segunda-feira, dezembro 31, 2007

Em 2008...

Vou ao ginásio,
Vou emagrecer,
Vou ao médico,
Vou poupar dinheiro,
Vou estar mais tempo com a família,
Com os amigos,
Vou trabalhar menos horas,
Vou pedir aumento,
Vou ser melhor pessoa,
Melhor profisional,
Vou mais vezes ao teatro,
ao cinema,
a espectáculos,
Vou ler mais,
Vou fazer boas acções...

Em 2008...
Volto a fazer uma lista de intenções. Para 2009.

domingo, dezembro 30, 2007

Ainda o Natal...

Pela primeira vez, em 34 anos, faltei à missa no dia de Natal. Não fui à do Galo, não pus os pés em nenhuma outra. Adormeci, acordei mal, não dormi bem. Mas que mal me senti por não ter ido à missa no dia de Natal. Eu sou católica, nada praticante desde que me desiludi, mas acredito. Acredito mesmo. Não tenho dúvidas existênciais nem religiosas. Penso todos os dias na minha fé, e naquilo em que acredito, e agradeço aquilo que considero bençãos, e peço por mim e por todos os que sei precisarem de ajuda. Rezo. Às vezes distraio-me a meio de uma oração, e lá volto ao princípio, ou penso noutra e tento concentrar-me. Eu já não cumpro as regras e tornei-me numa daquelas católicas que a Igreja não aprecia. Já não tenho paciência para os sermões do Pe. L. ou do I.. Estão velhos e sem sentido. Mas também não vou à procura de outros. Nunca fui à missa aqui a Belas, por exemplo. E também não acredito na amizade sã dos que comigo cresceram na fé. Alguns abandonaram-me quando precisei deles, outros fizeram de conta que o problema não existia. Poucos se preocuparam. E esses, mantenho-os como meus amigos. Os outros não merecem sequer um telefonema, uma mensagem personalizada pelo Natal. Porque eu não mando mensagens iguais para toda a gente. Não gosto. Nem de recebê-las. Eu já fui feliz a acreditar. Já passei por experiências fantásticas ao lado de um Deus em que acredito. Há uns 4 anos deixei-me disso. É uma coisa entre nós. Não demonstro, não provo. Falto à missa no dia de Natal. E sinto-me culpada por isso. Gostava de ter beijado o Menino, naquele pé que limpam com um paninho depois de cada beijo molhado, às vezes de uma velha beata, às vezes de uma criança simples de cabelos dóceis. Gostava de ter entoado os cânticos, tal como fiz no carro, sozinha. Tal como noutros tempos em que organizava concertos de Natal e juntava o grupo para a cantoria, e teatros, e outras coisas que pagavam para ver. Eu já não sou praticante. Às vezes custa-me. Mas não o suficiente para voltar.

Mais cidade que sexo

Esperaram pela hora tardia a que cheguei a casa da Carrie. Estava já seca a massa, metade com queijo, metade sem, para agradar a quatro bocas apenas. Comemos, acompanhámos com vinho ou coca-cola ou água e ice tea. Somos afinal tão diferentes. Mas nem se nota. Comemos os pastéis comprados em Belém, deliciámo-nos com o açúcar e canela que cada cobertura pede. E comemos salada de fruta para disfarçar. Trocámos presentes. Gostámos de ler as escolhas da Charlotte, de vestir o que pediu a Miranda, de usar o que viu a Carrie, de admirar o que me entusiamou. Gostámos da troca, dos sorrisos, dos espantos, da experiência e de experimentar. De vestir, de tirar, de pôr e de exclamar. E foi a conversa noite dentro, sem que o relógio nos dissesse a que horas já estávamos. Sem pressa. Sono da Carrie. Conforto. Confidências, conselhos. E sempre a amizade. A 15 dias de uma viagem que ficará para sempre; passados anos desde o dia em que entrámos pela mesma redacção e nos tornámos amigas. Assim, parecidas com as de uma série qualquer. Mais cidade do que sexo. Obrigada!

quinta-feira, dezembro 27, 2007

O Pai Natal existe

E chegou a 26 de Dezembro.

[Cabe agora à Dia explicar porquê...]

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Um doce natal

entre o bolo de caramelo, as azevias, as filhoses e antes do bacalhau chegar a mesa, passo por aqui de fugida para desejar um excelente e doce Natal a todos.

Feliz Natal

Aos que não acreditam no Nascimento, a Paz.
Aos que crêem que a vida mudou, o Dia.
Aos que sabem partilhar a época, o Amor.
Aos que podem dar sem receber, a Alegria.
Aos que não podem sentir o espírito, a Ternura.

Aos amigos, aos que estão doentes, à família, aos mais próximos, aos que esperam, aos que sofrem, aos que não suportam cada Natal.

A todos, a eterna felicidade de uma quadra de afectividade.

Ainda gosto de gostar do Natal!

sexta-feira, dezembro 21, 2007

A pergunta que se impõe

Porque raio não trabalho numa repartição de finanças?

[onde é que entrego o cv?]

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Estou em falta

Estou em falta. Com pessoas importantes para a minha vida. Com tarefas para cumprir. Estou em falta com a minha cama. Em falta com os postais de Natal. Sinto que exigem de mim mais do que consigo dar. Duvido de todas as minhas capacidades. Puxo por mim até ao limite e só me apetece parar. E apetece-me Natal. Por tudo o que representa. As horas de leitura. Azevias de batata-doce. Dormir em frente à lareira. Filhóses. Horas de brincadeira. ‘Roupa velha’ bem avinagrada. Bolo do Natal*. Passeios pela quinta com o nariz congelado. E dormir mais ainda. E passar o dia a comer. E brincar com os meus putos. Porque é Natal.

[*de caramelo e nozes, que dás tanto trabalho a fazer que só consigo fazê-lo especialmente para a quadra]

Mulheres

Women are meant to be loved, not to be understood.
O. Wilde

[A sabedoria dos Baci, ou uma questão de conceitos.]

terça-feira, dezembro 18, 2007

sofrimento em formato mensal [ii]

O problema é que tem um nome do tempo da outra senhora. A dada altura [não sei se ainda existe] havia numa parede do Tertúlia o retrato de uma mulher, já entrada na idade, um ar muito composto de tia solteira, a quem ela sempre chamava pelo seu próprio nome. O problema é que ela tem nome de gaja [re]conhecida noutros tempos. E por isso, muitas vezes, lhe trocam os apelidos. E como hoje, ela lá ficava a pensar que devia ter levado o xaile e uma jarra de vinho da taberna da rua de baixo. A questão é que dificilmente arranjaria guitarras.

domingo, dezembro 16, 2007

[...]

O prognóstico é reservado. A cria, ainda por cima quase órfã, é bem capaz de não chegar aos três anos. Pela parte que me toca tenho pena.

Hobbies [ii]

O termómetro do carro marca 7º. No relógio passam poucos minutos das nove. Se alguém me dissesse, há um mês, que iria acordar a um sábado com a disposição que tenho naquele momento seria alvo de fortes gargalhadas. Tenho muito tempo antes de me fazer à marginal. Hoje é a sério. Sem rede. Sem ambiente controlado. Chego muito antes da hora. Sento-me em frente ao mar. Um azul imenso. Está frio. Doem-me as mãos do vento gelado. Ponho as protecções. Testo o capacete, prenda recente de quem ‘gosta muito de ti’ [presumo que seja uma forma de me dizer que o capacete é bom, resistente]. De repente sinto que tenho dois pés esquerdos. O que é muito mau no meu caso. Já pensei em cortá-lo. Ao pé esquerdo. É incapaz de fazer o que lhe mando. Estou quase em pânico quando me ponho em cima de oito rodas. Por alguma razão, de repente tudo aquilo me parece uma péssima ideia. Contranatura. A cabeça uma folha em branco. Ver o Luís funciona como um xanax. Dez minutos e estou a rolar como nunca. Estar junto ao mar obriga-me a descer. A subir. A fazer curvas com pouca visibilidade. Obriga-me a lidar com os outros. Um vento sul demasiado frio obriga-me a abrir os olhos. Faz-me sentir viva. Cair também ajuda. Rio-me. Não tenho outro remédio. Cair sem saber como ajuda ainda mais. Obriga-me a pensar no que faço. Onde ponho os pés. E fazer tudo bem ajuda-me a perceber o controlo que consigo ter sobre aquelas oito rodas. Ando hora e meia para trás e para a frente. Canso-me. Canso-me muito e sei que amanhã não me mexo. E gosto. Desde que deixei o ioga que nada me fazia sentir tão bem.

sábado, dezembro 15, 2007

Entre um blog e outro*

Ainda estou para perceber como é que algo tão simples como tu e eu se tornou, subitamente, em algo tão complicado.

[* em versão depois-de-ter-descoberto-que-fomos-
separadas-à-nascença-descubro-alguém-que-escreve-o-que-me-vai-na-alma]

O joaquín cortés vestiu-se

O Joaquín Cortés vestiu-se. E nós, a bem da verdade, até agradecemos. Nem todos, mas o plural majestático soa-me bem. O Joaquín Cortés vestiu-se porque engordou. Mas apesar das circunstâncias continua a fazer suspirar muita mulher. Que o diga a cinquentona, a atirar para os 60, atrás de nós na fila das reclamações[*], que antes lamentou o facto, enquanto refrescava as faces rosadas abanando os bilhetes em frente à cara, apesar do vento frio, a atirar para o negativo, que entrava pela porta principal do Campo Pequeno. “Pena que se tenha despido pouco.” Foi bonita a festa cigana, mas faltou-lhe a sinceridade que vi há uma década [Jesus!] na fila da frente de uma praça Sony em delírio. O homem escultural que vimos nessa noite de Verão fazia vibrar pela fluidez de movimentos, arrancava aplausos da plateia pela sensualidade. O Joaquín Cortés vestiu-se porque envelheceu. Pena que Cortés não seja um Porto Vintage. O frenesi que vi com a Charlotte [soará menos mal se disser que foi há dez anos?!] era natural. A cada passo, a cada reviravolta, a cada bater dos saltos, Cortés enchia a noite e dizia com o corpo muito mais do que muitos discursos, do que muitas palavras conseguem traduzir. Ontem faltou-lhe espontaneidade. E a cada passo, a cada reviravolta, a cada bater dos saltos, Cortés pedia a aprovação do público. Actores, músicos, dançarinos, whatever, quando são bons valem pelo que fazem. Outros valem pelo público que têm. É pena.


[foto retirada de http://porbulerias.com]


[* O que dizer de uma empresa como a portoeventos, ou seja lá quem for o responsável pela disposição da sala no espectáculo de ontem, venda bilhetes para lugares com visibilidade nula? Foi uma espécie de jogo do gato e do rato. Agora temos Cortés, agora não temos. Certamente que a portoeventos não imaginava que o homem ia usar o palco todo para actuar. Foram assim os primeiros minutos do espectáculo até que nos sentamos na escada de cimento a meio de sala. No final foram uns bons 40 minutos na fila para preencher o livro de reclamações. Cenas!]

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Lisboa engalanada

Longas faixas [muito] coloridas nas principais avenidas. Procuro na memória notícias que falem de um mega evento da Ilga. Leio em letras pequenas no topo das faixas ‘Tratado de Lisboa’. Ah!

terça-feira, dezembro 11, 2007

Natal

Ainda não me encontrei com o Natal. Acho que andamos a brincar às escondidas. Ao princípio culpei o tempo. Ninguém [pelo menos, não por cá] festeja o Natal de t-shirt e roupa leve. Eu bem via, à hora que saia do trabalho, as pessoas carregadas, a sair do Corte Inglês. Viam-se embrulhos, com ar de gozo, a espreitar pelos sacos de compras. Viam-se enfeites nas lojas. Grandes bolas natalícias. Vermelhos. Dourados. Prateados. Mas Natal, nem vê-lo. Sentada no meu tapete vermelho, em frente à lareira, ficava atenta ao mais leve dos sons, não fosse ganhar coragem e bater à porta. Nada. Na sexta enchi-me de coragem e pensei em procurá-lo nas luzes do Chiado, aquelas que a Dia não encontrou porque chegaram mais tarde. Talvez andasse pelas ruas do Chiado. Também o procurei nas lojas. Na vontade de encher o sapatinho dos miúdos. Nem isso, foram compras [quase] automáticas, com a certeza que iam gostar de cada escolha. Outra foi comprada há mais de um mês. De impulso. Sei que vai gostar. Hoje, enchi-me de coragem à hora de almoço, decidida a arrastar a C. de loja em loja. Na segunda já tinha perdido a esperança. Falta-me encontrar o Natal para que os presentes façam sentido. Sem isso, não passarão de embrulhos de conveniência. E isso não é Natal.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

há um mês


[e tanta vida aconteceu desde então]

sábado, dezembro 08, 2007

Anjo da guarda

Às vezes acontece-me. Vem um anjo da guarda cá a casa e deita-se na minha cama. Hoje entrou chorosa e mal disposta. Ficou mais rabujenta quando percebeu que a mãe tinha saído, continuou a chorar mesmo quando lhe pus 50 peças de Lego à frente. Não gostou de nenhuma cor, não viu nenhuma peça interesante, não construiu um castelo. Chorou como se tivesse sido esbofeteada, agredida, insultada. Dorme agora, o anjinho, depois de uma sopa no 'Manel', depois de beijos e carinhos e um empurrão no baloiço do jardim infantil cá do BCC. Dorme depois de ter depenicado as minhas batatas fritas e de ter comido parte do meu hambúrguer no pão. Dorme depois de me ter deliciado com o cheiro dela, depois de a ter envolvido nos meus braços, depois de a ter agasalhado e de a ter posto na cama como quem deita o Menino Jesus. Dorme depois de lhe ter mudado a fralda, de lhe ter repetido vezes sem conta 'está aqui a tia'. Este anjo da guarda não ficará muito mais tempo. Mas sei que vai voltar. E eu gosto.

Regresso


Adoro voltar ao centro do mundo.

Em Setembro...



... foi assim que vi a Islândia. Akureiry, a norte!

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Entre um blog e outro*

Às vezes não compreendes o porquê, nem qual a origem deste mal-estar que nunca acaba, deste desconforto que faz com que tu sintas que há sempre algo que não está bem. Talvez porque aquilo que procuras só existe no fundo dos sonhos, num país chamado imaginação.

[* em versão eu-podia-ter-escrito-isto]

Hobbies

Tenho um novo. Estou a divertir-me com'o caraças.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Afectos XV

- Não me olhes assim.
- Assim como?
- Como se eu fosse a mulher mais bonita do mundo.

Ele sorria. Olhava-a directamente nos olhos. Ela perdia sempre. Não suportava a ideia de que ele podia ler-lhe o pensamento. Mas guardava aquele sorriso e aquelas palavras. Guardava aqueles momentos na caixinha verde alface, no terceiro compartimento da esquerda a contar da pálpebra direita. Passou o tempo. E de um momento para o outro o olhar dele mudou. Já não brilhava. Ela foi ficando. À espera de uma declaração de amor que substituísse o olhar em falta. Até que se limitou a abrir a porta e sair. Ele ficou no mesmo sítio. Não se mexeu. Ela presume que ele ainda lá esteja. Nunca veio à procura dela.

Como se me tivessem tirado as palavras da boca

Eu também quis ser repórter de guerra. Em Portugal não há espaço para isso. E, onde trabalho, o quotidiano acaba por não ser muito diferente de um dia mau em Bagdad."

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Há dias mais difíceis que outros. Em que se perde a garra. A coragem. Perde-se até a raiva. Incapaz de levantar a voz. De recriminar uma injustiça. Dirimir argumentos. Dias em que se aceita um ‘porque sim’. As frases que se odeiam. Perder o poder. A vontade. A emoção. Os sentidos. Perder a inspiração. A vocação. A inércia pela inércia. Cumprir os mínimos. Respirar. Apenas isso. E esperar que tudo passe depressa.

o 'meu' bairro

Gosto deste meu bairro. Das casas antigas. Da roupa estendida nas varandas. Do vizinho de trás que por vezes vem à janela em boxers [continuo a achar que o senhor nos poderia poupar a este triste espectáculo]. Das conversas das vizinhas. Das tascas e dos restaurantes. Gosto da calçada portuguesa, do largo com jacarandás. Gosto dos bancos de pedra, das mesas ali ao lado que convidam a jogar sueca [penso muitas vezes nos velhos do jardim da estrela quando aqui passo em dias soalheiros]. Gosto dos turistas. Dos sonos dos diferentes linguarejes. Mas gosto principalmente da familiaridade do bairro. É aqui que trabalho. Onde passo a maior parte do meu tempo. Talvez por isso me sinta em casa. Com os ‘bons dias’ da senhora do bazar. Com a família da mercearia e até com o mau humor do senhor Z. do café da frente. À parte destes não conheço a maior parte das pessoas com quem me cruzo todos os dias, mesmo assim, há sorrisos, acenos de cabeça e ‘bons dias’ como vizinhos que se cruzam todos os dias na escada.

domingo, dezembro 02, 2007

À espera

[Henri Cartier-Bresson, 1947]

sábado, dezembro 01, 2007

Dor

[a três tempos]

Pago para que me ensinem a cair. Sem dor ou ossos partidos. Por momentos eu sou eu de novo. Ensinam-me que não posso baixar os patins a dois tempos. Dizem-me para flectir as pernas, inclinar as costas. É uma questão de centro de gravidade. Faço tesouras. Sou incapaz de virar à direita. Travo. E caio. Caio como nunca cai de cima dos patins. Faço carrinhos. Rio-me. Rio-me muito. Rio com vontade. E eu sou de novo eu. Desligo o piloto automático da última semana e deixo-me ir. Sem rede. Para cair à vontade. Nem sempre nos partimos quando vamos ao chão.

Trabalho durante a tarde entre o riso do G e os enfeites de natal. Despacho em meia hora metade do trabalho que me atormenta há três meses. Sem dor.

Dói-me a garganta do frio e de gritar pelo Benfica. Dói-me a alma de pensar em tudo menos em futebol de cada vez que o número 6 toca na bola.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Greve Geral

Gostava de ter feito greve. Não queria ser funcionária pública, nem tão pouco aproveitar um fim-de-semana prolongado à conta de quaisquer reinvindicações. Gostava, simplesmente, de não ter trabalhado hoje. Serão muitos os que, como eu, tiveram hoje de levantar-se, desligar o despertador, tomar banho e pôr a chave na ignição ou apanhar o metro. Serão muitos os que não puderam, numa sexta-feira que, de manhã, me pareceu ter sol, ficar sossegados na cama por mais duas horas, tomar um chá numa esplanada ou ler o jornal na relva. Foram muitos. Mas dizem que 80 por cento da função pública pôde fazer tudo isto. Outros dizem que apenas 20 quiseram aderir à ideia. Eu não gosto de greves e não concordo com nenhuma. Mas hoje teria feito greve, se pudesse. Hoje teria dormido, teria aproveitado o dia fora da redacção, teria lido um pouco o novo Harry Potter (ainda nem comecei e apetece-me muito), teria estreado a minha máquina de imprimir fotografias. A cores. Mas não. Como numa sexta-feira normal vim trabalhar. E nem a enxaqueca matinal me fez desistir. Eu não gosto de greves. Já aqui o disse, não já? Dirão muitos que eu não sei o que é viver mal por causa do estado do Estado, que não sei o que é viver sob a égide governamental, que não sei o que é ter mínimos quando são exigidos médios. Enganam-se. Sei muito bem. As empresas privadas não oferecem melhores condições que o Estado e, nelas, temos de trabalhar mais. E não há cá concursos nem estudos que nos valham. Conta o trabalho, o empenho, a entrega e as horas que damos à casa. Greve? Eu queria fazer greve. Mas não concordo com nenhuma.

quinta-feira, novembro 29, 2007

eu não sou eu


Há cinco dias em piloto automático...

Quiosque

[ainda Santiago do Chile]

quarta-feira, novembro 28, 2007

sofrimento em formato mensal

Existe uma ligeira diferença entre 18 mil e 18 milhões de passageiros. Mas eu estava tão gira que ninguém reparou.

terça-feira, novembro 27, 2007

o natal*

[...] Ontem, a Carolina pediu para ir ver o Natal. E saímos, chave na ignição, travão-de-mão desengatado, à procura dele pelas ruas de Lisboa, já o vimos nos Centros Comerciais, nos anúncios do Intermarché, e da Pópota e Leopoldina, mas nas ruas não o encontrámos.

Procurámo-lo em Alvalade, e nada, seguimos pela Almirante Reis, tudo às escuras. No Rossio tínhamos que o encontrar, pensámos. Não. Timidamente lá o conseguimos vislumbrar na Rua do Ouro e no Chiado. Os olhos e as mãos da Carolina não se colaram ao vidro. Não deu pulinhos e risinhos de felicidade absurda. Pelo contrário, lançou:

"A Lisboa está feia, não está, mamã?", e esta pergunta doeu-me mais do que um parto sem epidural.

Não se mente às crianças, não se deve mentir às crianças, está feia sim, filha - no meio, um suspiro, uma pausa, para a voz se recompor. As mães não choram pelas luzes de Natal que não se acenderam, que este ano não se vão acender. [...]

[*Pela melhor escritora da blogosfera]

segunda-feira, novembro 26, 2007

Estás no Ar!

A primeira vez é a mais difícil, mas custa mais pensar no que se vai fazer que fazê-lo, realmente. O assunto era-me familiar e estava à vontade para falar de Rock in Rio. Sabia as datas de todos os festivais até 2014, e quam está já confirmado, e que este ano há duas edições, e mais não sei o quê, e tinha a entrevistada ao meu lado. Ao repórter de imagem pedi paciência e uma lição antes do momento H. Ao pivot pedi paciência e um lançamento simples. Ao coordenador pedi paciência e uma voz doce ao meu ouvido. Lá estava eu, bem vestida, pintada a preceito, sem brilhos que a Câmara não gosta. Lá estava eu sem ter decorado nada porque esse é um erro crasso. Lá estava, frente à câmara, passo ensaiado para a entrevista, início encaminhado e despedida na ponta da língua. Tens minuto e meio, oiço no meu ouvido. E escuto no auricular palavras ditas na reportagem que antecede a minha entrada. Contagem decrescente e a peça acaba. O pivot apresenta-me e oiço o meu nome na televisão. É agora. Sorrio. A luz fere-me os olhos mas tenho de encarar o bicho. Esqueço-me de mim para dizer o que sei e faço um ar sério, endireito-me para o ecrã, pego no microfone cuidadosamente. Estás no ar. Fala. Falo e só me calo para ouvir a resposta às minhas perguntas. E minuto e meio passa a correr. Não custa nada. Penso nas lições de quem é já experimentado, penso porque é que só agora me aventurei nesta 'vida', se há 15 anos vejo como se faz, penso que sou capaz. E sou. Fecha. O ouvido diz-me o que fazer. E faço. Obedeço à voz que me chega via éter. Volto a sorrir. Fico quieta em two-way. Saíste. E respiro fundo. O primeiro directo é que custa mais. Depois de aceitar a câmara a primeira vez tudo se faz. Os olhos abertos pela luz. O microfone a tapar a boca. Mas tudo direitionho, no dizer. Passou a mensagem. Agradeço à entrevistada. E preparo-me para o próximo. Afinal, fui mesmo capaz!

queria ser tábua rasa. folha em branco. cassete virgem sem risco sem medo memória rancor raiva ou dor.

domingo, novembro 25, 2007

A minha irmã

Hoje quero fazer um elogio à minha irmã. A melhor irmã do mundo. Nunca nos demos bem. Discutíamos por tudo. Por nada. Andávamos à porrada. Eu perdia sempre. Era uma questão de tamanho. Lembro-me de ela me agarrar pelo pescoço, os meus pezinhos abanar a centímetros do chão. Lembro-me de andarmos à bulha com sonasol verde e pasta dos dentes. De discutirmos porque uma não queria apagar a luz e a outra queria dormir. De nos batermos [mais do que uma vez] por uma camisola, umas calças, whatever...

Nunca nos demos bem. Nunca, mas nunca, soubemos estar uma sem a outra. Sempre nos protegemos nas primeiras escapadelas. Mais dela do que minhas. Fui uma privilegiada. Ela teve as brigas e abriu-me o caminho. Lembro-me da primeira noite em que ela dormiu em casa de um namorado. Devia estar a trabalhar. Lembro-me da minha mãe reparar que o despertador que ela deveria ter levado tinha ficado em casa. Do pânico de ela poder ser descoberta. Das mentiras para que nada disso acontecesse. Lembro-me das horas passadas em frente ao Spectrum. Das noites de riso interminável. Das brincadeiras sempre conjuntas. Das primeiras saídas. De ela dizer ao meu pai ‘foi o jantar que lhe caiu mal’ depois de eu descer as escadas da Assembleia para vomitar mesmo em frente ao carro. Nunca, mas nunca, soubemos estar uma sem a outra. Aproximamo-nos ainda mais quando ela casou.

A A. é uma mulher extraordinária. Separam-nos 16 meses e um dia de existência. Ela veio primeiro, e foi das melhores coisas que a minha mãe alguma vez fez na vida. A minha irmã trabalha de manhã à noite fora de casa. É altamente bem sucedida profissionalmente. Provam-no as promoções quase constantes dos últimos dois anos [e que me parecem não ter acabado]. E tem dois filhos. Perfeitos, lindos de morrer, mas cada um deles uma dor de cabeça à sua maneira. Que trata carinhosamente. Com quem brinca enquanto faz o jantar. [concedo. Tem aqui uma ajuda preciosa do marido]. A quem lê histórias antes de adormecerem. Com quem vai andar de bicicleta ao fim-de-semana. E quando os putos estão a dormir ela senta-se no sofá. E o que faz? Colares, pulseiras e afins, que ajudam a engrossar o pé-de-meia. A A. é uma verdadeira fada do lar [sim, e aqui incluem-se também todos os afazeres que uma gaja tem com a casa]. Antes da mania dos colares foram os lençóis e coisinhas para bebé. Tudo porque a minha irmã não sabe estar quieta. E quando não sabe o que fazer inventa. A A. tem mãos de fada. E tem mão para o tempero. Cozinha como ninguém. E adora ter a casa cheia. De receber os amigos com quem partilha a cozinha. A A. gosta de rir. E ri muito. A minha irmã é organizada. No trabalho como na vida. E no meio disto tudo irradia uma serenidade que eu invejo. Tem sobre ela uma aura de quem tem tudo sobre o controlo. Nas mãos da A. tudo saí sempre bem. Claro que tem os seus problemas. Tem os seus dias difíceis. Mas passa por eles com a certeza de quem sabe o que faz.

A minha irmã nem sempre concorda comigo. Mas está sempre cá para mim. Obrigada.

sábado, novembro 24, 2007

Hiroshima meu amor [iii]

Ela. - Contei a nossa história.
Esta noite enganei-te com aquele desconhecido.
Contei a nossa história.
Vês como era possível contá-la.
Há catorze anos que não experimentava o sabor do amor impossível.
Desde Nevers.
Vê como te esqueço.
Vê como te esqueci.
Olha-me.

[Hiroshima meu amor, Marguerite Duras]

o chile numa imagem

[Santiago do Chile]

sexta-feira, novembro 23, 2007

Hiroshima meu amor [ii]

Ele. – És como mil mulheres juntas...
Ela. – É porque não me conheces. É por isso.
Ele. – Talvez não só por isso, apenas.
Ela. – Não me desgosta isso de ser mil mulheres juntas para ti.

[Hiroshima meu amor, Marguerite Duras]

Hiroshima meu amor

É um equilíbrio precário. As costas contra a corrente do baloiço. Sentada de lado. As pernas esticadas sobre o baloiço da frente. Levo longos segundos a estabilizar. Espero. Se olhar agora para as páginas do livro vou ficar enjoada. Estraga-se o prazer mesmo antes de começar. O corpo almofadado por duas camisolas e o casaco do futebol. Está-se bem enquanto as nuvens não tapam o sol. Leio Duras. Tento pela segunda vez entrar na história de um amor em Hiroshima. São-me estranhos os guiões de cinema. Falta-me a imaginação para criar ambientes. Por isso só falo sobre mim. Ou então escrevo notícias. Nunca tive pretensões de escritora. Preciso da matéria bruta dos factos. Da realidade. Boa ou má. Leio Hiroshima meu amor até as mãos enregelarem. Transporto-me para a lareira. Continuo a ler até devorar todas as páginas.

quinta-feira, novembro 22, 2007

[pseudo]superioridade intelectual

Cada vez que venho à serra descubro um novo mundo: a tvi.

os tons da serra

1600 metros por debaixo da terra. E de repente a serra ao fundo. Uma enorme nuvem cinzenta, sobre um fio branco de neve, contradiz o azul profundo em redor. Há nuvens espalhadas por todo o lado, mas o sol tímido transforma-as em enormes montes brancos de algodão doce. Olho para elas à procura de algo mais. Animal. Cara. Forma geométrica. Desisto rapidamente. Não estou para jogos. Canto [desafino] o ‘In a Little While’ mais alto que o próprio Bono. Falta pouco. Não chega nem a um CD. É esta a medida de uma viagem. Três noticiários, um ‘Vertigo’ e dois ‘All that you can't leave behind’ ouvido em modo repeat. Venho devagar. Mais lentamente que o costume. Em modo de poupança de gasóleo. Entro na estrada nacional e aproveito os últimos quilómetros. Desço o vidro. O ar cheira a lareira e a frio. Do céu caem confeitos. Pedaços cor de ferrugem que se espalham pelo chão. A serra, a minha serra, está verde e dourada.

Coisas que uma mulher é obrigada a ouvir [ii]

"Lembro-me de outra conferência em que o Scolari tratou mal uma jornalista. Chamou-lhe de tudo. Se calhar a senhora é solteira e não tem marido para a defender."
José Manuel Palhaço*, pintor da construção civil in Fórum TSF

[O homem não se chamava palhaço, não fixei o nome, mas provavelmente, com comentários destes, devia.]

quarta-feira, novembro 21, 2007

meteorologia

Eu estava só a brincar. A meteorologia escusava de ser tão agressiva. De levar tudo tão a sério. O frio não precisava de ser tanto. O mercúrio não tinha de descer tão depressa, correndo o risco de partir os termómetros, confusos na rápida mudança de humores. E logo com chuva à mistura. Usar sobretudo e guarda-chuva, tudo ao mesmo tempo, ao fim de tantos meses baralha os sentidos. Faz mal a alma e à pele. Salva-me a desculpa de usar sapatos novos. A gabardina resgatada nos saldos de Verão [há coisas fantásticas] da Zara. Dar asas a uma ânsia consumista que as gajas da secção apelidam de crise de afectos. Não vale ler nas entrelinhas. É mal generalizado. Abrimos os sacos e trocamos ‘cromos’ à chegada do almoço. Continuo a encontrar as melhores pechinchas. Acho que tenho mesmo alma de pobre. Gosto de exibir o vestido curto que faz virar cabeças, não porque me fica muito bem, a meia de ligas espreitar junto da bainha, mas porque foi uma pequena bagatela. O mesmo para a mala. O casaco azul com uma enorme flor. Amanhã não trabalho. Não posso. Não tenho nada para estrear.

Devia haver uma forma simples de descrever os almoços de sushi. Mas não se fala com a boca cheia. E rir só com a mão à frente da boca. Para repetir, no sítio do costume, [no mínimo] uma vez por semana.

domingo, novembro 18, 2007

a minha saída

[metro de Santiago do Chile]

[Não me recordo do nome da estação. Já dei voltas à cabeça e à net, mas não há meio. A geografia de Santiago não me ficou nos sentidos. Apenas uma ligeira impressão de ruas que não foi suficiente para evitar que nos perdessemos no último fim de tarde. A saída de metro ficava longe do hotel, e como se não bastasse teimei em ir na direcção contrário. Andamos o dobro. ]

sexta-feira, novembro 16, 2007

Banda Sonora em versão festa de garagem

When the day is long and the night, the night is yours alone,
When you're sure you've had enough of this life, well hang on
Don't let yourself go, 'cause everybody cries and everybody hurts sometimes

Sometimes everything is wrong. Now it's time to sing along
When your day is night alone, (hold on, hold on)
If you feel like letting go, (hold on)
When you think you've had too much of this life, well hang on

'Cause everybody hurts. Take comfort in your friends
Everybody hurts. Don't throw your hand. Oh, no. Don't throw your hand
If you feel like you're alone, no, no, no, you are not alone

If you're on your own in this life, the days and nights are long,
When you think you've had too much of this life to hang on

Well, everybody hurts sometimes,
Everybody cries. And everybody hurts sometimes
And everybody hurts sometimes. So, hold on, hold on
Hold on, hold on, hold on, hold on, hold on, hold on
Everybody hurts. You are not alone

[Everybody hurts, R.E.M. Live]

Provocar

[Reuters]

quarta-feira, novembro 14, 2007

A pot belly

Fabienne: I was looking at myself in the mirror.
Butch:
Uh-huh?
Fabienne:
I wish I had a pot.
Butch: You were lookin' in the mirror and you wish you had some pot?
Fabienne: A pot. A pot belly. Pot bellies are sexy.
Butch:
Well you should be happy, 'cause you do.
Fabienne:
Shut up, Fatso! I don't have a pot! I have a bit of a tummy, like Madonna when she did "Lucky Star," it's not the same thing.
Butch: I didn't realize there was a difference between a tummy and a pot belly.
Fabienne:
The difference is huge.
Butch:
You want me to have a pot?
Fabienne:
No. Pot bellies make a man look either oafish, or like a gorilla. But on a woman, a pot belly is very sexy. The rest of you is normal. Normal face, normal legs, normal hips, normal ass, but with a big, perfectly round pot belly. If I had one, I'd wear a tee-shirt two sizes too small to accentuate it.
Butch:
You think guys would find that attractive?
Fabienne:
I don't give a damn what men find attractive. It's unfortunate what we find pleasing to the touch and pleasing to the eye is seldom the same.

Maria de Medeiros e Bruce Willis, Pulp Fiction, [1994]

terça-feira, novembro 13, 2007

Esquizofrenia

Pela janela, a mesma por onde durante a tarde entrou o cheiro a castanhas, chega agora o cheiro de sardinhas assadas. Estamos em Novembro e continua calor. Esta semana subo à serra à procura de equilíbrio. Faz-me falta o cheiro das chaminés que adocicam o ar. O aroma das lareiras. Os pinhos queimados. As labaredas. As torradas tostadas nas brasas e regadas com azeite. O cheiro do forno a lenha para o bolo de noz. O pão acabado de fazer. O javali tostado com batatas à lavrador. Faltam-me os diospiros de roer. Os cachecóis e casacos grossos. Faz-me falta o frio. Esta semana vou à procura do equilíbrio.

Banda sonora

I don’t want you to be no slave;
I don’t want you to work all day;
But I want you to be true,
And I just wanna make love to you.
…Love to you…
…Love to you…Ooooohhooh…
…Love to you…

All I want to do is wash your clothes;
I don’t want to keep you indoors.
There is nothing for you to do
But keep me makin’ love to you.
…Love to you…
…Love to you…Ooooohhooh…
…Love to you…
And I can tell by the way you walk that walk;
I can hear by the way you talk that talk;
I can know by the way you treat your girl
That I can give you all the lovin’ in the whole wide world!
All I want you to do is make your bread!
Just to make sure you’re well-fed!
I don’t want you sad and blue!
And I just wanna make love to you.
…Love to you…
…Love to you…Ooooohhooh…
…Love to you…Ooooh.

And I can tell by the way you walk that walk;
And I can hear by the way you talk that talk;
And I can know by the way you treat your girl
That I could give you all the lovin’ in the whole wide world!
Oh, all I wanna do - All I wanna do is cook your bread!
Just to make sure that you’re well-fed!
I don’t want you sad and blue,
And I just wanna make love to you.
…Love to you…
…Love to you…Ooooohhooh…
…Yeah, love to you…Ooooh.
…Love to you…

[No pasquim não me deixam ouvir "Lady Sings the Blues". Ameaçam atirar-se pela janela. Salva-se a Bobbie Gentry, com “son of a preacher man” ou “Fever” da Peggy Lee. Aos primeiros acordes de Summertime da Ella Fitzgerald, já a estagiária está agarrada à janela a dizer que salta. Mas esta foi a minha banda sonora do dia.]

domingo, novembro 11, 2007

Um pouco mais eu

Penso na noite em que fui branca e medo. Nos jogos de palavras que me transformaram em cidade africana. Em capital europeia do século XXI. Eles sem saberem que sou [me sinto] Nova Iorque. Lembro-me do riso e na incredulidade perante as palavras dos outros. Por estes dias “rejuvenesci”. Não sou eu que o digo. Mas percebo no imediato o que querem dizer. Não foi o calor primaveril do outro lado do mundo. O sol [temporariamente] abrasador. A vista do Pacífico. A poesia, de que não aprendo a gostar. Os cheiros. As avenidas largas com gente cosmopolita. A pobreza desbragada dos bairros de lata. A luz. Os espaços verdes. Passeios largos em ruas estreitas. Daquelas que deixam viver a cidade. Não foi o Lingura com os retratos dos mortos, como lhe chama a Dia, nas paredes. Muito menos terá sido a salsicha engolida a custo na mesma noite. [torna-se difícil a vida quando não sabemos ler uma ementa e seguimos conselhos locais] É bom sair da casca. Das quatro paredes do ‘open space’ do Chiado. Foram as pessoas. As conferências. A mochila pesada. Computador às costas. Escrever milhares de caracteres. Esquecer-me que estou confinada ao tamanho da página de jornal. E depois cortar para encaixar o texto. Tinha-me esquecido de como gosto disso. Como isso me faz um bocadinho mais eu. Rejuvenesço e deixo que os olhos brilhem o tempo todo.

Pag 161

Regresso à leitura de blogs para descobrir que a Isa anda a meter-me em trabalhos, desculpa, em correntes. Não gosto. Mas como é sobre livros, aceito. Diz ela para pegar num livro próximo, abrir o dito pela página 161 e procurar a 5ª frase completa. O primeiro acaba na página 115. O segundo, do qual ainda não li nem a primeira linha e que espera o fim dos assassinos do Wilson, reza assim: “Bin Laden pura e simplesmente não conseguia tolerar o facto de haver comunistas no governo de coligação” [A Torre do Desassossego, Lawrence Wright, Casa das Letras].

Estou tentada a quebrar a corrente. Mas deixo-me levar. Passo por isso à Samantha, Miranda e Charlotte. Sempre lhes dou um motivo para escrever. Os outros três leitores do Mais Cidade, podem sempre responder por comentário...

sábado, novembro 10, 2007

Inocente

Levámos mais de 20 minutos para deitá-la. Ali estava, numa camisa de noite cor-de-rosa e com umas meias quentes nos pés que estavam gelados. E, na cabeça, o duro golpe, fruto da queda daquela manhã, quatro pontos, cabelo molhado pelo sangue seco, ferida à vista, tudo à mostra por causa do cabelo fraquinho.

A minha avó de 92 anos passou um dia no hospital à espera de um TAC. Ela não vê bem, não ouve bem e está velhinha. As pernas já se furtam a um andamento compassado e custa-lhe estar de pé. Mesmo assim, uma auxiliar do Amdora-Sintra quis tirar-lhe a cadeira de rodas onde, durante horas, esperaria por um médico nas Urgências. Queriam roubar-lhe o assento. A uma velhinha indefesa. O que fazem estas pessoas que trabalham nos hospitais? O que as faz ser tão duras e incpazes de sentir algo por alguém? O que aconteceu à vocação quando se fala de profissões onde é preciso gostar do que se faz?

Não se deita do lado esquerdo porque acha que é cardíaca e não pode dormir sobre o coração. Não é. Mas não se deita sobre o lado esquerdo. A ferida na cabeça é do lado direito. Dói-lhe. Pergunta o que tem na cabeça. Digo-lhe que caiu, que levou pontos, que passou o dia no hospital. Não se lembra. Está muito cansada e olha para mim com um ar inocente. Passo-lhe a mão sobre os olhos e fico ali a fazer-lhe festas. Agradece-me os carinhos. Aperto-a com força.

A minha avó adormeceu e fiquei a vê-la dormir por uns instantes. Os velhos são como as crianças.

coincidências

conto com a escrita inteligente para escrever mensagens sem olhar sequer para o teclado. depois de teclar 'poesia' tenho escrito no visor 'sofria'. achei piada à coincidência.

Café chileno

No Chile bebe-se “Café com pernas’. E por muito que se estranhe não chega a entranhar-se. Conta a história que estes bares mais ou menos requintados foram criados durante a década de 90 para dar algum colorido à vida dos pobres chilenos oprimidos pela ditadura. O Haiti, um de muitos, é um espaço amplo, paredes-meias com o palácio presidencial, de porta aberta para a rua. De uma ponta a outra, diagonalmente à entrada, há um balcão que começa a [mais ou menos] um metro do chão. No espaço deixado vago vêem-se as pernas, sempre elegantes, das empregadas que servem cafés. Os vestidos, em azul e branco, são [muito] curtos. Mas há pudor na forma como o tecido lhes cobre o colo.

Naquele fim de tarde frio há pouco mais de duas dezenas de pessoas por ali. Encostados ao balcão, quase todos na idade da reforma. São talvez os que ainda têm memória do tempo em que está era a única forma de exercitar a imaginação. É um local turístico, mas algum pudor pelas pernas desnudas das moças, fez com que não tirasse fotografias. Arrependo-me. A realidade faz parte do colorido local e merece ser retratada. A alguns metros de distância, temos a versão menos recatada do “café com pernas”. O balcão é semelhante e a arquitectura rege-se pelos mesmos princípios. Mas aqui as pernas serão, talvez, o menos interessante. É tudo uma questão de gostos. Os tais que não se discutem. O espaço é muito pequeno e a porta está ‘encostada’ para a rua. Não há porteiro nem restrições à entrada. Lá dentro há muito fumo, mas não o suficiente que impeça de ver as mulheres, com minúsculos fios dental e saltos de 15 centímetros, que servem atrás do balcão.

Estas miúdas têm horário de função pública. Trabalham entre as 8 e as 21h [é a isenção de horário], não servem bebidas alcoólicas e ganham pelo que vendem e pelas fotografias [as que se deixam fotografar] que os turistas queiram pagar. Ninguém ficará rico por vender coca-colas e sumos de fruta... Elas não explicam – também não dizem quanto ganham de ordenado, limitam-se a sorrir quando perguntamos se é pouco –, mas calculo que a falta de álcool seja uma forma de evitar desacatos. Se querem bater que batam na mulher logo que chegarem a casa. Se não houver razão, que seja pelo facto da mesma, a mulher, não vestir aquela lingerie. E se veste, por ficar um verdadeiro estafermo!



sexta-feira, novembro 09, 2007

Ops... [ii]

Gosto de vinho chileno. E de Pisco Sour também.

Não admira que o homem escrevesse bem


[A Isla Negra não é uma ilha, mas apenas um pequeno pedaço de paraíso em frente ao Pacífico. Recebeu-nos numa tarde muito fria a ameaçar chuva. Aqui fica uma das três casas de Pablo Neruda. Não visitei a casa museu, cheia de quinquilharia. Tive pena. Haverá uma próxima?]

Te quiero

No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.
Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Tal vez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.

Pablo Neruda: Cien sonetos de amor

[Ouvido hoje em Isla Negra]

Descubra as diferenças

[Berlim, 1939 ou Santiago do Chile, quarta-feira à tarde?!]

A banda a tocar ao longe. E eu acabada de chegar, com vontade de ver tudo. A cidade, as ruas que interessam, ali ao lado pela primeira vez desde que aterrei. A estátua de Allende ali tão perto. Eu a querer fugir da comitiva. A boca seca do calor. Da antecipação. A banda a tocar cada vez mais perto e as figuras oficiais a dizerem-nos para entrar. É agora ou nunca. Está chegar a esfinge com quem não me consigo conciliar. É uma questão de pele. Empurram-nos para dentro do palácio. E eu a querer ver a praça. A querer sentir a vida. Eu de máquina em riste. A J. a dizer-me que pareço uma turista. Eu a fazer ar de ofendida. Que não. Que já mandei trabalho e mais virá logo que o homem bote discurso. O calor que aperta na sombra do Pátio de los Cañones. A banda que se cala e o homem que não chega. Agora ninguém nos deixa sair. Está calor. Tenho os lábios a ameaçar gretar, quero uma água e só me falam de protocolo. Os militares perfilados à nossa frente, mais o outro que espreita pela janela com ar de enfado. Está quente e sei que na próxima hora isto não dará em nada. A cidade que chama do outro lado do protocolo. Fico porque não tenho alternativa. Os passos que se calam sobre a passadeira vermelha. As honras militares e outros tantos salamaleques. Vou aonde não devo. Estou dentro do palácio porque tenho a mania que percebo de fotografia. Oiço a mulher em elogios de circunstância. E eu só penso em água. Passo pelos militares que se espalham pelos corredores do palácio. Chego à rua. Tenho uma boa meia hora para fazer o que quiser. Volto já.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Ops...

[...]

E agora vou dormir que o despertador toca às 7h00...

Postais do Chile

Passada a primeira prova. Escritos os primeiros caracteres que atravessarão os Andes, e depois o Atlântico, antes de serem impressos, saio para a rua com meia hora para matar a fome. É muita. O pequeno-almoço [frugal, como são todos em hotéis de duas ou três estrelas] passou há horas. Respiro fundo e deixo que se entranhe o cheiro quente dos destinos exóticos. Já ontem, mal se abriu a porta do A330, percebi que estava no ar. O cansaço, de mais de 13 horas de voo, só deixou que estranhasse o calor de Verão. Em Portugal está apenas calor, aqui é Verão [ou quase]. São coisas completamente diferentes. Vou senti-lo na pele e nos sentidos nos próximos dias.

Sento-me numa esplanada deste bairro de escritórios. Não tenho a menor noção da geografia de Santiago. Há montanhas em todas as direcções. Não me sai da cabeça a sensação de estar dentro de um ninho. Ou então de um vulcão. A cidade no meio. Aconchegada. Aos poucos, a cidade entranha-se. Facilmente me mudava para um país da América Latina. Gosto do ar cosmopolita e europeu desta cidade. Gosto apesar das tendências hitlerianas deste povo. Gosto do verde das avenidas, das árvores e arbustos em cada uma delas. Lembra-me Porto Alegre. Faz-me pensar em viagens com borboletas. Gosto dos cheiros. Dos sons. Das cores. Gosto da Plaza de Armas. Lê-se o futuro nas palmas da mão. Escolhe-se o destino em cartas de tarot, enquanto se fazem tranças em cabelos negros. Pinta-se o Che em cores garridas. A tradição espelhada na modernidade. A catedral reflectida num prédio que todos os dias se queixa porque se sente desenquadrado. Lá em cima, muitos metros acima do chão, cinco homens cobrem de verde uma estrutura metálica. Terá o Chile a maior árvore de Natal da América do Sul? As ruas repletas de gente. Gosto do ar despreocupado. Há malabaristas com bolas num parque de cidade. Casais que se comem à vista de todos. São despudorados os sul-americanos. Vi o mesmo, há uns anos, no México. Gosto dos pormenores que fotografo de cinco em cinco minutos. A S. chama-me picuinhas. Talvez. Sei que hoje tirei a fotografia que valerá por toda a viagem. E gostei.

A room with a view

[Av. Vitacura, 2929 - Santiago do Chile]

sexta-feira, novembro 02, 2007

Coisas que uma mulher é obrigada a ouvir

"Conheço quatro ou cinco tias de Cascais que se matavam umas às outras para ir a este jantar."

terça-feira, outubro 30, 2007

O petróleo a descer dos 90 dólares

E eu a decidir ir de metro para o pasquim. A deixar de fazer contas de cabeça de cada vez que vejo o preço do gasóleo. Sentada no único lugar livre, apesar de serem 10 horas, entalada entre a janela e um velho de tamanho considerável. Vai a ler o Outono do Patriarca. É da colecção do Público. Livros a cinco euros [era isso, não era?], de tradução duvidosa. Entalada junto a janela corro os olhos pelos ‘assassinos escondidos’. Volto a Sevilha. Fui à Fnac, mas não faltei ao prometido. Foi uma prenda. Disseram que a minha dor de cabeça, uma que durou mais de uma semana, tinha origem conhecida. Eu a dizer que não, que não precisava de um livro. Que tinha o que ler, que não valia a pena estar com coisas, que não ia pegar naquele. Talvez para a semana, antes de me por a caminho, que nessa altura comprava um kit de sobrevivência. E ele a contrariar-me, a dizer que tinha que ser, que não valia a pena resistir. A dor de cabeça já só aguentou mais um dia e mesmo assim foi de raspão. Sol de pouca dura. Um brufen e não houve mais agulhas espetadas sobre os olhos. Entalada junto à janela, ando pela noite de Sevilha, enquanto lá fora desfilam estações de cor azul. Saiu debaixo da terra para o vento frio de uma manhã de Outono. Chega-me a maresia do Tejo e sorrio. Entalada contra a janela perco o sentido às horas. Não sinto falta da música, das notícias, das sugestões da Evasões. Cá em cima custa-me deixar as páginas do livro. Vou contrariada para o pasquim. Arrasto-me sob um sol cada vez mais tímido. Consola-me saber que volto pelo mesmo caminho. Mais 20 minutos de leitura forçada antes de voltar para casa. Sorriu e penso que o lugar na garagem tem desvantagens. Tinha saudades dos transportes públicos. Esta semana, pelo menos, vou ler mais. A conta bancária agradece.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Sete horas

Aeroporto de Barajas, Madrid.
Voo com 5 horas de atraso. Mais duas de espera, para check in. E, em Lisboa, uma greve do handling para prolongar o tempo de recolha de bagagem.

No aeroporto, um homem com um cheiro de quem não toma banho há mais de um mês. Muito mais. Passa pela mesa e deixa um odor insuportável. Torço o nariz. Senta-se atrás de mim e reparo nele, cabelo colado à cabeça, oleoso, bebe uma cerveja. Lamento. Mas não aguento.

Oiço as palavras em castelhano com indicações anti-terroristas. Cuidado com as malas, e assim... E não deixe nada à mão de semear, olhe os ladrões. E este tagarelar no café.

Sete horas por um avião - da Vueling, ainda por cima - é muito tempo. Um desespero.

Em mãos, um relatório para apresentar ao patrão. Hoje é o último dia. Ainda não escrevi uma linha. Talvez amanhã. Ou esta tarde, durante a espera. Não me apetece, Não estou inspirada. Ele não vai gostar.

E deixei o livro na mala. Burra. Foi para o porão. Como posso ter deixado a primeira versão portuguesa de Hugh Laurie no porão? Recordo as últimas linhas de 'Viagem no Scriptorium', de Paul Auster. Já li, ficou em cima da mesa-de-cabeceira. E nada, comigo.

Sete horas à espera. E Barajas.

É coisa do Demo

É tudo para me desorientar. Só pode ser. Eu que ando há um mês a portar-me tão bem. Digo que já estou crescida. Que consigo entrar na Fnac, passear-me durante muito tempo e sair de mãos vazias. Nem mais nem menos do que levava quando lá entrei. E se levo, é só a vontade de comprar qualquer coisa. Um livro por mais pequenino que seja. Não me vergo. E não colo desejos nos pulsos, como diz a C. Já não roubo as etiquetas dos livros que quero comprar. Quadrados que depois passam do pulso para a parte de dentro da carteira. Religiosamente guardadas até ao dia que poderei dar asas aos desejos mais descontrolados. Para aqueles dias em que não há nada a fazer. Não há racionalidade. Nem falta de dinheiro que me convença. Naqueles dias em que livros trazem o oxigénio que me falta no peito. A adrenalina de um chuto. Já nem roubo etiquetas. Papelinhos que me lembram o que quero ler nos dias em que não há nada a fazer. Estou curada. Pensava eu. Depois o Zimmler volta a escrever sobre judeus. Espeta com eles exactamente em Berlim, há mais de 70 anos, quando o mundo não sabia ainda o que lhe ia acontecer. É uma relação estranha a que tenho com este inglês. Por isso é fácil resistir. Dizer que ainda tenho muito que ler. Há uma prateleira cheia de livros [quase] nunca abertos ou abandonados a meio. O pior é quando o Robert Wilson regressa com a Sevilha. Volta o Javier Falcón. É verdade que “As mãos desaparecidas” é um livro atabalhoado. Mas é Sevilha e eu não resisto àquela cidade. Mesmo quando as coisas correm mal – e podem correr tão mal. Pego naquele ‘Assassinos Escondidos’ e penso que um policial era tudo o que precisava para os primeiros dias de Outono com chá vermelho a fumegar na caneca e chocolate de caramelo ali ao lado. Cheiro-lhe as entranhas. Penso como poderíamos ser felizes os dois. Mas digo-lhe baixinho que terá que esperar. São só alguns dias. Afinal há uma viagem a caminho e alguém terá que me fazer companhia. [momentos de excepção que justificam tudo] Continuo a resistir. Com dor, mas resisto. Tanto sacrifício e penso que só podem estar a brincar comigo. A testar-me os limites. É coiso do Demo. Belzebu. Mezinhas de quem não me quer bem. Não está nas lojas, mas está escarrapachado nas páginas do Ípsilon. O mais antipático dos escritores angolanos voltou a escrever. Nem vou ler a crítica ao Pepetela. Vou passar por cima. Fingir que não vi nada. E já agora abster-me de ir à FNAC.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Anonimato

Esta é mais uma daquelas semanas em que queria ser como a Dia [era*]. Desbocada. Ou isso ou ter um blog ainda mais anónimo.

[*Eu expliquei ao J., em frente a um prato de pataniscas de bacalhau, que o culpava pelo silêncio prolongado do quintal que vivia empantanas. Imputei-lhe o crime de calar uma das ‘penas’ mais bonitas da blogosfera. Mas disse-lhe que não fazia mal. Entre duas garfadas de arroz de feijão disse-lhe que estava desculpado. É que a minha amiga está mais feliz. Isso vale mais do que muitas horas de boas leituras.]

Momento Nicola

Ela dizia-lhe baixinho ‘amo-te’. Ele puxava-a carinhosamente. Beijava-lhe paternalmente a cabeça. Ela ficava a sonhar com declarações de amor. Com o dia em que ele a beijaria a meio de uma frase.

domingo, outubro 21, 2007

A Lagartixa

Alguém me explique como se tivesse cinco anos...

1. Como é que uma lagartixa vai parar dentro da máquina de lavar, estando esta [a máquina] fechada?

2. Como é que a dita sobrevive a um programa completo?

3. Como é que consegue continuar viva [paradinha, mas de coração a bater] depois de duas centrifugações violentas?

sábado, outubro 20, 2007

Já diria Marcelo

Pode uma semana de trabalho infernal ser totalmente anulada da córtex central só porque é sábado?
SIM!
Mas é fácil fazer com que isso aconteça?
NÃO!
Uma massagem de shiatsu pela manhã pode ajudar?
PODE!
E se o massagista faltar?
NÃO!
E então três banhos de mar e duas horas ao soL, podem ajudar?
SIM!
E posso voltar a repetir amanhã?
SIM, MAS SÓ SE ESTIVER BOM TEMPO!
E segunda-feira?
SIM!
Mas é dia de trabalho. Posso telefnar a dizer que estou doente...
PODE!
Mas isso não é imoral?
É!
Mas posso fazê-lo?
PODE!

Ausência

Há tanto para dizer...
Uma viagem à Islândia, uma passagem por Nova Iorque, uma semana em Columbia...
E mudanças na redacção, uma entrevista aos Sigur Rós, outra prevista à Diana Krall. E o Rock in Rio em Madrid.

Mas há falta de vontade, neste regresso.
O sono que está mais longo, as manhãs que se fazem curtas, os dias que acabam no sofá e um bom filme para ver.

Voltarei, em breve.
Mas precisei de descanso, de tempo, de um vazio que se fez também na escrita.

Enquanto leio Lobo Antunes e Paul Auster. O mesmo Auster de quem já vi o filme.

Há tanto para dizer...

sexta-feira, outubro 19, 2007

Fim-de-semana [iii]

Espero que se acabem as últimas histórias que irão daqui para a gráfica. Hoje começa um fim-de-semana de dois dias. [Há semanas que não sei o que isso é. Salvou-me a pausa de quarta-feira.] Começa bem. Jantar de secção. O mesmo é dizer jantar de Gajas. Um único homem numa equipa de dez mulheres. Ele abandona-nos a seguir ao jantar. Depois logo se vê. Esperam-se horas de dança no “sítio em que se renova a carteira profissional” como diz a eterna estagiária. E um fim-de-semana inteiro para dormir…

A Caminho [ii]

[www.trekearth.com]

[Bloomberg]

quinta-feira, outubro 18, 2007

Tormento

do Lat. tormentu

s. m.,
acto ou efeito de atormentar
sofrimento doloroso;
tortura;
aflição;
angústia.

Ou estar enfiada no pasquim quando estou a 20 páginas de acabar o Fantasma do Hitler.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Post solar

Merecia um dia assim. Cuidar de mim. Fazer fotossíntese até a pele ficar vermelha com este sol de Outubro. O cabelo salpicado pelas ondas picadas do mar do Guincho. Um café ao final de tarde na Casa da Guia. Metade do Mailer despachado de uma assentada num prazer imenso. Não pensar no pasquim. Não querer saber. Engolir o medo. Pensar que tudo vai ficar bem. Mas isso foi depois. Depois de quilómetros e quilómetros [quase] sem destino. Música no máximo do volume. Chorar ao som dos Clã. De me lembrar da palavra dita numa noite à beira mar. De voltar a fazer a pazes com a Bethânia. É quando oiço Bethânia, aquele ‘Que falta você me faz’, que sei que vai tudo ficar bem. E vai. Não vai?

Muito a propósito

Só pra dizer que te Amo,
Nem sempre encontro o melhor termo,
Nem sempre escolho o melhor modo.

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

Só pra dizer que te Amo
Não sei porquê este embaraço
Que mais parece que só te estimo.

E até nos momentos em que digo que não quero
E o que sinto por ti são coisas confusas
E até parece que estou a mentir,
As palavras custam a sair,
Não digo o que estou a sentir,
Digo o contrário do que estou a sentir.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

E é tão difícil dizer amor,
É bem melhor dizê-lo a cantar.
Por isso esta noite, fiz esta canção,
Para resolver o meu problema de expressão,
Pra ficar mais perto, bem mais de perto.
Ficar mais perto, bem mais de perto.

Problema de Expressão, Clã

segunda-feira, outubro 15, 2007

A Moda engorda

[Declaração de interesse: Sou magra.]

A propósito da Moda Lisboa, a Notícias Magazine faz um especial sobre ‘Glamour xl’. E explica: ‘Porque nem todos têm as medidas ideais, sugestões muito fashion para quem tem uns quilinhos a mais. Tendências Outono/Inverno para todos os gostos de tamanhos’.

Vamos por partes. Cada um pesa o que quer ou pode. Engordar é tão ou mais difícil de emagrecer. E gostos não se discutem. Se todos gostássemos do amarelo esta vida era uma tristeza. Mas há limites mínimos de bom senso e bom gosto. Vestir uma mulher grande com uma mini-saia coleante uns vinte centímetros acima do joelho, quando o grande não refere necessariamente à altura, e cobri-la com um casaco tigreza e umas meias de renda é o mesmo que lhe oferecer um bilhete de metro para o Intendente. Ok. Uma corrida de táxi para a Passerelle considerando que os sapatos são Gianfranco Ferre, o que parece justificar o custo de 225 euros. O resto bem podia ir de metro. A questão é que não melhora. Na página ao lado é o decote que chama a atenção, mas passa. O problema é mesmo a soquete de algodão, verde aos losangos, bem marcado à volta do tornozelo e com uns quantos refegos, qual perninha de bebé arraçado de leitão. Não é uma questão de tamanho, é uma questão de tecidos, padrões, feitios. Não é uma questão de preconceito. Nenhuma daquelas peças ficaria bem numa mulher de 59 quilos e 1.70m. É uma questão de bom gosto.

domingo, outubro 14, 2007

Faço as pazes com Lisboa

Tenho encontro marcado para os lados da Sé. Às 16.15 impreterivelmente. Não gosto de chegar atrasada. Faço-me à estrada com tempo. Uma lucidez estranha apesar do cansaço de uma semana de trabalho de seis dias. Apesar de ainda não ter recuperado de uma quinta-feira que começou às 8h00 e acabou à 00h30 do dia seguinte. De nunca dormir o suficiente. De não conseguir adormecer profundamente. A cabeça sempre demasiado cheia. É o sol que me desperta. São as cores desta cidade num Outono adiado. Lisboa tem mais espaços verdes do que alguma vez tinha reparado. Há vida na Avenida da Liberdade. Turistas e lisboetas que desdenham dos centros comerciais. Espécie em vias de extinção que resiste a quatro paredes e respira o fumo dos tubos de escape. Há ainda mais a partir dos Restauradores. Afinal a Baixa não está sequer moribunda. Passar a semana do Chiado afasta-me destas paragens nos dias de suposto descanso. Há gente. Muita gente nos passeios à espera para atravessar. Nas esplanadas. Em frente às montras. Muitos turistas de máquina em punho. Estão bem com a vida. Deixo o carro na Praça das Cebolas. Subo com tempo e com calma. Gosto das ruelas, dos becos, das escadas escuras em túneis decadentes. Gosto das velhotas que espreitam quem passa. A roupa pendurada nas janelas. O ambiente de bairro que me lembra S. Bento. Cheira a grelhados. A peixe assado. Com tempo decido a entrar pela primeira vez no Pois, Café. Já por lá passei tantas vezes. À pressa. Hoje entro e procuro mesa. Há divãs e sofás, mesas de jantar, mesas de apoio. Escolho uma mesa de tamanho familiar [é mais fácil de abrir o Expresso], que partilho com dois casais estrangeiros. À minha frente esperam a conta. Os outros entretém-se com guias de viagens e um livro. Não consigo ver a capa. Não resisto a bisbilhotar as leituras dos outros. Há por toda a parte estantes com livros [quase todos estrangeiros] e placares de anúncios. Lêem-se livros. Joga-se às cartas. Saboreia-se apfelstrudel acompanhado de sumos de frutos. Há música e o ambiente mais ‘cosy’ que já encontrei num café de Lisboa. Não é um sítio de passagem. É para ir ficando, enquanto se vê a rua escurecer.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Dias longos

É imoral que o despertador toque quando lá fora não apareceram ainda os primeiros raios de sol. Já não é noite cerrada. Mas é demasiado cedo para o meu relógio biológico. Preciso de recuperar de uma noite de insónia. Preparo-me para o tormento que se queria mensal. Repetições antes do tempo. Estou no pasquim em menos de 15 minutos. Confirmo as maravilhas que uma via rápida pode fazer na vida de uma mulher. Desde ontem que estou mais feliz. Mais perto. Chego ao pasquim para descobrir que afinal não é assim tão mau. O coração ainda acelera. Mas as mãos tremem menos e as pernas nem me lembro delas.

[Foto: PF]
PS: Há coisas que não são para perceber. Apenas pelos entendidos na matéria

terça-feira, outubro 09, 2007

A sociedade de consumo engripou-me

Já não andava bem - clinicamente falando - mas hoje foi a gota de água.

8h30, manhã temperada.Dispo o casaco e de ombro ao léu saboreio o sol que começa a aquecer - "Há bolo rei", leio na vitrina de uma pastelaria.

15h30, ainda de ombro ao léu, resguardo-me na sombra do Martinho da Arcada. 28º graus diziam os termómetros. Numa pastelaria mais acima, os "pais natais" de chocolate ameaçavam derreter.

19h30 e está um daqueles fins de tarde de esplanada. No Cais-do-Sodré apregoam-se castanhas assadas.

E à minha caixa do correio não páram de chegar catálogos com promoções de Natal.

A minha sensibilidade diz-me que estamos no final do Verão, com um pé talvez já a entrar no Outono. Mas à minha volta querem fazer-me querer que já é inverno. E, baralhada, estou agora com uma gripe de caixão à cova. Até onde vai o poder da sociedade de consumo?

Vou fugir a dois cêntimos

Para Barcelona. Com bilhetes oferecidos pela eterna-estagiária. Obrigada.

Sonhos e pesadelos

Deito-me a pensar num email que tenho que escrever mal me sente à secretária. Escrevo e apago frases na cabeça. Viro-me de lado. Uma perna esticada, a outra encolhida. Acrescento novos argumentos. Deito-me de costas. Penso que tenho que mandar com conhecimento. Estou a entrar em parafuso. Junto os polegares e os indicadores em cima da barriga. Formo um triângulo junto ao umbigo. Li isto numa peça da concorrência. Qualquer coisa sobre a felicidade dos tibetanos. Preparo-me para deixar de pensar no que não devo. Chegam 12 horas de pasquim. Respiro fundo. O ar passa pelo fundo da garganta como a Isa me ensinou. Tento imaginar uma parede branca. Concentrar-me nela. As do quarto não servem. Tento algo com um pé direito mais alto. Nenhuma serve. As paredes vêm sempre com a estrutura que as envolve atrás. Agora estou a olhar para o CCB. E com elas imagens e pensamentos que atrapalham. Nada. Imagino-me no meu Rio. Mas o email continua cá. A raiva também. Imagino-me às 6 da manhã sob o orvalho de São Tomé. Há um imenso mar azul em frente. Há o barulho dos pássaros. Das rãs. O som da vida que desperta. Imagino-me deitada no sticky mat. Respiro cada vez mais fundo. O ar entra e sai dos pulmões cada vez mais devagar. O meu corpo está agora mais leve. A respiração mais lenta. Viro-me de lado. Junto um joelho ao peito e adormeço em paz. Hoje sonho com a praia da escada.

[No dia seguinte escrevi o mail, mas não o cheguei a enviar. As coisas resolveram-se por vias mais oficiais. A minha raiva ficou ali escarrapachada num ecrã de computador. Sem consequências de maior]

segunda-feira, outubro 08, 2007

Dizem que há uns senhores de bata branca que curam estas coisas

Tenho duas vozes na minha cabeça. São uma espécie de Grilo Falante, mas em duplicado. Vozes com desejos desencontrados. Uma espécie de anjo e demónio, se neles acreditasse. Tenho duas vozes na minha cabeça. ‘Hoje é o dia.’ Nunca estão de acordo. ‘Talvez seja melhor ponderar a decisão.’ Raramente se encontram. Mas nem por isso vivo mais descansada. A uma delas há quem chame demónios. Já me disseram para os mandar apoquentar outros. Não vão. Não arrendam pé. São capazes de se acanhar perante uma ordem mais incisiva. Deixam-se ficar num canto mais escuro. Tentam passar despercebidos. Dura pouco o amuo. Quando menos espero lá estão eles de novo. E voltam as vozes em duplicado. Cada uma a puxar para o seu lado. E as decisões duram o tempo do reinado de cada uma delas. Tenho duas vozes na minha cabeça. Mas ainda não falo sozinha.

Mulheres

O Público traz hoje a lista das 100 mulheres mais influentes do planeta. Nenhuma é portuguesa. Dá que pensar...

[Depois de ler o artigo e os argumentos, volto ao assunto.]

domingo, outubro 07, 2007

Coisas simples

Regressamos sempre aos velhos lugares onde amámos a vida. E só então compreendemos que não voltarão jamais todas as coisas que nos foram queridas. O amor é simples, e o tempo devora as coisas simples.

José Eduardo Agualusa, O Ano em que Zumbi Tomou o Rio

quarta-feira, outubro 03, 2007

Diz-me onde vais, dir-te-ei quem és

Nos últimos dois meses, e salvo semana e meia de férias, alguns jantares, bons livros e televisão/DVD, o meu hobby é ir ao Estádio da Luz.

[O facto de ter sacado do bloco para escrever este post durante o jogo também deve dizer muito. De mim, mas principalmente da qualidade do jogo.]

terça-feira, outubro 02, 2007

Outono

Ou como sair para almoçar e voltar transformada em miss t-shirt molhada.

PS: Devolvam-me o Verão!

segunda-feira, outubro 01, 2007

Não há duas sem três...

Fraquejei. Durante duas semanas não teria dúvidas se me perguntassem. Sou um rato. Cedi e voltei a ter os meus velhos amigos por companhia. O problema é que eles voltaram como se nunca tivessem partido. Donos e senhores do meu espaço. Da minha vontade. Com uma diferença. Com o prazer vieram pequenas nuances. Coisas que nunca antes me incomodaram começaram de repente a desorientar-me. Muito. Primeiro que tudo os cheiros. Em mim. Em casa. Depois a respiração. O hálito. De um dia para o outro estava a fumar tanto como se não tivesse parado. Amanhã volto a pôr um ponto final. Começo do zero com os riscos que tal decisão acarreta. As mãos desocupadas. Os nervos à flor da pele [nada de novo. com ou sem cigarros]. A ausência de uma desculpa para parar dois segundos a meio da tarde. A ‘solidão'. Já oiço o meu cunhado a dizer-me o quão amiga sou das farmacêuticas. Antes das farmacêuticas do que da Tabaqueiro. O preço é o mesmo. A diferença é que voltarei a respirar melhor. A casa voltará a cheirar a insenso. E eu vou ter muitas saudades...

Ufff

E as 9h00 solto um longo suspiro de alívio. As mãos ainda tremem. Sento-me, porque as pernas também não apram, enquanto vejo passar a imagem. Percebo onde estão os erros. Não há nada a fazer. Os nervos vencem sempre. Nada do que aconteça hoje pode ser pior do que aquilo que já passou. Agora só para o mês que vem. É um alívio profundo. Garanto-vos.

[Adenda: hoje vou para a cama [dormir!] às 20h]

domingo, setembro 30, 2007

Lições

“O que você sabe sobre o esquecimento, mais-velho? Há muitos exercícios para melhorar a memória, há até medicamentos, mas ninguém nos ensina a esquecer. Como alguém faz para esquecer?

O outro solta um riso manso.

“Tu não é daqui, certo? Tu não é brasileiro. Pela figura deve ser africano.” Suspira. “Minha avó era africana. Ela sempre me dizia que nunca se esquecem as lições aprendidas na dor. Vejo isso assim, como uma lição.”

'O ano em que zumbi tomou o rio', José Eduardo Agualusa

Tóquio

Ou como passar uma noite a rir à gargalhada até doerem todos os músculos do abdómen. Tricotar várias camisolas, numa secção de corte e costura, enquanto se dança até cair. Perceber que os Xutos escreveram a música que pode ser o meu hino de todos os didiários: A qualquer dia / A qualquer hora/ Vou estoirar, para sempre. Ter várias pessoas a apontar para mim quando a música começa... Compreender que não estamos sozinhas no escárnio e maldizer. Que há muita gente mal-fodida. Que se não o fossem a nossa vida seria mais fácil. É o mesmo sítio de sempre. Em versão melhorada pela necessidade urgente de sair de mim. O sítio onde, como diz a C., renovam a carteira profissional. ‘Quem quiser saber quem sai e quem entra dos jornais, só tem que passar por cá à sexta-feira à noite’. Um rés-do-chão mal amanhado, apertado, sem ventilação, de onde saio empestada de fumo, mas com o maior dos sorrisos. Deito-me cansada, mas feliz. Tenho que fazer isto mais vezes.

sábado, setembro 29, 2007

Estupidez feminina





Até onde pode chegar a estupidez feminina? Longe..., garanto-vos. Se não, vejamos:
Numa imagem digna de qualquer episódio do "sexo e da Cidade" cá estou eu, sábado à tarde, a fazer a ménage caseira, vulgo lide caseira porque isto da ménage sugere sempre andanças mais interessantes do que esfregar a cozinha ou descascar os lumes para a sopa que tenho ao lume.

Acabam de tocar às porta. É o senhor do supermercado com as compras e eu peço ao parceiro para o ir receber porque já não aguento dar mais nem um passo.

Cansada de esfregar? Nada disso. Mas já não me aguento em cima destes saltos de quase 10 centímetros que vieram agarrados aos meus novos sapatos lindos de morrer - como diria a Carrie - e em cima dos quais tenho passado as últimas duas horas de lides domésticas.

Estivesse eu nua com estes sapatos, uma meias de ligas e um avental e talvez até tivesse sorte nesta tarde chuvosa. Mas está frio e estamos de janelas abertas.

E enquanto não me conseguir aguentar nestes saltos sem fazer figura de gaja-parva-que-insiste-em-andar-com-aqueles-saltos-mesmo-parecendo-que-vai-dar-um-trambolhão-a-qualquer-momento resta-me continuar a usá-los em casa, ao fim-de-semana entre uma máquina de roupa e outra.

Há coisas fantásticas neste universo feminino, não há?

sexta-feira, setembro 28, 2007

O Sonho

Há sonhos quase tão antigos como o princípio dos dias. Os meus dias. Há memórias que me foram passadas. Reminiscências de outros que o tempo me impôs no cérebro. Hoje, tantos anos depois, é como se fossem minhas. Como se eu tivesse andado no planalto. Na serra. Junto ao mar. Memórias que recuperei numa versão mais distante – e noutra mais insular – muitos anos depois. Uma terra que me acolheu e onde me senti em casa. Há o cheiro de uma terra que foi minha por muito pouco tempo.Calor. Cores. Sons. Ambientes. Há um sonho que me tornou naquilo que sou hoje. Na profissão que tenho. Há dias em que penso que chegou o momento. Uma vontade do tamanho de um enorme agora-ou-nunca.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Com canetas?

quarta-feira, setembro 26, 2007

Fantasmas

Na verdade não tenho nada para dizer. Mas como toda as meninas abandonaram o barco, cumpre-me a tarefa de vos ir mantendo entretidos. Talvez pudesse falar de fantasmas. O do Hitler e o outro. Aquele com quem me cruzei um destes dias à hora de almoço. A meio de uma garfada de crepe embebido em chocolate de leite, com um pedaço de strawberry cheesecake no topo. Almoços pouco saudáveis que faço com a C. de tempos a tempos. Sabem bem grandes doses de calorias enquanto o calor que resta do Verão ainda se passei pelo Chiado. O garfo no ar a centímetros da boca e de repente lá estava ela. Demorei alguns segundos a reconhecê-la. Perdi a conta aos anos. Aos que passei sem a ver. Aos que passaram sem que me lembrasse dela. Nunca esqueci os anos em que me foi imposta. Com alguma condescendência da minha parte. Afinal os outros só magoam enquanto deixamos. Durante dois anos ‘partilhei’ com ela o mesmo homem. Partilha não é o termo certo. Pelo menos não era em simultâneo. Ou quero acreditar que não era. Ele, sem dúvida um dos homens da minha vida, tinha poucas ou nenhumas certezas na vida. E ia alternando entre as duas. Acho que dependia do lado para que acordava. Nunca percebi o que o motivava. Eu deixei-me andar ao sabor desta vontade até ao dia em que disse basta. Eles continuaram. Por uns tempos, pelo menos. Eu segui para outra vida com a consolação que ele não saiu a ganhar. Os homens da minha vida trocaram-me sempre por mulheres mais feias do que eu. Fraca consolação? Talvez. Ao vê-la por estes dias, sem um espelho por perto, tenho consciência que continuo a fazer virar cabeças. Duvido que ela se distinga numa rua cheia de gente. Acho que o R. tinha razão. Só havia um motivo para que aquele homem me trocasse por ela. Olho-a de novo quando saio da loja e penso no que ele repetia de cada vez que a víamos: ‘ela deve ser muito boa de mãos e de boca’...

Não me parece uma má sugestão

Estou a fechar o computador às 21h48, talvez o mais cedo que consegui esta semana, quando pisca no quanto inferior direito uma nova mensagem. Assunto: ‘Don't get mad, get Valium!’ Numa semana que começou no domingo e a que ainda faltam dois dias estava capaz de dar um saltinho ali à farmácia…

[E lembro-me do J.V.. Sim, eu sou aquela que passa a vida a queixar-se]

Ainda existem histórias de amor


O filósofo André Gorz, cofundador do Nouvel Observateur, e a sua mulher Dorine suicidaram- -se na segunda-feira em Vosnon. Ele tinha 84 anos, ela 83. É uma história de amor.

[...]
Dirigiu-se a Dorine, inglesa de origem, numa noite de neve, em 23 de Outubro de 1947, para a convidar para dançar e nunca mais a deixou. Ela foi atingida por uma doença evolutiva há numerosos anos. Tinham escolhido não ter filhos. André Gorz disse ao Libération em Setembro de 2006: "Em minha opinião, os bons pais são os que sentiram a falta de um pai na sua infância. Eu não tinha vontade de ser pai porque não amava o meu pai. (...) Nós os dois não temos continuidade, nem nada a transmitir. Não tínhamos de fundar uma família para lhe transmitir o que quer que fosse, porque nós próprios jamais tivemos família. Se tivesse tido filhos teria tido ciúmes de Dorine. Preferia tê-la apenas para mim."

No Público

Entre um blog e outro

Muitas vezes é numa noite de insónia que a gente abre os olhos.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Morrer de amor*

A C. diz-nos que agradece à mãe o facto de a lembrar que toda a vida jurou que morreria de amor. Diz que isso a ajuda a manter os pés na terra. Pressinto-lhe na voz alguma desilusão. Acho que gostaria que desta vez fosse a sério. Não para morrer. Apenas para ter a certeza que este é um amor maior.

Há alturas em que as ilusões - ainda que muitas não tenham um final feliz - ajudam a dar colorido à vida. Fazem-nos sair da cama de manhã. Lembro-me da primeira vez que acreditei que morreria de amor. Tinha uns 10 ou 11 anos. Não mais. Lembro-me do objecto dessa suposta morte. Não me lembro do porquê nessa altura específica. E durante uns dias praticamente não comi. Passei a acreditar que morrer de amor significa morrer de fome. A dor repetiu-se tantas vezes ao longo da vida. Achei sempre que nenhuma é tão grande como a que sentimos naquele momento. Nunca consegui por os sentimentos em perspectiva. Compará-los. Dissecá-los numa mesa de laboratório. Lembro da última vez que achei que morreria de amor. Foi a mais dolorosa das mortes. Com ela foi-se a capacidade de acreditar em histórias de amor. Achava eu. Agora, com a perspectiva que a distância permite, percebo que continuo a acreditar em histórias de amor. Há apenas uma diferença de género. Nem mesmo no grande ecrã todas as histórias acabam em drama.

[*ou um dos muitos posts que se acumulam há meses no blogger]

domingo, setembro 23, 2007

O princípio

Há um ligeiro tremor de mãos. Os olhos que não param quietos. As mãos que pensam mil vezes nos cigarros guardados na carteira. E de repente o trânsito pára. Vai lento pela lateral da avenida. Os números mudam rápido no relógio do carro. Está adiantado, mas nem isso me salvará de chegar atrasada. Desisto nos Restauradores. Agradeço os sapatos rasos e corro até à rua da madalena. Perco o fôlego na primeira subida. No Caldas tenho a certeza que vou desmaiar. O coração que pula na garganta. Boca seca. Dor de burro. Abrando o passo como quem abranda a vontade. Se chegasse realmente tarde nem valia a pena ir. São pensamentos fugazes. Há muito que não estava tão decidida a nada. A corrida seca-me as lágrimas que não param há dias. É do Outono? Talvez seja. O medo do fim.

Já estive aqui. Na noite de santos. Bebia-se cerveja e ginginha a rodos. Eu era aquela que, às 3h da manhã, continuava sóbria. A primeira a desistir. Saudades de casa. Do sofá. Da cama que se rebela quando lhe devo horas de sono [a expressão é tua. Eu sei. Está num dos primeiros mails]. Saudades de tudo menos daquilo. Daquela hora. Daquele sítio. Daquelas pessoas. Só estou bem onde não estou. Escreve bem o poeta. Talvez seja hora de lhe mostrar que nem sempre tem razão.

É um prédio branco. Mal tratado. Maquilhagem supérflua que não resguarda os efeitos dos anos. As escadas lembram as da Martinha. São apenas um pouco mais largas. Paredes descarnadas. Tinta a cair em postas. Nada ali é convidativo. Acolhedor. Ele espera-me a porta. Cabelo tão branco como a camisola de lã. Está quente ali dentro. A idade talvez lhe tenha arrefecido a carne. Convida-me a entrar. Há desarrumação por todo o lado. Os olhos fixam-se num painel de madeira. Olho sem ver. Quero começar. Acabar o mais depressa possível. A conversa vai ser longa.

sexta-feira, setembro 21, 2007

A explicação de todos os meus males

"A felicidade é um aborrecimento."

Titulo de uma peça do Ípsilon de hoje.

Alguém tem um escadote

“Às vezes os nossos desejos ficavam suspensos dos ramos mais altos das árvores mais altas e nunca conseguíamos subir o suficiente para lá chegar. Ou então esperávamos pacientemente até eles nos caírem no colo.”

in Paralelo 75 ou O segredo de um coração traído, Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira