas vezes desabafos íntimos. Não creio que o façam por curiosidade mórbida, mas porque já simpatizam connosco. É como se nos conhecessem um bocadinho sem nunca terem visto a nossa cara. Assim é o que sinto por quem nos comenta. Também vou conheccendo, aqui e ali, e não sei quem são nem o que fazem. É uma forma actual de ter contactos. De comunicar. E não me desagrada.
Aos nossos comentadores, voltem sempre, neste 2007!
Escrito por a dona da gata às 11:34 4 comentários
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sábado, dezembro 30, 2006
2007
Chego ao fim de 2006 com 33 anos. Falta pouco para os 34. Não tenho filhos, vivo sozinha, não faço planos, não sou imensamente feliz. Mas já fui mais triste. Não temo a mudança e não crio expectativas que geram falsas esperanças e que, por isso, acabam em desilusões. Espero. Mas tenho de lutar por qualquer coisa, um objectivo que seja, para dar sentido aos meus dias. Penso num. Imagino duas ou três coisas que gostaria de fazer este ano que agora entra. Duas ou três crises que gostaria de resolver; duas ou três viagens que gostaria de fazer; duas ou três pessoas - mais - que gostaria de apoiar.
Não escrevi num papel objectivos para 2007 como já fiz para outros anos. Penso todas as noites, antes de adormecer, no que tenho de fazer no dia seguinte. E quando acordo já me esqueci e a correria de cada dia faz-me adiar cada coisa que há muito deveria ter sido feita, planeada, executada. Não consigo pôr nada para trás das costas.
Aprendi este ano a gostar de uma outra forma, a gostar como pensei que não era possível gostar, a gostar com menos paixão, com menos intensidade, mas com mais serenidade, mais calor, mais qualidade. Essa foi a grande mudança do ano. E está ainda em crescendo pelo que 2007 deverá ter de fazer mais qualquer coisa. E eu também, na embalagem de um novo fôlego. Aprendi nos últimos anos a não traçar planos a médio e longo prazo. Isso não me impede de traçar planos simples com um mês de antecipação, às vezes apenas com dias. Tenho é de criar objectivos. Que passem pelo meu bem-estar, pelo meu trabalho, pela minha casa, pela minha família, pelos meus amigos. Não tenho ideias para escrever no papel, mas tenho pequenas luzes que esta noite quero memorizar: o assunto da faculdade, o assunto da editoria, o assunto do Rei, mais o jardim, e a conta bancária, e mais tempo para a avó. Já não é pouco, se pensarmos que cada uma destas coisas tem associadas, múltiplas actividades.
Eu quero mudar este ano. Quero ser mais responsável e mais feliz. Quero que os médicos me vejam melhor, e quero sentir-me melhor do que eles me vêem; quero saber o que é a palavra amar outra vez, mesmo que seja de outra maneira que nunca pensei conhecer; quero ganhar mais, merecer mais, fazer mais e conquistar mais. Quero andar para a frente e olhar para tudo com optimismo. Quero arrumar um certo passado numa caixinha bem fechada, ao fundo do coração. Pode lá estar, mas a fechadura trancada e a chave tenho-a eu. Quero muita coisa. E sei que cada dia vou querer mais. Quero conseguir pensar assim amanhã. Pelo menos...
Escrito por a dona da gata às 23:56 2 comentários
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Mais um ano
Mais cidade que sexo
O Carlos do Carmo começa a cantar na televisão e as lágrimas caem-me. Que lamechice este meu ano. Não me lembro de ter chorado tanto. Talvez em criança. Não me lembro de ter rido tanto. Talvez em criança. Não me lembro de ter precisado tantos de abraços. Em criança talvez. Estarei a regredir? Estou a ficar quem sabe menos imune à vida. As muralhas eram afinal de papelão. E quando chove amolecem.
Não foi fácil 2006. Nem especialmente difícil. Foi mais um ano. Menos um. Sem grande direito a balanços.
As mulheres deste blog "acusaram-me" há dias de nmunca mais ter aparecido nesta cidade. Têm alguma razão. A verdade é que passei por cá muitas vezes, mas em poucas dei sinal de vida. Prometo estar mais presente em 2007. A todas, a todos, um óptimo ano novo.
Escrito por Anónimo às 15:16 1 comentários
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sexta-feira, dezembro 29, 2006
Serões de Dezembro
Saio mais cedo do trabalho e fujo à semana que agora acaba. Não saio cedo demais, apenas o suficiente para ter a sensação de o ter feito uma vez no ano. Passo pelas promoções pós-Natal que ainda não chegaram os saldos de Janeiro. Não compro nada. Mas experimento quase tudo. Olho para o meu corpo e vejo-o disforme no espelho da loja. Nada me cai bem neste dia em que saí mais cedo. Telefono a uma amiga com intenções de convidá-la para jantar. Não atende. Quando já estou em casa recebo dela, um sms, a pedir que lhe volte a ligar. Como as lojas neste fim de Dezembro, ela também não tem saldo.
Vejo o correio e sei que tenho uma carta para levantar. Vem da polícia e recuso-me a ir buscá-la. Uma multa, talvez, presumo que de excesso de velocidade. Uma parvoíce já que sinto hoje ter tempo para tudo, tempo de sobra para andar devagar, sem pressas, sem multas, sem excessos. Entro em casa e não sei o que faça. São oito da noite. Não costumo estar em casa às oito da noite. Ligo a televisão e vejo o Jornal que começa em desgraças e acaba na euforia do Ano Novo. Não me dizem muito, as notícias de hoje. Toca-me a da morte de Sara, a menina de dois anos vítima de maus gtratos. Fico triste com a morte de uns pescadores, mas dou mais importância ao desaparecimento da miúda. Não quero saber da mãe. Tal como não quero saber quando vai ser executado Sadam. Preferia-o preso. Sou contra a pena de morte.
Deito a cabeça no sofá e ligo o aquecimento. O serão chega vazio e sem supresas. Sobretudo sem companhia. Tive-a nos últimos três dias e estranho agora a ausência. O sofá é só para mim e tenho a mesa vazia. Quer dizer que improviso um jantar. Talvez beba um chá, mais lá para a noite.
Não pego num livro, não vejo um filme, não procuro distrair-me e não falo com ninguém. O meu serão deixa-me sozinha nesta noite de Dezembro, e não sei o que fazer com o tempo. Desabituei-me das coisas práticas, das que merecem espaço em cada dia, das que requerem minutos a mais.
Perco-me neste blog sem mais para dizer.
A noite entra pela casa dentro mas ainda é cedo para dormir.
É um serão de Dezembro. E sinto-me sozinha.
Escrito por a dona da gata às 21:11 1 comentários
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quinta-feira, dezembro 28, 2006
A Charlotte casou-se... e depois foi o Natal
Casar a 9 de Dezembro, trabalhando numa empresa que nos faz optar por uma semana de descanso no Natal ou no Ano Novo, estava bom de ver. A lua-de-mel foi adiada para Janeiro e os dias pós-noite de núpcias (no delicicoso Hotel Palácio Seteais) foram passados entre lojas nos breves intervalos das horas de labuta profissional. Neste primeiro dia de férias (que se prolongarão por três santas semanas) aproveito para dizer que as minhas damas de honra (não as pequeninas sobrinhas que entraram à minha frente, mas as três fabulosas co-autoras deste blog) estavam lindas de morrer e, queridas como são, fizeram-me sentir ainda mais linda de matar! Obrigada pelas palavras neste blog, mas sobretudo pelas que me disseram junto à face naquele dia.
Quanto ao Natal, apesar da correria e do trabalho, passou-se bem, numa consoada apenas com o maridinho e com o almoço no dia seguinte com os meus pais. E as palavras de felicidade da minha afilhada ao telefone, bem longe, a dizer que o Pai Natal lhe trouxe a "mala das doutoras" para tratar do Nenuco. E que me dava muitos beijinhos no dia seguinte. Ainda ontem me disse, assim de repente, que o meu casamento foi muito bonito. Doces 4 anos, há lá melhor prenda de Natal?!?
Escrito por Charlotte às 15:28 1 comentários
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segunda-feira, dezembro 25, 2006
Natal 2006
Escrevo quando já todas as prendas foram desembrulhadas, quando já todas as crianças riram e choraram, e riram de novo; quando já todas as ceias se fizeram, quando já todas as famílias se uniram e separaram. Escrevo quando o Natal está quase no fim, quando já é quase dia 26, quando na televisão já se fazem balanços, quando as notícias já são do 'aconteceu' e não do 'vai acontecer'. Escrevo quando Jesus já nasceu, quando o Pai Natal já passou por todas - quase todas - as casas.
Houve tempos em que o Natal era, para mim, a grande quadra, tempo para ser feliz, para realizar, para pensar nos outros, para inventar emoções, para partilhar tudo e mais alguma coisa. Mas um dia o Natal veio, sorrateiro, e não me deixou senti-lo. Veio devagar e passou-me ao lado. E outro dia se fez um Natal assim, e mais outro.
Este ano preparei-me. Não quis deixar presentes para o fim e apressei-me a contemplar os que mais gosto. Não deixei que o espírito fosse só dos outros, e arrecadei um bocadinho para mim. Não muito, mas o suficiente para não deixar cairem as lágrimas que fizeram infelizes os Natais anteriores. Esperei por alguns sinais, que não vieram, inventei outros e criei fantasmas para depois afastá-los a chamar-me à realidade. Uma realidade que já é boa, que não é desastrosa, que, olhando para o lado, é bem melhor do que muitas que conheço e outras que vejo e não sei a quem pertencem. Mas sei que existem.
Não cantei os famosos cânticos que me acompanharam anos a fio, por esta altura. Ainda não fui capaz. Mas pedi, a quem acredito, um Natal melhor para todos. As lágrimas que verti vieram por causa dos mais pobres. Mesmo assim nada fiz para ajudá-los. Talvez isso me tenha deixado mais triste. Não mandei sms a ninguém. Peguei no telefone e marquei cada número, e falei com cada pessoa a quem quis desejar Bom Natal. Todas ficaram contentes por me ouvir, todas agradeceram o gesto personalizado, e eu a todas pude dizer coisas diferentes.
Na véspera de Natal montei um pequeno cabaz e levei-o a uma família de duas pessoas. Na véspera de Natal lanchei na FNAC do Fórum Almada como faço tantas vezes com o Rei que é agora meu, neste novo reino que construo devagar. Na véspera de Natal falei com os meus amigos, surpreendi os mais distantes, abracei a minha família. E recebi, com o mesmo amor com que dei. Sem os exageros que condeno. O essencial.
Esta manhã fui à missa da Paróquia onde cresci. Foi lá que tive um dos momentos mais fortes deste Natal. No fim, depois de o Padre - que me viu do altar - ter obrigado a plateia a uma salva de palmas para os que vão casar e para os que tiveram casamentos fracassados... um rapaz já sem dentes, esquizofrenia e cabelo despenteado ofereceu-me 4 chocolates mon chéri. Eu não gosto de chocolate, mas abracei-o e ainda agora as lágrimas quase me vêm ao olhos pelo gesto. Nunca fomos amigos, apesar de lhe ter ouvido muitas histórias, nunca nos sentimos próximos, apesar de sempre nos cumprimentarmos com um beijo... há muito que os votos de Feliz Natal não me caíam tão bem. Um gesto simples, num pacote tirado do bolso, desembrulhado, um presente que foi o mais lindo da quadra.
Escrevo já sozinha no meu Natal solitário que é sempre a noite de dia 25. Escrevo quando a família já foi, a mesa já se desfez, as crianças já se cansaram.
Escrevo quando ainda é Natal e em minha casa brilham as luzes numa árvore sem presépio.
Apesar de tudo, o meu Natal é o que representa o Nascimento. O de Cristo, quando acredito sempre num renascer que é também o meu.
Feliz Natal!
Escrito por a dona da gata às 20:09 6 comentários
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quarta-feira, dezembro 20, 2006
Natal?
Enquanto enfeito a árvore, depois do corre-corre das lojas, do peso dos sacos, dos empurrões nas ruas, das filas de trânsito, das buzinadelas... enquanto enfeito a árvore pergunto-me: será que alguém ainda se lembra do verdadeiro significado do Natal?
Escrito por Carrie às 20:22 5 comentários
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quinta-feira, dezembro 14, 2006
Chegou o Natal*
Volto a acordar depois da hora. A culpa é do dr. House. Dos intervalos intermináveis na TVI. Vinte minutos bem contados entre a primeira e segunda parte. Uma seca. E os estores que ficam fechados. Bem cerrados porque as janelas precisam de ser calafetadas. Devia ir ao Aki, ou a outro sítio qualquer onde vendam coisas do género. Logo se vê como se faz. Não deve ser difícil. O que preciso é que passem as festas. De ter tempo e paciência para me enfiar em lojas.
Acordo tarde, mas confesso que nem me incomodo. Quando chego ao Chiado ainda compro dois ou três presentes. Livros, sempre livros. Depois subo e respiro o ar frio da manhã de Inverno. Sabe-me bem. Pela primeira vez este ano. Como me saberá ainda melhor, horas mais tarde, subir até ao Príncipe Real, caminhar em direcção a S. Bento. A cabeça leve, com a promessa de dias bem passados. De riso. Livros. Caminhadas. Conversa boa… Mais descansada desde que decide as prendas de Natal. Tranquila por saber que metade está na sala à espera da árvore. Despachei tudo em dois tempos. Afinal não custou nada. Agora só falta a árvore. O Natal chegou hoje.
[Para o B. Para que tenha o que ler, antes ou depois do novo 'emprego'. Para que o tempo passe mais depressa. Para que melhore.]
Escrito por Carrie às 20:34 3 comentários
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domingo, dezembro 10, 2006
O fantasma do Natal passado
O Natal chegou à cidade. Dizem as luzes de natal na Avenida. Os enfeites no Chiado. A decoração das lojas. As filas de trânsito. Os apertos nos centros comerciais. Mas o Natal ainda não está nos cheiros. Nos gestos. No ar. O Natal, este ano, ainda não chegou à minha cabeça. As [poucas] prendas que comprei foram para aproveitar os descontos da Fnac. Meia dúzia de livros e CD escolhidos sem o mínimo espírito natalício. Talvez por isso os livros para mim tenham ficado a ganhar às prendas de Natal. Pior ainda. Este fim-de-semana era fim-de-semana de árvore. Real ou memória construída, tenho ideia que sempre montamos a árvore a 8 de Dezembro. Sei que é assim desde que os meus pais fugiram de casa. Era assim nos tempos de S. Bento. Mas ainda não há uma árvore na sala. Não há cá em casa nada que lembre o Natal. E não vai haver por uns tempos. Acho. Também não fiz a lista de presentes. Por esta altura costuma estar tudo comprado. Não me apetece. Não este ano. Não enquanto me lembrar no ano passado. Talvez por isso o Natal ainda não chegou à minha cabeça.
Escrito por Carrie às 23:29 3 comentários
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A Charlotte casou-se! (iii)
As mulheres desta cidade fizeram o pleno e foram as mais bonitas da festa. A começar pela noiva [claro!]. As outras, de ‘corpinho bem feito’, como diria a própria Charlotte, também se recusaram a deixar os seus créditos por mãos alheias. Ainda assim, o que brilhou mesmo foram os casacos, vulgo sobretudos… Os vestidos sensuais, com as devidas transparências e generosos decotes estiveram pouco mais de cinco segundos sob a luz dos holofotes. Sob o céu negro de Sintra, a ameaçar chuva, e com os termómetros a acusar graus negativos [se não era isso pouco faltava] tiveram a hipótese, os vestidos, de sorrir para a fotografia. Mais do que isso só ao final da noite, acompanhados pela banda sonora adequada. Mas foi bonita a festa. Muito bonita. A Charlotte estava feliz e nós também. Por ela. E por ele. Afinal, it takes two to tango…
Escrito por Carrie às 15:53 0 comentários
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A Charlotte casou-se! (II)
E levava o mais lindo sorriso do mundo.
O vestido também lhe assentava bem.
Felicidades amiga!
Escrito por a dona da gata às 10:07 0 comentários
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quarta-feira, dezembro 06, 2006
Cores
Há mais vida em minha casa.
Tenho uma parede cor-de-laranja e ainda falta pintar outra, de verde.
Parece que não, mas faz toda a diferença!
Escrito por a dona da gata às 22:54 1 comentários
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segunda-feira, dezembro 04, 2006
Que falta você me faz...
Houve um tempo em que escrevia uma média de três posts por dia. Era a altura em que tinha o que a Dia chama um amor literário. Era um amor triste. Por isso escrevia. Deitava tudo cá para fora através do blog. Há meses que deixei de escrever sobre ele e para ele. Hoje volto atrás. Não pelo amor. Mas por um carinho imenso. Pelo sentido de perda que na sexta-feira se tornou mais forte. Ele sabe que me vai fazer falta. Há muito que aquilo que nos une é tão só passado. Mas vai-me fazer falta o sorriso. As gargalhadas. A conversa boa. A crítica. A compreensão…
Escrito por Carrie às 13:12 2 comentários
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Para R., companheira de madrugadas
Renasço da noite como quem renasce das cinzas e torna a viver. Os olhos abrem-se cedo e pararam as malditas dores de cabeça, o embrulho no estômago, a sensação de inexistência, o vazio interior.
A tua voz fez-se ouvir, uma vez mais, na minha madrugada de insónias. Tu de um lado, eu do outro, de um mar que já nos separa menos e que um dia não será mais do que uma ponte enorme. Ligo o teu número a qualquer hora e tenho resposta. Não adormeceste, não desligaste, não estás a tomar conta dos filhos nem do marido, não te dedicas a mais nada senão a mim, naqueles momentos que são longos minutos, mas que pagamos sem dramas à TMN.
Sei que estou para ti como estás para mim: atenta e disponível. Repartimos mágoas e experiências. Os conselhos surgem da experiência de vida. Isto não é nada, aquilo por que passamos. Há por aí casos piores. Não pensamos neles. Olhamos para nós, tu para mim, eu para ti. Juntas procuramos soluções.
Que todas as madrugadas acabem com um bom dia. Porque me fazes bem. E às vezes preciso tanto de ti, como preciso de mim.
Obrigada, amiga!
Escrito por a dona da gata às 08:37 1 comentários
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domingo, dezembro 03, 2006
Assinatura II
Três anos depois ainda chorou...
Escrito por a dona da gata às 12:12 1 comentários
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sábado, dezembro 02, 2006
Assinatura
Dezembro tinha três dias quando ela chorou. Já tinha chorado um ano inteiro e, já se sabia, ia continuar a fazê-lo até que o tempo - essa desculpa para tudo e mais alguma coisa - passasse.
Naquela manhã de três de Dezembro acordou a chorar. Nem acordou de um sono profundo porque a noite tinha sido mortal, tinha sido tão terrível como uma guerra onde todos disparam contra uma mesma pessoa e descobrem depois que ela não é o inimigo. Mas então já está ela morta. Acordou desse enterro e vestiu a primeira coisa que encontrou.
Ia assinar os papéis.
Nunca uma assinatura lhe tinha custado tanto, aquele pequeno gatafunho que inventara para encurtar o trabalho de escrever.... Desejava agora ter uma assinatura interminável, que precisasse de dias ou talvez meses para terminar, para chegar à última letra. Que não se concluísse nunca, que não fosse verdadeira, que não fosse aceite, que não coincidisse com o bilhete de identidade.
Entrou no carro já com as lágrimas a percorrem-lhe o rosto. Umas atrás das outras. E soluçava. Não chovia torrencialmente mas, lá fora, a chuva ia e vinha e deixava os vidros do carro embaciados e molhados em gotas que desciam rapidamente. Não tão rápidas quanto as que lhe desciam na cara já gasta de tanto sofrer. As olheiras serviam de rampa e lá iam elas, grossas, duras, impenetráveis, impossíveis de secar.
Parou na rotunda onde tinham combinado encontrar-se. Ela, ele e uma advogada. Nunca precisara de uma advogada. E agora ali estava ela para garantir que tudo se fazia nos conformes, que tudo era executado até ao fim. O carro dele, mais alto, parou ao lado do dela e ele fez-lhe sinal para que avançassem. Seguiu-o como já o tinha seguido em tantas outras ocasiões, tinha-o perseguido, tinha-o procurado, tinha-lhe seguido o rasto, e agora limitava-se a marcar com os olhos aquela matrícula que há muito memorizara. Foi.
Encontraram-se num vão de escada, algures em Moscavide, num cartório ou num notário ou numa coisa qualquer que ela esquecera de propósito. A advogada levou os papéis lá para dentro, para lá daquele balcão minúsculo onde ele pagou a conta. A conta de um divórcio, como se lhe estivesse a oferecer um café e um pastel de nata. Cá fora falou com ele. Ainda as lágrimas não tinham parado de correr e ele, seco, nem olhava para ela: 'É mesmo isto que queres? - perguntou esperançada. A resposta foi afirmativa. Fez tudo para não soluçar.
Ouviu então chamarem pelos dois e entraram numa sala despida de beleza, de qualquer coisa que pudesse ficar na memória. Três mulheres, uma secretária de madeira e alguns papéis para assinar. Ela primeiro, ele depois. Perguntaram-lhe se era isso que queria. Ela continuava a chorar e as três mulheres tiveram pena dela. Disseram-lhe que podia não ser assim, que podia recuar, que podiam recuar. Ele quis que se avançasse. Ela disse que tinha de ser assim. Pois que fosse. Talvez tivessem caído lágrimas naqueles papéis que assinou a chorar. Ela não se lembra. Talvez tivessem ficado tão molhados que seria impossível ler-se neles os nomes de cada um, mas ela não se lembra. Sabia apenas que tinha assinado. Que um dia tinha escrito, por mão própria, o nome completo nuns papéis que preferia não ter lido. Na realidade não se lembra se os leu. Na altura só se lembrava de outros, assinandos dois anos antes, onde a promessa de 'para sempre' estava implícita.
As três mulheres levantaram-se e apertaram-lhe a mão. Ela saiu com ele e com a advogada, ela ainda a chorar. Não tinha parado desde que saíra da cama. Ele esqueceu-se dela e avançou, para depois voltar atrás e despedir-se. Deu-lhe um abraço sem ritmo, com pena mas sem arrependimento. Deixou-o ir. Teve ciúmes da advogada que partilhou o carro com ele. A aliança que ela usava e o os 20 anos a mais não tinham agora importância, para ela, naquela mulher que lhe levava para sempre o marido que tinha sido dela. Pobre mulher! Tinha sido apenas uma mediadora, mas ela nunca se esqueceria que lho levara.
Ele arrancou. Talvez tivesse passado por ela mas já chovia outra vez. Ela não se lembra se voltou a vê-lo. Por essa altura já gritava de dor, dentro do carro. E ninguém pôde socorrê-la. Ainda hoje assina com o mesmo gatafunho triste.
Escrito por a dona da gata às 20:38 5 comentários
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Perguntas...
Porque amuam os homens?
Porque nunca nos dizem o que os entristece?
Porque deixam para amanhã as discussões que podem ter hoje?
Escrito por a dona da gata às 01:06 4 comentários
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sexta-feira, dezembro 01, 2006
Casados de Fresco
Noto que os casamentos duram menos tempo. Noto que as pessoas se preocupam menos com a família, com a pessoa que escolheram; noto que o 'toda a vida' já não faz sentido.
Na minha profissão, mas na sociedade em geral, as pessoas casam-se, de facto, mas pouco tempo depois, um ou dois anos, estão separadas. É como se estivessem sempre casadas de fresco, porque nem dão tempo ao casamento para parecer mais velho, para haver bodas de qualquer coisa, para haver filhos a crescer com os pais juntos, para haver sogras contentes com as noras que tão bem lhes tratam os filhos.
Fico sempre triste perante uma separação ou um divórcio. Fico sempre abalada quando vejo uma curta relação acabar. Sem mais nem menos. A paixão que marca estes namoros ou casamentos acaba como se nunca tivesse existido. As pessoas deixam de falar umas com as outras e vai tudo por água abaixo... ninguém faz um segundo esforço, ninguém dá uma segunda oportunidade, ninguém luta para mantar uma relação que até pode estar hoje errada e amanhã dar certo. Tudo ao contrário da geração dos nossos pais, quando até seria recomendável o divórcio. Agora não há razões para ficar. Somos tão independentes quanto distantes, frios e imperturbáveis.
Gosto de ver casais felizes. Até acho piada aos que têm filhos e continuam a ser felizes. Gosto ainda mais dos que sabem separar as águas e têm vida própria para além da casa, do emprego, da família.
Mas cada vez conheço menos casos. E tenho pena.
Se alguém quiser partilhar um final feliz...
Só para voltar a acreditar.
Escrito por a dona da gata às 17:15 7 comentários
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Solidão V
Nada dera certo com Rui. Ela achara-o muito infantil e, aquilo que inicialmente a fazia rir, começou a irritá-la. Sobretudo quando percebeu que ele era um galã e não podia ver um rabo de saias. Ela andava a precisar de atenção, não precisava de dividi-la. Pra isso, ficaria sozinha como estivera três semanas antes.
Três semanas. A relação durara três míseras semanas. Ela já não sabia se voltaria a gostar de alguém a sério. Rui tinha sido uma brincadeira, um fogo apagado à nascença. Continuava a pensar no ex-marido todos os dias mesmo não sabendo nada dele. Estaria só, como ela? Não... não era homem para estar sozinho. Imaginava-o a namoriscar aqui e ali, a fartar-se desta e daquela, sem se deixar cativar, deixando-as, a elas, num tremor e numa paixão que não esqueceriam tão cedo. Tinha sido assim, com ela, durante auqueles longos doze anos.
Voltara a escrever no blogue à espera de companhia. Já não queria convites para jantar nem aproximações físicas. Pretendia apenas deixar, pro escrito, o ritmo dos seus dias, a forma como estava a encarar o divórcio, a forma como superava a separação, a forma como não esquecia o passado.
Rui tinha deixado de lhe comentar os posts. Ficara magoado com o adeus. era compreensível: ela tinha sido tão dura como já tinham sido com ela. Vingou-se. Sabia que ele nem merecia. Mas agora era tarde demais.
Abriu o computador para escrever o resumo de mais um dia. E começou a chorar.
Escrito por a dona da gata às 16:59 1 comentários
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terça-feira, novembro 28, 2006
Esperança
E se o céu for um jardim onde plantam as mais belas flores?
Escrito por a dona da gata às 19:36 7 comentários
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segunda-feira, novembro 27, 2006
Dor, incredulidade, saudade
A notícia da morte de alguém que me é próximo já me acompanha desde os 14 anos. Foi precisamente no dia desse meu aniversário que tive consciência de que tudo está preso por fios e que, quando se partem, provocam uma dor enorme e uma saudade que não se apaga. Mas nunca a perda de alguém me tinha causado uma dor tão intensa, não só emocionalmente falando, mas sobretudo do ponto de vista físico. Todo o meu corpo se enrodilhou num nó, o estômago estava em chamas, os músculos doridos de tão tensos. Penso que, com a partida abrupta da minha querida Zé, tive, pela primeira vez, a consciência da minha própria morte. E dei-me conta de que sou tantas vezes egoísta e insensível com as pequenas coisas do dia-a-dia, magoando as pessoas por nada, queixando-me sem ter razão. A Zé era o sorriso mais doce que eu conhecia, mesmo sabendo eu que passou por grandes perdas e algumas duras mágoas. Mas mantinha o sorriso doce, o olhar límpido, a voz afável de quando a conheci há 15 anos na Universidade. Houve depois um tempo em que nos encontrávamos amiúde profissionalmente e depois veio um tempo em que a distância se instalou. Agora partiu para sempre e ainda não o consigo aceitar. Dizem-me que é a fase da negação. Não sei. Sei que espero de Deus algum conforto e que aprenda a honrar a vida e tudo o que ela tem de bom, mesmo nas coisas mais singelas, como fazia a minha querida Zé. Que Deus a guarde em paz, que eu a guardarei no meu coração, sempre.
Escrito por Charlotte às 22:39 8 comentários
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domingo, novembro 26, 2006
Dor
Há a dor de não ter dito adeus. De não estar preparado para a injustiça da vida. Há notícias que não o deveriam ser. O paraíso, principalmente o paraíso delas, não deveria ter-se transformado em inferno. Há mortes mais estúpidas que outras. Depois das lágrimas fica apenas um vazio imenso. E a certeza que a minha vida foi mais rica graças à Zé e à Cláudia. Saudades.
Escrito por Carrie às 16:48 1 comentários
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Bond, James Bond
Gosto do novo James Bond, Daniel Craig. Convenceu-me em duas horas e meia de filme com um genérico fantástico a rimar com Casino Royale. Em qualquer parte do mundo, este Craig é o melhor: e o filme passa-se na República Checa, e nas Bahamas, e em Veneza, e no Montenegro, e em Inglaterra. Este Bond faz-nos viajar um bocadinho pelos antigos Bonds, com os saltos, as corridas, as perseguições, as piadas, a ironia, o show of dos tempos de Sean Connery.
Não é que seja fácil esquecer Pierce Brosman. Não é. Mas tem piada ver um Bond responder à pergunta: shaken but not stirred? com um 'e acha que eu quero saber como vem o raio do martini?'. Tal como tem piada responder à pergunta 'usa um Rolex', 'não, tenho um Omega'. Está tudo lá, os impossíveis do cinema, as maravilhas da técnica, os sorrisos, os olhares, as bond girls - mas agora, uma novidade, este Bond apaixona-se à séria e mais não digo - o corpo genial, o sangue, o inimigo. Este James Bond faz-nos rir, assusta-nos na cadeira, faz-nos torcer por ele e faz-nos odiar os inimigos, que são sempre feios, têm sempre cicatrizes, têm sempre uns feitios lixados e gostam de tratar o crime por tu.
Daniel Craig vai bem no papel e os olhos azuis, de um azul intenso, ajudam muito. Também ajuda aquele peito largo e musculado, aquele corpo definido que até é elogiado no filme. Fica-lhe bem o smoking mas, naquele corpinho, qualquer trapinho assenta bem. É um James Bond à antiga, digo eu, com os impossíveis a acontecerem, e as improbabilidadaes a tornarem-se reais.
Por tudo isto, mas sobretudo porque é mais um Bond adaptado de Ian Fleming, vale a pena ir ver.
Escrito por a dona da gata às 02:08 3 comentários
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sábado, novembro 25, 2006
Solidão IV
Acordou a suspirar. Tinha tido um jantar fantástico mas não sabia até que ponto queria repeti-lo. Aquele Rui tinha um sentido de humor fabuloso, fizera-a rir toda a noite, mesmo antes dos quatro gins tónicos que bebeu. A partir daí as coisas tinham começado a ficar menos nítidas e mais engraçadas. Ria-se por tudo e por nada mas lembrava-se dos pormenores. Recusou o quinto gin e pediu um café. Sabia que era a maneira de voltar à normalidade e, pelo menos neste primeiro encontro, queria acordar sozinha, na cama dela, sem complexos de culpa mesmo que com uma ressaca dolorosa.
Ouviu a chuva começar a cair forte, lá fora. Eram bátegas grossas que lavavam os vidros e enxugavam os olhos que se focavam num ponto, no exterior, e que a intrigava havia meses. Era num apartamento em frente, numa divisão da casa que ainda não tinha percebido qual. Ligou o rádio para ouvir as notícias do meio-dia e virou-se para o outro lado. Viu a almofada suja de maquilhagem. Bolas! Tinha-se esquecido de limpar o rosto como fazia todas as noite. Cheirou o tabaco no cabelo e sentiu-se mal-disposta. As notícias falavam das cheias por todo o país e anunciavam os alertas laranjas, amarelos e vermelhos, como um código que ela compreendia melhor, naquela manhã que era já início de tarde.
Felizmente era sábado e estava de folga. Não tinha de apressar-se para nada. Ficou ali mais uns minutos a recordar a noite anterior e as palavras e a silhueta de um homem conhecido via internet. Era como o imaginava. Não demasiado magro, sem ser gordo, cabelo castanho e pele morena, cara lavada e bem barbeada como ela gostava e um sinal. Ele tinha um sinal. Discreto, no queixo que fazia covinha. Não era um homem bonito, daqueles que deslumbram, mas não era feio. Tinha uns olhos castanhos que lhe captavam a atenção e umas mãos bonitas, bem tratadas. Tocara-lhes várias vezes sem segundas intenções, mas arrepiada sempre que sentia a pele masculina.
Levantou-se com o pijama enrolado ao corpo e meteu-se primeiro na cozinha. Prfecisava de um copo de leite para desintoxicar. Com que imagem teria ele ficado dela? Boa, talvez. Ainda tentou uma aproximação quando se desopediram, mas ela desviara a cara e rira-se da tentativa. 'Não vamos estragar tudo' - disse-lhe - e saiu do carro. Um Peugeot de um modelo que desconhecia porque não era dada a estas coisas. Ficou feliz por saber que aquele homem de 41 anos, divorciado, não tinha ainda um cabriolet. Era sinal de sanidade e de saber estar no tempo. Não tinha filhos e isso também a alegrara, no seu conservadorismo.
Interrompeu os pensamentos quando o telefone tocou: Rui, dizia o visor. Sorriu antes de atender.
Escrito por a dona da gata às 19:44 1 comentários
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Sábado
Rebolei na cama até perto das seis da tarde. Tinha-me deitado cedo e não havia razão para ficar tanto tempo a dormir, tanto tempo a sonhar, tanto tempo a ruminar os sonhos acelerados que me faziam abrir os olhos de 10 em 10 minutos. Aparentemente não havia razão.
Acordei de vez com o telefone. Era a minha mãe que queria saber como eu estava. Não lhe soube responder. Talvez por ainda estar deitada, imaginando-me a dormir, talvez porque o meu sentido de presença própria ainda não estivesse activado, talvez por não saber de que maneira me encontro.
Saí para um galão e uma fatia de bolo cheio de creme. Não queria fazê-lo porque a balança diz-me que engordei 5 quilos, mas o estômago, a gula, falaram mais alto e acompanhei o doce com um pão de cereais e manteiga. Não almocei. Não janto. Além desta refeição o meu dia teve, em jeito de pequeno-almoço, uma taça de cereais com iogurte. O estômago encolhe e alarga à medida que os dias passam: às vezes pede-me tudo o que não devo comer, outras afasta-me de tudo o que devo comer. Em suma, alimento-me mal e engordo. Não sei o que é uma refeição de peixe, não como frutas nem legumes e só como sopa porque no refeitório as restantes ofertas são repugnantes. Excepto à quarta-feira, quando há cozido à portuguesa. Nesses dias sento-me à mesa como as pessoas crescidas.
Há um vazio na minha cabeça de sonhos não programados, quase sempre indesejados, quase sempre cheios de tormentos, de passados mal resolvidos, de agruras e de torturas. São sonhos que não quero ter mas que vêm e regressam à medida que expulso a primeira parte. São como uma série que não pára de dar episósios e que, no início de cada um, me diz, 'no episdódio anterior foi assim...'. E continuam a magoar-me a não me deixar dormir. Tiram-me o descanso da noite e obrigam-me a dias difíceis.
Acordo e saio da cama para não sonhar. Não sorrio o resto do dia. Quando acordo já anoitece e não pude ver o sol. Porque hoje não consta que tenha chovido. E a lua já lá está quando saio à rua e tudo o que desejo é que avancem as horas para voltar para a cama, esconder-me debaixo do edredão e imaginar o melhor para os meus sonhos.
Oiço os U2. Cantam Vertigo. É como estou: numa vertigem da vida e não sei se conseguirei o equilíbrio.
Escrito por a dona da gata às 19:06 0 comentários
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quinta-feira, novembro 23, 2006
Questões a precisar de resposta urgente
Quero uma vida ou uma carreira?
Escrito por Carrie às 11:48 13 comentários
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terça-feira, novembro 21, 2006
Ralações
Converso com a C. sobre relações humanas. As minhas. As dela. Rebatemos pela milésima vez os mesmos argumentos. Não há volta a dar. Há meses que não saímos do mesmo sítio. Nem eu. Nem ela. A equação é de resposta simples. Os homens são uns cobardes. Acomodam-se com demasiada facilidade. Mesmo quando são infelizes. Ficam com mulheres que não amam. Em nome da família. Do conforto. Com medo de assumir situações mais difíceis. Das que dão luta. As mulheres não são complicadas. Não são demasiado exigentes. Os homens é que se contentam com pouco. Ficam satisfeitos com um amor de pantufas. Há excepções. Mas deixem-me generalizar. Irritar-me com quem não luta pelo que é seu de direito. Com quem compromete a sua felicidade. Arrasta a tristeza dos outros. Já lhe disse que vou por ela falar com ele. Explicar-lhe por A mais B que está a fazer tudo errado. Talvez eu e ela troquemos de papéis. Talvez ela tenha mais facilidade em decifrar-me.
Escrito por Carrie às 22:36 10 comentários
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Há um Ferrari estacionado na garagem do meu prédio
Há um Ferrari estacionado na garagem do meu prédio. Estava lá esta manhã quando sai para abrir o portão. [Continuo a pedir ao Pai Natal que me ofereça um comando.] Há um Ferrari na garagem do meu prédio e eu arregalei os olhos. Abri finalmente a pestana, num daqueles dias de acordar difícil. Deixei o despertador tocar de nove em nove minutos [não são dez nem cinco, são nove minutos entre um toque e outro] por quase uma hora. Mas pelo menos hoje não acordei virada do avesso. Aconteceu-me ontem. Não acontecia há muito tempo. Talvez a culpa seja da sangria de champanhe. Da cama estreita de uma casa saloia. Do silêncio em excesso. Da saudade. Nestes dias nem sei o que tenho. Sei que não estou bem.
Escrito por Carrie às 09:29 3 comentários
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José, o grande Cid
Acabei de chegar de um espectáculo único, ao vivo e de graça, no Casino de Lisboa. O chamado espaço Arena Live tinha hoje José Cid em palco redondo, com Mike Seargent à guitarra e uma multidão louca a cantar tema por tema, todos os refrões. Disse ele que, em 50 anos de carreira, tinha sido o público mais afectuoso e o coro mais afinado de sempre. Não sei se é hábito de José cid mentir às multidões, mas se o fez, esta noite, fez mal, porque de facto, o público, era cinco estrelas. Uns por gozo, outros por recordação, outros por militância, talvez outros por curiosidade - eu estava lá pelo puro prazer de regressar aos anos 70/80 - todos aplaudiram, cantaram, gritaram, apoiaram o cantor que se auto-intitula a mãe do rock português.
Cid está anafado, gordo, diria mesmo, e o branco já não lhe fica bem, ao piano. Pulseira no braço e aliança no dedo, fio ao pescoço e os mesmo óculos escuros de sempre, revirou o público que esqueceu as máquinas do Casino para ouvir a máquina que ainda é o homem de ontem, hoje e amanhã. Tocou os grandes êxitos e ainda teve oportunidade de pôr tudo aos saltos com o refrão do Amanhã de Manhã, das Doce. Fez homenagem ao Tó-Zé Brito e trouxe o Rei D. Sebastião do nevoeiro. Claro que não faltaram êxitos como Amore, Amour ou A cabana. E todos, todos cantaram. Havia quem se chegasse ao pé do palco - visto em três níveis diferentes neste novo Casino, para se prostar, ajoelhar perante a carreira de José Cid.
Foi, sobretudo, um concerto muito divertido. Foi bom ver a minha geração - a dos 30 -a geração dos meus pais e outros que podiam ser meus sobrinhos - filhos, não - a entoar as mesmas canções, a retirar dali o mesmo prazer, a pedir mais e mais a um José Cid emocionado e, quem sabe, de lágrimas nos olhos. Cid bisou duas vezes, e saiu com vários seguranças atrás. Os espectadores queriam mais. É que o espectáculo foi mesmo bom!
A Farol - editora do cantor - ofereceu-lhe um dico de platina - creio que é já o segundo - pelas vendas deste último álbum. Um disco de memórias que mostra que Portugal ainda vive num certo passado, ainda gosta de recordar tempos antigos, ainda precisa de olhar para trás para continuar com força. José, o grande Cid, também deixou mensagem. E talvez esteja ainda nas letras moribundas de um macaco que gosta de banana, o impulso para acordar com um sorriso, apenas por se gostar de alguém. Seja qual fôr o termo de comparação!
Escrito por a dona da gata às 01:39 2 comentários
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domingo, novembro 19, 2006
Solidão (III)
Andava à procura de um casaco para o Inverno enquanto pensava no e-mail que tinha recebido. Era simpático o que lhe dizia o tal Rui, e acabava com um convite para jantar, naturalmente. Ela ainda não tinha decidido. Primeiro tivera a certeza que valia a pena apostar assim, numa coisa nova, num método moderno; mas depois vieram os receios, o medo de ser uma pessoa demasiado 'dada' aos olhos dos outros, o próprio Rui poderia achá-la leviana por aceitar um convite de um desconhecido, de um homem que se limitara a conhecê-la por umas linhas no seu blog. O vermelho ficava-lhe bem. Era comprido de botões prateados e começou a pensar com que roupa poderia vesti-lo. Fez, na cabeça, duas ou três mudas onde o casaco assentaria perfeitamente e resolveu dar os 99 euros que estavam marcados na manga. Poderia responder-lhe nesse dia. Estava frio e já podia usar uma coisa que lhe disfarçasse as ancas. Sempre tivera complexos por causa das ancas. Mas era uma ideia feita apenas na cabeça dela. Pagou e saiu da loja com a consciência tranquila e uma decisão tomada. Nessa noite iria agarrar-se ao computador!
Escrito por a dona da gata às 21:48 1 comentários
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meia-lua de leite ou Solidão, uma parte dela
Escrito por Anónimo às 18:34 1 comentários
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Mais cidade que sexo
As quatro mulheres deste blog juntaram-se para um fim-de-semana de 'despedida de solteira'. Não foram dias de folia, com objectos fálicos pendurados ao pescoço, nem tão pouco houve alcóol a mais (mesmo tu I., não falaste francês o suficiente).
Houve um brinde pela eternidade, pela felicidade e, sobretudo, pela amizade.
Pela minha parte, só posso agradecer às outras três desta casa onde quase sempre habitam apenas duas de nós. Não importa. Fora da escrita e do imaginário, na vida real e de todos os dias, somos realmente amigas.
E sinto que isto é para sempre!
Que o seja também o teu casamento I.
Escrito por a dona da gata às 16:58 0 comentários
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sexta-feira, novembro 17, 2006
Mulheres*

[*Tira gentilmente roubada na mesa do lado]
Escrito por Carrie às 13:04 2 comentários
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[Afectos X]
Não entende este amor. O medo. A ausência elevada à potência máxima. Mesmo quando a noite é partilhada. As mãos que se encontram nos sonhos. A pele que se sente. Faz-lhe falta o toque. O cheiro. O olhar. A voz. A cada hora.
Escrito por Carrie às 11:34 0 comentários
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O jardim
São Pedro de Alcântara está em obras. Agora passo por lá todas as manhãs. Regalias de quem tem lugar de garagem, ainda que emprestado. Gosto daquele jardim que me faz sempre pensar em sardinhas assadas e no Paul Auster. O gajo que escreve como ninguém e que contou a uma jornalista que gosta de Portugal pelas sardinhas assadas. A entrevista foi dada quando veio apresentar o Oracle Night. Na mesma altura em que passei duas horas na Fnac do Chiado à espera de um autógrafo. Foi difícil de escolher o livro que guardaria a assinatura do mestre. Acabou por ser aquele mesmo. Capa azulada, papel grosso e grosseiramente aparado. È edição da Henry Holt, como são ultimamente todos os livros do senhor. São os únicos que não consigo esperar por ver traduzidos. Os únicos que me fazem quebrar o meu jejum forçado de Fnac. Sei que gosta de sardinhas assadas porque estava escrito na Atlântico. A revista que me levaram à hora de almoço, enquanto eu via a cidade do outro lado da avenida. Tenho uma capacidade extraordinária para me lembrar de coisas absolutamente inúteis. Esta é sem dúvida uma delas. Não foi sequer um dos melhores dias. Estava frio para Junho e o céu carregado de cinzento a ameaçar chuva. Quero voltar a sentar-me naqueles bancos para construir novas memórias. Mas São Pedro de Alcântara está em obras.
Escrito por Carrie às 10:51 2 comentários
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Solidão (II)
Ao fim de três meses a blogar já tinha umas quantas visitas. Não muitas, mas uma boa meia dúzia que deixava sempre comentário. Havia um anónimo que se divertia a escrever parágrafos atrás de parágrafos. E dava-lhe conselhos, e dizia que se sentia como ela, e partilhava dos sentimentos que ela ali descolava. Ela andava hesitante com tudo aquilo, mas aprendeu com um amigo e passou a ter, para além da caixa de comentários, um endereço de e-mail. Para os que quisessem alguma privacidade no contacto com ela. Esperava que o anónimo acusasse o toque e passasse a ter um nome, uma personalidade, uma figura.
Escreveu então o post do convite - não sei se já repararam mas agora tenho e-mail - e ali explicou as maravilhas da caiza postal electrónica para pessoas como ela, solitárias, dependentes do computador para a vida profissional e para o dia-a-dia, capazes de separar as águas e ter um hotmail pararelo ao endereço lá do trabalho. Estava nisto quando recebeu uma mensagem. Era do anónimo. Chamava-se Rui, ao que parecia, e também lhe mandava a mensagem de um hotmail. 'O anónimo sou eu', dizia, e prosseguia com uma série de frases que encaixavam na perfeição naquilo que ela queria ler. Foi quando se questionou se devia ou não responder-lhe...
Escrito por a dona da gata às 00:17 2 comentários
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quinta-feira, novembro 16, 2006
Dinheiro para gastos
Estou farta de viver à conta do mês seguinte. Farta de dever dinheiro a toda a minha família, farta de não ter dinheiro para comer o que me apetece, para vestir o que me dá na gana, para comprar o que gosto de ver nas montras, para decorar a minha casa de outra maneira, para pagar as dívidas fixas ao fim do mês. Estou farta que o dinheiro não me sobre. Estou farta que o meu ordenado não seja suficiente para uma vida regrada, serena, equilibrada, como a das pessoas normais, as pessoas que ganham menos do que eu e ainda têm filhos e outros gastos que eu não tenho. Estou farta de ser desorganizada, de não mandar para o banco todos os papéis que me pedem. A tempo. Farta de contar com o subsídio de Natal esquecendo-me que parte vai ser gasto em presentes, farta de não comprar os presentes que as pessoas merecem, farta que o dinheiro que tenho não chegue para aquilo que quero.
Pago a casa, e a água, e a luz, e o gás, e o ginásio, e a mulher-a-dias (só três horas por semana), e a lavandaria, e as portagens, e o gasóleo, e a TV cabo, e a Internet. Pago ainda o seguro do carro, o condomínio, as refeições de todos os dias. Não pago o supermercado que a minha mãe me oferece. Não pago o carro que os meus pais me deram há cinco anos; não compro roupa mas às vezes recebo-a de presente. Pago os médicos, os medicamentos, os estacionamentos, e às vezes corto o cabelo e arranjo mas mãos. Às vezes. Não pago discos, nem livros, nem dvds porque mos oferecem todos os dias no trabalho, não pago livros infantis para os meus sobrinhos lerem quando cá vêm a casa, e pago presentes de aniversário todos os meses. Também sou convidada para casamentos, e para baptizados, e para festas, para simples jantares onde não gosto de ir de mãos a abanar.
O dinheiro voa e não sobra para os gastos. O dinheiro está mais caro e a carteira fica sempre vazia, o multibanco queixa-se todos os meses, a conta-ordenado vai acabar e não quero usar o American Express. Mas já o usei. Porque as dívidas amontoam-se, porque todos os dias avaria uma coisa nova - o congelador, por exemplo, cujo arranjo me custou 90 euros - e todos os dias tenho de tomar o pequeno-almoço, e tenho de beber os meus galões, e não almoço porque também não tenho fome, e janto fora quando me convidam e pagam o jantar.
Esta é uma vida miserável que pode ser a minha, ou a de tantos outros. Vivemos acima das nossas possibilidades, não temos extras para o que der e vier, não somos organizados nas nossas contas mensais. Não temos dinheiro e somos pobres por isso. Não os pobres verdadeiramente pobres que, de facto, não têm dinheiro, mas os pobres que não sabem usá-lo, guardá-lo, mantê-lo. Somos os pobres dos tempos modernos.
Escrito por a dona da gata às 23:51 5 comentários
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quarta-feira, novembro 15, 2006
Serviço público*
Os homens portugueses dão às mulheres muito menos jóias e viagens como presente de Natal do que estas desejam, e abusam das roupas e, sobretudo, dos CD e DVD, de acordo com um estudo hoje divulgado pela consultora Deloitte.
As viagens são a quarta prenda preferida pelas mulheres (46 por cento de respostas positivas) e as jóias a sexta (27 por cento), mas apenas dois por cento e nove por cento dos homens, respectivamente, as oferecem, segundo o estudo Natal 2006, hoje divulgado. "Muitas mulheres irão ficar desiludidas este ano. Elas esperam receber mais jóias e sonham em ir de férias. Pelo contrário, receberão um livro, roupas, CD ou DVD", afirma a consultora.
Para a Deloitte, "os presentes tradicionais, como perfumes e roupas, são escolhas seguras", mas "um bom conselho para os homens que ainda estão indecisos é comprar cheques-brinde, uma vez que parecem ser apreciados pelas mulheres e causarão menos desilusão".
O presente preferido pelas mulheres portuguesas é o livro (58%), seguido das roupas (53%) e perfumes e cosméticos (48%).
A maior discrepância entre os anseios femininos e os presentes surge na categoria "CD, cassetes, DVD e vídeos" – 32% das mulheres querem, 46% recebem.
As mulheres portuguesas revelam ainda uma preferência em larga medida insatisfeita no que diz respeito a televisões de ecrã plano e a computadores.
No que diz respeito aos adultos em geral, o estudo da Deloitte indica que os presentes mais apetecidos são livros, roupas e viagens, surgindo no fundo da tabela telemóveis e jóias.
"No entanto, os artigos de áudio e vídeo digitais são os produtos mais oferecidos, embora seguidos de perto pelos tradicionais presentes", que são "apostas mais seguras", diz a consultora.
(…)
In Lusa
[*em versão não-digam-que-não-avisámos]
Escrito por Carrie às 18:08 6 comentários
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Lamentos
Já repararam como a temperatura desceu? Parece que o sol ficou, de um dia para o outro, cansado. Ouviu o despertador, abriu a pestana, levantou a cabeça do travesseiro e decidiu que não tinha forças para continuar. Meteu na cabeça que precisava de tirar umas férias. Licença sem vencimento. Qualquer coisa. Desde que não tivesse que acordar todos os dias de madrugada e fazer cara alegre como se nada tivesse acontecido. Mandou um substituto. Fraquinho, fraquinho. Como eu o percebo... Mudei de horários. Mas não mudei de vida. E se mudei foi apenas para pior.
Há que ser honesta e admitir os nossos [meus] próprios defeitos. Eu sou a gaja que passa a vida a queixar-se. As minhas prosas têm algo de muro das lamentações. Talvez seja só isso mesmo. A necessidade de me queixar de qualquer coisa. Da falta de tempo. Do Verão que acabou. Da obrigação de ir comprar a roupa para aquele dia. Da falta de dinheiro para passar a hora de almoço na Fnac. Da casa que não se arruma sozinha. Do gasóleo que está mais caro. De nunca chegar a casa a horas. De não ver os meus putos. De não namorar mais contigo... Como dizia uma amiga minha... porque sim e porque não. Desde que me possa queixar...
[Nada disto, faz sentido… mas a Samantha exigiu que viesse aqui dizer que estou viva. Estou. Por enquanto..]
Escrito por Carrie às 10:20 3 comentários
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terça-feira, novembro 14, 2006
Solidão (I)
Abriu os olhos na escuridão e passou a mão na almofada do lado. Estava vazia. Como sempre estivera. Ela insistia em pôr lá aquela almofada, vestida com a fronha dos bordados rosa, a condizer com o lençol, discreto, que a mãe lhe fizera quando estava de licença de parto. Fechou outra vez os olhos e imaginou quem gostaria de ter ali ao lado... não lhe ocorreu ninguém. Estava num ponto de solidão que já nem sabia quem desejava ter por companhia. Pôs os pés no chão e enfiou os chinelos. Na cozinha fez pequeno-alomoço para um mas deixou, à frente da sua, uma segunda caneca pronta a fumegar de leite. Não a encheu para não desperdiçar. Mas pôs também uma colher e um guardanapo. Comeu a olhar para a loiça vermelha, polida, comprada nuns saldos de uma casa com anúncios para listas de casamento. Ela entrara para ver o que tinham os casados, em casa. E comprou umas coisas. Tudo aos pares. Mas entrou e saiu sozinha.
Já tinha tomado banho e escovado os dentes com a escova azul. Tinha uma verde para o caso de alguém, um dia, ir lá dormir a casa. Um homem, uma amiga, um familiar... qualquer pessoa que servisse de companhia naquele fase de tristeza profunda que atravessava. Nunca tinha sentido a falta de nada nem de ninguém. Fora escolha dela, viver sozinha. Mas agora, passados três anos, começava a sentir-se envelhecer e não há nada mais triste que envelhecer sozinho.
Saiu de casa aprumada. Estava sempre com as roupas e acessórios do ultimo grito da moda. Não tinha problemas com o dinheiro e tinha bom gosto, graças também a três anos que fizera do curso de arquitectura, antes de mudar a vida completamente ao contrário e entrar em engenharia do ambiente, no Técnico. Agora trabalhava para o Ministério e tinha bons contactos no Governo. Entrou no gabinete onde trabalhava sozinha e o seu 'Bom Dia' recebeu apenas uns sussurros de todos os que já estavam no 'open space' imediatamente antes do gabinete dela.
Passou o dia entre o computador e a sala de café. Não fumava mas não passava sem o expresso várias vezes ao dia. Quando a máquina avariava descia as escadas a correr e ía lá abaixo, à Dona Alice, um cafézinho de esquina que também servia fatias de bolo caseiro. Perdia-se, por lá, por isso preferia o café do gabinete.
Era sexta-feira. Não tinha planos para o fim-de-semana a não ser os do costume. Telefonar aos pais que viviam a 200 quilómetros e prometer-lhes uma visita para breve, ler o jornal na esplanada e dormir. À noite enrolava-se no sofá e via filmes. Uns atrás dos outros.
Era uma mulher interessante, inteligente e de boa conversa, quando tinha oportunidade. Mas afastara-se do mundo e o mundo esquecera-se dela. Os amigos achavam que ela estava sempre a trabalhar, a família já tinha esquecido o seu nome para os convites de almoços e jantares, os colegas tinham vidas próprias e mulheres, e maridos e filhos. Ela não.
Tinha-se interessado recentemente pelos blogues. Abrira um a que dera o nome de 'Loba Solitária', não era muito atractivo, mas tinha um belo lay-out, concebido pela potencial arquitecta. Aos 35 anos já não sabia mais que fazer para descrever os dias que passava em deserto. Por isso decidira escrever.
Um dia, começou assim: Sinto-me tão sozinha nesta vida...
Escrito por a dona da gata às 22:50 0 comentários
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domingo, novembro 12, 2006
Está uma bela tarde para um lanche no jardim...
Vejo daqui a relva plantada em escalracho, pronta a crescer e a multiplicar-se, até cobrir o rectângulo que tenho lá fora e que foi, até há poucos dias, a minha vergonha, o meu desespero, um dos sinais da minha intranquilidade e desorganização. Hoje sinto-me bem a olhar para as buganvílias plantadas nos canteiros laterais, e com cores alternadas de rosa e branco para crescerem misturadas e darem flor de duas tonalidades.
A partir de agora esta casa será diferente. Há mais vida para além da minha. É preciso cuidar dela como preciso de cuidar de mim - para começar vou arranjar as mãos amanhã de manhã, e pintar as unhas de carmim. Arrojado. - Vivi dois anos de horror a olhar pela janela e a ver um jardim que parecia a selva, no Inverno; os campos tunisinos, no Verão. Um espaço sem beleza, onde a vida das plantas se misturava com a morte; as secas consumiam as mais resistentes, e as ervas não deixavam brotar as flores. Era um jardim ignorado, mal-tratado, incontrolável porque nunca mexido.
Pensei muito e vi que não era capaz. Como na vida, nos jardins também precisamos de ajuda para crescer, para mudar, para apagar a imagem do passado e construir uma nova, de raiz, apenas com a mesma terra enquanto base. Este jardim representa-me. Sou também uma pessoa a florescer, aos poucos, com umas pinceladas aqui e ali de cor. A terra que me sustenta, a minha personalidade, não mudou, mas mudam agora as formas de estar, de sentir, de viver, de avançar.
Vou olhar todos os dias para o meu novo jardim e pensar nisto. Vamos crescer juntos. E trataremos um do outro, para que nenhum esmoreça e perca as folhas viçosas.
É que todos os dias podem ter uma bela tarde para um lanche no jardim...
Escrito por a dona da gata às 12:37 2 comentários
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Cedo demais
Acordo às sete da manhã de um domingo porque os sonhos não me deixam o sono. É como se muitas criamças se abeirassem da minha cama prontas a ver os desenhos-animados. Volto-me para um lado e para o outro e digo-lhes o que fazer com o comando da televisão mas, mal fecho os olhos, uma delas vem pedir-me que lhe esclareça uma dúvida. Assim são os meus sonhos: repetem as histórias e pegam no ponto em que estavam quando os abro e fecho outra vez. E ainda têm a desvantagem de não ter a voz doce e ternurenta das crianças que conheço.
Decido-me pelos cereais e saio da cama. Espalho bem o iogurte e misturo aquele creme branco com os All Bran que a mãe me deu. Sabe-me bem começar assim o dia, mas os olhos continuam a fechar-se, e só não me deito porque temo aquele sonho em que a minha sobrinha vai sozinha à farmácia e lhe acontecem alguns percalços, de tal maneira que tenho de ir atrás dela, para protegê-la e garantir que nada lhe acontece. Nos meus sonhos há bonecos que falam, animais que se transformam noutros, teclados que apitam, discos voadores que caem do céu, nas minhas mãos... há de tudo o que é mais inverosímel e sem graça.
Escrevo este post para desabafar. Embrulhada a uma manta porque dormi nua. Sozinha, mas despida porque o corpo pode querer respirar no seu todo. Vem-me à cabeça o pesadelo em que um dos meus colegas de trabalho perde um olho. Terrível. Sai de lá um líquido viscoso e, em segundos, volta a ter olhos castanhos e a chamar-me pelo nome. Nunca tinha sonhado com ele - que me lembre - mas esta noite andou por ali, a rondar-me, as horas que pôde.
Estou cansada. Depois deste post vou fazer uma nova tentativa. É domingo de manhã e não se ouve uma mosca. Os miúdos podem ver os desenhos animados, se quiserem. Estão em quase todos os canais. Mas hoje não vieram e acordam em casa dos pais. Provavelmente há muito que o fizeram.
Agora sonho com um sonho que gosto de ter. Um de que não me lembro pela manhã mas sei que me deixa serena.
É que ao domingo gosto de me levantar mais tarde.
Escrito por a dona da gata às 07:39 0 comentários
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sábado, novembro 11, 2006
Castanhas
Estavam assadas e eram 12. Uma dúzia por dois euros. Enroladas em papel arrancado às Páginas Amarelas, na letra 'N', como se a lista estivesse a acabar.
Estaladiças quando as abriu, uma a uma, sentou-se num banco, egoísta, a saborear as castanhas.
Era Dia de S. Martinho.
E nenhuma trazia bicho.
Escrito por a dona da gata às 20:52 3 comentários
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Saudade
Deitou-se de barriga para cima no tapete da sala, aquele fofo e que ela adorava o
puxar nas pontas. Era mais ou menos do tamanho dela, de braços abertos. Foi nessa posição que ficou longos minutos, a olhar para o tecto, a perceber os contornos do candeeiro pendurado a direito, a ler de cima para baixo as lombadas dos muitos livros nas várias prateleiras da sala. Viu que as paredes estavam completamente brancas e gostou do contraste que um Monet fazia numa das fachadas. Ela preferia Miró mas aquele tinha-lhe sido oferecido, pelos amigos, no dia em que casou. Já lá iam cinco anos e agora ali estava sozinha, divorciada, já com um novo romance na história da vida que fazia agora dia após dia.
Virou as palmas das mãos para cima como se esperasse que a felicidade andasse por ali, a pairar, e pudesse ser agarrada, assim, sem mais nem menos, desprevenida. Continuou a rodar o pescoço pelas partes altas da casa, apenas iluminadas pela luz de vela acesa, que fazia tremelicar a chama e ainda cheirava bem, a baunilha. Sentia-se só naquela noite, entre o passado que insistia em amarrá-la e o presente que vivia serena. Estava só com ela, naquela noite, porque ele estava do outro lado do rio, cumprindo tarefas de filho pródigo, afastado dela por uma ponte, próximo ao primeiro toque de um telefone que deixava ouvir, da linha de lá, um gosto tanto de ti. Gosto mesmo. E depois fazia piii...
Prendeu os olhos na chama e quase se deixou hipnotizar, à medida que revisitava situações da vida, passada e recente, situações de sofrimento, e outras de doçura. Escolhia as de doçura e tentava arrastá-las, torná-las mais demoradas, estendê-las no tempo. Vinha sempre o passado interromper, nestes dias em que se deitava no tapete. Mas também lhe acontecia deitada na cama ou no sofá. Era indiferente: aquele sorriso, aquele abraço, aquele adeus, aquela esperança, aquele choro, o desespero... Tudo lhe vinha à memória para competir com a tranquilidade de um beijo nos olhos, de uma carícia nas mãos, de um afagar no cabelo.
Fechou os olhos com força e concetrou-se nesses momentos. Imaginou-o, redondo, ao lado dela, bigode aparado e barba tão bem feita que parecia ter pele de bebé. Imaginou-o com a camisa para fora das calças de ganga de marca - que não dispensava -e de mangas arregaçadas porque, para ele, estava sempre calor. Deu-lhe a mão nos sonhos que então deixava chegar até ela, e apertou-o com força. Sentiu-se confiante, mesmo quando percebeu que apenas tinha, entre os dedos, os fios grossos do tapete castanho.
Deixou-se embalar pelos pensamentos que ele lhe trazia. Sabia que pensava nela, estivesse onde estivesse, que pensava nela. Abriu os olhos devagar e lá estava a chama a fumegar. A vela parecia não gastar-se, naquela noite e a noite parecia não terminar, para aquela luz. Então sorriu.
Puxou uma manta num arrepio de frio e ali ficou, à espera que a luz acabasse. Via pela janela uma lua em quarto minguante, que desapareceria com os dias que passam. Ela gostava da lua. Mas preferi-a cheia, brilhante, segura num céu que de negro se fazia azul, com as estrelas e polvilhá-lo, vistas daquela casa tão pouco iluminada. Pensou que o abraçava e que o beijava na testa. Disse-lhe boa noite e deitou-se em posição fetal.
Ainda rezou pelos dois. Por eles os dois.
Esqueceu-se dela. E adormeceu.
Escrito por a dona da gata às 20:26 0 comentários
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quarta-feira, novembro 08, 2006
Sintomas
Digam-me por favor quais são os sintomas do amor. Acho que ele anda por aí mas tenho medo de aceitar os sinais... Sente-se o quê, afinal?
Escrito por a dona da gata às 02:39 9 comentários
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terça-feira, novembro 07, 2006
Gotas de chuva
Gotas de chuva no meu terraço. As ervas foram arrancadas esta manhã e a terra está agora pronta para receber uma Primavera antecipada. Um jardim que desejo há meses e que finalmente se planta.
Mesmo se chove a cântaros, oiço-te do outro lado das gotas, por mais grossas que sejam. Se a água cai, é la com ela... Nós conseguimos manter levantada esta emoção, esta ternura que agora nos une.
Por mim, podes vir, quando quiseres, passear no meu jardim.
Escrito por a dona da gata às 00:26 0 comentários
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She's Like a Bird
Esta profissão que eu tenho traz-me diariamente muitas surpresas, tem a vantagem de raramente ser maçadora, tem ainda a vantagem de me fazer cruzar, todos os dias, com pessoas novas e diferentes, e consegue, imagine-se, ao fim de 13 anos, surpreender-me.
Desta vez a aposta foi levar ao Jornal da Noite a Nelly Furtado, a menina que começou a cantar 'tipo' santa, o I'm Like a Bird, e que agora anda semi-nua a dizer que é uma devoradora de homens, no mais recente êxito Meneater. Quando estava a escrever a peça de apresentação que era uma espécie de biografia da rapariga, deixei-me levar por quase todos os sons, desde esse passarinho que voou em 2000, até à Força que ela trouxe para o Europeu de Futebol, em 2004. Músicas que dão sempre para bater o pé, abanar a perninha ou qualquer coisa desse género. Simpatiza-se. Depois, os clips mais recentes, mostram-na com outro look, tipo mulher fatal, em músicas que dão pelo nome, por exemplo, de Promiscuous! A peça saiu limpa, com respirações para que cada música se pudesse ouvir, meramente informativa, como tem e deve ser...
E eis quando senão Nelly me aparece à frente, vestida de negro, cabelo à Maga Patalógika, e uns olhos de um azul céu, enormes, simpáticos, duas romãs abertas a olhar para mim e um sorriso franco, branco, bonito. Deixei-a passar pela carpete vermelha e lá foi ela em direcção ao estúdio, onde ia ser entrevistada à séria. Num português muito bom, para quem sempre viveu no Canadá, Nelly lá foi falando e rindo, falando e rindo.
Eu estava embevecida a ouvi-la. Não como nos embevecemos a ouvir um concerto de música clássica sem uma única desafinação; nem como quando vemos um filme que nos traz lágrimas aos olhos. Não. Fiquei apanhada por tanta simpatia, tanto à vontade, tanta simplicidade e tanta confiança. Riu-se muito e ao princípio até podia parecer tonta. Mas no fim da terceira resposta já tinha desarmado toda a gente - a mim pelo menos - e já tinha a câmara a mostrá-la resplandecente. É que as câmaras também fazem das pessoas feias e antipáticas, se a postura delas enveredar por aí. Nelly nã. Consegue captar nos olhos todas as atenções, no sorriso todos os outros sorrisos, nas gargalhadas quebra o gelo e é como se já estivessemos na sala a beber um chá e a conversar sobre a vida.
No fim da entrevista falou comigo enquanto bebia um galão. Abraçou-me na despedida. Olhei para aquela mulher linda, um espanto, uma sex symbol, sem dúvida, e senti que até podíamos ser amigas. É curioso: já tinha sentido esta proximidade com a Shakira. Creio que a explicação é uma só: observamos as pessoas e fazemos delas um determinado juízo. Criamos-lhes uma imagem conforme a nossa apreciação, admiração... mas tudo isto ao longe. Porque ao pé de nós, mesmo as estrelas, são pessoas normais, que gostam de conversar e relaxar, que pedem uma opinião e gostam de ouvir a resposta, que surpreeendem, não por serem surpreendentes, mas porque tínhamos feito delas pessoas que elas não são.
Nelly voou da forma certa, neste trabalho que fizemos juntas. Ela é de facto um pássaro, com uma força que ninguém pode parar. Quanto a ser uma Meneater, tenho dúvidas... lá está: faz parte do teatro que cada um tem de fazer em certas alturas da vida.
Escrito por a dona da gata às 00:02 3 comentários
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segunda-feira, novembro 06, 2006
E ainda não é Inverno
Chego a casa quando a noite se faz dia. Faltam algumas horas para que os relógios digam que é manhã. Para que comece o bulício de segunda-feira. O vai e vem dos carros. Dos rostos carregados. Zangados com a vida. Com a mulher. A semana que não acaba. O trabalho que consome. A conta bancária que emagrece no mês que mal começou. O carro da frente que não anda. E a chuva que não pára... Chego a casa quando a noite se faz dia. Sinto-me segura aqui sentada no meu tapete vermelho. Protegida da trovoadas. Das cheias. Da água. Da lama. Da vida que se faz mais pobre.
Escrito por Carrie às 01:20 2 comentários
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domingo, novembro 05, 2006
Carlos do Carmo
Acabei de chegar do Auditório dos Oceanos onde assisti, a convite do Rei, ao concerto de Carlos do Carmo com a Sinfonietta de Lisboa. Exemplar. É o que posso dizer: exemplar!
Este homem de mais de 60 anos e cabelo todo branco mantém uma voz firme e terna, um ar simpático, palavras doces e, melhor do que tudo o resto, uma capacidade e um gosto enorme por cantar bem. Venho entusiamada e até admirada. Há muito que não ouvia fado, e há muito mais tempo que não ouvia o Carlos do Carmo. Ele cantou os temas de sempre, A Canoa e A Lisboa Menina e Moça... mas também outros, de autores que desconhecia; e temas novos, de uma novo disco que está para chegar com poemas de autores tão estranhos (ao fado) como Nuno Júdice ou Fernando Pinto do Amaral... Palavras lindas saídas em verso de uma voz límpida e com a noção perfeita dos tempos, da métrica, das pausas, das palavras como devem ser ditas e cantadas no fado.
Mas houve mais quem me impressionasse. O Ricardo Rocha. Eu conhecia o disco do Ricardo Rocha, que toca guitarra portuguesa, e achava que ele era bom. Enganei-me: ele é muito bom. Uma espécie de querubim de Carlos do Carmo, o homem não precisa de mais nada para que se faça o espectáculo. As mãos dele sepenteiam a guitarra e tiram dela os sons mais afinados que ouvi nos últimos tempos. A guitarra realmente chora, mas será de emoção, nas mãos de Ricardo. E depois, a atitude. Sereno, não se ri com as piadas do cantor, que até se mete com ele por causa disso, e mantém uma postura profissional, quase infantil, como se ficasse zangado sempre que os seus acordes não são necessários numa ou noutra parte da música. É um virtuoso: o único que tocou todas as músicas de cor, e ainda improvisou para torná-las mais brilhantes.
Voltarei a ouvir Carlos do Carmo mal saia o novo disco. Fiquei com vontade de adormecer com aquela voz a entoar poesia nos meus ouvidos, a falar de amor e de saudade, de Lisboa e do Tejo, em palavras que encaixam e não se banalizam, mesmo que repetidas vezes sem conta. E o fado também se faz de repetições.
Por mim, este concerto podia ser amanhã outra vez!
Escrito por a dona da gata às 01:23 0 comentários
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sábado, novembro 04, 2006
Afectos [ix]
Sem saberes, proteges-me nos sonhos. Intimidas os pesadelos, que nestas noites não passam da ombreira da porta. Adormeço na curva do teu ombro e durmo o sono dos justos até de manhã. Bom dia.
Escrito por Carrie às 17:59 0 comentários
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Irmão do Meio
Tens nome de álbum do Sérgio Godinho mas a tua onda musical é outra. Aliás, não é nenhuma porque limitas-te a ouvir o que passa na rádio e nãos gastas dinheiro em discos e em dvd's. Não importa, tens o teu próprio som, e isso agrada-me.
Puseste-me as prateleiras direitas, tão direitas como tu próprio tentas ser, na vida. Recto, correcto, disciplinado, coerente e equilibrado. E exiges o máximo a todos, mas todos mesmo, os que te rodeiam. As decepções lá vão surgindo por isso mantens un naipe curto de amigos. Mas quando tens um, és mesmo dele, e ele é mesmo teu. Como comigo: calhou engraçares com a tua irmã mais nova e agora ela é a tua protegida, a tua filha mais nova, mesmo quando tens outra com pouco menos de um mês. És ríspido, às vezes cruel, mas és como aqueles pais que fazem tudo para nosso bem. Só que és irmão. O do meio.
Perdeste o teu melhor amigo quando eu perdi o meu. Isso uniu-nos mais porque sentimos ambos a falta de alguém, mas agimos de maneira diferente: eu chorei-o e ainda o choro vezes sem conta; tu expurgaste-o, afastaste-te dele e quiseste afastá-lo de mim. Lembras-te da aposta em que dizias que deixavas de fumar? Perdeste e pagaste-me uma viagem aos Pirinéus... uma semana sem gastos. Foi bom porque estava nas lonas, para ti foi bom também, porque me fizeste o que farias sem aposta nenhuma e ainda tiveste um pretexto.
Não te peço conselhos porque sei que és o teu maior crítico, e por isso criticas tudo à tua volta. Mas nem preciso de pedi-los, estás sempre a dar uma opinião, mesmo quando os teus silêncios se prolongam. E como são grandes os teus silêncios. Gostas de ouvir e pensar, pensar, para agir sem falhas. Às vezes falhas demais, mas apenas porque persegues a perfeição.
Tens mãos de príncipe que conseguem arranjar tudo aquilo que tocam. Escolho-te para meu carpinteiro, canalizador e pintor. Chegas quase sempre atrasado mas vens. Vens com o teu humor próprio, a tua ironia, fazes de conta que me fazes um favor, e pensas orgulhoso que o fizeste a ti mesmo: mais uma vez, numa simples acção, ajudaste a tua irmã a ser melhor, a crescer melhor, a evoluir melhor.
Não tens de ter medo de rir. Muito menos de sorrir, abraçar e dizer que gostas. Assusta-te, a alegria partilhada e as provas dadas, de amor, de ternura, de agradecimento.
Nunva lerás este post porque não faz parte dos teus hábitos andares por este caminho. Talvez por isso possa dizer-te tanto, sem nunca te dizer quse nada.
Escrito por a dona da gata às 00:29 1 comentários
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sexta-feira, novembro 03, 2006
Apetites
Há coisas que não mudam. Por muitos anos que passem. Por muito que aprenda. É assim com as minhas repentinas mudanças de humor. Um milissegundo entre a gargalhada e a lágrima. Do choro à euforia. Sempre sem explicação [aparente]. Mudo de ideias. De amores. De vontades. Simplesmente mudo. Há quem lhe chame indecisão. Eu chamo-lhe dinâmica. Em coisas tão elementares como os planos para uma sexta à noite. As combinações de fim-de-semana. A roupa que escolho de manhã. O livro da mesinha de cabeceira. As prioridades, e a sua ordem na minha vida, mudam em proporção directa da falta de tempo. Por estes dias recuso-me, ainda mais do que o costume, a fazer fretes. A estar disponível para quem não tenho paciência. Faço o que me apetece quando me apetece.
Escrito por Carrie às 14:56 4 comentários
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Não sei escrever de outra forma
Sento-me para escrever com a consciência que estou em falta. Não passa de hoje. Reclamas a minha presença porque te sentes abandonada. Há quem a exija apenas porque lhe faz falta. Leio o que escrevi e tenho consciência que esta é a minha interpretação. Talvez apenas sinta falta das palavras porque se apaixonou. Quando não eram mais do que isso. Caracteres de um mundo que não era o dele. Quando o anonimato ainda me pertencia. Tenho saudades desse tempo. Em que [muito] poucos conheciam a cara por trás dos frases. Dos tempos em que as prosas eram percebidas por alguns ‘iluminados’. Aqueles que apareciam dentro dos posts. Tenho saudades dos posts que lia que só eu percebia. Há uma dose enorme de prazer nas palavras estendidas à vista de todos que tem um único destinatário. Eu gosto. Queria continuar a escrever com essa liberdade. Porque não sei escrever de outra forma.
Escrito por Carrie às 01:22 2 comentários
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quinta-feira, novembro 02, 2006
Irmão mais velho
Sempre tiveste uma grande lata e isso fez de ti, muitas vezes, o preferido de todos. Até certa altura tiveste boas notas e, até hoje, consegues ser dos mais espertos e inteligentes que conheço. Sempre informado, tens sempre uma opinião e uma palavra a dizer. E não és daqueles que dão seca. Às vezes tornas-te arrogante, é certo, mas as tuas qualidades estão acima de qualquer crítica.
Lembras-te dos tempos em que me prendias os braços e me imobilizavas o corpo para fingir que cuspias na minha cara? E eu virava-me de um lado para o outro a fugir à saliva que gostavas de exibir, para mostrar a tua superioridade em relação a mim. Esses tempos já lá vão. Hoje - tenho a certeza - se visses alguém fazer tal coisa corrias em minha protecção. Habituaste-te a proteger-me.
Quando eu mais precisaei e até agora. Os teus telefonemas caíram-me sempre como salvação, em momentos que prefiro nem recordar. Eras, do outro lado da linha, o meu fio condutor, o meu conselheiro, o meu ouvinte, aquele que me abria os olhos mas não me criticava, aquele que me entendia, aquele que me serenava.
Recordas-te da noite em que te bati à porta às 4h da manhã? Deixaste-me entrar e chorar, chorar, chorar. Percebeste logo o que se passava e não quiseste interromper o meu desabafo para pedir pormenores. Se eu tos desse - como dei, depois - melhor, senão, ali estaria o teu ombro, na mesma, a tua paciência, o teu sono levado pelo meu pranto.
E a noite do cinema? O filme que quis evitar uma experiência mais dolorosa. Estiveste comigo naquela sala de um cinema que não recordo, era um filme com um actor tão conhecido que me esqueci do nome dele. Foi um filme que vi para não pensar 'naquele' assunto, para chegar a casa e estar já tudo tratado, como aconteceu. Foste comigo até lá. Entraste para perceber que reacção teria. Foi muito má e presenciaste-a. Não tinha e não tenho vergonha de exprimir tudo o que sinto, ao pé de ti. Quiseste levar-me, ficar comigo, estar presente. E estiveste, mesmo sem estar lá.
És o mais velho. Ultimamente já não precisas tanto de me apoiar, de me telefonar, de me sondar. Mas estás sempre atento, Sei que estás. E isso tranquiliza-me. O teu número é dos poucos que sei de cor. E do outro lado, atendes-me sempre. E nunca disseste que não tinhas tempo.
Obrigada por tudo.
É bom ter um irmão mais velho como tu.
Escrito por a dona da gata às 19:14 2 comentários
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