Ao 17º...
Amanhã é o meu 16º dia de trabalho consecutivo...
Amanhã é o meu 16º dia de trabalho consecutivo...
Escrito por a dona da gata às 00:06 1 comentários
Marcadores: Queixas, Samantha assumidamente
Emocionam-me, os velhinhos. Não esquecerei uma reportagem sobre um lar em chamas, velhotes a serem retirados pela janela, alguns de fraldas, eu na redacção, lágrimas pela cara abaixo... Acho que foi da convivência, desde sempre, com os meus avós paternos. Ambos viveram comigo desde que nasci: no caso da minha avó, até casar e sair de casa, com 28 anos. No caso do meu avô, um pouco menos porque não resistiu a um cancro na próstata. Quando toda a gente se emociona com histórias de criancinhas eu viro-me para os velhinhos; quando toda a gente gostaria de ser útil num infantário ou numa casa de adopção, eu penso num lar ou num centro de dia. Quem sabe, no futuro, irei lá parar com o meu tempo livre, para poder dar uma mão, ouvir coisas antigas, sorrir com quem já nada tem para rir...
Oiço muitas histórias de velhinhos. São difíceis, muitos deles. A partir de uma certa idade - é verdade - regressam à infância e exigem cuidados, atenção e mimos que só um menino de 3 anos também exige. Às vezes mais. Contam-me histórias de mau feitio: idosos que reclamam com os filhos, que se dizem maltratados quando têm o melhor dos mundos, velhinhos que dizem "leva-me para um lar", avós que mentem, inventam doenças e males de alma para terem a eterna companhia dos filhos. Tornam-se pessoas egoístas, às vezes más. Sei de uma que há muito não sabe o que é viver do dinheiro que ela própria ganha. Nunca sobreviveu apenas da reforma, paga os medicamentos e nada mais: vive em casa da filha - sempre viveu - não compra alimentos, nem roupa, não paga luz, água ou telefone... Ainda assim, já na casa dos 90, reclama. Todos os dias reclama com a filha. Que não gostam dela, que estaria melhor num lar, que não a tratam bem... A filha sofre, chora, desabafa comigo e procura explicações para uma mulher que ama e de quem ouve, demasiadas vezes, "por ti o melhor era eu morrer, ficavas mais descansada...". Duro e injusto. Contam-me sobre outra. Na casa dos 80, vive com a irmã. Também ela já esqueceu muito do que devia lembrar-se. Também ela faz escolhas e, no caso, escolhe uma filha em detrimento dos outros. Também ela, injustamente. E um terceiro caso, de mais uma idosa, a viver sozinha, que procura todos os dias a visita do filho. Recusa-se a ir ter com ele, a passar os dias com ele, a estar na casa dele com a mulher que ele há anos escolheu como esposa. Porém, quere-o todos os dias debaixo das suas sais e, para isso, cria problemas, inventa mazelas, sofre sem pecisar de fazê-lo. Curiosamente todas mulheres: eis os casos de três mulheres, entre os 85 e os 95 anos. Acho que os velhotes são mais simples e mais cordiais, agradecem mais o bem que lhes fazem mas, infelizmente para eles, duram menos anos.
O que fará destas doces avós pessoas tão cruéis? Porque lhes dá a idade este direito de prejudicar, de magoar? São todas católicas. Praticam o bem na Igreja e temem a Deus. Porém, em casa, deixam que um certo "mafarrico" tome conta delas e fazem chorar quem mais as ama. Filhos e filhas suspiram e perguntam-se sobre o que mais podem fazer. Pouco ou nada, direi. Se às crianças podemos dar uma palmada e educá-las, aos velhinhos nada mais podemos fazer senão suportar, compreender, ter paciência. Custa, imagino. Mas só temos de rezar por não vir, um dia, a ser assim. E já, agora, que os nossos filhos sejam como nós... Ou como estes filhos de que aqui falo.
Escrito por a dona da gata às 10:01 0 comentários
Marcadores: Coisas que precisam de solução, Queixas, Samantha assumidamente
Não trabalho mais que 10 horas por dia. Evito fazê-lo. E tenho sempre uma voz que me chama, final do dia, estômago a dar horas, as séries à espera de serem vistas e compreendidas na televisão. Arrasto-me de manhã de uma cama quente num quarto escuro que é só meu. Sou rápida nas coisas do banho e da roupa, um pózinho na cara para disfarçar olheiras... Mas é lento o tempo que passa entre o toque do despertador e o primeiro pé no chão. Dói-me. Custa-me. Pede-me a alma que não saia dali, que retome o sono e procure um sonho que me faça dormir melhor. Ainda assim saio, levanto-me, sigo de olhos semi-abertos até ao duche que me ajuda a viver mais um dia. A partir daí, o cérebro entra em acção.
Este ritual diário que me deixa doente todas as manhãs, as reuniões que se seguem, duas horas de paleio, egos cruzados e dores de cabeça, ideias falhadas e apostas ganhas; tudo isto me faz querer trabalhar mais. Ao fim do dia, já a lua no céu, penso que não deveria regressar já a casa. Lá vem a voz de que aqui falei. Desligo o computador, não sem antes passar os olhos pelo dia seguinte, pela agenda, pelas coisas por fazer. E tudo isso levo comigo. Esqueço-me de tudo no intervalo para a refeição (a única decente do dia) e no momento do chá em frente ao ecrã. Às vezes cidreira, às vezes sabores. Sempre com mel. Se partilho o sofá fico até mais tarde naquele consumo desenfreado de episódios de um dvd genial. Se estou só, calcorreio os canais como se fosse um homem e deixo-me ficar nos programas sobre crimes e advogados, sobre famílias e mulheres desesperadas, sobre médicos e casos de urgência. E de morte.
Desisto quando o que me resta é aquele canal que tem um tipo a fazer visitas pornográficas. Boçal. Evito o livro porque não quero pensar (é pena) mas vêm-me então os pensamentos do dia. Nessa altura, às voltas na cama, experimentadas todas as posições de descanso, o meu cérebro actua como se o duche estivesse de novo a molhar-me. Faço contas e balanços, planos e previsões; penso no que fiz e no que devia ter feito, no que disse e no que devia ter dito. Penso nas pessoas a quem não telefonei, imagino ideias para os dias seguintes, organizo um mapa que é tanto de trabalho como de complicações. Quando, finalmente, adormeço, estou já esquecida da razão que me levou a pensar em tudo. E isso obriga-me a fazer tudo de novo, no dia seguinte.
Escrito por a dona da gata às 20:31 0 comentários
Marcadores: Coisas que precisam de solução, Queixas, Samantha assumidamente
Vomitei o jantar. A cabeça a andar à roda. Tremo de frio. É preciso sofrer tanto por causa de uma diferença de 3 horas?
Escrito por a dona da gata às 00:37 1 comentários
Marcadores: Queixas, Samantha assumidamente, Viagens
Dobro os 35 anos com problemas da adolescência. Olho para o espelho e não gosto do que vejo. Reparo nas rugas junto à boca, de expressão, talvez de sorrir, talvez de chorar. Vejo as sobrancelhas coladas ao olhos, recortadas numa forma que me aborrece. O cabelo desfiado e fraco, com um corte que nunca me agrada; a pele rosada onde e quando não deve. Sinto o peito descaído mesmo sem ter amamentado, e cai sobre as dobrinhas da barriga - 3, conta o R. com graça - e pareço uma mulher que nunca andou direita, erecta. Os meus pés são horríveis e as mãos têm demasiadas peles à volta das unhas. Ancas largas, rabo alargado pela gordura acumulada. Joelhos grossos e pernas com celulite. Já lá vai o tempo em que havia uma ou outra coisa que gostava em mim. Já lá vai... O R. diz-me que temos de trabalhar a minha auto-confiança. Mas para mim isto é apenas um retrato da realidade. Eu nem leio revistas de moda e afins mas, confesso, quando uma me passa pelos olhos fico pregada àqueles corpos delineados, àqueles rostos bonitos, àqueles cabelos soltos e saudáveis. Mesmo que haja um pouco de photoshop, alguma coisa tem de ser verdade. A S. foi há pouco tempo capa da GQ. Está linda. Mesmo. E ela é assim: bonita, calma, doce, uma mulher dos diabos! Podia não me importar com isto, mas quando o espelho me reflecte penso duas vezes. Não é por causa dos outros. Se gostam de mim, ou não. Porque gostam, eu sei. É por causa de mim. Por causa do meu olhar, por causa da minha postura perante o que sou. E o que sou, assim à vista, é muito pouco...
Escrito por a dona da gata às 18:01 5 comentários
Marcadores: Queixas, Samantha assumidamente
Estou ainda fresca para falar deste assunto. Sou contra, completamente contra, o acordo ortográfico. A S., que vive no Rio há 3 anos, decidiu tirar lá um curso de Jornalismo. Na Faculdade, foi aplaudida pelos professores e um exemplo para os colegas por 'falar tão bem português'. Pediam-lhe que repetisse palavras, que pronunciasse frases, que deixasse os sons de sotaque português de Portugal fluir. Mas, pelos vistos, não chega! Bem sei que eles são muitos mais. Bem sei que, só o Rio, o Estado do Rio, tem mais habitantes que Portugal inteiro, mas, ainda assim... Nós teremos de alterar cerca de 5 por cento da nossa escrita. Para eles, nem chega a meio por cento. Porquê? Porque os brasileiros têm mais dificuldades? Porque, na geral, são mais iletrados? Não me parece! Eu gosto de escrever baptismo com p, acção com dois c. Gosto. Eu gosto de uma escrita que não é óbvia, que não se ouve, que se sabe para além do que se diz. Eu gosto. Mas não. Já aí estão os dicionários, os apêndices, as ajudas para saber, daqui a 6 anos, escrever uniformemente. Bolas. Terei de adaptar-me. Mas sou contra. Imaginem as crianças que agora aprendem a escrever. Vão ter erro se escreverem ótimo. Mas, temos de ensinar-lhes, daqui a meia dúzia de anos terão erro se escreverem óptimo. Coitadas. Que confusão. Para quem a escrita faz parte da vida isto é muito importante. Se eu fosse revisora de um jornal fazia-me de esquecida e deixava passar as letras que não se ouvem. Os mudos também não falam e comunicam. Fazem-se ouvir. Assim são as letras silenciosas...
P.S. A RTP fez uma peça miserável sobre este assunto. A jornalista fez de conta que estava numa aula de português e ia tirando dúvidas de português. Péssima. Vi no avião. Porque é que deixaram de ter as notícias da SIC, na TAP?
Escrito por a dona da gata às 17:47 4 comentários
Marcadores: Queixas, Samantha assumidamente
Mais de 40% do meu prémio de produtividade foi para o Estado. Como se lhe devesse o facto de trabalhar muitas horas por dia. Como se lhe devesse o facto de pagar impostos todos os anos. Como se lhe devesse o facto de cumprir a minha função. É o chamado Estado de Direito. Direito a nada.
Escrito por a dona da gata às 09:48 2 comentários
Marcadores: Queixas, Samantha assumidamente