segunda-feira, julho 24, 2006

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Sentei-me na cadeira negra que sobe e desce conforme quem se lá senta. Fechei os ohos e senti o pó comer-me a cara, deslizando primeiro nos olhos, depois nas faces, amortizado com ums esponjinhas suaves e umas mãos ainda mais delicadas.

Mantive-os fechados e fui ouvindo os comentários, ao mesmo tempo que, na tv, passava mais uma notícia sobre a Guerra entre Israel e o Líbano. Ali estava eu a ouvir o barulho do conflito, a sentir o pó dos bombardeios, a sentir as movimentações das tropas... e à minha volta também alguém se movimentava. E continuava a tocar-me com paninhos de lã.

- Abre. E abri-os, olhando para o tecto. Não vi nada e tudo me pareceu tremido; até a caixa do ar condicionado. Baixei o olhar e as pestanas foram esticadas, enegrecidas. Pisquei os olhos, nervosa e desconfortável. Já estava quase... Tentei encarar o espelho em frente mas não vi nada, mais uma vez. O olhar traiu-me e as cores misturaram-se com a minha miopia. Não vi que já estava outra pessoa, rodeada de reflexos de mim própria por todos os lados.

Quando saí da sala de maquilhagem toda a gente olhava para mim. Os comentários eram positivos, mas eu sentia-me uma criança de sete anos com unhas pintadas de cor-de-rosa. Estás tão gira, dizem-nos. E acreditamos por fora, sem sentir que somos nós, cá por dentro.

Tirei a fotografia que precisava para a página da empresa na net e voltei para o meu lugar.

Escrevo este post com um brilho nos olhos. Mas que vai sair mais tarde, quando passar um creme desmaquilhante e uma boa dose de água pela cara. É que este é o único brilho que eles têm visto, nos últimos tempos. Vou demorá-lo até à hora de dormir.

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