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sexta-feira, maio 29, 2009

alentejo em diferido

Queria os 40º graus do Alentejo, mas em passo lento. A vida em formato ‘leve-leve’. Queria campos de girassóis para me perder, não para os ver da janela do carro num relance. O dia começou demasiado cedo, serão 700 quilómetros bem medidos que vou sentir em todos os músculos das costas, das pernas, dos braços. Queria vinhas a perder de vista, a terra a gretar sob o céu escaldante, para me sentar à sombra de uma azinheira, comer uvas frescas e ouvir o chilrear dos pássaros. Acelero, prego a fundo o tempo inteiro, o conta-quilómetros a chegar aos 180 e eu a ter flashes despropositados, imagens felizes que saltam da caixinha verde alface, a atenção a fugir da estrada, a cabeça a ir ao tapete. Queria os campos queimados do sol para me deitar sobre um céu azul muito forte que obriga a fechar os olhos. Vou de um lado para o outro, mais de 100 quilómetros de cada vez, engatar a terceira, a quarta, a quinta, o carro que não dá mais. Queria Beja para me perder nas ruelas, andar devagar, parar em cada esquina, fotografar, ficar apenas a olhar, sentada numa esplanada de livro na mão. O dia é demasiado longo. É noite quando chego a Évora, no calendário é outro dia quando regresso a Lisboa. O cansaço convertido em lágrimas. Queria o Alentejo para ser feliz, não para me moer de pancada.

quarta-feira, março 18, 2009

sofrimento em formato mensal [vi]

Bem ou mal hoje pareceu-me uma brincadeira de crianças...

domingo, fevereiro 08, 2009

fora de prazo

uma mulher percebe que está de facto exausta quando quase adormece na marquesa enquanto lhe fazem a depilação.

terça-feira, dezembro 30, 2008

sofrimento em formato mensal [v]

e pode dizer-se asneiras em blogs de família?

sexta-feira, dezembro 19, 2008

sofrimento em formato mensal [iv]

Existe muito de tortura chinesa no toque de um despertador às 7 da manhã. Principalmente quando lá fora está ainda noite cerrada e o dedo grande do pé congela no momento em que sai de debaixo do edredon. É tratamento de choque. Salto da cama no exacto segundo em que abro os olhos, com a certeza de que se os fecho não volto a acordo. Que falto ao sofrimento em formato mensal e provavelmente ao resto do dia. Há muito de tortura chinesa na voz do locutor da TSF que diz, com o ar mais normal do mundo, ‘estão cinco graus em Lisboa’.
Já não é noite cerrada quando abro a porta de casa, mas – de certeza que ali no meio devem estar agentes da Scotland Yard ou Mr. Sherlock Holmes, himself – não veria um elefante à frente nem que o mesmo estivesse sentado em cima do carro no momento em que abro a porta. O resto é a história do costume. Carros, muitos carros, até ter o privilégio de estacionar o carro numa garagem em pleno Chiado. Subir o elevador a dizer mal da vida e do gajo que teve a ideia peregrina de inventar certas coisas. É receber o telefonema do M., diz que sim, que sou eu, sim podemos falar disso, ou então do Benfica, mesmo que o Benfica tenha perdido ontem na Luz, um jogo a que faltei apesar de ter bilhete para camarote, até o Benfica seria melhor do que empréstimos e taxas de juro. Depois são três minutos sentada, como se estivesse de castigo, encostada um canto com orelhas de burro, só que agora tenho uma câmara à frente e um auricular nos ouvidos, testar a voz, contar até 20 ou falar do perfume da Burger King, consta que é de homem e cheira a carne grelhada com um certo toque de Ketchup, esperar até receber o sinal, dizer o que tenho a dizer, rápido, muito rápido, sempre em pânico, as pernas a tremer e a garganta seca. Não demoro mais de minuto e meio, obrigada, adeus, até à próxima, que seja só daqui a uns meses, mesmo quando sei que é já dentro de dias.

quarta-feira, agosto 20, 2008

meu [muito pouco] querido agosto

Não me lembro quando ou como nasceu a ideia de gostar de trabalhar em Agosto. Há aquela coisa de ter a cidade deserta, de não apanhar trânsito, de ser fácil arranjar lugar para estacionar mesmo no centro de Lisboa, de ficar por cá quando todos partem, de ter esplanadas vazias, de percorrer as ruas com o sol abrasador. Mas depois há o lugar na garagem, por isso que se lixem os lugares para estacionar na rua, não há tempo sequer para um café de fugida e de nada servem as esplanadas vazias, e não há ninguém do outro lado para atender os telefones que tocam insistentemente, e quando há não se aguenta a resposta, o desculpe não dá estou de férias, estou com os miúdos na praia, num almoço com amigos [mesmo que sejam já cindo da tarde], numa viagem no estrangeiro, não há quem faça negócios, quem mexa uma palha e faças as coisas acontecer. Trabalhar por estes dias é um verdadeiro tormento e já não faço ideia porque raio gosto de trabalhar em Agosto.

sexta-feira, julho 04, 2008

profissão a quanto obrigas

"Uma gaja de vestido a falar com os bombeiros é capaz de sacar notícias. Vou é ter que rapar um frio do caraças por causa disso".
A.B.

terça-feira, março 18, 2008

Estados d'Alma [xi]

Em modo 'panela-de-pressão' sem água.

segunda-feira, março 17, 2008

sofrimento em formato mensal [iii]

Não, não dou autógrafos!

[O meu clube de fãs: 'Falaste muito bem e estavas linda', G., 4 anos]

sexta-feira, março 14, 2008

Mudança.


Almoço com a G. numa esplanada do Chiado. Risoto de tamboril sem queijo. Nada de especial. Para a próxima mantenho-me fiel e escolho a tosta de salmão. Mudar nem sempre é bom. Almoço com a G que um dia se cansou do ram-ram de todos os dias e que fez o que muitos gostariam. Simplesmente mudou sem pensar um segundo, sem olhar para trás. Em três anos nunca a vi tão feliz. Bonita. De bem com a vida. Tranquila. Mudou de vida, de continente por uns meses. Arriscou. Falamos da experiência. Do que fez nestes seis meses em que não deu notícias. Explica-me porque não o fez. Falamos da mudança radical. Do quanto preciso de lhe seguir as pisadas. Dos gastos. Da mentalidade pequeno-burguesa que nos leva a apegarmos ao conforto material. Que nos prende. Que não deixa arriscar. Dos dias em que nos perguntamos porque não mudar. E nenhuma resposta nos sai dos lábios. Ela conhece os meus sonhos. Sabe que daria tudo para estar agora no lugar dela. Mas ela apenas chegou onde chegou porque ‘estava no sítio certo à hora certa’, diz-me no meio de uma gargalhada. Insiste que foi pura sorte. Eu sei que não. Que trabalhou para isso. Ainda existem algumas nuvens, muito altas, muito ténues no olhos da G. Mas sei que vai correr tudo bem. Há poucas mulheres com a fibra da G. Despedimo-nos sob o sol quase primaveril. Abraçamo-nos. Prometemos não estar tanto tempo sem nos vermos. Desejo-lhe boa sorte. Desço a rua a pensar quando será o meu dia?

quarta-feira, março 12, 2008

tecnologia

Os jornalistas portugueses andam cada vez mais sofisticados. Há uns tempos fui com uma estagiária ao Parlamento que esteve umas três ou quatro horas a trocar sms. Hoje sentei-me ao lado de um jovem que esteve mais ou menos o mesmo tempo dedilhando no msn [vulgo messenger] com uma loira oxigenada.

[a gerência pede desculpa pelo desinteresse do tema, mas não se passa nada]

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Telefonemas

Já perdi a conta aos telefonemas que atendi desde que aqui cheguei às 8h30. De cada vez que do outro lado me dizem ‘posso falar com a Carrie’ a minha vontade é responder ‘não está. Acabou de se demitir’. Breves segundos de hesitação impelem-me para a resposta politicamente correcta. A alternativa seria começar a atender todos os telefonemas com frases como ‘fala do talho almeida’, ‘Retrosaria Almerinda, boa tarde’, ‘Florista Gertrudes, faça o favor de dizer’.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Onde pára o tempo?

Andam a roubar-me o tempo. Tiram-me voltas do relógio. Os ponteiros saltam minutos. Calculo que quartos de hora inteiros. Andam a roubar-me o tempo e já nem falo do tempo que roubo à vida. Há um ano o dia dava para tudo. Hoje não sei por onde se perdem as horas. E fazem-me falta os dias que se esfumam. Falta-me tempo para os jornais. Salva-me a TSF. Tempo para ter paciência. Para ouvir com atenção as pessoas que trabalham à minha volta. Ando exausta com o corrupio constante. Falta-me tempo para ser perfeccionista. Organizo-me. Faço listas. Aponto tudo minuciosamente na agenda. As horas, dos dias que nunca mais acabam, que se esticam das 10 da manhã às 10 da noite, não dão para nada. Onde pára o tempo?

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

[...]

Três anos de open space laranja são muitos anos.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Saída de emergência

Olho para o relógio quando já passou a hora do almoço. Quando já fechou a mercearia, onde compramos água, fruta e coisas várias fora do prazo. Já fechou a mercearia. O Alcobaça nem chegou a abrir. E a preguiça de descer o Sacramento não me deixa levantar da cadeira. Olho para o relógio quando a hora do jantar é já uma miragem. Desço à garagem e pela primeira vez esta semana não oiço os números do euromilhões quando dou à chave. Têm sido assim todos os dias. Sempre o mesmo anúncio. A mesma gaja a repetir os números num altifalante de aeroporto. E todos os dias a sensação que aquilo é um sinal. Amanhã jogo. Entro no carro com a certeza que quando chegar os putos estarão a dormir. Que não terei um sorriso dos que fazem tudo valer a pena.

Acelero na Avenida enquanto faço ‘contas’ de cabeça. Penso que nada pode correr assim tão mal. Tem que haver uma explicação. Tem que haver uma fórmula para evitar tanta trapalhada. Isto não é vida. O caos não é vida. Pelo menos de forma permanente.

Penso que encontrei a Dia de passagem. Tentou contar-me, na janela de vizinha virtual, como ‘nada de extraordinário lhe acontece’. Na versão da Dia isto quer dizer que tem mil histórias para encaixar em posts. Gostava tanto que voltasse a escrever. Faz-me falta o ritual diário de lhe visitar o quintal antes de mais nada. Diz que tem a casa cheia de fantasmas. Sempre gostei dos fantasmas da Dia. E de repente percebo o quanto lhe sinto a falta. Das noites passadas à frente de uma garrafa de vinho e um maço de cigarros. Da esquizofrenia das conversas de adolescentes. Dos amores desencontrados. Até chegar o João. Tenho saudades da Dia, que mal vejo desde que casou. Culpa minha. Do trabalho que me consome os dias e a paciência.

E sem que dê por ela lá estão outra vez os cenários do caos. Como é possível não haver uma solução? Para já aproveito a luz de saída de emergência. E um casamento torna-se de repente no melhor programa de que me consigo lembrar[*]. Contento-te com um interregno de 48 horas. Domingo estou de volta. Mas amanhã vou para a praia. Ainda que só por umas horas. Ainda que arrisque um cancro de pele. E à noite bebo até cair.

[*]A minha imaginação é maior que isto. O meu nível de exigência também. Mas foi a única forma de me escapar num dia de semana.