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terça-feira, novembro 24, 2009

avózinhas

Chegou o Inverno. Parte das avózinhas dos meus amigos estão doentes. A minha tem-se safado da gripe. Amanhã temos uma sessão de fotografias para ficar para a história da família! Depois conto...

segunda-feira, abril 20, 2009

Um novo medo

Hoje senti medo de te perder. Ainda nem tinha dado conta da tua idade, da tua fragilidade, dos teus cabelos brancos. Hoje vou rezar por ti, antes de adormecer. E vou querer ver-te, amanhã. E sempre. Porque não consigo imaginar os meus dias sem ti, avozinha.

domingo, abril 12, 2009

94

Perguntou-me quantos anos eram. Uma e outra vez. Repeti-lhe a idade e no segundo seguinte esqueceu as minhas palavras. Estou muito velha, sorriu, quase nos 100 anos. Mostrei-lhe seis dedos e disse-lhe que tantos faltavam para o século. Que estava mesmo velha, repetiu. Mas que gostava de cá andar, que Deus Nosso Senhor é que sabia, mas ela gostava, pronto. Tinha uma camisola nova. Preta. Viu a flor que lhe ofereci e reconheu a planta: orquídea. Não mais se lembrou dela. Há-de regá-la, um destes dias, quando perceber que também ela pode morrer. A flor. Parabéns avózinha. 94 anos e um abraço do tamanho de um coração centenário. Com tudo o que cabe dentro de uma vida assim.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Avozinha

Fim-de-semana acompanhada. Avósitting. Só existe em Portugal, e eu faço-o. Além das provas de amor, das declarações repetidas, fica a história dos tempos em que vestia um avental branco na Rua Morais Soares. Era a criada do menino. Criada, e não empregada, nem senhora, nem mulher-a-dias. Há 80 anos era-se criada. Sem vergonha.

Sábado volto a recebê-la. Para lhe dar banho e passar-lhe as mãos molhadas pelo cabelo branco. Para vesti-la, quando já não chega lá. Para lhe servir o descafeínado que tão bem lhe sabe. E mesmo que a noite seja dividida em 10, mesmo que os olhos estejam em permanente alerta, mesmo que o sono nunca durma comigo... mesmo que a manhã me traga dores de cabeça, vale a pena ficar com ela.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Madrinha

Baptizei o meu quarto afilhado hoje (afilhada, no caso). E apesar dos estragos no orçamento, dos folares que me deixam na penúria, dos presentes por alturas do Natal, das ofertas pelo aniversário, das prendas no Dia da Criança... apesar destes gastos, e de outros, ocasionais, não há como ouvir a palavra Madrinha. E alargar as relações familiares.

domingo, março 23, 2008

Avózinha III

'Rezamos o terço duas vezes', diz-me ela. Esteve na cama até às sete e meia da tarde e, mesmo assim, prefere não se levantar. Digo-lhe que sim, que vamos sair, que vamos à Vigília Pascal, a uns 15 minutos de casa. Que vou todos os anos, que gosto, que só lhe faz bem ir comigo. Teme a noite. Tanto como o Calvin teme os monstros debaixo da cama. Pergunta-me se estamos a caminhar para a manhã, já que são oito horas e ela mal se levantou... digo-lhe que não, que a hora é nocturna e que agora só vai ficar mais escuro. A lua está cheia mas, tão alta, que não a vê. 'Cheia de quê?', pergunta-me. Sorrio. Cheia de tudo, avózinha. E a avó, cheia de medo, no percurso que nos leva de casa à Igreja, ela agasalhada, com as três camisolas mais uma interior e o manto por cima com um cachecol meu a afagar-lhe o pescoço. Reclama todo o caminho porque eu decidi tão em cima da hora, porque é de noite, porque ela está muito mal, porque é de noite, porque não dissemos à minha mãe que íamos, porque é de noite. 'Porque teme tanto a noite, avó?' Não sabe.

A Igreja está escura e silenciosa. Entramos antes de todos para que tenha um lugar sentada, à frente. Refila outra vez e diz que só pela madrugada sairemos dali. A Igreja está vazia, repara, ela que nada vê. Ouvem-se os cânticos à porta e as formas luminosas começam a entrar e a deixar ver os limites das batinas brancas. Seguram o círio Pascal, o que dá início a um novo ano litúrgico, o que marca o princípio de tudo, o que assinala a Ressurreição. Vêm aí, alerto. E todos, de velas acesas, caminham em cântico pelo centro da Igreja, dispersando pelos bancos até ali vazios. Enchem-se de ponta a ponta. A Igreja está repleta. Cantam-se Glórias. As luzes acendem-se e substituem as velas.

Toda a cerimónia é de festa. São sete leituras da Bíblia e mais o Evangelho: Da criação do Mundo à libertação do povo do Egipto por Moisés, cada momento é assinalado nesta Vigília de duas horas e meia. O apogeu acontece no Aleluia, o primeiro, em 40 dias. A avózinha canta, mas nem ouve o repique dos sinos, que acompanham as vozes e proclamam um novo dia. Recebemos uma pomba recortada, letra juvenil, diz-nos que 'O Amor venceu'. Ela dá-me a que recebeu e guardo as duas no bolso. O nosso amor também venceu.

Regressamos a casa perto da uma da manhã. Diz-me que vá devagar mas tem, agora, menos medo. Não está ensonada e admite, foi bonito! Ainda não sabe como me deu na cabeça para ir lá. Não sabe que é dos poucos momentos do ano que não gosto de perder. Digo-lhe, mas esquece-se.

Ainda dorme. Espero que acorde para lhe dar banho e seguiremos para almoçar. Agora em família. É Domingo de Páscoa, avó! Mais valia termos rezado dois terços em vez de termos saído à noite. Mais valia...

sábado, março 22, 2008

Avózinha II

Come devarinho, sem faca, enquanto beberica o sumo de pêssego. Estamos a almoçar quase às três da tarde porque, pasme-se, saímos da cama às duas e meia! A avózinha terá ido à casa-de-banho umas 15 vezes, durante a noite. É um ritual: acende a luz, vai, devagarinho, está, regressa, devagarinho, deita-se, apaga a luz. Uma e outra vez. Não irá lá fazer nada, suponho, talvez seja um vício, talvez o faça a dormir, não sei. Mas que o faz, faz. E eu acordo todas as vezes, deitada no outro lado da cama, medindo-lhe os passos com medo que tropece numa casa que não conhece todos os dias. De manhã, eu ensonada, pergunto-lhe se quer sair da cama. Diz-me que ainda não. Aproveito para recuperar da noite mal dormida e fico. Diz-me várias vezes 'Eu não sou que coma', mas componho-lhe o prato e faço orelhas moucas. Acaba por comer e pergunta-me se pode voltar para a cama. Dói-lhe a cabeça (pudera!). Deixo-a ir. O sumo de pêssego, bebeu-o até ao fim. Pede-me comprimidos de minuto a minuto. Digo-lhe que já os tomou. Volta a perguntar. Incrédula, confia na minha palavra. Tem dúvidas, esquece-se. Não é uma doença. É apenas idade: a avózinha faz 93 anos no mês que vem.

sexta-feira, março 21, 2008

Avózinha I

Dorme ao meu lado no sofá. Teve medo de chegar já de noite mas o sol pôs-se connosco já em casa. Lanchou e comeu metade do meu lanche. Ainda não me pediu comprimidos mas perguntou várias vezes se tem roupa para vestir. Entrego-a no domingo. Até lá sou a ama dela. E sabe bem.