domingo, fevereiro 15, 2009

Marylin

Hollywood Boulevard é um misto de realidades. Ali estão o Teatro Chinês e o Kodak Theatre, aquele que todos os anos recebe a cerimónia dos óscares. Ali se encontram os turistas do mundo, sobretudo os do mundo chinês, e ali pisam as estrelas os visitantes, os actores e músicos, realizadores e artistas que a América reconhece. No chão, a assinatura e as mãos de Clint Eastwood, lado a lado com as da rapaziada do Harry Potter, ainda miúdos, pequenos. E eis que encontro Marylin. Duas, aliás. Vestem de branco como a actriz, moram ali, ao lado do pecado da luxúria, e arriscam fotografias a troco de uma nota de dólar. Convivem com o Pirata das Caraíbas e com Chaplin, não temem King Kong e sorriem para Batman e Robin, amigos. Uma mulher de mais de 50 anos interrompe-me o olhar para perguntar porque não falo com ela, porque não entrevistá-la? Porque sim?, pergunto. Diz-me que é Marylin, Marylin Monroe. Levanto o microfone e peço-lhe que se apresente. Vira-se de frente para a câmara e actua como uma estrela de Hollywood. Está ali. Pode ser uma. E não será demasiado velha para ser assim, Marylin?, pergunto. Explode. Que Hollywood não tem lugar para velhos, que ali está há muitos anos e sempre foi ela, a diva. E que a Marylin de branco, uma delas, é até alemã. Como pode uma alemã ser Marylin? Está zangada comigo e não percebe que, para mim, ela mais parece saída de O feiticeiro de Oz. A vestimenta lembra-me Mary Poppins e a maquilhagem não se adequa. Tenho pena dela mas, ao mesmo tempo, acho-a detestável. Pergunto porque não escolheu outra personagem, já que Marylin morreu bem mais nova do que ela é agora. Nova explosão. Ela quer ser Marylin, e mais nada. Nem se atreve a pensar numa Meryl Streep ou numa Susan Sarandon. Não, são velhas para a personagem que quer investir. Escolhe por isso a juventude e a beleza que já não pode imitar. Nem mostra as pernas, nem o decote. Pintou o sinal na cara e parece-lhe que basta. Sinto que tenho matéria para escrever e digo-lhe que a vejo como uma actriz. Pelo menos, assume a realidade que já não tem.

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