domingo, setembro 30, 2007

Lições

“O que você sabe sobre o esquecimento, mais-velho? Há muitos exercícios para melhorar a memória, há até medicamentos, mas ninguém nos ensina a esquecer. Como alguém faz para esquecer?

O outro solta um riso manso.

“Tu não é daqui, certo? Tu não é brasileiro. Pela figura deve ser africano.” Suspira. “Minha avó era africana. Ela sempre me dizia que nunca se esquecem as lições aprendidas na dor. Vejo isso assim, como uma lição.”

'O ano em que zumbi tomou o rio', José Eduardo Agualusa

Tóquio

Ou como passar uma noite a rir à gargalhada até doerem todos os músculos do abdómen. Tricotar várias camisolas, numa secção de corte e costura, enquanto se dança até cair. Perceber que os Xutos escreveram a música que pode ser o meu hino de todos os didiários: A qualquer dia / A qualquer hora/ Vou estoirar, para sempre. Ter várias pessoas a apontar para mim quando a música começa... Compreender que não estamos sozinhas no escárnio e maldizer. Que há muita gente mal-fodida. Que se não o fossem a nossa vida seria mais fácil. É o mesmo sítio de sempre. Em versão melhorada pela necessidade urgente de sair de mim. O sítio onde, como diz a C., renovam a carteira profissional. ‘Quem quiser saber quem sai e quem entra dos jornais, só tem que passar por cá à sexta-feira à noite’. Um rés-do-chão mal amanhado, apertado, sem ventilação, de onde saio empestada de fumo, mas com o maior dos sorrisos. Deito-me cansada, mas feliz. Tenho que fazer isto mais vezes.

sábado, setembro 29, 2007

Estupidez feminina





Até onde pode chegar a estupidez feminina? Longe..., garanto-vos. Se não, vejamos:
Numa imagem digna de qualquer episódio do "sexo e da Cidade" cá estou eu, sábado à tarde, a fazer a ménage caseira, vulgo lide caseira porque isto da ménage sugere sempre andanças mais interessantes do que esfregar a cozinha ou descascar os lumes para a sopa que tenho ao lume.

Acabam de tocar às porta. É o senhor do supermercado com as compras e eu peço ao parceiro para o ir receber porque já não aguento dar mais nem um passo.

Cansada de esfregar? Nada disso. Mas já não me aguento em cima destes saltos de quase 10 centímetros que vieram agarrados aos meus novos sapatos lindos de morrer - como diria a Carrie - e em cima dos quais tenho passado as últimas duas horas de lides domésticas.

Estivesse eu nua com estes sapatos, uma meias de ligas e um avental e talvez até tivesse sorte nesta tarde chuvosa. Mas está frio e estamos de janelas abertas.

E enquanto não me conseguir aguentar nestes saltos sem fazer figura de gaja-parva-que-insiste-em-andar-com-aqueles-saltos-mesmo-parecendo-que-vai-dar-um-trambolhão-a-qualquer-momento resta-me continuar a usá-los em casa, ao fim-de-semana entre uma máquina de roupa e outra.

Há coisas fantásticas neste universo feminino, não há?

sexta-feira, setembro 28, 2007

O Sonho

Há sonhos quase tão antigos como o princípio dos dias. Os meus dias. Há memórias que me foram passadas. Reminiscências de outros que o tempo me impôs no cérebro. Hoje, tantos anos depois, é como se fossem minhas. Como se eu tivesse andado no planalto. Na serra. Junto ao mar. Memórias que recuperei numa versão mais distante – e noutra mais insular – muitos anos depois. Uma terra que me acolheu e onde me senti em casa. Há o cheiro de uma terra que foi minha por muito pouco tempo.Calor. Cores. Sons. Ambientes. Há um sonho que me tornou naquilo que sou hoje. Na profissão que tenho. Há dias em que penso que chegou o momento. Uma vontade do tamanho de um enorme agora-ou-nunca.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Com canetas?

quarta-feira, setembro 26, 2007

Fantasmas

Na verdade não tenho nada para dizer. Mas como toda as meninas abandonaram o barco, cumpre-me a tarefa de vos ir mantendo entretidos. Talvez pudesse falar de fantasmas. O do Hitler e o outro. Aquele com quem me cruzei um destes dias à hora de almoço. A meio de uma garfada de crepe embebido em chocolate de leite, com um pedaço de strawberry cheesecake no topo. Almoços pouco saudáveis que faço com a C. de tempos a tempos. Sabem bem grandes doses de calorias enquanto o calor que resta do Verão ainda se passei pelo Chiado. O garfo no ar a centímetros da boca e de repente lá estava ela. Demorei alguns segundos a reconhecê-la. Perdi a conta aos anos. Aos que passei sem a ver. Aos que passaram sem que me lembrasse dela. Nunca esqueci os anos em que me foi imposta. Com alguma condescendência da minha parte. Afinal os outros só magoam enquanto deixamos. Durante dois anos ‘partilhei’ com ela o mesmo homem. Partilha não é o termo certo. Pelo menos não era em simultâneo. Ou quero acreditar que não era. Ele, sem dúvida um dos homens da minha vida, tinha poucas ou nenhumas certezas na vida. E ia alternando entre as duas. Acho que dependia do lado para que acordava. Nunca percebi o que o motivava. Eu deixei-me andar ao sabor desta vontade até ao dia em que disse basta. Eles continuaram. Por uns tempos, pelo menos. Eu segui para outra vida com a consolação que ele não saiu a ganhar. Os homens da minha vida trocaram-me sempre por mulheres mais feias do que eu. Fraca consolação? Talvez. Ao vê-la por estes dias, sem um espelho por perto, tenho consciência que continuo a fazer virar cabeças. Duvido que ela se distinga numa rua cheia de gente. Acho que o R. tinha razão. Só havia um motivo para que aquele homem me trocasse por ela. Olho-a de novo quando saio da loja e penso no que ele repetia de cada vez que a víamos: ‘ela deve ser muito boa de mãos e de boca’...

Não me parece uma má sugestão

Estou a fechar o computador às 21h48, talvez o mais cedo que consegui esta semana, quando pisca no quanto inferior direito uma nova mensagem. Assunto: ‘Don't get mad, get Valium!’ Numa semana que começou no domingo e a que ainda faltam dois dias estava capaz de dar um saltinho ali à farmácia…

[E lembro-me do J.V.. Sim, eu sou aquela que passa a vida a queixar-se]

Ainda existem histórias de amor


O filósofo André Gorz, cofundador do Nouvel Observateur, e a sua mulher Dorine suicidaram- -se na segunda-feira em Vosnon. Ele tinha 84 anos, ela 83. É uma história de amor.

[...]
Dirigiu-se a Dorine, inglesa de origem, numa noite de neve, em 23 de Outubro de 1947, para a convidar para dançar e nunca mais a deixou. Ela foi atingida por uma doença evolutiva há numerosos anos. Tinham escolhido não ter filhos. André Gorz disse ao Libération em Setembro de 2006: "Em minha opinião, os bons pais são os que sentiram a falta de um pai na sua infância. Eu não tinha vontade de ser pai porque não amava o meu pai. (...) Nós os dois não temos continuidade, nem nada a transmitir. Não tínhamos de fundar uma família para lhe transmitir o que quer que fosse, porque nós próprios jamais tivemos família. Se tivesse tido filhos teria tido ciúmes de Dorine. Preferia tê-la apenas para mim."

No Público

Entre um blog e outro

Muitas vezes é numa noite de insónia que a gente abre os olhos.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Morrer de amor*

A C. diz-nos que agradece à mãe o facto de a lembrar que toda a vida jurou que morreria de amor. Diz que isso a ajuda a manter os pés na terra. Pressinto-lhe na voz alguma desilusão. Acho que gostaria que desta vez fosse a sério. Não para morrer. Apenas para ter a certeza que este é um amor maior.

Há alturas em que as ilusões - ainda que muitas não tenham um final feliz - ajudam a dar colorido à vida. Fazem-nos sair da cama de manhã. Lembro-me da primeira vez que acreditei que morreria de amor. Tinha uns 10 ou 11 anos. Não mais. Lembro-me do objecto dessa suposta morte. Não me lembro do porquê nessa altura específica. E durante uns dias praticamente não comi. Passei a acreditar que morrer de amor significa morrer de fome. A dor repetiu-se tantas vezes ao longo da vida. Achei sempre que nenhuma é tão grande como a que sentimos naquele momento. Nunca consegui por os sentimentos em perspectiva. Compará-los. Dissecá-los numa mesa de laboratório. Lembro da última vez que achei que morreria de amor. Foi a mais dolorosa das mortes. Com ela foi-se a capacidade de acreditar em histórias de amor. Achava eu. Agora, com a perspectiva que a distância permite, percebo que continuo a acreditar em histórias de amor. Há apenas uma diferença de género. Nem mesmo no grande ecrã todas as histórias acabam em drama.

[*ou um dos muitos posts que se acumulam há meses no blogger]

domingo, setembro 23, 2007

O princípio

Há um ligeiro tremor de mãos. Os olhos que não param quietos. As mãos que pensam mil vezes nos cigarros guardados na carteira. E de repente o trânsito pára. Vai lento pela lateral da avenida. Os números mudam rápido no relógio do carro. Está adiantado, mas nem isso me salvará de chegar atrasada. Desisto nos Restauradores. Agradeço os sapatos rasos e corro até à rua da madalena. Perco o fôlego na primeira subida. No Caldas tenho a certeza que vou desmaiar. O coração que pula na garganta. Boca seca. Dor de burro. Abrando o passo como quem abranda a vontade. Se chegasse realmente tarde nem valia a pena ir. São pensamentos fugazes. Há muito que não estava tão decidida a nada. A corrida seca-me as lágrimas que não param há dias. É do Outono? Talvez seja. O medo do fim.

Já estive aqui. Na noite de santos. Bebia-se cerveja e ginginha a rodos. Eu era aquela que, às 3h da manhã, continuava sóbria. A primeira a desistir. Saudades de casa. Do sofá. Da cama que se rebela quando lhe devo horas de sono [a expressão é tua. Eu sei. Está num dos primeiros mails]. Saudades de tudo menos daquilo. Daquela hora. Daquele sítio. Daquelas pessoas. Só estou bem onde não estou. Escreve bem o poeta. Talvez seja hora de lhe mostrar que nem sempre tem razão.

É um prédio branco. Mal tratado. Maquilhagem supérflua que não resguarda os efeitos dos anos. As escadas lembram as da Martinha. São apenas um pouco mais largas. Paredes descarnadas. Tinta a cair em postas. Nada ali é convidativo. Acolhedor. Ele espera-me a porta. Cabelo tão branco como a camisola de lã. Está quente ali dentro. A idade talvez lhe tenha arrefecido a carne. Convida-me a entrar. Há desarrumação por todo o lado. Os olhos fixam-se num painel de madeira. Olho sem ver. Quero começar. Acabar o mais depressa possível. A conversa vai ser longa.

sexta-feira, setembro 21, 2007

A explicação de todos os meus males

"A felicidade é um aborrecimento."

Titulo de uma peça do Ípsilon de hoje.

Alguém tem um escadote

“Às vezes os nossos desejos ficavam suspensos dos ramos mais altos das árvores mais altas e nunca conseguíamos subir o suficiente para lá chegar. Ou então esperávamos pacientemente até eles nos caírem no colo.”

in Paralelo 75 ou O segredo de um coração traído, Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira

sábado, setembro 15, 2007

Um pico de fé...



... dá jeito a qualquer um.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Dias para Recordar 1

Não usei véu na cabeça porque o meu cabelo era curto e nunca gostei muito do glamour daquele tecido à transparência. Tranparentes queriam-se os sentimentos. E só neles confiei naquele início de tarde de Sábado, 20 de Outubro de 2001. Em casa houve visitas e fotografias. As da praxe, com a família, mas sem espelhos e imagens reflectidas, telefones onde se finge falar, beijos trocados para a imagem. Não quis nada disso. Pedi naturalidade. E tive-a, em máquinas digitais, a cores e a preto-e-branco. Desci do terceiro andar com o vestido na mão, evitando os pisões tão típicos aos vestidos de noiva. O meu assentava-me bem e fazia de mim uma bonita menina, nos meus 28 anos que talvez parecessem 25; um pouco de salto para não crescer demasiado, mantendo a necessária elegância para a ocasião. E uma cor ténue no rosto.

Entrei no Peugeot descapotável do meu irmão. Ia ser conduzida por ele naqueles 500 metros até à Igreja, percurso que tantas vezes fiz a pé. Recebeu um telefonema: temos de esperar, os sogros ainda não chegaram. Pausa. Carro estacionado com noiva lá denro à espera dos pais do noivo. Hilariante. Podem seguir. E lá fomos, átrio adentro, saída em classe, ramo na mão direita e tulipas vermelhas, pose, sorriso, o meu Pai. Dei-lhe o braço e apertei-o. Era o momento.

Cantava-se o Ave Maria de Gunout. O órgão marca os passos na passadeira vermelha que tantas vezes pisei sem tal solenidade. Todos olham para mim. Sorrio. Sorriem-me. Uma espécie de montra adorada onde todos querem pôr defeitos mas, naquele momento exacto, só conseguem ver virtudes. As noivas são sempre tão lindas, não é?

A cerimónia começa. A música que os meus amigos cantam enche-me a alma. O espírito daquelas 300 pessoas faz-se sentir no silêncio que preferem preservar enquanto avançamos mais um passo. As alianças de ouro branco surgem na mão das crianças. Trocamo-las de voz trémula, um ou outro sorriso, um riso mais alargado. E as promessas de Amor. As que queremos para sempre.

O Padre esquece-se do abraço da Paz mas ele beija-me na testa como que a confirmar o acto. Estamos casados. Naquele momento ninguém imagina que é por pouco tempo. Estamos casados. Sorrimos e damos as mãos. Cantamos. Crianças fazem uma festa, fitas coloridas sobem ao alto, em arco; meninos trazem quadros pintados à mão que recebemos em tom de oferta. São os meus doces sobrinhos. O grupo continua a tocar, músicas que compus e escrevi, outras que outros fizeram, passagens de filmes que vimos. Alegrias feitas acordes. E no fim já todos dançam e batem palmas. Não é um casamento cigano, apenas alegria partilhada por dezenas de pessoas que gostam dos actores principais. O casal!

Estás muito bonita, disse-me mal cheguei junto dele quando o meu pai me passou a mão. Obrigada, consegui dizer. E, nesse dia, nunca chorei.

Workaholic

Regresso com vontade de trabalhar. Passo a semana de férias a pensar em projectos, ideias, coisas para fazer. Adormeço a imaginar reportagens, rubricas, temas para novas peças... e acordo com luzes a piscar, mais ideias, mais projectos. Ao fim do segundo dia de trabalho continuo sem dormir. São três da manhã. Ontem passava das quatro quando finalmente caí no sono. Leve. Hoje não sei a que horas o farei. É uma loucura esta vontade incontrolável de abrir o computador, carregar pastas de coisas 'a fazer', trabalhar, trabalhar ininterruptamente. Como se o dia não tivesse horas suficientes para fazer tudo. E não tem, por isso ocupo a noite com tais pensamentos. Há muito que isto não me acontecia. Olho para qualquer coisa e logo me surge nova forma de pegar no assunto. Trago na mala um caderninho onde aponto o que me lembro já fora do local de trabalho. Estou viciada. Não é saudável, mas é inevitável. Preciso de descansar o cérebro mas ele insiste em carburar. Peço-lhe que se cale a partir da meia-noite, que me deixe dormir, pensar na minha família, nos meus amigos, no meu namorado. Não. Atropela-me os pensamentos para mais uma ideia que me parece genial. No dia seguinte, mais um e-mail para os Directores. 'OK', dizem-me, 'Segue'. E tenho uma lista infindável de projectos para pôr de pé. Não sei como controlar este estado de ansiedade. Não consigo imaginar uma saída para esta amargura que é não pensar em mais nada. E daqui a nada levanto-me para ir trabalhar.

terça-feira, setembro 11, 2007

10 de Setembro, 14h18, 3870 kgs

Passamos minutos intermináveis a olhar, prendendo a respiração, falando em tom delicodoce, tocando ao de leve no lençol. De repente um som estridente inunda o quarto e um minuto de carícias depois cai o silêncio profundo. Passaram só algumas horas mas o amor começa a desmultiplicar-se em catadupa cá dentro. Foi assim, nos primeiros momentos que partilhei com o Tiago. O meu sobrinho é lindo e a sua vida resume-se por enquanto ao que está no título. Mas vai trazer-nos longos anos de alegrias. Disso não há dúvida.

P.S.-A C. é uma mãe e pêras, não fosse ela minha mana!

Arrumações

Eu já tinha lido em qualquer revista feminina, ou visto num programa da Oprah, que se pode aferir muito do nosso interior pela forma como organizamos (ou não!, no caso) os milhentos pormenores da nossa rotina. Achei que era mais uma daquelas metáforas que alguém laboriosamente produz numa redacção onde se publica uma vez por mês ou há 20 produtoras de conteúdos. Mas não são só pérolas da psicologia "de trazer por casa". Notei uma real coincidência, por estes dias, entre a dificuldade em pôr ordem na minha cabeça e na minha secretária (e bagagem do carro, e mesa da cozinha, e armários de roupa, e....uff). Já peguei vezes sem conta em caneta e papel para elaborar daquelas listinhas ordenadas do "a fazer", tanto em matérias de sacos de revistas, camisolas que não uso e embalagens fora de prazo; como com os passos seguintes para a minha vida a muito curto prazo. Claro que tinha a desculpa da falta de tempo para o primeiro caso e de falta de informação para o segundo. Mas não é verdade. Perco algumas horas preciosas em frente ao AXN e Fox e já tenho dados mais do que suficientes sobre o que é expectável para os próximos meses, a nível pessoal e profissional. Mesmo assim, vou adiando as arrumações. Algum dia ainda me caem as revistas no chão ou os sentimentos aos pés. Espero que me venha a fúria das limpezas de Primavera (interna e exterior) antes da dita estação do ano!

domingo, setembro 09, 2007

Dias para Recordar

Entrei a medo no confessionário. Tinha andado semanas a preparar-me. A catequista, a Dona Emília, dissera-nos que tínhamos de ir lá e dizer os nossos 'pecados', aquilo que tínhamos feito nos últimos 7 anos, já que foi nessa idade a minha primeira confissão. Segundo ano da catequese, 2ª classe na Escola Primária, e um sem número de erros a recordar para dizer ao Padre. Sei que era psicólogo, o padre, e estava habituado a estas confissões de garotos, receosos dos males do mundo. Sentei-me à frente dele numa cadeira de madeira. Perguntou-me o nome, talvez me tenha perguntado outras coisas, não sei... Ter-lhe-ei dito os meus pecados de enfiada, poucos, provavelmente, num esforço de memória para não ficar mal. Ouviu-me carinhosamente e explicou-me o que fazia eu ali... Para mim era apenas a preparação para o dia em que vestiria o vestido cor-de-rosa, até aos pés, em que poria na cabeça a fita florida a condizer. O mesmo fato que tinha usado para levar as alianças num casamento. Mas havia mais: estava ali para me preparar para comungar. E eu sabia que só as pessoas boas e livres do tal 'pecado' podiam fazê-lo. Diz o Acto de Contricção... 'Meu Deus, porque sois tão bom...' Reza dois Pai-Nossos e uma Avé Maria. Saí sentindo-me uma santa, um daqueles pastorinhos que tinha conhecido num livro e que tinham visto a Nossa Senhora. Os joelhos assentaram trémulos no banco da Igreja e rezei. Quando saí estava feliz. E lembro-me de ter pensado na minha avó. Se ela comungava todos os Domingos, era porque era também Santa, ela sim, uma mulher tão boa, a quem eu não via um só defeito. Disse-lhe isto, quando cheguei a casa. E dois dias depois vesti o vestido e comunguei. Amen. E voltei para o meu lugar.

Quinta do Lago 4