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sexta-feira, junho 22, 2007

Mais aborto

O bastonário da Ordem dos Médicos quer centralizar numa única lista o registo nacional dos objectores de consciência. A medida é previdente. Pedro Nunes conhece a classe e quer evitar situações em que um médico é objector no serviço público e não o é no privado. Resta saber, se a medida for avante, se as clínicas que andam a pedir licenciamento à DGS para poderem realizar interrupções voluntárias da gravidez continuarão a ter médicos disponíveis. É que no serviço nacional de saúde os objectores de consciência rondam os 60%...

Aborto e taxas destabilizadoras

[Declaração de interesse: votei sim no referendo]

As mulheres que queiram interromper uma gravidez até às dez semanas vão estar isentas de pagamento das taxas moderadoras. A notícia vem no Público de hoje [depois da publicação da regulamentação da lei], com a garantia do ministro da Saúde.

Não deixa de ser irónico que num País em que se gastam anualmente cerca de 8 mil milhões de euros com a Saúde, com um Governo socialista que impôs o pagamento de internamentos e cirurgias realizadas nos hospitais públicos [o ministro da Saúde chama-lhes ‘taxas de utilização’], se venha agora dispensar de qualquer pagamento uma intervenção cirúrgica que será sempre realizada a pedido da mulher. Consta que ao abrigo do regime de isenções previsto para as grávidas... Grávidas que pelos vistos não o querem ser. Então para quê dar-lhes um privilégio inerente à condição que condenam?

Vale a pena ressalvar, e antes que me caiam em cima, que não estou contra este suposto privilégio por achar que a gratuitidade levará mais mulheres aos hospitais para interromper uma gravidez não desejada.

Sou a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidezi. Mas haverá necessidade de ser mais papista que o papa? Porque obrigar todos os contribuintes a pagar para resolver uma situação que é pessoal? Quem me paga a mim as pílulas e os preservativos que sempre usei para evitar gravidezes indesejadas? Ok. Concedo que esta visão pode ser minimalista e pouco séria. Então vejamos a coisa por outro prisma... Mas nem vale a pena irmos pelo discurso das filas de espera, das consultas no privado...

A vacina contra o Papilomavírus Humano (HPV), que pode provocar o cancro do colo do útero, está à venda desde o início do ano. Está indicada para raparigas e mulheres que ainda não tenham iniciado uma vida sexual activa e os estudos dizem que é altamente eficaz (quase em 100%). A vacina custa 481,35 euros [são três doses a 160,45 euros cada]. Foi o mesmo Governo, que agora vem dizer que os abortos são de borla, que não autorizou a inclusão da vacina no Plano Nacional de Vacinação, que permitiria às mulheres ter acesso gratuito à vacina. A interrupção de uma gravidez, por método cirúrgico, custa ao Estado entre 830 e 1.074 euros...

Dois pesos e dois medidas para questões de saúde pública que tenho muita dificuldade em perceber...

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

"Os 'tanto' faz"

Ontem a caminho de casa com os números conhecidos da abstenção às voltas na cabeça [às 16h era bom de ver que o referendo não seria vinculativo]. A pensar nos números e a sentir-me revoltada contra este povo de acomodados. Pensei em escrever um post sobre o assunto. Hoje leio a Isabela. Não podia estar mais de acordo. Com ou sem vitória do ‘Sim’ há coisas que precisam de mudar. Esta é uma delas.

domingo, fevereiro 11, 2007

SIM

A caneta escorregou para o sim como se já soubesse a minha intenção de voto há muito tempo. Nem me deixou ler e reler a pergunta que fala de despenalização e de interrupção voluntária da gravidez. Eu deixei-a fazer a cruz e dobrei o papel em quatro. Levei-o à urna, assim, dobrado e saí com os cartões na mão e a sensação de dever cumprido.

Eu votei sim no referendo. Por esta hora, não faço ideia se ganha o sim, se ganha o não. Tudo é, ainda, possível. Mas eu votei sim porque me parece que o não é um voto de atraso, hipócrita, e sem razão de ser nos dias que correm. Eu não sou a favor do aborto, não sou a favor da morte, não sou a favor de uma escolha incoerente e sem responsabilização. Mas sou a favor do respeito pelo acto de ter um filho; sou a favor do amor absoluto por uma criança, sou a favor de uma mãe feliz. Por isso votei sim.

Esta é uma discussão que nunca mais acaba. A abstenção dirá isso mesmo. Há muitas dúvidas, muitas pessoas que se ficam, sem saber que opção tomar. Porque é uma responsabilidade maior votar num referendo. Não quero aqui deixar mais explicações, convicções ou propaganda. A minha caneta - que estava pendurada na mesa de voto - sabia bem o que escrever, onde escrever. E o sentimento de que fiz o que estava certo vem dessa leveza, dessa forma rápida como a cruz se desenhou naquele quadrado. A minha consciência soube o que fez.

terça-feira, janeiro 09, 2007

IGV

sábado, julho 08, 2006

Ainda o aborto... [II]

Vidas de cão

A Clara ia fazer, dia 8 de Agosto, 25 anos. Alegre, sempre alegre. Terminou o curso e começou a trabalhar. Vivia há seis meses com o namorado e tinha o casamento marcado para Março de 2007.

A Clara ficou grávida há pouco mais de um mês. Ela e o Paulo conversaram sobre o assunto e, nesta fase, ambos a iniciarem as suas vidas profissionais, um bebé "não vinha nada a calhar".

Foram os dois a uma parteira conhecida de uma amiga, para a Clara fazer um aborto.

O funeral da Clara foi há dois dias.

Podia aqui escrever imenso acerca deste assunto. Sinceramente, neste momento não me apetece. Esta notícia chocou-me tanto, mas tanto, que vou aguardar que o nó na garganta me passe e, depois, retomá-lo-ei. Até pela Clara, por todas as Claras que ainda podem morrer neste país de hipocrisias instaladas.

Vergonhoso.


[in Cão Com Pulgas via Trafuncas]

quinta-feira, junho 29, 2006

Ainda o aborto...

Católica, na altura muito praticante, também eu votei 'sim', pela despenalização, em 1998. Nunca fiz nenhum ãborto e espero, claro, nunca ser confrontada com essa situação de ter de optar, e decidir, talvez contra todos...

Mas uma vez, em tempos idos que me conduzem à casa dos 20, emprestei oitenta contos a uma amiga. Ela tinha engravidado, por 'azar'.

Tinha sido um caso daqueles imperdoáveis. Primeira vez, namorado fresquinho, gravidez na primeira relação que, claro, 'apaixonadamente' não tinha sido protegida. Pagou-me em três prestações, o que já dá para ver como estava a vida dela. Já trabalhava e tinha um ordenado - curto, pois - uns pais fora de Lisboa - distantes, pois - e uma casa para manter. Tinha pouco mais de 20 anos e era uma rapariga consciente, boa pessoa e de poucos namoricos (para evitar aquelas teses do 'andam com todos'...

Eu fui confrontada com o pedido. Aceitei sem pensar duas vezes.
Não sei porquê. Talvez por ver aquele pânico todo e não ser aquele o olhar que reconheço numa grávida disposta a ser mãe.

E depois votei sim, com a mesma consciência.

É o que farei, para a próxima.

A favor da despenalização. A favor do voto.

Se Sócrates cumprir o prometido, se Cavaco Silva lhe fizer a vontade, em Janeiro teremos novo referendo à interrupção voluntária da gravidez (IVG). O meu voto – obrigatório – é inquestionável. Tal como em 1998 votarei a favor da despenalização.

Não defendo o aborto. Defendo que as mulheres não devem ser julgadas em praça pública por aquilo que devia ser um direito. Àqueles que defendem o direito do feto, só posso dizer que a proibição de um aborto seguro viola os direitos da mulher à vida, à liberdade e à integridade física.

Não defendo o aborto como medida contraceptiva. Condeno quem se recusa a tomar a pílula ou a usar preservativos e depois, quando o mal está feito, resolve o problema com mais um ‘desmancho’, como se chamava no tempo dos meus pais. Acredito que os ‘azares’ acontecem. E que nenhum casal – sim, estamos a falar [idealmente] de uma decisão que deve ser conjunta, e recuso a ideia peregrina defendida, se não estou em erro, pela Ana Drago que ‘na minha barriga mando eu’ – deve ser obrigado a trazer ao mundo uma criança que não poderá criar com dignidade. Defender o direito à vida passa por recusar que haja crianças mal tratadas, evitar que existam ‘Vanessas’ ou ‘Joanas’. Defender o direito passa por criar condições de segurança económica, educativa e acima de tudo, por dar Amor.

Nunca tive que fazer um aborto. Não sei o que faria se me visse confrontada com essa situação. Mas conheço muitos casos. Há um que nunca me saíra da cabeça. Uma mulher na casa dos trinta, católica praticante, com duas filhas pequenas, a trabalhar ‘de sol a sol’, que no momento de decidir não teve dúvidas: antes educar, sustentar, criar duas crianças com dignidade, do que pôr no mundo uma terceira, correndo o risco de por em perigo o saudável desenvolvimento das duas que já existiam. E não me venham dizer que onde comem dois, comem três!

É verdade que antes de despenalizar a IVG era urgente pôr em prática políticas de planeamento familiar responsáveis. Educar mulheres e homens que despertam agora para a sua sexualidade, mas também mulheres e homens na idade adulta que nunca foram educados nas mais elementares regras de saúde pública, porque em última análise é disso que estamos a falar. O problema é que passaram oito anos desde o primeiro referendo e os abortos clandestinos continuam a acontecer. Diziam-me ontem que fazer um aborto em Portugal, com o mínimo de condições, custa em média 1.200 euros, em Espanha não ultrapassará os 300. Com a diferença de que as mulheres com capacidade para atravessar a fronteira trazem na bagagem medicação para uma recuperação eficaz.

Passaram oito anos desde o primeiro referendo. E gostava de saber o que fizeram durante este tempo os movimentos pró-vida para mudar as condições de acesso às consultas de planeamento familiar. O que fizeram para melhor as condições das crianças que nasceram sem que os pais pudessem assumir a sua educação e, principalmente, o seu sustento.

Não defendo que se repita o referendo as vezes que forem necessárias para que vença o ‘Sim’. Nem que os defensores do ‘Não’ venham depois exigir novos referendos. Defendo apenas que se cumpra a lei. Em 1998, o ‘Não’ ganhou com 50,07% dos votos. O ‘Sim’ teve 48.28%, com uma abstenção de 68,11%. Ora, a Constituição da República Portuguesa é clara: “O referendo só tem efeito vinculativo quando o número de votantes for superior a metade dos eleitores inscritos no recenseamento”.

Faça-se um novo referendo, consciencializem-se mulheres e homens de que todos têm uma palavra a dizer. Evitem-se situações como as que aconteceram há oito anos em que mesas de voto não chegaram a abrir por falta de comparência dos elementos convocados. É preciso que as pessoas percebam que a decisão está nas suas mãos. Não se trata de escolher tecnocratas que vão decidir por nós, que legislam por nós. O que está em causa é uma matéria que mexe com a vida de cada um de nós. Cada voto – a favor ou contra – é imprescindível para que se cumpra a lei.

Faça-se um novo referendo. Pela minha parte, prometo respeitar qualquer resultado.