quinta-feira, junho 17, 2010

a minha avó

Reconheceu-me à primeira no sofá dos 95 anos que habita. Ontem foi levada para o hospital depois de um desequilíbrio que deixou marcas numa cabecinha que agora tem dois pontos que não são finais. Sei que está baralhada mas não a vi. Estou a duas horas de casa numas alegadas férias de Verão. Penso nela a cada minuto e só páro para fechar os olhos com uma dor de cabeça que não me larga há vários dias. Mergulho neste cansaço depois de um mês consecutivo sem folgas, depois de um jet lag na China e quatro dias de sol a 24 horas a norte da Noruega. No dia em que regressei pude finalmente estar junto dela e recebi os carinhos do costume. Também os dei. Falámos da guitarra que o avô tocava, e dela, que com ele cantava à desgarrada. Falámos dos bisnetos de cujos nomes não se recorda, falámos do facto de ter estado ausente. Fez um esgar de admiração quando lhe disse que tinha ido à China e disse que sim, que sabia como eram os chineses. Raguei o meu rosto e ela sorriu percebendo no gesto os meus olhos em bico. Pedi-lhe que não olhasse o chão, mas o céu, e gabei-lhe os olhos cinzento azulados, que eu gostava que um filho meu tivesse um dia. Ficou feliz. Abriu-os bem grandes para me ver melhor e para me fazer crer que estava viva. Repetiu vezes sem conta o "já cá não faço nada" que oiço há 20 anos. Disse-lhe que sim, que fazia, que era minha única avó e que não podia ficar sem ela, que me fazia falta e a muitos mais da família. E faz. Peno nestas horas de férias entre o cansaço e a sensação de impotência. Voltou esta noite para casa mas amanhã espera-a um lar de repouso e velhinhos na sala. Sofremos a mudança. Ninguém quer ver uma avó num lar. Mas já não poderá subir facilmente os 52 degraus do número 41, e as noites para a mãe têm mesmo de ser dormidas. Há 3 meses que a avó não descansa durante a noite. E não deixa descansar. Há 3 meses que chama, que pede ajuda, que refila quando não vêm, que diz não recordar o que faz, que exige, que pergunta, que se esquece. A mãe chora e o pai dá o ombro para acolher as duas. A mais velhinha cai um sem número de vezes e já não há forças para erguê-la de novo. A casa de repouso parece gentil, espaço dito de simplicidade mas com harmonia no meio e pessoas atentas a estas coisas que só a velhice trás. Deposito amarguras nestas letras que escrevo, incapaz de evitar uma mudança de casa para a avó. Terá de conhecer amiguinhas, terá de dormir mais calma, de deixar de parte as manias de velha e os mimos de única idosa na família há mais de 10 anos. Fica ali a dois passos de mim. Poderei vê-la todos os dias, agarrar-lhe a mão rugosa e com as veias a saltar pela pele, poderei beijá-la mais do que até aqui tenho beijado porque, nestas coisas, acabamos por ficar mais próximos. Poderemos conversar sobre o passado porque do presente não tem memória. E deixar-me-ei ficar a seu lado apenas para lhe pegar na mão. É difícil perder um residente na casa onde cresci uma vida. Mas talvez desta forma o mundo possa tê-la com vida por mais uns tempos. E, quando o momento chegar, só peço para estar a seu lado.

10 comentários:

Isa disse...

Força Samantha, bjos

Uma avó disse...

É a primeira vez que visito este blog e deparo com um texto destes... Bem haja! Pelo respeito, pela compreensão, pelo Amor.
Uma avó

Reflexos disse...

Como compreendo estas palavras... nada que não tivesse sentido há dois anos.
E chegamos a um ponto em que começamos a temer pela saúde da avó e da mãe...
muito duro!

Anónimo disse...

É um amor assim, doce e bonito de ver, que nos faz lembrar que todos um dia vamos aprender a dura lição de que amar também é deixar partir e também é saber aceitar cada momento da vida.

Catarina disse...

Como eu entendo... Às vezes, confesso, preferia talvez não entender.

Lurdes disse...

Este texto transpira amor e carinho.O mesmo que já senti noutros textos que falam dessa avó tão querida.

Beijinhos às duas.

anaps disse...

Fiquei encantada! Senti as suas palavras, lembrei de quem amo e o quanto amo.
Não somos sem quem amamos.
Fica meu desejo de que ela tenha mais tempo com você e com o mundo.
Lendo os textos de vocês animei-me mais ainda em criar meu blog! Nessas férias de julho ele nasce!
Saudações...

anaps disse...

Estou tão feliz e vim compartilhar com vcs. Criei o meu blog!

butterfly disse...

quando encontrei este blog assemelhei-o à minha doce forma de transpirar sentimentos...como eu também sou assim...=)
lindo texto, maravilhosa homenagem e que belo sentimento puro que habita nesse coraçãozinho...avó e basta, que é nossa mãe duas vezes, ou três ou quatro, e até mil...
aqui deixo o meu blog para visitas
http://omeumundodepalavras.blogspot.com

Nana disse...

Este texto encantou-me e trouxe-me as lágrimas ao olhos porque vivi na minha família uma situação parecida, com o meu avô.
Mas no caso dele, já não me reconhecia. Nem a mim nem a ninguém... E as conversas não eram fáceis, mas ocorriam de quando em quando.
E tb ele foi para um lar onde o trataram muito bem. Onde o iamos visitar praticamente todos os dias, religiosamente, nem que fossem 10 minutos.
Infelizmente hoje já não o temos cá e todos os dias sinto saudades dele... Mesmo já não sendo ele verdadeiramente nos ultimos meses.
Beijinho e parabéns pela tua forma de escrever, é sublime! :)