sábado, julho 14, 2007

Cais do Sodré

- Olá, como está, há muito tempo que já não vinha cá
- Pois é...
- É o trabalho não é? Quando chega à sexta à noite uma pessoa só quer ir para casa estender-se no sofá.
- Isso mesmo....

O comentário fez-me perceber que não tenho saido muito. E eu, que só ia beber um copo e retirar-me cedo, acabei por ir ficando e dançar até cair para o lado.

- dê-me uma água por favor?
- Água? De certeza que não prefere um vodka tónico??
- Está bem!

Ontem à noite fui ao Tóquio e ainda sóbria percebi claramente porque é que continuo a regressar lá sempre que posso. Após um dia de reuniões, a minha blusa de seda e as sandálias de salto alto contrastavam claramente com o ecosistema local. So what? Afinal, é por isso que regresso. Pela heterogeneidade sempre tão presente e partilhada que me leva a pensar que se a sede do mundo fosse naquela distoteca lisboeta viveríamos sempre em paz.

Desta vez, o cromo da noite - e digo-o com muito carinho - era um dos amigos que me acompanhava e que ao dançar me fez sorrir e recordar a Elaine num dos mais hilariantes episódios do Seinfeld.

Não sei se fui a única a sorrir mas acredito que, se outros o fizeram, foi por também perceberem o quão genuinamente divertido ele estava.

Tenho que voltar mais vezes. Agora só me resta esperar que um panasorbe e meio gurosan me consigam nas próximas horas tirar esta horrível dor de cabeça ressacada. Saudosos 20 anos :)

sexta-feira, julho 13, 2007

Post-it [*]

O sol. O mar. O som das ondas. Chuva nos dias quentes. O cheiro a terra molhada. O céu da Serra nas noites de Agosto. Conduzir sem destino. Ouvir música. Fazer a A23 a 160 a hora. Malmequeres. O branco. Gargalhadas. Sorrisos. Surpresas. O cheiro a queimado nas noites de Verão. O fumo das lareiras nas noites de Inverno. Camisas brancas e calças de ganga. Pés descalços. Acordar cedo nos dias de Verão. Livros. Jornais. Histórias bem contadas. Nova Iorque. Times Square. Livrarias. A Barnes & Nobles. O Sena. Dias tórridos em Sevilha. A Praia Verde. A Carrasqueira. O cheiro a maresia que se adivinha na foz do Rio desta cidade. Madrugadas junto a um Rio da minha infância. Conversas noite dentro. O fumo de um cigarro a diluir-se na penumbra de uma sala à luz das velas. Não ter horas marcadas. A languidez do final de dia na praia. Banhos de chuveiro. Banhos de mar. Massagens. Crepes com gelado da Häagen-Dazs. O Ideal. Pizza com frango, banana e natas. Comboios. Sexo. Cerejeiras carregadas. Árvores. Subir a árvores. A relva. O carvalho da Serra. Andar de baloiço. Fotografias. Rir. Chorar. Beijar. Dois corpos que se tocam. As ruas desta cidade. Dar mimos. Andar descalça na areia. A praia no Inverno. Uma lareira acesa nos dias de chuva. Os meus amigos. Escrever. Sonhar. O calor. O Yoga. Uma esplanada ao pôr-do-sol. O chocolate quente do Café Casino de Santiago de Compostela. O Papa-Léguas. A praia da Amália. A Quinta do Esquilo. Quadrados verdes.

[O original - que há uma semana que não me sai da cabeça - está aqui. Preciso de me lembrar que vale a pena. Vale sempre a pena. E nem sequer é preciso muito.]

quinta-feira, julho 12, 2007

Chefe mas pouco II

Falo hoje sobre o chefe-porreiraço. É um outro tipo de chefe, muito em voga nas nossas empresas, e preferido por muitos.

O chefe-porreiraço tem sempre uma piada para dizer. É bem-disposto e bem-humorado, sempre com um sorriso ou uma gargalhada prontos a dar. Numa reunião não deixa escapar uma oportunidade para lançar uma graçola, chegando às vezes a autocriticar-se ou a criticar elementos menos amados dentro do local de trabalho. Toda a gente se ri com ele, porque todos estão de acordo em relação a esses mal-amados.

Receber um e-mail ou um telefonema do chefe-porreiraço é uma coisa normal. Ele está sempre lá, imperturbável, disponível, de teclado na mão com uma piada entre conversas. Se liga à noite, altas horas, mete uma 'bucha' para se desculpar e quem fica mal visto é o subordinado que estava a dormir àquela hora. O chefe-porreiraço não tem pruridos porque todos o acham o maior, e tudo lhe é perdoado.

Mesmo que ande de fato e gravata este chefe parece estar de calções e hawaianas. De tal forma é descontraído... desaperta o botão de cima da camisa branca e enrola as mangas com quatro voltas, até ao cotovelo. O casaco, pendura-o nas costas da cadeira, e no bolso tem sempre um pacote de pastilhas. Gosta de mascar mas não faz balões à frente de toda a gente. É um tipo porreiro.

Os colegas e chefes do chefe-porreiraço riem-se com ele e anseiam que ele não esteja na próxima reunião que, com a presença dele, durará por certo mais uma hora. Intervem por razões sérias mas, na maioria das vezes, é para confraternizar. Até que todos o mandam calar e ele continua a rir, divertido, quase infantil, e não resiste à próxima oportunidade. Com a persistência, os outros sorriem.

O chefe-porreiraço até manda, mas poucos o levam a sério. Às vezes pensam que mente, mesmo quando fala verdade. E às vezes pensam que ri, mesmo quando tem vontade de chorar. O porreiraço, enquanto chefe, é cá da malta. Está sempre pronto para umas cervejolas e anuncia saídas à noite mesmo que não tenha intenção de pôr o pé fora de casa. Vai a concertos e ao cinema e está sempre a par das novidades dos jovens. Tem um lugar na second life e, ao longo do dia, diverte-se a fazer vida dupla, enquanto esperam por ele para um almoço importante.

Nunca é despedido e raramente cai da cadeira. Se tentam chamá-lo à atenção descobre uma maneira de divertir o interlocutor e ele desiste. Não há coragem para impedir o chefe-porreiraço de ser palhaço. É tão natural rir com ele como trabalhar com um outro chefe qualquer, menos sorridente.

O chefe-porreiraço faz-se à vida com uma graça. É naturalmente dotado de bom karma e não se chateia com nada. Em tudo vê um lado positivo e uma forma de lançar a tal 'bucha'. É um chefe à maneira, bom para beber uns copos.

Mas isso não se faz no local de trabalho...

quarta-feira, julho 11, 2007

Chefe mas pouco

Não se pense que chefiar uma equipa é coisa fácil. Muito menos se pense que coordenar essa equipa é uma ambição. Muitas vezes o poder surge sem querer, e mantém-se sem saber.

Há uma classe de chefes que é a mais penalizada. São os chefes-psicólogos.

O chefe-psicólogo está sempre disponível para os subordinados. Mesmo que esteja aterrado em trabalho, mesmo que esteja numa luta contra o tempo, este chefe consegue sempre uns minutos para ouvir as dores de quem com ele trabalha. É paciente e bom. Por isso ouvinte atento. É uma pessoa que pára de teclar e olha nos olhos do interlocutor quando ele surge com novos receios, novas queixas ou ressentimentos. E tem sempre o telefone ligado.

Normalmente este tipo de chefe sabe de cor a vida dos subordinados. Os assuntos que lhe são testemunhados são pessoais e relacionam-se com o amor, com dinheiro, com a falta de sorte na vida. O chefe-psicólogo sabe que A está prestes a divorciar-se e que B veio mais tarde porque teve uma discussão com o namorado, na noite anterior. Sabe ainda que C tem filhos e que o mais novo chorou a noite inteira, que fez birra de manhã e que detesta ficar na escola sem a mãe.

Este chefe nunca almoça sozinho porque tem vários pretendentes à sua companhia. Às vezes entram, em rotatividade, os subordinados, que precisam de uma palavrinha com o chefe. Todos os dias. A sua formação permite-lhe pagar um ou outro café - até mesmo um chá, de vez em quando - para que o queixoso esteja mais à vontade na conversa. Quem se queixa raramente tem moedas e, por isso, é o chefe quem oferece.

Toda a gente gosta de um chefe-psicólogo, excepto os subordinados independentes que não precisam de ajuda para os seus assuntos pessoais. Esses precisam de falar com o chefe sobre trabalho mas ele está, quase sempre, ocupado com a vida dos colegas. Este chefe empresta dinheiro, quando é necessário, porque sabe que a prestação de D foi mais elevada este mês. Também sabe quem ainda não recebeu o IRS e adivinha, pelas palavras envergonhadas de E, que o marido desta ainda não depositou o dinheiro do mês, na conta dos filhos.

O chefe-psicólogo é complacente. Não pode chegar atrasado porque quase todos os seus subordinados o fazem. Ele sabe que um estará doente, outro terá apanhado trânsito e um terceiro furou o pneu. Sabe ainda que os outros, os que não inventaram desculpas, chegam atrasados por culpa de terceiros, por culpa da vida, não por sua responsabilidade. Também não folga e raramente tira férias este chefe, pois tem de conciliar a sua vida com a de todos os que com ele trabalham. E a dos outros terá sempre prioridade.

Para o chefe-psicólogo há sempre os coitadinhos. Eles fazem-se passar por tal e chamam o chefe de amigo. O chefe não faz ideia porque, uma vez que nem conhece a família nem nunca foi lá a casa mas é amigo, no local de trabalho. Esta amizade obriga-o a dar presentes ao subordinado e aos filhos do subordinado quando fazem anos, e no Natal. Esta amizade obriga-o a perguntar, todos os dias, se está tudo bem. E a voltar a ouvir relatos porque nada está como deveria estar...

Não há recompensa para o chefe-psicólogo. Nem ganha mais por sê-lo, nem tem consultas pagas. Oferece tudo: o tempo, os conselhos, as dicas, os almoços. É um chefe experiente que acaba por trabalhar mais horas para compensar o tempo que perdeu a ouvir os outros.

O chefe-psicólogo também gosta de ser ouvido. Mas nem as suas ordens são integralmente cumpridas.

terça-feira, julho 10, 2007

Paredes

Desespero à procura da fotografia de uma parede branca. Pode ser uma parede qualquer. Mas não pode ser uma fotografia qualquer. Quero passar uma mensagem subliminar. Com um único alvo. Atraem-me as paredes brancas.

À minha volta discutem-se pesos e medidas. Tamanhos de soutiens. Dietas. Massagens. É uma versão profissional do Sexo e a Cidade. Acho saudável este riso desbragado. Contrasta com o silêncio carregado de outras horas. Dias em que a ‘vida’ se escreve em páginas de jornal. Em que não há tempo para mais. Dias em que luto para não pensar que está tudo errado. Hoje é um dia bom! Não há tempestades no horizonte. Pelo menos por enquanto. Respiro fundo e ganho alento para novas lutas.

segunda-feira, julho 09, 2007

Voo nocturno

Oiço agora Jorge Palma, o novo álbum. Chama-se 'voo nocturno' e está cheio de letras bonitas, esquisitas, curiosas. A harmonia está presente em cada canção. E a voz, a voz contorna todas as dificuldades dos acordes. Canta e fala com quem o quer ouvir.

Jorge Palma é, para mim, uma referência musical. 'Só' é uma das músicas mais bonitas que conheço. E há os clássicos, os que nos deixam rir, os que nos fazem sorrir, e aqueles que nos trazem lágrimas aos olhos. Porque a música de Palma é maioritariamente triste. Talvez sejam apenas tons graves, que os agudos ficam para outras cantigas. Palma parece estar sozinho no mundo da música, mesmo quando junta uma série de amigos como fez agora, no último teledisco, com 'Encosta-te a mim', onde aparecem, por exemplo, Camané e Mafalda Veiga.

Mas os génios têm defeitos, e o de Jorge Palma é fazer-se acompanhar por uma carroça. Sempre. A entrevista que deu à SIC Notícias, a propósito deste novo álbum assim o demonstra: cabelo despenteado como se tivesse visto o monstro de Loch Ness, óculos de sol pendurados na ponta do nariz, e uma voz arrastada, pensamento lento, whisky descontrolado. É uma pena.

Há uns dois anos assisti a um concerto ao vivo, no CCB. Completamente bebido. Chegou atrasado, tinha a camisa desaboatoada e mostrava o peito e a barriga descaída. Cantou afinado, porque tem voz, mas com o álcool sempre presente. Não muito tempo antes tinha-o visto no Pavilhão AtLântico, garrafa de água ao lado do piano, e algumas piadas sobre o passado. Mas o passado fez-se futuro e diz-nos o presente que Jorge Palma não abandonou a bebida. Está preso a ela, como ficamos presos à sua música. É uma pena.

O disco acabou e tenho vontade de pô-lo novamente a tocar. As músicas são todas boas, apesar de algumas ficarem mais no ouvido que outras. Mas diz-me a experiência que todas ficarão para sempre. Palma tem uma estrela (do mar) que faz dele um escritor de canções, um músico fantástico. Só não sabe como gerir a carreira.

Gostava de o ver sóbrio. Com a sobriedade com que faz um disco. Mesmo sabendo que muito do que nasce vem-lhe do estado já desviado da normalidade. Mesmo imaginando que a canção lhe surge com um copo na mão. Ainda assim, gostava de o saber sóbrio. É uma pena que ele não se sinta bem assim...

Lemmings

Ponho a tocar o 'cinema' do Rodrigo Leão. Ao meu lado, a C. sugere que dentro de momentos estaremos todos em fila a saltar pela janela. Só consigo pensar nos Lemmings e rir-me até às lágrimas. Sempre é uma variação do que tem acontecido nos últimos dias.

Estados d'Alma [viii]

Não queiras saber de mim
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate
Pior do que eu não há
Fico fora de combate
Como se chegasse ao fim
Fico abaixo do tapete
Afundado no serrim

Não queiras saber de mim
Porque eu estou que não me entendo
Dança tu que eu fico assim
Hoje não me recomendo

Mas tu pões esse vestido
E voas até ao topo
E fumas do meu cigarro
E bebes do meu copo
Mas nem isso faz sentido
Só agrava o meu estado
Quanto mais brilha a tua luz
Mais eu fico apagado

Amanhã eu sei já passa
Mas agora estou assim
Hoje perdi toda a graça
Não queiras saber de mim

Dança tu que eu fico assim
Porque eu estou que não me entendo
Não queiras saber de mim
Hoje não me recomendo

[Rui Veloso]

domingo, julho 08, 2007

Dr. House II

A TVI emitiu há dias o último episódio da terceira série de Dr. House. Não gostei! House despede Chase; e Cameron e Foreman saem de livre vontade, demitem-se. House não corre atrás de nenhum... Discordo! Não quero acreditar que House, o fantástico Dr. House protagonizado por Hugh Laurie, tenha tão fracos sentimentos, a ponto de não se importar de perder os seus três médicos. Os melhores.

Tento não perder um episódio de House. Já comprei as duas séries e aguardo ansiosamente a terceira, que deverá sair em Setembro. Gosto particularmente do desempenho do médico principal, coxo, arrogante, espirituoso, interessante, inteligente. Fico agarrada aos diálogos e tenho vontade de fazer rewind na televisão, para perceber melhor o que foi dito, e porquê. Mas isso só é possível nos dvds...

Na semana passada fiquei a saber que Hugh Laurie escreveu um romance. Está disponível na FNAC, já sei, esse Gun Seller, versão apenas inglesa. Ainda não tive oportunidade de comprá-lo porque não há na FNAC onde mais vezes costumo ir - pelo menos uma vez por semana - mas já vi que existe, na net. E vou lê-lo num ápice.

Fiquei a saber deste livro por causa de uma entrevista do actor no Inside Actors Studio, no AXN, creio eu. O homem é único e o sentido de humor de House está na pele de Hugh Laurie. Curiosamente, nessa entrevista, pude saber um bocadinho mais sobre a vida do senhor, nomeadamente os problemas com a mãe - que já morreu - por quem não se sentiu suficientemente amado. Fala dela com saudade mas com alguma amargura. Pelos vistos, os pais não se sentiam orgulhosos dele, e só quando ele pisou os palcos começaram a sorrir perante as suas piadas.

Laurie é um homem do riso. Contracenou com Rowan Atkinson (o Mr. Bean) e entrou em várias comédias. Mas, na minha opinião, é como House que cresceu. É no papel do médico alucinado que vive melhor. As expressões são as mais indicadas para cada momento, a pronúncia é americana e encenada - ele é inglês - e o andar, de bengala, é imitado na perfeição. Custou-me ver House andar sem coxear, na entrevista.

House também toca piano. Aliás, Hugh Laurie toca piano. E bem. Ainda para mais escreve letras, com piada, claro. O homem é brilhante. Não que os restantes actores não sejam bons - não sei se voltarão todos, na próxima série - mas House é o expoente máximo da boa interpretação.

Enquanto houver casos clínicos, ele lá estará para salvar vidas. E parte da minha semana.

sexta-feira, julho 06, 2007

Cash Flow

Chegava ao princípio do mês e já não tinha dinheiro. O ordenado voava com as contas fixas para pagar... Pagava a casa, o carro, o empréstimo pessoal... Pagava os médicos, a gasolina e a via verde. Não sobrava grande coisa para as refeições fora de casa, e muito menos para os extras. Passavam-se meses sem que comprasse uma peça e roupa, ela que era uma devota dos centros comerciais. Só não os visitava ao domingo, porque não gostava de ver os casais com o fato de treino igual, quase sempre em tons de roxo.

Esperava pelo IRS e pelos subsídios de férias e de Natal como quem espera um filho. Ali ficava com o ventre em festa, às vezes preso na amargura, apertado, enquanto não caíam os euros na conta. Julho e Dezembro eram os meses maiores. Nessa altura desforrava-se. Pagava as contas e lá ia às compras, à procura de um trapinho, que tudo lhe ficava bem.

Juntava trocos para a depilação e para arranjar as unhas. Não dispensava nenhuma destas obrigações femininas. Mesmo de calças compridas gostava de ter as pernas limpas, sedosas, como via nos anúncios de televisão. E usava um creme todos os dias, para hidratar a pele. E as unhas, pintava-as de vermelho - carmim, para ser mais exacta - sempre com uma manicure brasileira porque lhe tinham dito que eram as melhores e que faziam milagres com mãos estragadas.

Este mês estava lisa. Andava a planear uma viagem e nem sabia como pagá-la. Tinha imaginado Nova Iorque mas nem as promoções estavam do lado dela. Optou pela Europa, uma coisa mais perto, também uma cidade grande, mas com História. Escolheu Madrid e já tinha as agendas de exposições do Prado e da Rainha Sofia. Também já sabia que espectáculos podia ver na noite espanhola, na movida. E sabia em que restaurantes comer. Só não sabia como pagar tanta coisa. Tinha descontos nos museus, mas só isso. Teria de desembolsar para tudo o resto. A viagem estava permanentemente adiada.

Chorava baixinho, à noite, em casa. Sozinha, com os extractos do banco na mão. Nem tinha um ordenado baixo, mas as despesas eram mais que muitas. Era uma descontrolada com os presentes para os amigos e cada aniversário tomava-lhe uma parte da carteira gasta pelo uso. E havia os jantares, com festa. Tudo caríssimo. Limpava as lágrimas com os soluços e punha-se a pensar no que podia fazer para ser aumentada. Nada. Já tinha feito tudo o que era viável fazer. A economia estava em crise e a Fundação onde trabalhava não dava dinheiro. Estava sem saída.

Tinha uma nota de 10 no bolso dos jeans. Ia tomar um café, naquela noite de Verão. Foi quando a viu: uma velhota sentada à beira de uma árvore no meio da cidade. Não lhe pediu nada. Tinha o olhar preso ao chão e lenço verde na cabeça. Não tinha frio, que a noite aquecera, mas os cartões ao lado indicavam a cama para a madrugada.

Voltou para casa sem ter bebido o café. Sorriu quando sentiu o bolso vazio. Estava mais rica e percebeu porquê.

No mês seguinte sobrou-lhe dinheiro.

quinta-feira, julho 05, 2007

Ainda o divã...

Deitada, de barriga para cima, olhava o tecto em branco e perseguia os limites das paredes. Cheirava a mofo, ali dentro. Talvez porque a consulta dela fosse já a última do dia - já era noite cerrada - e o odor das pessoas se amontoasse na sala. Ela não gostava. Sempre que chegava substituia o guardanapo onde deitava a cabeça e não queria sentir o quente do corpo do paciente anterior.

Os outros doentes entravam e saíam sem olhar para ela. Nem boa dia, nem boa tarde. Teriam vergonha de assumir o divã? Ela sorria sempre que alguém passava e dizia aos amigos 'hoje vou ao médico dos malucos'. Sentia-se uma, às vezes. Não por causa da cabeça confusa - já se sentia muito melhor - mas porque continuava a ir. Já não tinha o que dizer e lá estava, agora quinzenalmente, no consultório do 11º andar.

'Hoje não tenho novidades, doutor'. Ele cofiava a barba e ficava à espera de mais. Ela ficava a olhar os tais pormenores na parede e no tecto e mantinha-se calada. Desistia quando pensava no dinheiro que aqueles 45 minutos lhe custavam. Então falava. Ocasionalmente falava do passado, mas era agora o presente o tema de conversa. Talvez por isso não tivesse o que dizer... o presente não a atormentava. Era praticamente feliz.

Raramente levava relógio e só sabia do fim da consulta pelas palavras dele. 'Então até para a semana'... 'Não, até daqui a quinze dias'... Sabia-lhe tão bem não voltar para a semana. Na verdade, saber-lhe-ia bem não voltar nunca mais. Mas o doutor era peremptório: 'Ainda não, ainda não está preparada'... Sentia naquelas palavras uma obrigação, e voltava.

O guardanapo de papel estava enrugado. Atirou-o para o lixo e pôs um novo sobre a almofada de veludo verde. Deitou-se de barriga para cima. Não tinha nada para dizer, e ainda lhe faltavam 45 minutos...

quarta-feira, julho 04, 2007

Amanhã na Dinamarca



Uma Casa da Ópera de "luxo", pela simplicidade das linhas de uma infra-estrutura que pode albergar mais de 1500 pessoas, equipada com tecnologia de ponta. Gerações vindouras vão agradecer para sempre ao armador e empresário petrolífero de 92 anos que deixou este tesouro de mais de 3 mil milhões de euros à sua cidade.

Hoje na Dinamarca





Preserva-se e acarinha-se o legado arquitectónico e cultural do povo e dos seus mecenas.

Ontem na Dinamarca




Há mais de um século que, numa linda praça, um português abriu o Café à Porta, na doce Copenhaga. Um tempo em que ainda deixávamos esta marcas de bom gosto.

terça-feira, julho 03, 2007

O meu hi5

Good Reads

segunda-feira, julho 02, 2007

Entre um blog e outro*

das coisas finitas, fazer amor é a melhor...
porque não se lhe conhecem contra-indicações.

Urgências

É urgente deixar de ler autores africanos. Principalmente os meus angolanos de eleição. Angualusa, Pepetela, Manuel Rui. Qualquer um deles me faz ter a certeza que estou no lado errado do mundo.

[URGÊNCIAS 2007
Em cena até 29 de Julho no Teatro Maria Matos, em Lisboa]

[im]pressões

Todos os dias, hora a hora, sinto na pele que o dinheiro não é tudo.

A Liberdade de Imprensa ou Momento corporativista

Movimento Informação é Liberdade [Alerta ao País]
O grupo de jornalistas abaixo assinados constatando que se encontra em marcha o mais violento ataque à liberdade de Imprensa em 33 anos de democracia, decidiu juntar a sua voz à de todos os cidadãos e entidades que se têm pronunciado sobre a matéria e manifestam publicamente o seu repúdio por todo o edifício jurídico aprovado pela Assembleia da República, ou à espera de aprovação, referente à sua actividade profissional, que consideram limitativo do direito Constitucional de informar e ser informado.

domingo, julho 01, 2007

Água benta

Acredito na família com o conceito que a Igreja lhe dá. Infelizmente a sociedade de hoje já não está preparada para um núcleo familiar à antiga (que não quer dizer que fosse perfeito ou honesto), um casal feliz com filhos, vários, e os avós, os tios, os primos...

Um dia tentei construir uma família e não resultou. Não desisti de uma segunda tentativa. Mas quando o fizer - acredito que tal acontecerá - a mesma Igreja em que acredito não me dará a 'benção'. Estarei fora das normas porque não viverei uma família num primeiro casamento. E é injusto.

Ela entrou ontem na dita família cristã. Estava de branco com umas florinhas amarelas no vestido, o mesmo fato que a mãe já usara em igual circunstância. Não chorou em momento algum. Nem quando lhe derramaram a água pela cabeça... Ali esteve, serena, atenta, curiosa.

Acredito que esta é uma família especial. Creio que - a ter filhos - eles farão sempre parte desta comunidade. Não hesitarei em baptizá-los. Mas será nessa mesma Igreja que vai condenar a minha união, esteja ela em que pé estiver. Não será uma união católica. Já tive uma...

Às vezes questiono-me sobre o valor da Igreja nas sociedades actuais. Pergunto-me se não seria melhor adaptar-se à realidade dos nossos dias. Já poucos fazem um casamento para a vida, e são menos ainda os que o fazem pela Igreja. Eu acreditei, quando apostei nessa solução. Fazia sentido, há seis anos. Hoje tenho dúvidas. Não pela fé e pela essência do cristianismo... mas pela forma como os católicos olham para as diferenças. Diferentes são os que não conseguem manter uma família à primeira. Diferentes são os que se amam e optam por não 'validar' essa união. Diferentes são os pais que não programaram os filhos, mesmo que os aceitem com todo o amor. Diferentes são os que não se regem pelas leis da Igreja. Muitas vezes porque já não podem...

Ela foi baptizada no seio de uma família perfeita. Também à luz da Igreja. Espero que cresça feliz pela opção dos pais. Também acredito que esta é sempre uma opção dos pais. Tão obrigatória como ir à escola...

Galináceos no Museu

Fila de espera para entrar. Longa mas rápida o suficiente para não desanimar. Domingo de manhã do primeiro dia de Julho. Algum calor e as crianças a brincar sobre o vapor de água que sai do chão. A fila continua, quase até ao Jardim das Oliveiras. À frente anuncia-se o Museu Berardo, portas abertas gratuitamente até às dez da noite. Amanhã já se paga bilhete.

Pessoas sozinhas, casais, grupos de amigos, famílias. Eu ia com os meus dois afilhados. Ela, 10 anos; ele 5. Têm a cabeça destapada e protejo-os do sol enquanto a fila não entra no edifício. Ele está irrequieto e começam os comentários à primeira obra, à porta, uma escultura de Joana Vasconcelos feita com garrafas de vidro. É verde, 'parece uma árvore'.

Entramos. Não sem antes passar pelos avisos de 'não comer, nem beber', 'não levar mochilas', 'sorrir', 'namorar', 'gostar'...

Começamos pelo Surrealismo - a fase preferida do nosso Primeiro-Ministro - e vemos Man Ray, Cesariny, Picasso, Dali... sentamo-nos nos bancos para observar obras maiores e descemos para o Minimalismo. É onde encontramos as magníficas fotografias de Helena Almeida.

Já com a hora de almoço ultrapassada, ele começa a sentir fome. Aguenta um pouco e continua a ver cada peça, ansioso por tocar nos quadros. Brincam os dois nas instalações aos quadradinhos de Pedro Cabrita Reis. É então que ele vê uns quadros feitos em relevo, cores espalhadas na tela, formas por definir... autor já esquecido.

- Tia, este aqui parece que tem um frango lá dentro!

Saímos para almoçar.

sexta-feira, junho 29, 2007

Erro Humano

Às vezes fazemos o melhor pelos outros e eles acham que não fizemos bem. Sentimo-nos então tristes e um pouco à deriva. Porque agir bem não é só fazê-lo... é também agradar.

quinta-feira, junho 28, 2007

A convivência com o tabaco (dos outros)

Eu não fumo. Nunca fui fumadora.

Lembro-me de ter experimentado um cigarro, ainda miúda, no sótão de casa dos meus pais, com o meu irmão do meio. Ele 'obrigou-me' a partilhar da experiência que ele então conhecia. Nunca mais dei uma baforada, até à noite de Ano Novo em que uma garrafa de João Pires deu cabo de mim. Estávamos na casa de Cascais nessa noite e, de cigarro na boca, lá fui perguntando à minha (hoje) cunhada até que ponto gostava do meu irmão mais velho. Só a bebedeira me permitiu tais facilidades... Enjoei, nessa noite, e para sempre, os cigarros. E nunca esquecerei a má disposição e os dias que se seguiram.

Quando casei 'escolhi' um não fumador. Irritava-me com ele sempre que, "só nas festas" acendia dois ou três cigarros. Fazia-o por prazer, mas também para me irritar. Tornei-me quase fundamentalista. Um dia divorciei-me (não por causa do tabaco) e, nesse mesmo dia, ele começou a fumar...

Recordo ainda a minha entrada numa redacção. "Não fumas, não bebes café? Espera uma semana ou duas e logo verás...". Passaram quase 14 anos e continuo sem fumar e sem beber café. Não gosto nem de uma coisa, nem de outra.

O meu namorado fuma. Muito. Faz do cigarro uma companhia, como refere a Carrie, citando Vasco Pulido Valente. Fuma no meu carro, na minha sala... ficamos nas mesas de fumadores, nos restaurantes. Naturalmente, incomoda-me. Já não sou fundamentalista porque a primeira experiência correu mal. Mas o cheiro do tabaco perturba-me e perturba-me ainda mais saber que estou com uma pessoa que, por causa dos cigarros, pode agravar os seus (e os meus) problemas de saúde.

Aposto agora na tolerância. Mas os fumadores são, normalmente, intolerantes. Eu tenho de 'levar' com o fumo deles, mas longe das suas mentes deixar de fumar um cigarro por minha causa. Se eu disser ao meu namorado para ficarmos na mesa de não fumadores - tenho esse direito! - ele deixar-me-á, na certa, a comer sozinha. E não me venham com o gesto ridículo de pôr o bracinho atrás das costas da cadeira do vizinho, porque não resolve nada. O fumo parece estar sempre de feição. Não refilo. Suspiro, tento não inspirar, aceito o facto de ter amigos e familiares que fumam e vou suportando.

Mas isto sou eu a pensar neles. Por uma vez podiam pensar em mim.

Porque vivo há seis meses na anormalidade [ii]

Ao fim de dois meses já tinha percebido porque é que os ex-fumadores se tornam fundamentalistas. Se eu não ‘posso’ fumar, porque raio podem as outras pessoas? Os sublinhados no texto do Pulido Valente traduzem a minha angústia diária.

Ao início, principalmente à noite, sofria sozinha. O cigarro também é uma companhia. Quantas vezes não repeti esta ideia quando me perguntavam como estava a correr… No trabalho, e curiosamente, foi onde me angustiou menos a ausência. Coincidiu com a abolição da sala de fumo. Longe da vista, longe do coração. Torna-se mais fácil quando não vemos que outros continuam a usufruir desse imenso prazer. Percebi por esses dias que associo mais facilmente o cigarro a momentos de lazer, de pausa, de descontracção, do que [como seria de esperar] a momentos de stress. Talvez por isso as férias tenham sido um verdadeiro tormento. As pessoas fumam muito. Passam a vida de cigarro na mão. Também é verdade que os únicos momentos em que achei que não ia resistir foram alturas de stress. Terça-feira de manhã… levantei-me da cadeira em frente à câmara e supliquei à R. [que entretanto deixou de fumar] que me desse um cigarro, enquanto as lágrimas começavam a rolar pela cara a baixo. Não havia cigarros no pasquim. E a vida continuou.

Passaram seis meses. Não passa um dia, uma hora, em que não sinta vontade de acender um cigarro. Não fumo porque não quero. Mas sofro diariamente [muito!] com isso.

Porque vivo há seis meses na anormalidade

Os benefícios do tabaco

Viver sem fumar é como escrever sem pontuação. Pelo menos, para mim. A pequena cerimónia de acender um cigarro marca um "tempo": o princípio do dia, o princípio do trabalho, cada intervalo ou cada distracção, o alívio (ou o prazer) de acabar qualquer coisa, o almoço (quando almoço), o jantar (quando janto), o fim do dia, antes de fechar a luz, como um ponto parágrafo. O cigarro divide, acentua, encoraja, consola. Abre e fecha. É uma estação e uma recapitulação. "Já cheguei aqui. Falta ainda isto, isto e aquilo". Nas poucas vezes que tentei não fumar, tinha um sentimento de desordem, de arbitrariedade, de não saber passar de um frase a outra ou de um capítulo ao capítulo seguinte. Os fumadores, se repararem bem, não fumam ao acaso; fumam com ritmo.

O cigarro também é uma companhia. Sobretudo para quem trabalha sozinho. A maior parte das pessoas vai falando, pouco ou muito, durante o trabalho. Por necessidade ou por gozo próprio. Do "serviço" à intriga, há milhares de oportunidades para o grande e simpático exercício de conhecer o próximo: para gostar dele ou para o detestar, para o observar, o comentar ou o intrigar. De porta fechada, à frente de um computador ou de um livro, não há nada à volta. Aí o cigarro ajuda. É um fiel amigo: a pausa que torna o resto tolerável. E que, além disso, recompensa uma boa ideia ou manifesta o entusiasmo ou a execração pelo que se leu. Com quem se pode conversar senão com o cigarro? De certa maneira, o cigarro substitui a humanidade; e não me obriguem a fazer analogias. Mas, principalmente, fumar serve para pensar. Quando, a ler ou a escrever, paro a meio de uma página, porque me perdi num argumento ou não consigo imaginar como se continua, pego num cigarro e penso. Não me levanto, não me agito, não abro a boca, não me distraio. Fumo e procuro com paciência a asneira. O cigarro concentra e acalma. Restabelece, por assim dizer, a normalidade.
E este efeito "normalizador" é com certeza uma das suas maiores virtudes. Não comecei a fumar para ser adulto ou "viril". Comecei a fumar porque sou horrorosamente tímido e porque o cigarro é com certeza a maior defesa dos tímidos. Primeiro, porque ocupa as mãos e simula um arzinho de à-vontade. E, segundo, porque esconde e protege ou cria a ilusão de que esconde e protege. Por detrás de um cigarro, o mundo parece mais seguro. Mesmo se andam por aí a garantir que não.

Vasco Pulido Valente no Público de hoje

[Os bolds meus]

Quer fumar? Fume ganzas.

É que se for apanhado a violar a nova lei do Tabaco [que deverá ser aprovada hoje no Parlamento] sempre paga uma multa inferior àquela que pagará se estiver a fumar um cigarro normal. Isto porque as multas contra a droga [403 euros] são inferiores às propostas contra o tabaco [[750 euros]. Resta saber quanto pagará no futuro quem for apanhado a beber o seu copito de tinto. É que, droga é droga!

quarta-feira, junho 27, 2007

Coisas que me tiram do sério [vi]

A telephone box sits in flood waters in the Catcliffe area of Sheffield, northern England, June 26, 2007. Hundreds of people have been evacuated from their homes in South Yorkshire as officials warn a dam could collapse following severe flooding that has killed three people. REUTERS/Darren Staples (BRITAIN)

terça-feira, junho 26, 2007

Mulher no meio de um ataque de nervos ou post minimalista

Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

Inhale exhale Inhale exhale Inhale exhale Inhale exhale Inhale exhale Inhale exhale

segunda-feira, junho 25, 2007

Museu Berardo

Joe Berardo tem graça. Diz o que pensa e não tem pruridos em afirmar que é tudo muito bonito, a arte e tudo o mais, mas sem 'cacau' não se fazem milagres. Foi assim mesmo que ele se referiu ao Museu com o seu nome, esta noite, no Jornal da Noite da SIC.

Muitos ficarão chocados com esta frontalidadade. Eu acho-lhe piada. Isto porque fazem falta pessoas com capacidade de dizer o que lhes vai na alma, sem rodeios, sem vergonha, sem receio do que possam os outros pensar. Eu não sei quanto dinheiro tem Berardo, mas tem tanto que até Pinto Balsemão disse, um dia, que o Comendador seria um dos poucos portugueses de quem ele - Balsemão - poderia ser mordomo. Imagine-se a fortuna do madeirense...

Esta noite não poderei aproveitar a abertura gratuita do Museu para visitar as muitas obras que estão agora expostas no Museu Berardo de Arte Contemporânea, mas estou ansiosa por fazer uma visita. Gosto particularmente da arte contemporânea, e agrada-me saber que tenho um bom espólio à porta de casa. Muitas vezes andamos quilómetros para visitar museus fora de Portugal e, desta vez, temos uma boa razão para começar cá por dentro. Não sei se esta colecção está altura da de uma Tate ou de um Georges Pompidou mas, sem dúvida, é um conjunto de obras interessante, com artistas dos séculos XX e XXI, nacionais e internacionais.

Berardo concede entradas gratuitas aos funcionários públicos e aos sócios de clubes de futebol da Primeira Liga. Interessa-lhe, diz, ter pessoas no museu, e não um museu vazio, solitário. Até, pelo menos, ao final deste ano, estas borlas poderão levar mais gente ao CCB. E mesmo os menos atentos às coisas da arte deverão ficar impressionados e fixar um ou outro nome, uma ou outra peça.

Há, então, muitos motivos para conhecer, num processo rotativo, as 862 obras de Berardo. Não se pode perder esta oportunidade de engrandecer o que temos no País, ao mesmo tempo que enriquecemos a nossa cultura pessoal. Eu conto ir até lá em breve. Mesmo tendo de pagar bilhete, porque não faço parte de nenhum dos grupos privilegiados.

Afectos [xiv]

Quanto vale um 'porto de abrigo' disponível às horas mais impróprias?

sábado, junho 23, 2007

Sozinha em casa

Dizem-me muitas vezes, os meus amigos que vivem acompanhados, que não há nada melhor que uma tarde, uma noite que seja, passada na solidão do lar, em frente à televisão ou com um bom livro na mão; com o comando à disposição e o frigorífico cheio. Sem mais ninguém.

Eu tenho dificuldades em perceber este modo de estar. Não é que me atormente estar sozinha, mas descobri que não sei estar muito tempo sozinha em casa. Se chego e o sol ainda não se pôs lá ando eu às aranhas, a pensar como posso ocupar o tempo. E esforço-me por não ir para a cama às nove e meia porque sei que é cedo demais e que essa decisão me trará consequências na manhã seguinte.

Hoje é um desses dias, de solidão em casa. Não cheguei há muito tempo, mas o suficiente para não saber onde pôr as mãos. Vim agora ao computador para ver as horas passar. Mas nem sei o que faça a seguir, porque não tenho nada para comer - só umas cerejas - e não me apetece ver televisão sozinha. Tenho ainda a possibilidade de ler, mas tenho de começar um livro novo e não sei qual escolher.

É curioso como nunca estamos contentes com o que temos. Quantos não dariam tudo para estar, por esta hora, sozinhos em casa? Eu, porém, sinto-me assim como um cão abandonado, sem nada para ocupar o tempo, sem vontade de pensar nisso...

Estar sozinho em casa não é o mesmo que estar só, mas às vezes confunde-se.

Martírio

Nunca, em dez anos de profissão, me atormentou tanto a ideia de regressar ao trabalho depois das férias. Antes ser apedrejada em praça pública, do que ser sujeita à tortura que me espera terça-feira de manhã.

Post em diferido

[Apesar de tudo] Sevilha faz-me sentir em casa.

sexta-feira, junho 22, 2007

Mais aborto

O bastonário da Ordem dos Médicos quer centralizar numa única lista o registo nacional dos objectores de consciência. A medida é previdente. Pedro Nunes conhece a classe e quer evitar situações em que um médico é objector no serviço público e não o é no privado. Resta saber, se a medida for avante, se as clínicas que andam a pedir licenciamento à DGS para poderem realizar interrupções voluntárias da gravidez continuarão a ter médicos disponíveis. É que no serviço nacional de saúde os objectores de consciência rondam os 60%...

Aborto e taxas destabilizadoras

[Declaração de interesse: votei sim no referendo]

As mulheres que queiram interromper uma gravidez até às dez semanas vão estar isentas de pagamento das taxas moderadoras. A notícia vem no Público de hoje [depois da publicação da regulamentação da lei], com a garantia do ministro da Saúde.

Não deixa de ser irónico que num País em que se gastam anualmente cerca de 8 mil milhões de euros com a Saúde, com um Governo socialista que impôs o pagamento de internamentos e cirurgias realizadas nos hospitais públicos [o ministro da Saúde chama-lhes ‘taxas de utilização’], se venha agora dispensar de qualquer pagamento uma intervenção cirúrgica que será sempre realizada a pedido da mulher. Consta que ao abrigo do regime de isenções previsto para as grávidas... Grávidas que pelos vistos não o querem ser. Então para quê dar-lhes um privilégio inerente à condição que condenam?

Vale a pena ressalvar, e antes que me caiam em cima, que não estou contra este suposto privilégio por achar que a gratuitidade levará mais mulheres aos hospitais para interromper uma gravidez não desejada.

Sou a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidezi. Mas haverá necessidade de ser mais papista que o papa? Porque obrigar todos os contribuintes a pagar para resolver uma situação que é pessoal? Quem me paga a mim as pílulas e os preservativos que sempre usei para evitar gravidezes indesejadas? Ok. Concedo que esta visão pode ser minimalista e pouco séria. Então vejamos a coisa por outro prisma... Mas nem vale a pena irmos pelo discurso das filas de espera, das consultas no privado...

A vacina contra o Papilomavírus Humano (HPV), que pode provocar o cancro do colo do útero, está à venda desde o início do ano. Está indicada para raparigas e mulheres que ainda não tenham iniciado uma vida sexual activa e os estudos dizem que é altamente eficaz (quase em 100%). A vacina custa 481,35 euros [são três doses a 160,45 euros cada]. Foi o mesmo Governo, que agora vem dizer que os abortos são de borla, que não autorizou a inclusão da vacina no Plano Nacional de Vacinação, que permitiria às mulheres ter acesso gratuito à vacina. A interrupção de uma gravidez, por método cirúrgico, custa ao Estado entre 830 e 1.074 euros...

Dois pesos e dois medidas para questões de saúde pública que tenho muita dificuldade em perceber...

quarta-feira, junho 20, 2007

Shrek III

Até os ogres têm filhos...
É uma experiência a considerar. Dizem que é maravilhosa. Mas são precisos dois.

Parabéns Carrie!!!

Porque a vida faz-se de tudo o que aí vem.
Mais um ano.
Aproveita-o.

Rio de Janeiro IV


Rio de Janeiro III

Vende-se de tudo, na praia. Do camarão ao matte, passando pelos conhecidos biquinis e terminando nas redes, nos sucos de tudo e de mais alguma coisa, nas sanduiches, nas empadas, nos papagaios, nas tatuagens... Basta ter uns quantos reais para que a estada na praia seja mais do que um simples prazer ao sol. Nas cadeirinhas que também se alugam, claro.

O que me parece curioso não é só a quantidade de vendedores ambulantes que correm a praia do Leblon a Copacabana... é a pobreza que ali mora, com eles, que também grita pregões. É o valor que cada centavo pode ter, na vida de cada um. Comprei uns biquinis a uma carioca que me disse que, para poupar 20 centavos, não apanhava o autocarro com ar condicionado. É que 20 centavos, ao final de uma semana, somam um real. É dinheiro.

Por outro lado, a simpatia. Oferecem tudo com um sorriso e não se chateiam por levar um não. É normal. Não há falas entre dentes nem há comentários desgostosos. Apenas um obrigado. E assim ficamos...

***

O regresso a Portugal fez-se na classe executiva. Ainda assim uma viagem dura e com os horários todos trocados. A prova está na hora já tardia a que escrevo este post. Ainda não estou dentro do relógio português, apesar de a diferença de quatro horas não ser assim tão 'aberrante'. Mas ao bronze que já escorrega para fora do corpo junta-se um sorriso de quem passou 9 dias em grande... A comer bem - no 'Gero, o mais dos mais, no Rio; mas também no Gula Gula, no Belmonte ou no Bracarense - neste último o melhor fillet mignon do Rio (leia-se, o melhor prego no pão) - a comer bem, dizia, a apanhar muito sol e calor, a tomar banhos de mar num Atlântico oposto ao nosso, a descansar...

Já sei que voltarei. Ou não tivesse um companheiro de viagem louco pela cidade maravilhosa. Não sei quando será. Mas vou fazendo planos...

sexta-feira, junho 15, 2007

Do passado, presente e futuro

Acho que foi o John Lennon (perdoem-me os grandes fãs se estiver enganada) que disse qualquer coisa como: "A vida é aquilo que acontece enquanto recordamos o passado e nos preocupamos com o futuro". As palavras exactas não seriam estas, mas o que interessa é o espírito do "dito". Eu concordo, mas tenho o problema de não conseguir desligar esse fluxo torrencial de pensamento enredado no diálogo entre o que já passou e o que ainda virá. Coisa cansativa e melindrosa esta de reflectir sobre um e perspectivar o outro, esquecendo-se o que está de permeio! Já agora cito mais alguns destes "ditos" - que li num site qualquer sobre emagrecimento e força de vontade - e que me fizeram sorrir. São uma espécie de manual para ansiosos e insatisfeitos (como eu) que deixo ao dispôr.

A) "Felicidade não é ter o que você quer, é querer o que você tem", sentencia Spencer Johnson.
B) "Não se deve lutar por ter sucesso na vida, mas por ter significado na vida de alguém", acho que foi a Oprah.
C)"Somos human beings, não somos human doings", não me lembro do autor.

PS- Samantha desfruta os sons, cheiros e sabores cariocas com a cara metade. Há-de voltar radiosa, em versão mel: no tom da pele, no dengue dos gestos, no doce das palavras. Viva o Rio e viva o Panda!

quarta-feira, junho 13, 2007

A explicação cósmica para todos os meus males*

“[as mulheres gémeos] são impacientes e procuram sempre um ideal de vida, apesar de muitas vezes nem sequer saberem o que procuram realmente, porque, na verdade, a imaginação não tem limites.”

Num post antigo a Miranda diz que sou a sua amiga mais ‘
estável em toda a sua instabilidade’. Mas eu sempre soube que tinha que haver uma explicação para ser como sou. Está nas páginas da Happy Woman de Junho. A revista que comprei porque a Miranda disse que trazia descontos para massagens. E traz. E também diz outras coisas, que por respeito pelos interessados [ao caso eu], prefiro não partilhar.

*Ou não-tenho-a-culpa-de-ser-como-sou

terça-feira, junho 12, 2007

Rio de Janeiro II

No 'Vinicius', parte do Bar, ouvi um tal de Percy Ribeiro. Nunca tinha ouvido falar nele, mas deu gosto quando cantou a Garota de Ipanema. Bebi um suco de abacaxi - o meu preferido - para acompanhar o som. E fez-se noite escura para voltarmos ao hotel.

Entretanto já somamos dois dias de praia. Ali perto do Posto 9. Ontem e hoje o tempo ajudou e ficámos de papo para o ar a mastigar amendoíns e a beber água fresquinha. Um mergulho de quando em quando e as costas viradas para o mar, que o sol vem do lado do Ceasar Park. Nininha e Severino alugam-nos as cadeiras e hoje tivemos chapéu de sol, que o corpo já está a ficar vermelho e não se pode abusar.

Hoje é dia dos Namorados, por aqui. Coisa de grande importância para estes lados. Vamos dar um salto a uma livraria para beber um café e olhar para os livros - talvez comprar um ou outro. E depois jantar com amigos. Amigos do Rio.

Tudo está calmo. Continuo a ouvir o trânsito que não pára nem à noite e lamento que a mesma noite caia tão cedo - perto das seis horas. Mas é Inverno por aqui, e já não me posso queixar dos 33 graus que o termómetro marcou esta tarde.

A vida está boa.

África

O Agualusa voltou. Melhor do que nunca. Com sons, cheiros, sabores, cores de África. Uma África que [ainda] desconheço*. Mas que me está no sangue. Em ‘as mulheres do meu pai’ Agualusa vai à minha cidade.

“Passámos o dia de ontem a visitar os “pontos turísticos” e algumas possíveis locações oara o filme: o Grande Hotel da Huíla , o Cristo-Rei, a serpenteante estrada da serra da Leba, a fenda da Tundavala” [Pag.81]

Também fala da maior piscina do mundo. Da Chibia. E de Moçâmbedes. Fala de um país que me chegou pela voz dos meus pais. De um mundo que sinto como meu e que não encontrava desde a 'Estação das chuvas'. Os meus pais falam-me de Sá da Bandeira, uma cidade rebaptizada com a independência de Angola. Hoje chama-se Lubango. Terra com nome de maleita muscular, mas que a mim, como tantas em África, sugere enigmas e caminhos por percorrer.

[*à excepção de Maputo]

A expressão física da angústia

Hoje tive um dos piores ataques de angústia de que me lembro. Normalmente vem na forma de um vazio que é preciso preencher. Desta vez, optei por engolir uma fatia de tarte de amêndoa num minuto. Como nunca antes, experimentei as consequências: estômago inchado e uma tremenda dor de cabeça. O arrependimento agravou a coisa. Telefonei ao meu marido: "Estou cheia de angústia". Respondeu-me: «Não estejas. És linda». E como por artes mágicas, simplesmente, o buraco evaporou-se. Por agora, porque sei que há-de voltar. Quando acontecer, vou ter mais razões para o combater. A existência de quem me disse aquela simples e revolucionária frase é uma delas.

segunda-feira, junho 11, 2007

Rio de Janeiro I

Estávamos no 'Vinicius' a almoçar quando entrou, a correr, um casal de namorados. Vinham a fugir de um bandido que estava a apontar uma arma à cabeça de um turista. Eles viram e olharam para ele. O ladrão viu-os e decidiu vir atrás deles...

É assim o Rio. E confesso que fico um bocadinho amedrontada. Mas o espírito da cidade retira-me o medo no minuto seguinte. E lá ando eu mais à vontade, ainda que com pruridos a tirar uma ou outra fotografia.

À tarde formos à feira hippie que se realiza todos os domingos, aqui em Ipanema. Dá para ir a pé. Ainda comprei umas bujigangas e t-shirts para os meus sobrinhos. Não dá para dizer não...

Só mais uma coisa, por hoje... ainda no 'Vinicius', junto à janela, uma cena surreal: dois tipos aproveitam o trânsito parado no cruzamento para um espectáculo, no mínimo, arriscado. Um deles segura numa barra cheia de facas espetadas, com os gumes para cima. O outro faz mortais e prepara-se para saltar por cima do primeiro e da barra com as facas. Toma balanço, lá do fundo, entre os carros parados, e dá um mortal que me faz parar de respirar... salta então por cima das facas. Corpo bem contorcido, costas em arco. Perfeito. Da nossa parte teve direito a dois reais. Transpirava por todos os poros... E eu agradeci a Deus por não ter acontecido nada ao rapaz.

O trânsito voltou a fluir.

domingo, junho 03, 2007

92 anos

A minha avó tem 92 anos.

Passou o fim-de-semana em minha casa e contou-me as mesmas coisas três vezes, no espaço de 5 minutos. Levantou-se 15 vezes durante a noite e acordou-me outras tantas. Queixou-se de várias doenças e repetiu os queixumes até à exaustão.

Mas eu adora-a.

A minha avó tem mesmo ar de velhinha, cabelo branquinho e fatiota negra.

A minha avó tem 92 anos e eu gostava que ela chegasse aos 100, pelo menos. Sem sofrimento.

Haverá coisa melhor do que ter uma avó ao lado? É que sabe mesmo bem ter os miminhos dela. E ainda que se esqueça de tudo, nunca se esquece de mim.

Mais Riade





Também tenho andado por aí...


Pela Arábia Saudita, mais propriamente Riade.

quarta-feira, maio 30, 2007

Rins na TV

Na Holanda, uma doente terminal vai doar os rins a um de três concorrentes de um Reality Show. Àquele que o merecer, dizem...

Depois do pontapé do Marco, pensávamos nós, que já pouco haveria para ver. Puro engano. Pelo mundo fora são muitos os exemplos da loucura a que pode chegar quem quer aparecer na televisão.

O que fará uma pessoa a morrer aceitar uma coisa destas? Diz a estação que vai transmitir o programa que esta é uma maneira de chamar a atenção para as listas de espera por um órgão humano. Naturalmente, há muito mais para chamar a atenção. E são fins despropositados, na minha opinião.

É certo que a doente terminal já nada tem a perder, mas como vai decidir para quem vão os seus rins? Que critérios serão usados? Como se sentirão os concorrentes que perderem? E como vai sentir-se a doente quando perceber que deixou uma pessoa feliz e duas a sofrer.

Provavelmente vai ser um sucesso, este programa. É que, mesmo os críticos, não deixarão de ver este reality show. E assim as audiências deverão disparar.

É uma guerra onde não gostaria de entrar. Apesar de tudo ainda somos 'conservadores', por estas bandas. Mas tudo pode acontecer. E os formatos passam depressa, de País para País.

domingo, maio 27, 2007

Dias em que a Feira vale a pena

Porno, Irvine Welsh
Feira: 2,95€
Fnac: 16,41

Cola
, Irvine Welsh

Feira: 2,95€
Fnac: 22,46€

O Insaciável Homem
- Aranha,
Pedro Juan Gutiérrez
Feira: 3€
Fnac: 12,92

O Caçador de Autógrafos,
Zadie Smith
Feira: 3€
Fnac: 16,97€

sábado, maio 26, 2007

So exclusive, sir

O mais cidade que sexo oferece em exclusivo aos seus postadores e leitores....






... os sovacos nojentos do Sir Bob Geldof, fotografados por mim!

quinta-feira, maio 24, 2007

Livros sem luz

As Feiras do Livro de Lisboa e do Porto abriram hoje, às 16H. Ambas tiveram direito a inauguração oficial: o Porto com Presidente da Câmara; Lisboa, naturalmente, sem. Mas com o Secretário de Estado da Cultura.

Ora, já não basta as sondagens dizerem que duas em cada três pessoas lêem menos de um livro por mês, e a APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) ainda permite inúmeras falhas na realização das Feiras:

Dando 'de barato' os atrasos na montagem, a falta de organização - só ontem estavam na internet os dados sobre expositores e programa - e o facto de cada vez menos pessoas visitarem as Feiras, não se pode 'permitir' que um evento destes, em Lisboa, tenha arrancado sem luz! É verdade. A Feira do Livro, no Parque Eduardo VII esteve sem luz até às 21H30. Quer isto dizer que, para além da penumbra - assustadora num parque daqueles - havia ainda o probelma com os multibancos e com as caixas registadoras.

É, no mínimo, uma vergonha.
Valem-nos os livros. Mas aconselha-se a viagem de dia.

Tenho andado por aí



E chegou a altura de partilhar.

Chegaram!

O zimbabwe... depois de uma longa ausência

Às senhoras deste blog, todas as desculpas por meses de ausência. Coisas da vida, enfim....

Decidi agora regressar a propósito de uma reportagem que li ontem na "Time", escrita por um jornalista norte-americano que esteve preso no Zimbabwe durante cinco dias. A polícia acusava-o de estar a recolher informações para um artigo que não iria beneficiar a imagem do senhor Mugabe. E advertiu-o de que qualquer comentário menos elogiado - ou até mesmo uma piada sobre o governante - seria infracção grave.

Só mesmo no Zimbabwe :)

quarta-feira, maio 23, 2007

Até quando?

Em 2006 morreram em Portugal 39 mulheres vítimas de violência doméstica. É uma realidade que nunca consegui perceber. Fui ensinada a não deixar que me ponham a mão em cima. Literal e metaforicamente.

"De todos os incidentes violentos relatados pela APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, 86% estavam relacionados com a violência doméstica" e "muitos não foram denunciados à polícia", lê-se no relatório da Amnistia Internacional. Continuo a lamentar que estes números digam respeito ao meu País. O pior, diz a Amnistia Internacional, é que “a falta de denúncia prejudicou a aplicação de justiça em casos individuais”.

Há quem diga que estas mulheres ficaram até à última por amor. Nenhum amor pode ser tão irracional. Que ficaram por falta de alternativa económica. Há sempre alternativa. A mim ensinaram-me que ninguém morre à fome. Lavar escadas é [sempre] uma alternativa. Ainda assim… acho que ninguém deve ser juiz numa causa destas. Só quem passa por elas sabe o porque.

Oh! Que bonito ...

Inês diz sim! Petition

Sou apaixonada por histórias de amor. Esta é uma que merece a vossa assinatura.

Enquanto espero que a R. acabe uma ‘encomenda’ de última hora [é assim esta vida. Trabalha-se até às 2 da manhã. Acorda-se às 7h. Apanha-se um voo para Lisboa. Aterra-se às 15h e às 22h ainda se escrevem histórias que serão impressas a negro no pasquim de amanha] conto-vos, traços largos, a história do António.

O António quer casar com a Inês. O António ama a Inês e não perde uma ocasião para lho dizer. Encheu-lhe a casa de pequenos post-its amarelos. Lia-se Amo-te. A história vem no Público de hoje e deixou-me embevecida. A mim, que como diz alguém, me comovo por tudo e por nada. A Inês diz que só casa com o António se ele conseguir 10 mil assinaturas na sua petição. Eu acho que nós devíamos fazer a vontade à Inês e ao António. De manhã eram 250. Agora, ao início da noite vai nas 367. Conseguirá o António casar com a Inês?

[Há a visão cínica da história. Daqueles que dizem que a Inês está farta de post-its e que o António é uma melga]

Dois anos

[Reuters]

Há precisamente dois anos tentava insurgir-me contra um amor que nasceu torto. Procurava desesperadamente formas de abstracção. Algo que me impedisse de pensar. Este quintal nasceu dessa necessidade de alheamento. Ao mesmo tempo precisava de uma forma de exteriorizar tudo o que era obrigada, por razões que não interessam, a calar. Convenci as mulheres da minha vida a partilharem comigo a escrita,como sempre partilharam a minha vida. O amor acabou, mas o blog sobreviveu muito através da escrita da Samantha que comigo continua a partilhar este espaço. Tenho pena que a Miranda e a Charlotte tenham desistido praticamente no ponto de partida. Mesmo que os seus nomes continuem aqui ao lado. Talvez porque, como na vida, nunca irei desistir delas.

terça-feira, maio 22, 2007

Renascer

Cansa-me a esquizofrenia destes dias de Maio. Esgota-me o cinzento do céu. Pesa como chumbo. Dói-me o frio despropositado. É uma tristeza que não consigo definir. Apenas esperar que passe depressa. Salvam-me os jacarandás* do Carmo. Floriram mais tarde este ano, mas chegaram [enquanto eu dormia] este fim-de-semana como prova da capacidade da reabilitação dos seres.

[Os do António Barreto chegaram mais cedo. Eu só vi os meus ontem ao almoço. A foto é de há um ano, os Jacarandás ainda não estão tão frondosos.]

segunda-feira, maio 21, 2007

Livros

Faltam quatro dias para a abertura das Feiras do Livro de Lisboa e do Porto. Já sei que não fico sem passar pelo Parque Eduardo VII para comprar mais uns exemplares que vão preencher o chão da minha sala - porque nas prateleiras já não cabe mais nada.

Mas ultimamente as coisas não me correm de feição, no campo literário. É que não consigo ler um livro até ao fim. Começo a divagar, página a página; volto atrás porque me esqueço do que acabei de ler; muitas vezes penso em tudo, ao mesmo tempo que passo os olhos no livro. Só consigo ler jornais e revistas. Os livros tornaram-se pouco amigos, nos últimos meses. E eu que gosto deles, nem que seja pelo cheiro.

Preciso de um livro que me faça lê-lo até ao fim. Um daqueles que se consomem numa tarde, numa noite - que para mim será, no mínimo, uma semana - daqueles que não queremos deixar de ler, que entramos na estória sem querer. Daqueles que nos prendem.

Eu sempre adorei ler. Sempre. E continuo a ver nos livros uma saída para todo o tipo de momentos: desde os de espera, aos de felicidade plena. Mas falta-me um título. Uma obra.

Qual será?

domingo, maio 20, 2007

Post 1000*

"She loved him, though not at this particular moment."

[Ian McEwan, the Comfort of Strangers]

[*ou o reconhecimento literário da existência da estrelinha bipolar]

[im]paciência

Mudar de canal de cada vez que começa uma peça sobre a Maddie faz de mim uma cabra insensível?

sexta-feira, maio 18, 2007

Dias eternos

Há dias que nos parecem muito longos. Tão longos que carregam a noite consigo e consomem os dias seguintes.

quinta-feira, maio 17, 2007

Regresso

Regresso a este blog num dia feliz. O primeiro, desde há muitos dias... talvez meses.
Apesar da enxaqueca matinal - arrebatada pelo fantástico Zomig nasal - o dia compôs-se, e eis-me de volta.
Ainda não tenho nada para dizer.
Só que vou regressar.
Não estás sozinha, Carrie!

Finalmente sinais de sexo neste blog [vii]

Bélgica: Candidata ao Senado «promete» sexo oral a eleitores
A candidata ao Senado belga pelo partido de protesto NEE, Tanja Derveaux, garantiu hoje uma «surpresa» a quem se inscrever na lista para desfrutar de uma das 40.000 «felatio» que ela «promete» no âmbito da sua campanha eleitoral.

«Todos os que se inscreverem receberão algo muito divertido», assegurou Tania ao ser questionada sobre a seriedade da sua campanha para as eleições legislativas de 10 de Junho.

A jovem estudante de técnicas de mercado decidiu, juntamente com cinco amigos, fazer um ano sabático para se apresentar às eleições municipais e legislativas na Bélgica com o fim de oferecer «um voto de protesto imparcial» àqueles eleitores que não estão contentes com nenhum partido e querem demonstrar a sua decepção pelas promessas que ficam por cumprir. [...]

Diário Digital / Lusa

17-05-2007 6:15:00

quarta-feira, maio 16, 2007

Cannes já começou



[O magnificente [em versão eu sempre-quis-filhos-de-olhos-verdes] Jude Law fotografado pela Reuters.]

Expliquem-me como se tivesse 5 anos

É certo que nunca prestei grande atenção às aulas de marketing e publicidade [lembro-me que odiava de morte o professor], mas também não sou loura, ou gosto de acreditar que não sou burra. Por isso... expliquem-me como se eu tivesse 5 anos: Como é que a Netcabo pretende vender serviços telefónicos se quando está a anunciar linhas eróticas? Ops! Será que é isso? A PT mudou de ramo? Ah não! Então... Aquilo funciona mesmo? Qual é o retorno daquela campanha? Outra coisa: não se pode pôr aquele telefone no silêncio? Já ninguém aguenta ouvir Trim Trim [pausa] trim trim no intervalo de cada noticiário da SicN.

[Jesus! A Rede4 também quis as suas teenagers lindas e vaporosas. Só não são três, são quatro!!!!]

segunda-feira, maio 14, 2007

Recrutamento

Procura-se bloguista. Entrada imediata.

[...]

Saudades das noites em que as palavras eram as minhas melhores amigas e em que o simples acto de respirar merecia um post.

quinta-feira, maio 03, 2007

Afectos [xiii]

O carro segue a baixa velocidade por uma estrada secundária do Alentejo. De repente uma cegonha começa a seguir o carro num voo rasteiro. Ele diz:
Gostas? Mandei vir especialmente para ti.
Ela: Porra! Só espero que esteja 'vazia'.
Ele: Ops…

domingo, abril 29, 2007

A Dia casa hoje no Jardim da Estrela.

Recebi ontem à noite uma mensagem que dizia apenas ‘não te esqueças. É amanhã’. A Dia é a mulher a quem ‘nada de extraordinário acontece’, porque nada na sua vida é vulgar, e por isso ela acha que tem que recordar aos amigos que amanhã é o seu dia. O A. não ajuda. Afinal apareceu na Estrela, contava-me ela ontem à noite, uma semana antes da data marcada e ainda ligou para saber porque não estava lá ninguém. Conheci a Dia na caixa de comentários de um blog de referência - porque eu vivia num argumento de série Z, de um Deus cruel e com um grande sentido de humor, e a Dia estava solidária comigo -, de onde fomos corridas apelidadas de delicodoces. Descobri-lhe a escrita durante as noites frias de Dezembro e enviei-lhe a medo um email de elogio. Ainda hoje me deslumbro com a capacidade de escrita desta mulher. Li-lhe os arquivos de uma ponta a outra. E foram precisas muitas noites, num blog em que o tamanho médio de um post anda nos 8.000 caracteres. Isto foi muito antes de entrar em cena o Mr. 50.000. E ela esperava tanto deste leitor. Amanhã leva-o ao altar.

Poucos dias depois do meu primeiro email à Dia, ainda sem me ter sequer posto a vista em cima, ela convidava-me para passar o fim de ano lá em casa. Ela dizia naqueles dias – os dias A.J. – que dependia da bondade de estranhos. Quantas vezes não foram os estranhos a depender da bondade dela... Depois disso passamos noites e noites quase em claro em conversas intermináveis na janela do messenger. Eu no meu tapete vermelho. Ela no seu sofá laranja. Noites em que a produção bloguista atingia níveis inimagináveis. A Dia trata-me por Esquizo. De esquizofrenia. De adolescente esquizofrénica. Porque assim eram os nossos diálogos. Muitas conversas cruzadas. Sobre tudo e sobre nada. Acho que a maior parte era sobre nada. Quanto nos rimos. Quanto choramos... por isso Dia, que não te passe pela cabeça que me posso esquecer de ti.

Somos pelo menos duas...

entre dúzias que se refugiam no trabalho braçal quando insatisfeitas com o do espírito. Tudo o que permita ver o quer que seja materialmente acabado, serve.

in Quatro Caminhos

sábado, abril 28, 2007

Memórias

Irrita-me a capacidade que tenho de me lembrar de coisas perfeitamente inúteis. Espaço desperdiçado num disco rígido de dimensão limitada. Nunca sei o que é realmente importante. Ainda me lembro do nome dos irmãos do meu primeiro namorado (eram seis!) e já não os vejo há mais de quinze anos. Nunca me lembro que a Miranda têm medo de cobras, faço comentários despropositados enquanto fazemos uma caminhada por entre ervas altas e mando-lhe vídeos com cobras. Vejo como se fosse hoje o B. no dia em que o conheci, o que me disse. Nunca sei o nome do presidente da CGD ou de muitas das minhas empresas xpto. Lembro-me do que vestia no meu primeiro encontro com o S.. Nunca fui capaz de me lembrar do filme que vimos, por muito que ele fale dos actores e do argumento, por muito que goste de cinema. Sei quando vi o L. pela primeira vez, a meio de um cigarro fumado à pressa entre duas perguntas de uma frequência de direito político. Não me lembro de uma linha da sebenta dessa mesma cadeira. Lembro-me Lembro-me da primeira vez que vi a Charlotte, há oito anos. Não me lembro da sensação de pegar pela primeira vez no F., dois palmos de gente engelhada que hoje recordo por fotografias. Nunca me lembro do nome do meu orientador de tese. Lembro-me como se fosse hoje de uma mensagem recebida a caminho da Comporta num dia de chuva. Falava de ópera. E depois há as memórias olfactivas. As piores de todas. São tramadas. Apanham-me de surpresa. Desarmada...

terça-feira, abril 24, 2007

Livros

Lisboa, 20 Abr (Lusa) - A iniciativa "Lisboa Cidade do Livro", que arranca segunda-feira, Dia Mundial do Livro, vai custar 520 mil euros, incluindo a participação camarária na Feira do Livro, informou hoje o director municipal da Cultura, Rui Pereira.

Tenho cada vez menos tempo para me deleitar com longas maratonas de leitura, mas não perdi a paixoa pelos livros. Além disso, Junho é desde sempre o meu mês de eleição. Porque faço anos. Porque há santos populares. Porque há dias compridos e noites quentes. Porque há livros no Parque Eduardo VII. Agora vem o Francisco José Viegas dizer que também há livros em Maio. ‘Para abrir o apetite’, diz. A gerência agradece que haja mais livros em Lisboa. Que se façam eventos, ainda por cima no Carmo e na Trindade. O que não precisamos [preciso] é de mais feiras do livro. Já é tão difícil manter a conta bancária equilibrada com duas semanas de feira do livro. Ainda por cima preciso de uma estante nova. As lá de casa já não chegam. Mas o que dava mesmo jeito era tempo para por as leituras em dia antes que chegue Junho.

[Este post foi começado no dia 20 e ontem foi Dia do Livro, mas eu estive ocupada a acabar o 'Kafka à beira mar'. E ouvi duas horas de Fórum TSF a caminho do ALentejo. Gostei deste tempo a ouvir falar de livros.]

sexta-feira, abril 13, 2007

Enquanto espero...

Isso é que era
As sete e meia despertei com a habitual betoneira e com a gritaria dos pedreiros. Dizem que a maçonaria é discreta, mas a verdade é que dá uma vizinhança terrível.

No carro.
- Filho está sossegado! Não tires o cinto!
[passado poucos segundos]
- Não me ouviste? Está quieto.
[G. continua a tentar tirar o cinto da cadeirinha e a ignorar-me. subo o tom de voz]
- Vamos ser multados pelo polícia!!!
[G. muito calmamente]
- Acho que estás a exagerar...

A minha aldeia
Tenho o carro entalado por outros três. Vou à mercearia perguntar se sabem quem são os donos das viaturas.
- Olhe, esse aí é da loja das tatuagens, o outro é da sexshop e o outro é da loja dos sprays para grafitti.
Adoro a minha aldeia.

quinta-feira, abril 12, 2007

[Sábado.10h]

Mais um dia

Há dias em que gostava de ser a Dia e que este blogue fosse a [T]ralha. Gostava de poder dizer tudo. Queixar-me. Dizer mal do mundo. Do pequeno mundo que se confina nestas quatro paredes. Não posso. Por pudor. Por cobardia.

terça-feira, abril 10, 2007

Desencontros

Era, à partida, uma relação condenada. Ela queria ter dois filhos e ele recusava-se a ter um, sequer. Não falavam abertamente no assunto, mas cada um percebia o ponto de vista do outro. Nos momentos em que a questão vinha à baila, mudavam a conversa e contornavam a situação.

Gostavam um do outro. Talvez já se amassem, até, ainda que também não o dissessem alto. Era uma relação de segredos mas quase perfeita. Não havia angústias, nem mágoas, nem discussões pendentes, nem perdões por perdoar, nem mazelas para esquecer. Mas havia uma espécie de iato nas conversas sempre que aquele assunto chegava à mesa. Ou à cama.

Ela tinha imaginado uma família completa, uma casa com crianças a brincar, sons de risos e outros que só os mais novos têm. Tinha-os imaginado a correr de um lado para o outro, a fazer perguntas ao pai que era um homem esperto, a fazer perguntas à mãe, uma mulher doce e com paciência. Ele imaginava-se sossegado em casa. Com os seus filmes e dvds, com os seus livros, com as suas coisas, sempre com ela ao lado. Mas só com ela.

Pareciam um casal feliz mas ela sentia-se incompleta.
Não sabia quanto tempo teria mais de esperar para avançar com a conversa. Às vezes, à noite, chorava baixinho, com medo da resposta.
Ele secava-lhe as lágrimas como se percebesse a razão e dizia-lhe que gostava dela. Que gostava muito.
Então, ela adormecia.
E no dia seguinte pensava em tudo outra vez.

sábado, abril 07, 2007

Páscoa

Eu acredito que Ele ressuscitou. Parto desse princípio. Muitas vezes, na minha vida, é a Ele que recorro a pedir mais prudência, melhor consciência, um caminho que não encontro. Sei que parte de mim, porque Ele está comigo. Acredito nisso todos os dias da minha vida, mesmo naqueles mais traiçoeiros, mais tristes, menos dados a crenças.

Eu não cumpro todos os preceitos da religião católica. Nem sequer vou à Missa todos os domingos. Já lá vai o tempo em que participava em dois coros e assistia a duas missas por semana; dava catequese, assistia à reunião semanal do grupo de jovens, tinha iniciativas e participava nas dos outros. Já lá vai o tempo... não muito, mas o suficiente para me sentir afastada dos Homens daquela Igreja onde cresci. Não de Deus, mas dos Homens.

Muitos não sabem mas a Páscoa é, para os católicos, mais importante que o Natal. E o facto de ser menos comercial também ajuda a vivê-la de uma forma mais sensata, serena, com os olhos postos na verdade em que acreditamos. O Natal celebra o nascimento, a Páscoa a Resssureição. E só Cristo Ressuscitou ou teve o poder de dar a vida a outros. De novo.

Anda por aí um livro que dita o fim da fé. Ainda não o li mas tenho alguma curiosidade em lê-lo. Na Mesa do Café, blog aqui do lado, anda a ser fervorosamente discutido. E por católicos, sei-o eu. Não tenho ainda opinião sobre o autor nem sobre o livro, dado que não os conheço, mas, à partida, acredito que a fé não morreu. Talvez as práticas estejam a descrescer, mas a fé, para os que sabem o que ela significa, mantém-se segura.

Eu acredito na Páscoa, no terceiro dia, na Ressureição. E é nesta forma de pensar que vivo os meus dias. Porque a morte, só por si, não me diz nada.

sexta-feira, abril 06, 2007

Shakira, outra vez

Já aqui falei dela. Shakira, a cantora que não ouço cantar mas com quem simpatizo há largos meses. Desta vez coube-me entrevistá-la.

Volto a falar dela porque o normal não é ser como ela, quando se é uma vedeta. O normal é-ser-se distante, arrogante, difícil, impenetrável... até os nossos artistas que ninguém conhece - senão o público português - são assim, quanto mais os reconhecidos à escala mundial, com carreiras feitas nos quatro cantos do mundo, com fãs verdadeiramente apaixonados, deslumbrados, fanáticos.

Shakira é uma miúda simples. Digo miúda porque sou mais velha do que ela e porque já por duas vezes pude falar com ela de igual para igual. Desta vez entrevistei-a à porta do aeroporto de Figo Maduro, em Lisboa, com alguns seguranças em cima dela e um manager a pedir-me que apressasse a coisa. Ela ia subir ao palco daí a duas horas, estava a acabar de aterrar em Portugal e, mesmo assim, não teve problemas em sair da carrinha de vidros fumados para me cumprimentar e falar comigo. Em português, porque ela esforça-se para falar a nossa língua. Mais um ponto a favor.

Levei a minha sobrinha de 9 anos ao concerto. Ela ficou calma, a ouvir as músicas, a ver a Shakira dançar como ninguém, a entoar um ou outro refrão mais conhecidos... e eu ponho os olhos nela. É uma miúda que adorou assistir o concerto de Shakira, da mesma maneira que há um ano adorou os concertos na Festa da Música, no CCB. E é assim que deve ser... sem preconceitos: e se a rapariga aparece menos vestida, se os discos têm, na capa, expressões sensuais e praticadas à frente do espelho, se as letras são, no mínimo, duvidosas... isso não importa. Não importa porque estamos a falar de uma mulher diferente. Transborda simpatia, deixa-se levar pelo público, esforça-se por agradar, tem a auto-confiança no ponto certo. Nem mais, nem menos.

Eu gosto mais da Shakira. Eu orgulho-me por ter feito a entrevista mais radical da minha carreira, nas condições mais estranhas e desconfortáveis. Qual tripé, qual iluminação xpto... não. Ela ali estava, a falar à porta da carrinha, para um microfone de mão, no meio de um vendaval e com aviões a passar deixando o devido rasto de ruído. Escusou-se a falar? Não. Riu-se comigo. E foi um sucesso.

terça-feira, abril 03, 2007

O meu amigo casou-se...

Casou-se com outro amigo - depois namorado e noivo - e agora marido. Foi o meu primeiro evento homossexual. E não me pareceu, em nada, diferente das outras festas de casamento a que já fui. E se tenho experiência...

Eu sou católica e tenho, pelo casamento, um respeito acima da média, até porque fui obrigada a divorciar-me quando, o que eu queria mesmo, era uma vida feliz para sempre. Agora, a felicidade começa a surgir, mas foi interrompida num momento em que eu não queria vê-la partir. Mas isso faz agora parte do passado... - Eu casei por amor. O meu amigo também. E o noivo do meu amigo idém. Por isso nada me transtornou estar neste evento, pós-casamento à séria, sem véu e grinalda - mas isso nem eu quis levar - mas como manda a lei. Pelo menos, uma certa lei.

Lamento que por cá ainda não possam casar-se, os homossexuais. Parece-me que o conceito de família está já arrastado e desfigurado pelos heterosexuais, e não será por causa do casamento entre dois homens ou entre duas mulheres que as coisas vão piorar. Naturalmente prezo a família, e lamento que a família não preze o amor. A família do meu amigo não olhou tanto ao amor e à felicidade do noivo, antes se afeiçoou a comportamentos antigos e a conservadores que, nos nossos dias, não podem fazer sentido.

O marido do meu amigo é um doce. Tem um sorriso apaixonado, nota-se que gosta mesmo dele, dá-lhe a mão carinhosamente e enche-o de boas surpresas. O meu amigo é mais feliz desde que estão juntos. E o que me interessa é ver o meu amigo feliz. O meu amigo também muda, quando quem está do outro lado é o agora marido. Torna-se mais confiante, mais positivo, mais alegre. E ouviram-se gargalhadas na festa de casamento. Eram as dele. Sem preconceitos.

O meu amigo às vezes passa por aqui, por este blog. Não sei se vai ver este post, desta vez. Mas se o vir, eu quero que ele saiba que me orgulho dele, da coragem que teve, do arrojo e da teimosia. Orgulho-me dele porque não desistiu de um sonho que surgiu assim, ao de leve, e foi crescendo como possibilidade séria. Eles concretizaram um sonho que muitos não conseguem nem imaginar. Eu achei a festa bonita e a troca de votos muito singular. Nenhum se calava e os discursos foram de amor eterno. Eu acredito nisso e quero senti-los bem. Um com o outro. Com a sociedade. Com quem os rodeia.

Pela minha parte, tanto me faz que as alianças sejam de ouro branco ou amarelo. Tanto me faz que sejam ambas de tamanhos grandes e que caibam nos dedos de dois homens. Importa-me apenas que saibam o que estão a fazer. E essa consciência, viu-se.

segunda-feira, abril 02, 2007

Rescaldo

Foram presos cinco gajos da claque do FCP. Depois do que assisti ontem na Luz até acho pouco. Indigna-me o resultado do jogo. Foi injusto. [não quero, nem devo, por falta de conhecimentos técnicos dissertar sobre o assunto]. Mas, independentemente do marcador, o que me deixou verdadeiramente puta da vida foi assistir ao lamentável espectáculo dado pela claque do FCP. O que me deixa realmente furiosa é não poder entrar com uma garrafa tapada dentro de um estádio, e ver que estes tipos continuam a entrar com petardos para as bancadas. A verdade é que num jogo de alto risco, não fui sequer revistada. É simples, basta entrar em cima da hora e é sempre a abrir. Não percebo a impassividade da polícia e dos ‘stewarts’ da Prossegur. Rebentaram três petardos, foram outros tantos adeptos do Benfica para o hospital. E os tipos do FCP continuaram a ver o jogo. Contentes da vida. Entendo que não tenham levado um enxerto de porrada logo ali. Violência gera violência. Mas não entendo porque não foram todos expulsos logo que rebentou o primeiro. Provavelmente não é para entender.