terça-feira, abril 10, 2007

Desencontros

Era, à partida, uma relação condenada. Ela queria ter dois filhos e ele recusava-se a ter um, sequer. Não falavam abertamente no assunto, mas cada um percebia o ponto de vista do outro. Nos momentos em que a questão vinha à baila, mudavam a conversa e contornavam a situação.

Gostavam um do outro. Talvez já se amassem, até, ainda que também não o dissessem alto. Era uma relação de segredos mas quase perfeita. Não havia angústias, nem mágoas, nem discussões pendentes, nem perdões por perdoar, nem mazelas para esquecer. Mas havia uma espécie de iato nas conversas sempre que aquele assunto chegava à mesa. Ou à cama.

Ela tinha imaginado uma família completa, uma casa com crianças a brincar, sons de risos e outros que só os mais novos têm. Tinha-os imaginado a correr de um lado para o outro, a fazer perguntas ao pai que era um homem esperto, a fazer perguntas à mãe, uma mulher doce e com paciência. Ele imaginava-se sossegado em casa. Com os seus filmes e dvds, com os seus livros, com as suas coisas, sempre com ela ao lado. Mas só com ela.

Pareciam um casal feliz mas ela sentia-se incompleta.
Não sabia quanto tempo teria mais de esperar para avançar com a conversa. Às vezes, à noite, chorava baixinho, com medo da resposta.
Ele secava-lhe as lágrimas como se percebesse a razão e dizia-lhe que gostava dela. Que gostava muito.
Então, ela adormecia.
E no dia seguinte pensava em tudo outra vez.

5 comentários:

Maria disse...

No meu caso, não sinto necessidade de ter filhos. Se vierem tudo bem mas não tenho aquele instinto maternal. Tenho muito jeito para ser a mana velha, a amiga, mas mãe... hmmm... Ele basta-me. Ele e só ele.

Lurdes disse...

E não é que às vezes é mesmo assim?!?!?

Poisoned Apple disse...

Vai embora. Eles não mudam nunca. Se é essa a vontade dele e se se mantém mesmo que te ame, não vai surgir uma mudança. E se surgir, é porque decidiste levar a tua vida em frente, procurar quem te satisfizesse o desejo de ser Mãe. Ele, depois de abandonado por ti, dará o filho à que se seguir. É triste, mas geralmente é "gira o disco e toca o mesmo".
E com os anos passando, nenhuma mulher caminha para nova. Existem duas saídas: desistir dessa pessoa na esperança de que algo melhor se seguirá ou (não é bonito, não sei se seria capaz) deixar-se engravidar sem que ele saiba.

free speaker disse...

É muito complicado quando os dois não querem o mesmo da relação ou da vida...
Acho que antes de passar a decisões mais drásticas - escolher entre ele ou poder vir a ser Mãe, o melhor é conversar e ver se há a possibilidade de um entendimento... Às vezes os Homens não querem ter filhos porque têm medo de passarem para segundo plano, não querem dividir a pessoa amada com ninguém...

Se chegarem à conclusão que nenhum dos dois pode ceder, então acho urgente por em causa a própria relação.

PS: A 2ª sugestão da poisened apple até me arrepiou! Um filho tem que ser feito com o consentimento dos dois, e nunca só por um, à revelia, abusando do poder que se tem.

PS1: Adorei o texto.

Anónimo disse...

pois é, a maçã tem razão. deixa-se vir o puto que ele depois conforma-se. é a ordem natural das coisas. eu passo pelo mesmodrama só que ao contrario. eu queria ter 5. só que infelizmente sou um homem e não sei como adulterar as pilulas