segunda-feira, agosto 20, 2007

Mulheres ao Volante

Sou mulher e tenho carta de condução. Isso não me impede de dizer que as mulheres são o sexo fraco ao volante. Não tem nada a ver com a capacidade ou a destreza na condução... é uma questão de educação, de civismo, de amabilidade.

Quantas mulheres deixam passar um carro à frente, numa fila? Muito poucas. Especialmente se for outra a mulher a conduzir o veículo que quer entrar. Quantas mulheres gostam de ser ultrapassadas? Pouquíssimas. E na Marginal é vê-las nos jipes lavadinhos a conduzir pela esquerda. Quantas mulheres acatam uma 'azelhice' sem bombardear o outro com buzinadelas ou sinais de luzes? Raras. E logo a seguir cometem elas uma 'gaffe'.

As mulheres até podem andar mais devagar, podem ser mais cuidadosas nas manobras, podem parar mais para dar passagem aos peões nas passadeiras... mas, quando se trata de amabilidade ou sensibilidade ao volante são autênticas camionistas, especialmente umas com as outras. É pena... e é triste. Mas é um facto.

Creio que a tendência da mulher é sentir-se diminuída em relação aos homens, no que toca à condução. Então, para compensar, não perdoam. E não perdoar não significa que tenham razão: muitas vezes não a têm. Mas, na cabeça delas, estão correctas e agem como se os outros fossem uns imbecis.

Eu prefiro andar com um homem ao volante. Salvo aqueles casos dos tipos que conduzem com bastões e paus gigantescos escondidos debaixo do banco, os homens são muito mais tolerantes, na estrada. E são cordiais, quando vêem uma mulher ao volante. E cuidadosos, quando percebem que é um carro que leva crianças. Só os taxistas estão fora desta categoria de condutores, mas esses são uma classe à parte.

As mulheres buzinam, gesticulam, chamam nomes e fazem asneiras com o dedo. As mais novas são terríveis com as condutoras do mesmo sexo e intolerantes com os mais velhos que ainda conduzem. São oportunistas, as chamadas 'chicas espertas'. As mais velhas não toleram a destreza das mais novas e têm complexos de inferioridade em relação aos homens. São de um tempo em que poucas mulheres tiravam a carta, e sentem-se as senhoras da estrada.

Regra geral, as mulheres são piores condutoras. São piores automobilistas, piores colegas de 'route'. Há excepções, como em tudo, mas são apenas excepções. As mulheres mais complicadas conduzem Audis e BMWs, ou outros carros topo de gama. Na maior parte dos casos a gasolina não é paga por elas, mas pelos ricos maridos que são importantes lá na empresa. Elas pegam no carro não para ir trabalhar, mas para ir buscar os miúdos ao colégio, para ir às compras, para dar um 'giro' e tratar de assuntos da casa. Não estão habituadas a horas de ponta. Não sabem quem tem prioridade numa rotunda.

Eu tenho carta há já alguns anos. Foi uma mulher que me fez o exame de condução e passei à primeira. Mas a minha atitude foi de humildade ao volante. Já me tinham avisado que ter uma instrutora era meio caminho andado para chumbar. E até podia raspar com o pneu no passeio para estacionar... desde que não me armasse em condutora experiente. É que as mulheres gostam mais de gente estúpida. E ao volante cada uma é a melhor condutora do mundo.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Fim de Férias - Parte I

Duas semanas depois, eis que me preparo para o regresso ao trabalho. Por incrível que pareça, sinto-lhe a falta: o burburinho da redacção, o galão com os jornais pela manhã, as dúvidas de toda a equipa, os alinhamentos abertos, os programas no ar... Ainda assim, venero as férias, este tempo de bem-estar onde as horas só passam a correr porque não olho para o relógio.

Gosto das férias. Gosto especialmente de dormir ao sol e de não ter horas para nada. Para mim, este período de descanso é feito de nada para fazer. Ou seja, sem responsabilidades, sem nada marcado, sem compromissos. Um tempo para mim e para os que a mim se querem juntar com este mesmo princípio. E há que aproveitar este ritmo, enquanto posso...

Esta semana fiquei por Lisboa: um dia dedicado à minha avó, mais outro para arrumações em casa, um para dormir à tarde, mais um para futilidades femininas... e assim passou a semana, com uma partida de Trivial por noite, até de madrugada, porque o dia seguinte não obriga a levantar cedo. E o House. Na Fox, todos os dias!

Está quase toda a gente fora: a família, os amigos, os conhecidos, os colegas de trabalho... Lisboa não está vazia, mas com menos gente. E sabe bem ter menos gente à volta. No entanto, a necessidade de comunicar, daí a visita ao blog. Para escrever nada, como se lê. Mas para quem está de férias (ainda) este post já é uma grande coisa.

Em Setembro regresso à boa vida.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Sorrindo

- Meus senhores muito boa noite. É um prazer vê-los por aqui, porque é sinal que estamos todos bem. Desejo-lhes uma boa viagem até cascais e que nos possamos encontrar mais vezes porque é sinal que continuamos vivos. Eu não sou um doente de sida nem tenho quatro filhos para alimentar. Sou apenas um sem abrigo. Podia roubar para ganhar dinheiro, ganhava mais de certeza. Mas depois a polícia vinha a correr atrás de mim e, como eu já não corro muito, se calhar não me compensava. Por isso, decidi vender acendedores eléctricos para o fogão e....

Não sei quantos anos tinha, uns 50 talvez mas a idade de um sem abrigo é difícil de calcular. Os acendedores, em forma de fósforo, eram engraçados, mas na verdade não preciso de nada do género. Mas achei-lhe piada. Tinha pago o bilhete de comboio e estava a fazer pela vida, cheio de nove horas e excelentíssimos senhores. Um empreendedor.

Hesitei, mas lá acabei por decidir que se não lhe dava negócio, pelo menos um sorriso ele tinha conquistado com tanta lábia. Quando passou por mim, lá lhe sorri. E ele, feliz, até me mostrou os dentes.

Não sei qual de nós terá ficado mais contente. Mas agora que penso nisso percebo que, pelo menos um de nós, não irá hoje dormir em cima de um cartão. Será que o meu sorriso o vai ajudar a aquecer?

domingo, agosto 12, 2007

Sao Miguel - o adeus

Fim da primeira parte. Até breve, São Miguel.

Na memória o excelente dia de praia, ontem, na praia de Água d'Alto: um céu completamente descoberto, sol até às oito da noite e um mar quente, calmo, perfeito para relaxar.

Na memória, também a festa da noite, mas por razões diferentes... não sei se pelas vestes pirosas de algumas das convidadas (de tule e saltos agulha numa festa de jardim), se pela música inacreditável num ambiente que se queria frick (alguém cantava o Senhor Santo Cristo dos Milagres no intervalo das anedotas); se pelo desfile de cortes de cabelo - arrepiante - a que algumas convivas se expuseram porque a dona da casa é dona de um salão de cabeleireiro... Um horror durante umas três horas. Amizade oblige!

Obrigada R. Pela casa (com cama, mesa e roupa lavada), pela companhia, pela boa disposição, pela disponibilidade.
Voltarei!

sábado, agosto 11, 2007

Regresso ao Divã VII

Tinha faltado à sessão anterior por achar que já não precisava daquilo. Enganara-se: os dias tinham voltado a enevoar-se com as histórias do antigamente, de um tempo em que ela não sabia distinguir felicidade, de infelicidade. Sentou-se no divã de perna trocada e aguardou que ele fechasse a porta. 'Desculpe a ausência da semana passada. E nem avisei. Pensava que estava melhor...' Ele murmurou qualquer coisa como se nunca a culpasse de nada e sentou-se no sofá atrás dela.

Deitou-se e manteve as pernas cruzadas no divã. 'Pensei que estava melhor', repetiu. 'Mas não, voltou tudo ao mesmo; as recordações, o passado, os dias infelizes...' Não sabia mais como explicar aquela sensação de perda, de desgosto, uma tristeza profunda que lhe vinha desde há meses e que insistia em ficar. Pensou no último mês e na forma como tinha recuperado, como quase tinha esquecido as mazelas, como quase tinha contornado a dor. Pensou nas manhãs desafogadas, nos olhos que abriam melhor, nos passeios ao fim do dia, nos sorrisos que já partilhava. Trocou as pernas no divã.

Sabia que tinha regredido naquele mal que muitos juravam ser uma doença: depressão. Que raio de doença era aquela que aparecia sazonalmente nos artigos das revistas do cabeleireiro? Ela sempre soubera dominar os humores, sempre fora bem-disposta, sempre se sentira capaz de superar os problemas. Mas agora, não. Estava agora presa à depressão, um sofrimento atroz que a deixava de rastos, que a impedia de falar, que a deixava horas na cama, que a fazia sofrer. E saborear a dor.

Ele trauteava qualquer coisa na perna direita, talvez uma música que ouvira na rádio quando vinha para o consultório, talvez um compasso inventado naquele momento. Ela suspirou e tomou novo fôlego para continuar a falar. Desabafou. Ali era o único sítio onde podia voltar a falar sobre tudo, onde não lhe cobravam nada, onde ninguém se admirava que ela falasse sempre do mesmo assunto. Lá fora, entre amigos e família, já todos estavam cansados, poucos compreendiam o desgaste e o prolongamento do problema. Já era tempo de ela esquecer aquilo tudo, caramba! Mas ela sabia que não era suficiente o tempo que passa. E ele percebia porquê... então, ela desabafava.

Na semana seguinte também não faltou.

sexta-feira, agosto 10, 2007

São Miguel III

Passo a tarde na piscina da casa que me acolhe sempe que venho a São Miguel. Fico a boiar duas horas deixando-me levar pelo vento e pela água que empurra o colchão de ar para cá e para lá. A R. traz-me um sumo de laranja e ameixas frescas e não tiro o rabo da água. Melhor é difícil...

Dormi mal, esta noite. Não terá sido do jantar petiscado ontem à noite no ala bote, na Ribeira Grande: camarões e lapas com pão carregado a manteiga e, ao fundo, um pôr-do-sol magnifíco, com aqueles raios que batem no mar e deixam antever a existência de Deus. A noite mal dormida faz-me acordar com aquelas dores de cabeça. Nada de novo. Rebolo-me na cama a tentar que os sonhos sejam melhores mas não, agarro sempre na ponta do pesadelo anterior e ali fico, a remoer, a castigar-me com pensamentos nocturnos que já pouco me assolam de dia. Partidas que o sono nos prega...

O céu raramente está completamente azul. As nuvens vão e vêm, passam pelo astro maior e tapam-no por instantes. Então, são sopradas pelo vento e lá chega um pouco de Verão. Gosto de São Miguel.

Cansaço

As noites têm sido um prolongamento dos dias. Só por isso não estranho quando o despertador toca a meio de uma reunião. Ou se acordo enquanto discuto com algum dos jornalistas da secção o melhor lead. Se rabisco numa folha de rascunho o que será o desenho de uma página enquanto me viro na cama, com os primeiros raios de sol a entrar na janela. Menos ainda se o R. se queixa porque passei a noite a mandá-lo sacar fotos da Reuters. Por uma noite gostava de sonhar com outra coisa.Será pedir muito?

quinta-feira, agosto 09, 2007

Saudade

Fecho os olhos e penso em ti. Vou no carro e penso em ti. Sento-me à mesa e penso em ti. Mergulho nas ondas e penso em ti.

Estamos a um mar de distância e nem as três vezes diárias que te oiço ao telefone parecem ser suficientes. Fazes aquela tua voz meiga, quase infantil, e eu sorrio, deste lado. Fico assim quieta a ouvir e deixo que saia um risinho nervoso. Então, passo a mão pelo cabelo e entorto a cabeça num gesto de menina. E lá estás tu, a tua voz doce, o teu ar terno que me faz continuar a pensar em ti.

Gostava que estivesses comigo. Não a todos os minutos, não em todos os momentos. Apenas naqueles que posso partilhar contigo, que gostarias de partilhar comigo. Sinto a tua falta deste lado do mar. Dizem que é saudade...

Dias de alma vazia

O que não tem remédio… por isso não vale a pena falar. Conversar. Argumentar. Há dias assim, de alma vazia. Aqueles em que preciso de silêncio. De colo sem pedir. De abraços e festas na cabeça. Porque os dias se encarrilam uns atrás dos outros. Sem sobressaltos. Sem cor. Dias mortiços como a luz das manhãs de Inverno. Sem o arrebatamento que faz as grandes [à proporção] histórias. Não sei explicar e não sei reagir. É dormir até que passe.

Namoradodependência

Há pessoas que não sabem viver sem um namorado. Não conseguem estar sozinhas e, mal saem de um, entram noutro. Sentem-se desgostosas e desgostadas, abandonadas, não conseguem arranjar programa e acabam por fazer tudo para ter um novo relacionamento. Homens e mulheres, tanto faz. Há pessoas assim.

Não ter um namorado implica saber viver. Não digo que seja fácil desabituarmo-nos de uma relação de anos para passarmos à solidão absoluta. Mas aí é que está a questão: não tem de ser uma solidão absoluta. Não ter alguém dito 'especial' não quer dizer que se está sozinho. Quer apenas dizer que... não se tem um namorado. E há os outros, a família, os amigos, os conhecidos... todos fazem parte da nossa vida desde que não os abandonemos por completo no dia em que... temos um namorado.

Muitas relações vivem para dentro. Vive ela para ele e ele para ela. Não têm amigos que não os comuns, não saem de casa à noite, nem ao fim-de-semana a menos que seja para estarem juntos; não vão a nenhum sítio um sem o outro. Assim, todos se habituam a vê-los num só, mas não aquele 'um' de que falam os sacerdotes no dia do casamento... é um 'um' negativo, isolado, egoísta. É um 'um' sem sentido. Porém, deixam de ser cada um, para ser apenas 'um'. Com tudo o que isso traz de mau.

Conheci um casal que viveu assim 9 anos. Ao fim desse tempo, e já com casamento marcado, desistiram um do outro. Aliás, não desistiram: ela, não desistindo dele, interessou-se por um terceiro, e queria acumular. Ele renasceu no dia em que percebeu isso, e deixou de ser aquele 'um' miserável que tinha sido durante quase uma década. A partir desse dia ele viu-se sozinho. Valeu-lhe a família e um ou dois amigos chegados que não tinham desistido dele. E foi vê-lo levantar-se, devagarinho, até perceber que tipo de pessoa era, sem ela. E ele era uma excelente pessoa!

O ideal seria que conseguíssemos olhar para o outro como uma pessoa diferente de nós, que por acaso se encaixa connosco e nos faz feliz. Não faz sentido esquecermos a nossa personalidade em detrimento de outrém. Porque, mais tarde ou mais cedo, vamos precisar de nós outra vez...

quarta-feira, agosto 08, 2007

São Miguel II

O sol bate forte no Ilhéu. Ponho creme a dobrar para não apanhar um escaldão. Estendo a toalha na rocha e ajeito o corpo à pedra negra para poder dormir, mas o calor não me deixa ficar. Levanto-me várias vezes para tomar banho.

No Ilhéu de Vila Franca do Campo - dizem que aparece agora na TV, na telenovela Ilha dos Amores que nunca vi - está-se numa espécie de paraíso no mar. A água entra pela abertura das rochas e forma uma fantástica piscina salgada, com um pedaço de praia. Não ficamos na areia, escolhemos o lado oposto que é mais acessível de barco. O sol é muito quente e reflecte na pedra escura. Tudo aqui é negro, da areia à rocha. Queima mais.

Quando adormeço começa a chover. Uma chuva fraquinha, quase nada, que nos faz levantar para ir embora. Ainda há tempo para mais um mergulho no caldo que está o mar. E partimos, amontoados no barco que faz a travessia, cheio de gente para cá e para lá.

Terminamos o dia no bar da praia do Pópulo. Um galão ao entardecer enquanto o sol se põe, ao fundo. Não chove. Mas há nuvens escuras que deixam antever uma noite molhada. Já se sabe: em São Miguel podem fazer as quatro estações num só dia. Hoje já foi Verão e cai uma noite de Outono.

Ao quarto dia tenho saudades.

terça-feira, agosto 07, 2007

Ralações

Nós, as mulheres, teimamos em ver problemas em tudo. Somos comichosas e problemáticas, inventamos crises, prolongamos dissabores, não esquecemos desgostos, criamos tempestades em copos de água. Os homens não. São diferentes. Não se preocupam com quase nada e, no que toca às mulheres, estão-se borrifando. Para eles está sempre tudo bem. E se não estiver, eles não estão nem aí. Adormecem, e pronto.

Uma mulher queixa-se se o namorado não lhe dá um beijo, se o namorado a beija demasiadas vezes, se não tem namorado. Um homem beija a namorada quando lhe apetece, desvia-a se não está para aí virado, aproveita a vida quando não tem namorada. Somos diferentes, e eles são mais felizes. Sem dúvida.

Com a experiência que já tive e alguns dissabores a este nível posso dizer que o segredo está na adaptação. Ou seja, nós, mulheres, temos de começar a adaptar-nos à vida deles. Não por condescendência, mas porque é melhor para nós, porque nos dá menos preocupações. Senão, vejamos: se um homem não telefona antes de adormecer temos duas hipóteses, ou telefonamos nós, ou vamos dormir e esperamos pelo telefonema do dia seguinte. Como mulheres que somos, o mais certo é, em qualquer das ocasiões, perguntar 'porque é não telefonaste?'. Errado. O segredo da adaptação passa por não perguntar nada. O que eu faria era telefonar e falar como se nunca tivesse esperado pela chamada nocturna. Uma forma de não pressionar o outro lado. No dia seguinte, é quase certo, o telefone toca.

Outro caso: convidamos o nosso namorado (ou marido) para a festa de anos de uma amiga. Se ele disser 'não vou', a nossa tendência é insistir e pedir que ele vá, pressionar. Errado. O segredo é dizer 'ok, mas eu vou'. E talvez acrescentar 'podes ir buscar-me?'. Ou seja, ele terá de estar acordado à espera, e até pode ficar no sofá a ler ou agarrado à televisão, mas estará sempre a pensar que nós nos estamos a divertir. Ficar com ele seria errado. Obrigá-lo a ir, um pesadelo. Se a coisa se repetir, é certo que, mais dia, menos dia, ele acompanha-nos.

A adaptação não é fácil, mas passa por uma despreocupação acima da média à qual não estamos habituadas. Porque raciocinamos de forma feminina. Mas se pensarmos que eles vivem mais descansados que nós, sem stress, e com metade dos problemas, vamos acabar por apostar nesta nova forma de vida.

Talvez volte a dissertar mais sobre este assunto...

São Miguel 1

Entre a chuva e o sol a tarde passou-se nos Mosteiros. É uma zona linda, com duas pedras no meio do mar que mais parecem dois conventos; daí o nome da terra. Ao lado dos Mosteiros, outras duas pedras, ao alto, que representam o padre e a freira...

Deitei-me na praia e tomei banho nas poças, como chamam por cá às piscinas naturais. Água em temperatura amena e ondas a cobrir o corpo de vez em quando. E o fundo, visto à transparência, deixa adivinhar as algas e as pedras no fundo do mar. Uma maravilha...

Depois o sol, costas direitas na pedra escura. Ao longe um barco que passa em velocidade e um mar ondulado, com nuvens por cima. Azul, azul, o mar. E as nuvens de uma cor intensa que apetece ficar a olhar. Dormi. Talvez meia hora. Talvez mais... Deixei-me levar pelo vento suave e ali fiquei, entre um pensamento e o outro e depois, num sono leve, mas bom.

Jantámos no Cais 20, uma casa de petiscos em Ponta Delgada. Lapas (bem regadas a limão e com molho de manteiga) com pão de alho e uma salada de polvo. Comecei por acompanhar tudo a galão. Ridículo. Depois, a coca-cola com gelo ajudou a saborear o naco na pedra. Estou satisfeita.

Escrevo antes de ir dormir, certa de que que estas são as férias que preciso. Ao longo do dia há uns quantos telefonemas que fazem os olhos brilhar. Do outro lado uma voz meiga. Boa noite, diz-me ele. Boa noite. Até amanhã. Chove, em São Miguel.

domingo, agosto 05, 2007

São Miguel

Os próximos posts serão desta ilha maravilhosa. Chegada hoje ao início da tarde. Viagem turbulenta com demasiados turistas no avião; crianças que falam demais, bebés que choram, pessoas que aplaudem quando o avião aterra.

Por esta hora ainda se vê o sol. E bem. Creio que vou poder aproveitá-lo ao longo da semana.

Até já.

E o tempo que não passa

[Foto: Reuters]

Se existe uma expressão física da saudade estou a senti-la agora.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Boas Notícias

Da Agência Lusa:

Cinema: Novo filme de Paul Auster, "A Vida Interior de Martin Frost", estreia em Portugal a 11 de Outubro

Lisboa, 03 Ago (Lusa) - O novo filme do escritor e realizador norte-americano Paul Auster, "The Inner Life of Martin Frost/A Vida Interior de Martin Frost", rodado em Portugal, estreia a 11 de Outubro nas salas de cinema nacionais, anunciou hoje a produtora.

De acordo com a Clap Filmes, o filme, produzido por Paulo Branco, foi exibido em Março em Nova Iorque no Festival de Novos Realizadores/Novos Filmes, e será apresentado na Europa durante o 55 Festival de San Sebastian na selecção oficial, fora de competição, a decorrer entre 20 e 29 de Setembro.

Em San Sebastian, Paul Auster, que em 2006 foi condecorado com o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras, irá também fazer parte do júri oficial do certame. "The Inner Life of Martin Frost/A Vida Interior de Martin Frost" é a segunda longa-metragem realizada pelo escritor norte-americano, depois de "Lulu on the Bridge" (1998), e é baseado parcialmente no romance do mesmo autor "O Livro das Ilusões".

Filmado em Maio de 2006 em Lisboa e na zona de Sintra, o filme - uma co-produção da Clap Filmes (Portugal), Alma Films (França) e a Tornasol Films (Espanha) - relata o encontro de um escritor de sucesso com uma mulher misteriosa. A descansar sozinho numa casa de campo depois de publicar o seu último romance, é surpreendido por uma misteriosa mulher deitada a seu lado, e, fascinado pela sua beleza e inteligência, apaixona-se por ela, levando-o a escrever o livro "mais que perfeito".

Para os principais papéis foram convidados os actores David Thewlis, que participou anteriormente em filmes como "Nu" e "Sete Anos no Tibete", Irene Jacob, que entrou em películas como "A Educação das Fadas" e "A Dupla Vida de Veronique", Michael Imperioli, da série televisiva Sopranos, e Sophie Auster, filha de Paul Auster, que, ainda criança, teve uma participação em "Lulu on the Bridge".

Nascido nos Estados Unidos, Paul Auster, 60 anos, foi profundamente influenciado por escritores como Poe, Withman, Cervantes, Kafka, Dostoievski e Beckett. Dedicou-se de início à tradução e trabalhou em revistas literárias até que a publicação, em 1985, de "Trilogia de Nova Iorque" deu um impulso decisivo à sua carreira, e obteve uma projecção que consolidaria com obras como "No país das últimas coisas" (1987), "A música do acaso" (1990) e"Leviathan" (1992). Apaixonado também pelo cinema, Auster escreveu o argumento de "Fumo" (1996) e "Fumo Azul" (1996), de Wayne Wang, com quem depois co-realizaria "Blue in the Face".

quarta-feira, agosto 01, 2007

Gordura é formusura

Antes, quando me referia a ele, dizia sempre 'é aquele gordo, de bigode'... nenhuma das características me agradava: sempre achei horrível, um homem de bigode (havia de ser uma mulher?!?)... e, já se sabe, para o comum dos mortais, e por causa dos anúncios e assim, uma pessoa gorda não é agradável à vista, especialmente se for... muito gorda.

Os gordos movimentam-se de forma mais lenta e, por norma, não gostam de aventuras, caminhadas, passeios na montanha, descidas de rios, voos de parapente. Tudo coisas que eu adoro fazer. Como convencer um gordo a subir uma montanha em dois dias, com uma paragem num abrigo e dormida em camarata? Como dizer-lhe que os chocolates, nessa caminhada, não são uma guloseima mas uma forma de obter energia? Como explicar a um gordo que é preciso andar a pé, usar umas botas próprias e subir, subir, passar por montes e vales, descobrir a natureza, esquecer os passos que se dão para trás e não temer a chegada ao topo? Um gordo prefere ficar cá em baixo, a repousar, na rede, encostado à tenda - se aceitar dormir numa tenda - a beber uma cervejola ou uma coca-cola; dormir a sesta, com um bom livro na barriga. Eu já andei pelas Astúrias, pelos Pirinéus, pelos Alpes suiços... e não me lembro de ver um gordo a subir montanhas.

Mas eis que reparo nas bochechas do gordo. Eis que me delicio a apertá-las, a senti-las, a beijá-las... Eis que me adapto à vida do gordo e passo a fazer férias na cidade, trocando a montanha e a aventura. O gordo nem sequer sabe andar de bicicleta - muitos não sabem, ou não querem - e só a muito custo anda a pé. Dou-lhe boleia sempre que posso - porque não sabe conduzir - e, quando não está no meu carro, anda de taxi. Ainda assim, vai a todo o lado e, mesmo os lugares que não conhece, sabe-os de cor por causa dos tais livros que abre em cima da barriga.

Quando jantamos, come sempre o dele e uma parte do meu. Rouba-me as batatas fritas e gosta de um hamburguer regado a ketchup. Também põe maionese nas tais batatas e mostarda no prego no pão. O gordo raramente deixa comida no prato e evita verduras e saladas... nunca o vi comer uma sopa... só canja, que é refeição de doente, ou uma daquelas sopas da pedra, da Loja das Sopas, que enchem tanto como um cozido à portuguesa. Mas o gordo paga-me tantos jantares, tantos almoços, que só posso agradecer-lhe a boa vontade e o cartão de crédito. Não é forreta e gosta de partilhar, paga sempre as contas mais altas e deixa-me a mim as refeições ridículas, o fast-food ou os pequenos-almoços.

O gordo é muito pesado. Quando se encosta a mim tenho sempre de respirar fundo. Afasto depois os braços que estão no meu ombro, a perna sobre a minha, a barriga encostada ao meu corpo. Afasto tudo delicadamente mas acho piada. Gosto. O meu braço não chega para dar a volta e um abraço fica sempre a meio-gás. Mas o gordo é fofo, carinhoso, molinho, sabe bem apertar, como se fosse um boneco de peluche, uma almofada confortável.

Eu até gostava que o gordo fizesse dieta, mas não é por causa da imagem. Por uma questão de saúde. Para mim, o gordo é um homem lindo, mesmo quando me parce inusitado o número das calças ou quando tenho de ir à loja porque a camisa não serviu. O gordo tem uns olhos doces que saem sobre as bochechas para olhar para mim; tem umas mãos redondas que apertam as minhas como se fossem só dele; tem um ar rechonchudo, como um sempre em pé, que apetece agarrar. O gordo é o meu namorado, e não preciso de outro.

Quando se quer, gordura é formusura.

Regresso ao Divã VI

Esperou que ele acabasse a chamada num telemóvel topo de gama, talvez comprado com o dinheiro que lhe pagava todas as semanas. Estava já deitada no divã, cabeça encaixada na almofada, mãos sobre a barriga e os pés cruzados, lá em baixo. Tinha as pernas nuas, por ser Verão, e brilhava o verniz nos dedos dos pés. Pintara as unhas de carmim pela primeira vez, e ainda lhe custava olhar para a cor que sobressaía nas sandálias douradas, cor da moda.

Ele entrou e fechou a porta dupla: uma no exterior, que dava para a sala de espera; outra interior, que se fechava por dentro. As duas portas fechadas impediam a passagem do som para o outro lado, não permitiam que a voz dela se ouvisse para lá das paredes. Se chorasse, ninguém ouviria. Mas ela nunca chorava.

Ouviu-o sentar-se atrás dela, cruzar a perna e amarrotar uma folha de papel que deitou depois no lixo. Talvez um contacto, a história de alguém, os desabafos de um outro doente que entretanto tinha estado ali deitado, no mesmo divã. Não esperou pelo convite e começou a falar. Tinha tanto para lhe dizer... queria que ele soubesse que ela estava disposta a mudar, disposta a fazer um esforço, disposta a tudo para resolver o problema que a levava ali, semana após semana, mês após mês. Ele não a interrompeu. Ouviu-a calado, como sempre fazia quando a vontade do doente era apenas falar.

Ela mexia as mãos e acompanhava as palavras com o gesticular. Abanava as pernas devagar, sem deixar que a saia subisse acima do joelho, fixava os olhos nos pés pintados enquanto chinelava nervosa. Ficava sempre nervosa, naquele divã. E estava cansada desse nervosismo, cansada de estar ali, de repetir vezes sem conta as mesmas crises, as mesmas dores, o mesmo sofrimento. Por isso queria mudar. Queria ser outra pessoa, como se pudesse fazer uma total mudança de personalidade, um transplante de alma, uma operação plástica que a deixasse diferente. Mas não sabia se podia acreditar...

- E o que está a pensar fazer para mudar? - a voz dele pareceu-lhe fria, distante, talvez por não estar atento à energia que ela levava, talvez por também ele não acreditar. Ou talvez fosse apenas uma impressão dela. Na verdade era isso mesmo: ele não queria vê-la desistir, queria acompanhá-la, fazê-la acreditar, ajudá-la a seguir em frente sem que fosse necessária a tal operação plástica, sem que fosse preciso o transplante de alma. Ele queria que a mesma pessoa pensasse de uma maneira diferente. Só isso...

- Eu podia telefonar-lhe e dizer que quero falar com ele, esclarecer as coisas. - Para quê, perguntou ele. - Para ficar descansada, de consciência tranquila, certa de que fiz tudo o que era possível. E não fez? replicou ele. Pausa. Sim, tinha feito. Quantos telefonemas já tinha ela feito? Quantas tentativas, quantas conversas já tinha tido? Todas as possíveis. Disso, não havia dúvida.
Não sabia o que fazer. Se estava tudo feito... o que lhe restava? Pensou então que não podia fazer mais nada por ele. Estava na hora de fazer tudo por ela. Trocou a posição das pernas e reparou que o verniz estava já carcomido numa das unhas. Tinha de retocá-lo. Ficou calada à espera de uma resposta que poderia vir através dele, ou através dela. Às vezes acontecia, quando se calava, acontecia que as respostas lhe surgiam. O telefone dele voltou a tocar: 'desculpe' e atendeu em sussuro, levantando-se.

Ela ficou ali, só ela, naquele divã onde a voz que se ouvia ao longe falava baixinho. No telefone dela havia um número, na letra 'J' que gostaria de apagar. Mas tinha-o de cor. Nem precisava do cartão de memória. Pensou que podia apagá-lo dali, era um começo. Decidiu fazê-lo mal saísse dali. Ele desligou e voltou a sentar-se com um novo pedido de desculpas. - Vou manter na memória apenas o indispensável, disse ela. Vou guardar o que me fez feliz, o que ainda me faz feliz. Vou apagar lentamente tudo o resto, como se faz num cartão de telemóvel já cheio.

- E como fará isso, perguntou ele.

- Carrego no delete. Riu-se, era uma metáfora. Não - retorquiu - vou gravar novas memórias por cima dele. Substituo o nome dele por outro, por outros, tanto faz. Refaço os meus dias com coisas novas, com pessoas que já conheço e com outras que virei a conhecer. Preencho o meu cartão de forma a não caber mais nada. E quando tiver novas recordações, novas memórias, fixo-me nelas. Passam a ser passado recente.

Quando saiu o telefone dele voltou a tocar, mas ela já não o ouviu.

terça-feira, julho 31, 2007

No Alentejo com 40º à sombra





A realidade ultrapassou todas as expectativas. Obrigada.

segunda-feira, julho 30, 2007

Sono profundo

Invades-me a noite todos os dias. Vejo-te como se fosse hoje apesar de há muito não saber como és. Já nem recordo o teu rosto nas fotografias porque as guardei, bem fechadas, fora da minha vista. Ainda assim, lá estão o teu sorriso, a tua voz, o teu cabelo russo, os teus olhos de um verde lindo. Entram pelo meu sono e albergam-se nos meus sonhos. Fazem deles pesadelos e eu só acordo de manhã. Contigo na minha cabeça.

Esta noite voltaste, como tens feito tantas vezes nos últimos tempos. Como fizeste tantas vezes que já se tornou um hábito. Tinhas uma casa que era também minha, uma mulher que não conhecia, um filho que parecia ser teu. E tinhas-me a mim, como escolha principal, para lá da mulher e da criança que já faziam parte da tua vida. Eu entrava na tua casa - que já fora minha - e explorava os teus móveis, a tua decoração, o teu espaço, tudo o que fizeste de novo e que eu há muito não vejo. Nem voltarei a ver.

Porém, no meu sono profundo, tudo fazes para aparecer, para me levar, para me conduzir até ti. Pedes-me desculpa por tudo e tentas corrigir, com um beijo, todos os males que já fizeste. Eu, tola, perdoo tudo e lá entro na tua casa, cumprimento a tua mulher e passo a mão na cabeça do teu filho. Durmo depois na tua cama, escondida, para que só tu saibas que quem lá está sou eu.

Entras na minha cama comigo, todas as noites. Antes de adormecer afasto-te do meu pensamento e recordo outras coisas, outras pessoas, outras realidades que me são mais favoráveis. Mas é quando fecho os olhos que apareces em força: atacas-me o subconsciente como se o conhecesses bem demais. E conheces... ainda conheces. Aperto a mão do homem que agora fica comigo e é com ele que quero passar a noite. Não o deixas ficar sozinho e vens. Entras de rompante como é teu apanágio e sentas-te à cebeceira talvez a rir. Vês que é outro que abraço, mas sabes que, apesar de tudo, é a ti que quero abraçar.

Acordo com a cabeça pesada, mais uma enxaqueca e os olhos que se fecham perante a manhã. Talvez tenhas dsaído a meio da noite para deixar entrar outros sonhos, mas é o teu que me dá os bons-dias. Esfrego os olhos cansada e vem-me à memória toda a noite que passámos juntos. Quero negá-la, afastá-la de mim, mas ela teima em deitar-se ao meu lado.

Vens nos meus sonhos para abalar o mais profundo dos meus sonhos. Preferia que fizesses como tantas vezes em que me deixaste acordada, à tua espera... preferia que não viesses. Porque já não preciso de ti.

Livros III (ainda vou a tempo?)

A ler:

"Estação das chuvas", José Eduardo Agualusa
"Travels with Herodotus", Ryszard Kapuscinski

No prelo:
"Território Comanche", Arturo Pérez-Reverte
"50 grandes discurso da história", selecção e apresentação Manuel Robalo Miguel Mata

Na lista de compras:
"All things fall apart", Chinua Achebe
"Entrevista com a História", Oriana Fallaci

domingo, julho 29, 2007

Agora para coisas mais comezinhas [ii]

As melhores bifanas nacionais estão no café Almansor em Montemor-o-Novo.

sábado, julho 28, 2007

Apaixonada

Treme, a tua voz ao telefone. Os sms não páram de chegar e as mensagens terminam sempre em ponto de interrogação. Fazes perguntas, umas atrás das outras. 'Tenho medo', dizes-me. E eu, vontade de rir.

Estás apaixonada por quem também está apaixonado por ti. No teu caso, um feito: habituada a gostar de homens que nada valem, habituada a paixões com quem não te pode garantir nada (quem não quer), costumeira em relações impossíveis, com fim à vista, escondidas. Eis que te apaixonas por quem gosta de ti! Eis que surge a pessoa certa (para este momento, pelo menos) que te encanta com um beijo que todos podem ver, que te dá a mão num lugar onde se amontoam pessoas, que assume contigo uma relação que não pode ser escondida. Porque existe, porque é bonita, porque é recíproca.

Não há noites loucas que superem isto; não há mentiras e telefonemas sussurados mais valiosos que este namoro; não há relação de pé ante pé que seja mais importante que esta. Porque o amor fez-se para ser partilhado. Entre dois, e com os outros. Às escondidas, só dos pais quando somos mais novos. Na idade adulta, nada nos pode impedir de dizer: é de ti que eu gosto.

A tua voz treme com o teu riso. Imagino os teus olhos azuis muito abertos e um cigarro a fumegar devagar, para fazer de conta que não tens que enfrentar esta nova situação. Em breve estarei aí, junto de ti, para o conhecer, para te dizer 'sim, aposta, vai em frente', como se a minha opinião contasse, como se valesse de alguma coisa tudo o que possa dizer-te. Para ti vale, porque estás insegura. Não sabes muito bem o que é ser gostada, amarrada, apaixonada. Tudo isto à luz do dia.

Combinas encontros e fins-de-semana. Passas noites em claro para que todos vejam. Almoças e jantas, fazes uma vida normal. E estranhas. Estás agora mais feliz do que alguma vez te vi (ouvi). Mesmo receosa sinto o seu sorriso aberto e uma despreocupação com tudo o resto. Ultimamente nem te queixas do excesso de trabalho, das crises com a tua chefe, de um ou outro problema com a tua mãe. Só conta o novo namorado, o rapaz por quem te apaixonaste e que antes se apaixonou por ti. E essa sensação, a que sentes agora, é única.

O medo passará com o tempo. Talvez não por completo porque, no amor, especialmente no início, receamos sempre perder aqueles momentos bons, aquela sensação de paz, de respirar fundo e fazer bater o coração mais depressa. Mas esse é um medo bom. Não magoa. E verás que vai ser melhor assim: todos vão saber que estás apaixonada. E que desta vez, vale a pena!

sexta-feira, julho 27, 2007

O trauma da mini-saia

Há coisa de dez anos, quando comecei nesta vida de jornaleira, fui entrevistar a primeira mulher cadete da força aérea. Se não era isto, era qualquer coisa do género. O que interessa é que foi numa base aérea. Cheia de homens. E eu com uma mini-saia de pouco mais do que 20 centímetros. O caderno de apontamentos cuidadosamente colocada atrás das costas, ali na linha da saia, a tentar tapar qualquer coisa, enquanto subia escadas.

Hoje fui entrevistar um ministro. Coisa de última hora. Perguntas engendradas em 20 minutos para substituir um colega. A conversa foi num estaleiro de obras. E a mini-saia [vestido branco em versão trapézio] estava muito [mesmo muito] acima dos joelhos…

Primeiro Amor

Haverá amor como o primeiro?

A questão é pertinente e muitas vezes penso nela. Pergunto-me se é possível amar duas vezes, se é possível amar como da primeira vez. Pergunto-me se depois da primeira vez é mesmo amor ou se é apenas um gostar forte, uma paixão, um comodismo, uma vontade.

O primeiro amor deixa marcas para sempre. Se for mesmo amor. Eu não acredito em relações de meses, paixões assolapadas que acabam como começam, uniões ocasionais com sentimentos à mistura. Acredito em relações fortes, em sentimentos que não controlamos, no amor crú que nos impede de falar, de raciocinar, de saber estar. Não misturo o amor com paixão. O amor segue-se à paixão e cola-se à pele sem dela querer sair. E quando o queremos arrancar ele lá está... eventualmente, para sempre.

O segredo será aprender a viver com ele, com o primeiro amor que se nos cola ao corpo? Ou o novo amor, a nova relação, a nova união transforma esse primeiro sentimento numa sensação mais serena, mais capaz, melhor? Não sei...

O primeiro amor é infantil, ingénuo, colhe-nos a alma e circuncreve-nos os reflexos. O pensamento retrai-se e fica apenas um batimento acelerado, desprotegido, tão bom que chega a saciar. Quando acaba é arrasador, destrutivo, decepcionante. Mas acabará, de facto? Ou será que vivemos para sempre com ele? Poderá alguém livrar-nos de um primeiro amor?

Crescemos com ele, habituamo-nos a ele, vestimos-lhe a cor. O primeiro amor é assim como uma borboleta que nos poisa no braço e ficamos quietos com medo que fuja, não queremos assustá-la... Então, ela bate as asas devagar e prende-nos a respiração. Observamos-lhe a beleza e fixamos nela os nossos olhos para nunca mais a esquecermos. O primeiro amor voa quando mexemos o braço. Às vezes volta. Mas muitas vezes segue para longe e deixa-nos apenas o cheiro, a memória, o vazio.

Talvez não possamos viver agarrados a ele. Talvez não seja bom para nós tê-lo como exemplo para amores futuros, relações presentes. Talvez o primeiro amor seja apenas uma experiência para outros, uma forma de sabermos o que não podemos repetir, uma maneira de aprendermos a lidar connosco próprios. Ou talvez não seja nada disto. Talvez o primeiro amor seja eterno, talvez seja a base para tudo o resto, talvez se sente à nossa direita observando os amores que então passam...

Haverá amor como o primeiro? Eu não sei...

É capaz de ter razão

"Querer ficar com alguém até ao fim da vida é um projecto megalopata. Hoje ( desde os anos 50) pensa-se que a ousadia reside na experiência sucessiva. Nada mais errado.
Descobrir todos os dias motivos suficientes para não deixar o outro - uma facilidade obrigatória - é uma tarefa que faz de Sade um menino de coro. Dor e recompensa, o abandono sempre no horizonte, dá uma tesão insuportável."

Agora para coisas mais comezinhas

Desde Novembro do ano passado que não se escrevia tanto neste blog.

Porque é Verão

As pessoas olham ao som de uma gargalhada uns decibéis acima do recomendado. Vou sozinha. Telemóvel na mão.’O prolongamento do teu braço’. A gargalhada transformada em sorriso que vem do mais fundo da alma. A resposta segue na volta do ‘correio’. A parada sobe. Tal como as expectativas. De parte a parte. Ou talvez não. Talvez seja apenas eu. Nesta descoberta lenta de um mundo novo. No meio do ram-ram do trabalho. No surrealismo em formato diário. Na esquizofrenia generalizada. No meio de tudo isto antevêem-se dias lânguidos e noites quentes. Boas. Por muito curtas que sejam. Porque é Verão.

quinta-feira, julho 26, 2007

Ora Pimba, Pimba

Agosto é o mês das festas e Portugal sabe como fazê-las. Por todos os cantos do País fazem-se festarolas e romarias, procissões e missas cantadas. Sempre regadas a bom vinho e a cerveja gelada; sempre com a bela da bifana a desfazer-se na broa de milho. E, claro, com a quermesse montada, que há muita rifa para desenrolar...

A minha adolescência foi passada nestas festas de Verão, algures no concelho de Pampilhosa da Serra, o mais pobre de Portugal. Foi lá que vi cantar a Tonicha e a Lena d'Água, o Trio Odemira e o Marco Paulo. Foi nessas festas de aldeia que bebi o meu primeiro Porto, que experimentei a minha primeira cerveja, que dei o meu primeiro beijo. Foi por causa das festas que pedi aos meus avós para me deixarem sair à noite, que saltei o muro para fugir, que acordei tarde no dia seguinte. Guardo boas recordações desses dias...

Eu tinha um namoro certo nas férias de Verão, mas a maioria das minhas amigas, não. As festas eram por isso um belo sítio para arranjar casos e namoricos, beijinhos escondidos atrás da Igreja, risinhos envergonhados no intervalo das músicas. Éramos muitos, nessa altura: uns 20, às vezes mais, que nos juntávamos aos mais velhos para ter boleia. Lá nos enfiavam numa carrinha. alguns na parte de trás, poucos bem sentados, não importava... só queríamos chegar e a confusão no carro até servia para dar embalo à noite de festa.

Nunca me embebedei nessas festas. Era a certinha do grupo. Mas a cerveja regava toda a gente e poucos regressavam a casa sem cambalear. O meu namoro de férias (com que cheguei a casar, passados quase 20 anos) era um desses rapazes cheios de energia e com gosto pela fresquinha. Para me roubar uns beijos procurava acalmar-se e controlava o gosto. Bebia então sumos e coca-cola e passávamos o resto da noite em conversa melada. Sempre embalados pelo tom de festa.

No dia seguinte custava um bocadinho acordar. As noites só terminavam lá para as quatro, cinco da manhã - para mim, que tinha de estar em casa 'cedo' - e havia ainda as idas ao Relveiro, um sítio magnífico a uns quantos metros das casas da aldeia, com vista para o vale e um ventinho clássico que, mesmo nas noites frias, nos encantava para ver o céu estrelado. Se há um sítio no mundo perfeito para ver estrelas, esse sítio é o Relveiro. Mas, dizia eu, o que custava era acordar. Para depois almoçar e lá nos encontrávamos todos para falar da noite anterior.

Posta a conversa em dia e feita a digestão, seguíamos para o rio para o acordar final. É que à noite, havia outra festarola, noutro lugar, com outras atracções. Na terra também organizávamos a nossa festa. Mas o dinheiro da colectividade (lindo, não é?) era pouco e não pagava mais que um acordeonista ou uma banda mixuruca. Ainda assim lá estávamos, escondidos na Escola Primária, beijinhos e cigarros acesos às escondidas (a certinha não fumava), um passeio até ao largo para dançar com o povo, e o regresso ao esconderijo porque de noite todos os gatos são pardos.

Uma vez fizemos uma quermesse. Enrolei umas quantas rifas nos papelinhos às cores. Para dar, todas as pirosises possíveis, ofertas de fulano e sicrano, compras na loja dos 300 (que na altura não havia euros). E as velhinhas apaixonadas pelas porcelanas, as crianças pelos peluches, os homens pelas garrafas de whisky... Lembro-me que deu um bom lucro.

Mas toda esta história, para vos falar de uma festa imperdível, este ano, em Ponte de Lima. É de 10 a 12 de Agosto e no cartaz, vejam bem, há nomes como o de Tony Carreira, de Ruth Marlene, de Mónica Sintra. Isto, no primeiro dia. Ao segundo, sobem ao palco o Mickael (filho) Carreira, o José Alberto Reis e a Romana. E, a fechar, dia 12, cantam Emanuel, Ana Malhoa e Toy. Preço dos bilhetes? Quase nada: um dia são 10 euros, e pagam-se 20 euros pelos três dias! Imperdível, não é? Não me venham dizer que Agosto é um mês morto e que o Algarve é que é bom no Verão. Eu sempre andei pelo Norte, nesta altura do ano, e só tenho pena de estar numa ilha nos dias destas actuações.

Mais Pimba era difícil...

Regresso ao divã V

Entrou no elevador e suspirou. Ia voltar à sala com cheiro a mofo daquele 11º andar. Hesitou antes de carregar no botão mas, ao fechar da porta, não teve outro remédio: subiu.

Lá em cima o cumprimento de sempre: aquele aperto de mão mole do doutor, aquela mania de não agarrar a mão dela, talvez por prurido, talvez por hábito, talvez cansado de apertar tantas mãos, tantas dores, tantas almas cansadas.

Deitou-se e não proferiu palavra. Ele esperou. Esperava sempre; quando muito lançava um 'Então', mas mais nada, esperava que ela falasse... Mais uma vez, pensou nos 60 euros da consulta e no tempo que passava depressa.

- O meu pai não gosta do meu novo namorado.

- Então porquê?

- Acha que ele é indeciso, que não me levará a lado nenhum. Acha que será uma experiência frustrante.

- E você, o que acha?

- Acho que em parte o meu pai tem razão...

Desfiou então as dúvidas que não a deixavam dormir, que lhe assaltavam a noite transformadas em pesadelos. Ela gostava dele, sentia-se bem com ele. Ele tratava-a bem, como uma princesa. mas não chegava. Nem para ela, nem para o pai. Ela queria casar, queria ter filhos, já tinha passado os 30 e sentia-se atrasada no tempo, sentia os dias a passarem por ela, a idade a correr com pressa. Ele tinha 40. Mas estava expectante, apaixonado, mas sem pressa. Nunca agarrava a conversa do casal, muito menos a dos filhos, e sobre uma casa conjunta, nem pensar.

Falou durante 40 minutos. Pés cruzados no divã, cabeça sobre a almofada forrada a lenço de papel, aquele cheiro da sala fechada e, lá em baixo, o movimento da hora de ponta no centro da cidade. Trocou a posição dos pés duas ou três vezes e olhou para o relógio de soslaio - não gostava de ultrapassar o tempo da consulta por causa do doente seguinte, um homem magro que lhe sorria sentado à porta - mexia as mãos com avidez enquanto falava e dele, do doutor, nem uma palavra. Ouvia apenas o hum de concordância, pressentia um abanar de cabeça compreensivo, adivinhava um escrevinhar na mente que o doutor tinha boa memória.

- E o que pensa fazer com o seu namorado?

- Nada.

- Nada?

- Nada. O que devo eu fazer?

Silêncio. Cravou os olhos na parede branca, à sua frente.

- Resta-me esperar não é? É como se estivesse numa consulta consigo: eu falo sobre determinados assuntos e mais não consigo que uns huns de concordância, uns acenos de cabeça, um olhar de atenção. Então, falo mais e exponho as minhas dúvidas. Nem olho para ele para continuar a fazer de conta que estou aqui. E ganho coragem para expor mais, para dizer tudo, para falar de mim...

- O seu namorado não lhe dá conselhos, pois não? - Não. - Não a pressiona, não a quer convencer de nada. - Não. - O seu namorado quer apenas tempo.

- E quanto tempo devo aguentar a espera? É que estou a envelhecer... o meu pai tem razão.

- Talvez o seu pai pudesse fazer o mesmo que o seu namorado...

- Calar-se?

Nova pausa.

- Talvez o seu pai não gostasse que o seu namorado se apressasse. Talvez valha a pena esperar. E saberá sempre até quando esperar. É como se uma porta há muito fechada acabasse por abrir-se porque alguém encontrou a chave certa para a fechadura.

O relógio dobrou o último minuto dos 45. Estava terminada a consulta. Depois de mais um aperto de mão sem garra sorriu para o doente seguinte e ficou à espera do elevador. Esperou que ele parasse noutros andares até chegar a ela. O botão vermelho dizia que ele viria, que subiria. Não voltou a pressioná-lo.

Quando chegou o elevador abriu a porta.

Aimee Mann

Chego a casa enternecida pela música que me embalou. Foi um convite de última hora que me levou ao Coliseu, nem sequer fazia tenções de ir ver Aimee Mann. Mas bendita a hora em que disse sim. Aimee Mann não é só alta e bonita, não é apenas simpática em palco. É também uma excelente cantora, com uma voz prodigiosa.

Para quem não sabe, esta senhora é autora da banda sonora do filme Magnólia, aquele dos sapos a cair do céu, com um Tom Cruise de barba grande. Um filme notável, na minha opinião. E a banda sonora é genial: tenho o disco. Esta noite recordei cada momento mas de uma forma ainda mais envolvente. A voz de Aimee é assim dengosa e solta, grave e sem vergonha para afinar nos agudos.

E o público estava encantado: Aimee voltou ao palco para dois bis e ainda nos surpreendeu com quatro canções, a última das quais apenas acompanhada à viola tocada pela própria. Aliás, ela tocou todas as músicas, marcando sempre aquele ritmo de cadência com as seis cordas do instrumento. Um aplauso também para o pianista: sem mácula - e para o teclista, cujos cabelos mais faziam parecer um elemento dos Mettalica, mas com uma energia e um à vontade surpreendentes para este tipo de música.

Um belo concerto. Obrigada pelo convite S.

Livros II

No seguimento do pedido a este blog, aqui vai:

- Breve História do Saber, Charles van Doren, ASA Editores
- The Gun Seller, Hugh Laurie, Arrow Books

Conto ler a seguir:

- Rosa Brava e outras Histórias, Pedro Coelho, Oficina do Livro
- A Guerra do Mundo, Niail Fergurson, Civilização Editora

quarta-feira, julho 25, 2007

Livros

O Miguel pediu ou desafiou ou acha que não temos mais nada para fazer. Eu, como gosto do Miguel, ou melhor, como gosto muito dos blogs do Miguel. Respondo:

Plano de Evasão, Adolfo Bioy Casares, Cavalo de Ferro
Três homens num barco
, Jerome K. Jerome, Biblioteca de Editores Independentes
A procura do Amor
, Nancy Mitford, Livros da Raposa
50 anos de crimes
, Fernando Molica (Org), Coleção Jornalismo Investigativo, Editora Record e Abraji
Anna Karenina
, Leon Tolstoy, Relógio D’Água

terça-feira, julho 24, 2007

Akon


Chegou de camisa azul e pullover sem mangas, aos losangos. Negro, sorriso branco, Akon sentou-se na cadeira do lado esquerdo, ao pé de Boss AC. Eu ia entrevistar os dois. Num hotel de Londres, um quarto com cama feita e um candeeiro a separá-los.

Eu tinha ouvido Akon nos Prémios MTV, há dois anos. Mas o Hip Hop não me diz muito e por isso deixei-o passar. Não dei importância... até sábado. Akon não terá ainda 30 anos mas já tem uma boa experiência de vida. Preso por roubar automóveis, converteu-se à música e a uma vida honesta por causa dela. Esqueceu os tempos de prisão e tornou-se um modelo para os jovens senegaleses, de onde é natural.

Gosta de mulheres e de bebida. Em Portugal - onde veio cinco vezes, no ano passado - conhece bem uma casa de striptease... e pouco mais, apesar de falar da linda paisagem do País... As letras que escreve chegam a ser pornográficas, mas ele diz que não, que falam de assuntos de homens mas que a pornografia é física. Mesmo quando escreve 'gosto muito do teu rabo' ou outras pérolas do género Akon acha que está a ser natural. Naturalmente, um homem. 'Se queremos dizer a uma mulher vem tomar um café, na verdade estamos a dizer-lhe: I wanna fuck you' disse-me Boss AC na entrevista. Akon riu às gargalhadas e concordou.

Mas o que me supreendeu neste homem não foi tanto o que ele disse, mas o que ele fez. Estava cheio o Appolo Theatre, em Londres. Cheio de pessoas de todas as idades, brancos e negros, homens e mulheres. Quando Akon entrou em palco foi a euforia: todos se levantaram e ergueram os braços para imediatamente a seguir começarem a cantar as suas músicas de cor. Akon sabe como motivar o público e tem um DJ brilhante: não me lembro do nome dele, mas jamais esquecerei a figura - ténis brancos com atacadores verde-alface; kilt; cabelo apenas no meio da cabeça e todo no ar, e uma energia contagiante, uma presença de palco melhor que a de muitos artistas em nome próprio.

O público aderiu e até eu tive de por-me em pé para ver o palco. Não cheguei ao ponto de aplaudir porque estava ali numa espécie de análise sociológica, mas pude sentir as vibrações da plateia, especialmente do público feminino, quando Akon tirou a t-shirt! E a rapariga - uma típica adolescente britânica, gordinha e vestidda sem gosto - que ele levou para o palco abraçou-o com mais força do que abraçaria a mãe se a reencontrasse passados 10 anos de separação. Fiquei entre o chocada e o rendida à figura.

De facto, as estrelas da música carregam os sentimentos e as emoções de quem as segue. Eu prefiro não seguir nenhuma muito de perto... Antes ver-lhes o brilho assim ao longe, do que deixar ofuscar-me por elas. Mas cada um fará como entender... Valeu a experiência.

Leão

Aos 39 o Leão é um rapaz novo. Está bem conservado e nem os quilinhos a mais lhe tiram o charme. Uma qualidade que lhe conheço há já largos anos, andava ele na escola e tinha uma alcunha que era um diminutivo que, por respeito, não divulgo neste blog.

O Leão, de um blog vizinho, é meu irmão. E ser irmão da Samantha não é fácil. Sobretudo nos últimos anos... Mas o Leão tem estado sempre à altura. Quando foi preciso, lá estavam os telefonemas diários, um pela manhã, outro pelo fim do dia, sempre a par dos problemas e mazelas de uma Samatha em perigo. Bom ouvinte, o Leão está sempre do lado dos felizes e bem-dispostos. Raramente mostra preocupações próprias, mas preocupa-se sempre com as questões que afectam os outros. O Leão sorri e escuta. Sorri e escuta.

É ponderado e tem orgulho naquilo que faz. Isso faz dele uma pessoa segura e autoconfiante. Não importa se está no jardim a podar a sebe, se vai de bicicleta até ao clube de golfe, se está na empresa de fato e gravata ou se tem reuniões por todo o País... em qualquer situação o Leão sabe estar. E sabe o que quer.

O Leão tem sorte. Ou sabe tê-la. Tem uma família fantástica (e não falo de mim), uma casa maravilhosa, carro da empresa - boa marca - tempo para tudo. Essa capacidade de ter tempo para tudo é das que mais me surpreende: ainda hoje, estava eu no pequeno-almoço, já ele tinha ido a Leiria e voltado!!! Acorda cedo e deita-se a horas decentes. Durante o dia arranja espaço para trabalhar, para estar com a família, para ler e ouvir música, para escrever no blog. O Leão é capaz de fazer isto tudo e ainda consegue fazer uns telefonemas aos amigos, combina umas almoçaradas e vê mais um episódio da série preferida. Invejo-o por isso.

Não há dúvidas que tenho sorte em tê-lo como irmão. É um bom ouvinte - já o disse - mas também um bom conselheiro, um bom amigo, um excelente companheiro. O Leão merece as qualidades que tem, e a capacidade para partilhá-las. O Leão merece estes 39 anos gozados a cada minuto. E faremos a festa quando chegarem os 40.

Parabéns Leão.
E obrigada!

segunda-feira, julho 23, 2007

Um destes dias

Será assim...

Boa semana

Uma fatia de bolo de maça e canela a quinhentos escudos a fatia. Com chá verde a acompanhar.
Porque mereço.

sexta-feira, julho 20, 2007

Este blog desapareceu?





Eu sei que deveria "postar" mais. Estou a tentar emendar-me e até já consegui recuperar a minha password de acesso. Mas, aparentemente ausente, estou sempre à espreita.
Mas já lá vão mais de 10 dedos da mão em sustos. Pelo menos, uma vez por semana (é favor não tirar ilações acerca desta periodicidade), surge o sobressalto. "O blog desapareceu???"

O problema (claro!) não é meu. É que isto da maiscidadequesexo troca-me as voltas. Se clicarem na imagem facilmente percebem porquê :)

quarta-feira, julho 18, 2007

Estamos entendidos

Começaram a discutir por nada. Há muito que não acontecia, tal era a serenidade instalada entre os dois. Mas nessa noite ele rejeitara-a, trocara-a por um programa de televisão. Ela sentiu-se frágil e caiu na cama em desespero.

A angústia não a deixou dormir, e muito menos o barulho da caixa mágica, na sala, para lá das paredes do quarto. Ele mudava de canal à medida que os olhos dela abriam e fechavam quase soluçando entre os lençóis. Conteve-se. Saiu da cama e foi sentar-se à frente dele, enfrentá-lo.

- Tens de decidir o que queres de mim. Eu tenho de saber o que queres de mim. Não podemos continuar nesta vida de namorados a viver em casas separadas, com umas noites juntos pelo meio, sem saber o que será desta relação amanhã.

Ele fixou os olhos no televisor mas estava a ouvi-la. Não disse nada.

- Não dizes nada?
- Eu não gosto de falar.

Ela não se exaltou. Acalmou-se e quis entender a postura daquele que prefere calar-se. Ela era impetuosa e não conseguia guardar mágoas para si. Estava perante uma pessoa diferente. Resolveu expor calmamente os seus argumentos. Ele desviava o olhar da televisão. Estava, de facto, a ouvi-la. Disse-lhe o quanto gostava dele, a dificuldade que tinha em compreendê-lo, disse-lhe que era mais fácil se tivessem projectos, se ela os conhecesse, mesmo que não fossem para amanhã. Terminou com um beijo de boa-noite e foi para a cama.

Daí a pouco, ainda sem dormir, ouviu-o chamar pelo seu nome.

- Não queres vir ver o que está a dar na televisão?

Juntou-se a ele. Era a melhor forma de fazê-lo feliz. Entendeu-o, naquela noite em que ele quis partilhar com ela um pedaço da vida. Era um simples episódio de uma qualquer série de televisão.

Mas quando se deitaram, fizeram-no juntos.

E se...

E se o querer menos for afinal querer mais. Se um não for um sim.E se em vez do fim quiser o sempre?

terça-feira, julho 17, 2007

Cartas de Amor

Começam sempre com palavras doces e são-me dirigidas. Guardo-as numa gaveta com cheiro a jasmim. Deixo que o tempo passe para que as palavras fiquem. São cartas de amor...

Quem as não tem?

As mais antigas têm anos e a letra ainda por formar diz-me que quem as escreveu ainda não tinha definido a caligrafia. Não têm rasuras mas escritas a azul parecem ter, nas palavras, um profundo sentimento de saudade, de alegria, de carinho. Vêm em papel pautado, tamanho A4, folhas arrancadas de um caderno escolar. Dias interrompidos para escrever. Talvez entre duas aulas, talvez enquanto fala o professor mais chato. E dão a volta para o outro lado da folha, terminam quase na última linha como se muito mais houvesse para dizer.

Outras há escritas mais tarde, pela mesma pessoa. As mesmas folhas A4 mas agora com o logotipo da empresa. Tarde com intervalo para escrever tantas linhas que me caíram no coração. E me fizeram sorrir. São promessas, perguntas, são desejos, vontades. Cartas de Amor escritas de forma apaixonada e verdadeira. Porque ninguém escreve sem sentir o que está a fazer.

E as mais recentes têm novo remetente. Adulto, pausado, consciente. São cartas de Amor sem a paixão de outros tempos, sem o gozo da juventude quase infantil. Mas trazem a responsabilidade e o carinho de quem cresce a gostar do outro. São poemas e linhas certas, escritas com a alma, com a mão segura, sem hesitações. Fico a pensar que gosto de lê-las, a todas, de recordá-las, de saboreá-las.

São tão poucas as cartas de amor dos nossos dias. O sms e o messenger vieram substituir essa caligrafia apurada, cuidada, letra a letra para fazer sentido num pedaço de papel dobrado em quatro. Sem precisar de envelope... Como podem as gerações de agora não ter uma carta de amor? Como guardam memórias e recordações? Deixam as mensagens escritas por alguns dias, mas logo a máquina pede mais espaço e são apagadas as palavras de amor. E vêm com abreviaturas, obrigam a adivinhar, perde-se tempo na procura da palavra, perdendo-se-lhe o sentido.

As Cartas de Amor não devem morrer. Um destes dias vou escrever uma. Para que fique para sempre.

domingo, julho 15, 2007

S.P.M. (ou quando é que será que me vais entender?)

- (suspiros, bufadelas, irrequietudes)
- Deixa 'tar que o período já aparece e depois já te sentes melhor.
- E isso é suposto consolar-me?

...é só desta vez...

O ex-fumadores são como os toxicodependentes. Os alcoólicos. Não há distinção. A não ser a socialmente correcta que diz que o tabaco [e o vinho] não é uma droga. Qualquer momento de desatenção pode ser fatal. Qualquer coisa serve de desculpa. E há sempre o ‘é só desta vez’. Na última semana, ao fim de [quase] sete meses sem pegar num cigarro, fumei três. O último foi há coisa de meia hora. Sentada numa cadeira naquilo que se espera venha a ser um jardim num futuro próximo. Enquanto olhava para as estrelas e me consolava a ter pena de mim própria. Sou eximia nesta arte. Sei que não precisava daquele cigarro. Pelo menos não racionalmente. Emocionalmente sim. Era a tábua de salvação para esta noite de sábado, véspera de dia de trabalho. Há razões que me levaram a fumar este e os outros dois. Nenhuma delas é válida. Mas afinal... é só desta vez.

sábado, julho 14, 2007

Tróia na sexta-feira 13

Apanhámos o barco para o outro lado. Já não existem as Torres foleiras, mas há agora um empreendimento em construção. Um aspecto terrível, à entrada da praia. Dizem que vão mudar o acesso à península. Espero que sim, ou será mais uma afronta ao urbanismo.

Chegada à praia pelo corredor de madeira. Bola nos pés e chinelos à espera de ver areia. Já descalça percorro o caminho até ao chapéu ali plantado há 15 dias. Ninguém rouba. Fica na praia dia e noite, ora aberto, ora fechado, conforme o sol. Não o aproveito. Prefiro deitar-me fora da sombra e tapar a cara com um boné já gasto, da Gant. Pulverizo o creme no corpo e penso que não quero um escaldão. Alterno o sol com o mar e sinto o cheiro bom de um dia de folga, durante a semana. É raro.

Durmo ao sol.

A noite faz-se com cheiro a praia, à beira da piscina. Assam-se as entremeadas e o entrecosto. A salada verde cai fresca no prato e as salsichas são cortadas em pedaços para facilitar a mastigação. Bebo uma coca-cola com gelo e limão. Sabe a Verão.

Regressamos depois do documentário sobre Sinatra, na 2. Outra face do mestre, amigo de mafiosos. O barco vem quase vazio. Não está fria a noite. Depressa chegamos a Setúbal e apanhamos o carro no parque de estacionamento. Acabou o dia.

Beijo-o no ombro antes de adormecer. Sabe bem ter companhia na cama. Quem disse que hoje era dia de azar?

Cais do Sodré

- Olá, como está, há muito tempo que já não vinha cá
- Pois é...
- É o trabalho não é? Quando chega à sexta à noite uma pessoa só quer ir para casa estender-se no sofá.
- Isso mesmo....

O comentário fez-me perceber que não tenho saido muito. E eu, que só ia beber um copo e retirar-me cedo, acabei por ir ficando e dançar até cair para o lado.

- dê-me uma água por favor?
- Água? De certeza que não prefere um vodka tónico??
- Está bem!

Ontem à noite fui ao Tóquio e ainda sóbria percebi claramente porque é que continuo a regressar lá sempre que posso. Após um dia de reuniões, a minha blusa de seda e as sandálias de salto alto contrastavam claramente com o ecosistema local. So what? Afinal, é por isso que regresso. Pela heterogeneidade sempre tão presente e partilhada que me leva a pensar que se a sede do mundo fosse naquela distoteca lisboeta viveríamos sempre em paz.

Desta vez, o cromo da noite - e digo-o com muito carinho - era um dos amigos que me acompanhava e que ao dançar me fez sorrir e recordar a Elaine num dos mais hilariantes episódios do Seinfeld.

Não sei se fui a única a sorrir mas acredito que, se outros o fizeram, foi por também perceberem o quão genuinamente divertido ele estava.

Tenho que voltar mais vezes. Agora só me resta esperar que um panasorbe e meio gurosan me consigam nas próximas horas tirar esta horrível dor de cabeça ressacada. Saudosos 20 anos :)

sexta-feira, julho 13, 2007

Post-it [*]

O sol. O mar. O som das ondas. Chuva nos dias quentes. O cheiro a terra molhada. O céu da Serra nas noites de Agosto. Conduzir sem destino. Ouvir música. Fazer a A23 a 160 a hora. Malmequeres. O branco. Gargalhadas. Sorrisos. Surpresas. O cheiro a queimado nas noites de Verão. O fumo das lareiras nas noites de Inverno. Camisas brancas e calças de ganga. Pés descalços. Acordar cedo nos dias de Verão. Livros. Jornais. Histórias bem contadas. Nova Iorque. Times Square. Livrarias. A Barnes & Nobles. O Sena. Dias tórridos em Sevilha. A Praia Verde. A Carrasqueira. O cheiro a maresia que se adivinha na foz do Rio desta cidade. Madrugadas junto a um Rio da minha infância. Conversas noite dentro. O fumo de um cigarro a diluir-se na penumbra de uma sala à luz das velas. Não ter horas marcadas. A languidez do final de dia na praia. Banhos de chuveiro. Banhos de mar. Massagens. Crepes com gelado da Häagen-Dazs. O Ideal. Pizza com frango, banana e natas. Comboios. Sexo. Cerejeiras carregadas. Árvores. Subir a árvores. A relva. O carvalho da Serra. Andar de baloiço. Fotografias. Rir. Chorar. Beijar. Dois corpos que se tocam. As ruas desta cidade. Dar mimos. Andar descalça na areia. A praia no Inverno. Uma lareira acesa nos dias de chuva. Os meus amigos. Escrever. Sonhar. O calor. O Yoga. Uma esplanada ao pôr-do-sol. O chocolate quente do Café Casino de Santiago de Compostela. O Papa-Léguas. A praia da Amália. A Quinta do Esquilo. Quadrados verdes.

[O original - que há uma semana que não me sai da cabeça - está aqui. Preciso de me lembrar que vale a pena. Vale sempre a pena. E nem sequer é preciso muito.]

quinta-feira, julho 12, 2007

Chefe mas pouco II

Falo hoje sobre o chefe-porreiraço. É um outro tipo de chefe, muito em voga nas nossas empresas, e preferido por muitos.

O chefe-porreiraço tem sempre uma piada para dizer. É bem-disposto e bem-humorado, sempre com um sorriso ou uma gargalhada prontos a dar. Numa reunião não deixa escapar uma oportunidade para lançar uma graçola, chegando às vezes a autocriticar-se ou a criticar elementos menos amados dentro do local de trabalho. Toda a gente se ri com ele, porque todos estão de acordo em relação a esses mal-amados.

Receber um e-mail ou um telefonema do chefe-porreiraço é uma coisa normal. Ele está sempre lá, imperturbável, disponível, de teclado na mão com uma piada entre conversas. Se liga à noite, altas horas, mete uma 'bucha' para se desculpar e quem fica mal visto é o subordinado que estava a dormir àquela hora. O chefe-porreiraço não tem pruridos porque todos o acham o maior, e tudo lhe é perdoado.

Mesmo que ande de fato e gravata este chefe parece estar de calções e hawaianas. De tal forma é descontraído... desaperta o botão de cima da camisa branca e enrola as mangas com quatro voltas, até ao cotovelo. O casaco, pendura-o nas costas da cadeira, e no bolso tem sempre um pacote de pastilhas. Gosta de mascar mas não faz balões à frente de toda a gente. É um tipo porreiro.

Os colegas e chefes do chefe-porreiraço riem-se com ele e anseiam que ele não esteja na próxima reunião que, com a presença dele, durará por certo mais uma hora. Intervem por razões sérias mas, na maioria das vezes, é para confraternizar. Até que todos o mandam calar e ele continua a rir, divertido, quase infantil, e não resiste à próxima oportunidade. Com a persistência, os outros sorriem.

O chefe-porreiraço até manda, mas poucos o levam a sério. Às vezes pensam que mente, mesmo quando fala verdade. E às vezes pensam que ri, mesmo quando tem vontade de chorar. O porreiraço, enquanto chefe, é cá da malta. Está sempre pronto para umas cervejolas e anuncia saídas à noite mesmo que não tenha intenção de pôr o pé fora de casa. Vai a concertos e ao cinema e está sempre a par das novidades dos jovens. Tem um lugar na second life e, ao longo do dia, diverte-se a fazer vida dupla, enquanto esperam por ele para um almoço importante.

Nunca é despedido e raramente cai da cadeira. Se tentam chamá-lo à atenção descobre uma maneira de divertir o interlocutor e ele desiste. Não há coragem para impedir o chefe-porreiraço de ser palhaço. É tão natural rir com ele como trabalhar com um outro chefe qualquer, menos sorridente.

O chefe-porreiraço faz-se à vida com uma graça. É naturalmente dotado de bom karma e não se chateia com nada. Em tudo vê um lado positivo e uma forma de lançar a tal 'bucha'. É um chefe à maneira, bom para beber uns copos.

Mas isso não se faz no local de trabalho...

quarta-feira, julho 11, 2007

Chefe mas pouco

Não se pense que chefiar uma equipa é coisa fácil. Muito menos se pense que coordenar essa equipa é uma ambição. Muitas vezes o poder surge sem querer, e mantém-se sem saber.

Há uma classe de chefes que é a mais penalizada. São os chefes-psicólogos.

O chefe-psicólogo está sempre disponível para os subordinados. Mesmo que esteja aterrado em trabalho, mesmo que esteja numa luta contra o tempo, este chefe consegue sempre uns minutos para ouvir as dores de quem com ele trabalha. É paciente e bom. Por isso ouvinte atento. É uma pessoa que pára de teclar e olha nos olhos do interlocutor quando ele surge com novos receios, novas queixas ou ressentimentos. E tem sempre o telefone ligado.

Normalmente este tipo de chefe sabe de cor a vida dos subordinados. Os assuntos que lhe são testemunhados são pessoais e relacionam-se com o amor, com dinheiro, com a falta de sorte na vida. O chefe-psicólogo sabe que A está prestes a divorciar-se e que B veio mais tarde porque teve uma discussão com o namorado, na noite anterior. Sabe ainda que C tem filhos e que o mais novo chorou a noite inteira, que fez birra de manhã e que detesta ficar na escola sem a mãe.

Este chefe nunca almoça sozinho porque tem vários pretendentes à sua companhia. Às vezes entram, em rotatividade, os subordinados, que precisam de uma palavrinha com o chefe. Todos os dias. A sua formação permite-lhe pagar um ou outro café - até mesmo um chá, de vez em quando - para que o queixoso esteja mais à vontade na conversa. Quem se queixa raramente tem moedas e, por isso, é o chefe quem oferece.

Toda a gente gosta de um chefe-psicólogo, excepto os subordinados independentes que não precisam de ajuda para os seus assuntos pessoais. Esses precisam de falar com o chefe sobre trabalho mas ele está, quase sempre, ocupado com a vida dos colegas. Este chefe empresta dinheiro, quando é necessário, porque sabe que a prestação de D foi mais elevada este mês. Também sabe quem ainda não recebeu o IRS e adivinha, pelas palavras envergonhadas de E, que o marido desta ainda não depositou o dinheiro do mês, na conta dos filhos.

O chefe-psicólogo é complacente. Não pode chegar atrasado porque quase todos os seus subordinados o fazem. Ele sabe que um estará doente, outro terá apanhado trânsito e um terceiro furou o pneu. Sabe ainda que os outros, os que não inventaram desculpas, chegam atrasados por culpa de terceiros, por culpa da vida, não por sua responsabilidade. Também não folga e raramente tira férias este chefe, pois tem de conciliar a sua vida com a de todos os que com ele trabalham. E a dos outros terá sempre prioridade.

Para o chefe-psicólogo há sempre os coitadinhos. Eles fazem-se passar por tal e chamam o chefe de amigo. O chefe não faz ideia porque, uma vez que nem conhece a família nem nunca foi lá a casa mas é amigo, no local de trabalho. Esta amizade obriga-o a dar presentes ao subordinado e aos filhos do subordinado quando fazem anos, e no Natal. Esta amizade obriga-o a perguntar, todos os dias, se está tudo bem. E a voltar a ouvir relatos porque nada está como deveria estar...

Não há recompensa para o chefe-psicólogo. Nem ganha mais por sê-lo, nem tem consultas pagas. Oferece tudo: o tempo, os conselhos, as dicas, os almoços. É um chefe experiente que acaba por trabalhar mais horas para compensar o tempo que perdeu a ouvir os outros.

O chefe-psicólogo também gosta de ser ouvido. Mas nem as suas ordens são integralmente cumpridas.

terça-feira, julho 10, 2007

Paredes

Desespero à procura da fotografia de uma parede branca. Pode ser uma parede qualquer. Mas não pode ser uma fotografia qualquer. Quero passar uma mensagem subliminar. Com um único alvo. Atraem-me as paredes brancas.

À minha volta discutem-se pesos e medidas. Tamanhos de soutiens. Dietas. Massagens. É uma versão profissional do Sexo e a Cidade. Acho saudável este riso desbragado. Contrasta com o silêncio carregado de outras horas. Dias em que a ‘vida’ se escreve em páginas de jornal. Em que não há tempo para mais. Dias em que luto para não pensar que está tudo errado. Hoje é um dia bom! Não há tempestades no horizonte. Pelo menos por enquanto. Respiro fundo e ganho alento para novas lutas.

segunda-feira, julho 09, 2007

Voo nocturno

Oiço agora Jorge Palma, o novo álbum. Chama-se 'voo nocturno' e está cheio de letras bonitas, esquisitas, curiosas. A harmonia está presente em cada canção. E a voz, a voz contorna todas as dificuldades dos acordes. Canta e fala com quem o quer ouvir.

Jorge Palma é, para mim, uma referência musical. 'Só' é uma das músicas mais bonitas que conheço. E há os clássicos, os que nos deixam rir, os que nos fazem sorrir, e aqueles que nos trazem lágrimas aos olhos. Porque a música de Palma é maioritariamente triste. Talvez sejam apenas tons graves, que os agudos ficam para outras cantigas. Palma parece estar sozinho no mundo da música, mesmo quando junta uma série de amigos como fez agora, no último teledisco, com 'Encosta-te a mim', onde aparecem, por exemplo, Camané e Mafalda Veiga.

Mas os génios têm defeitos, e o de Jorge Palma é fazer-se acompanhar por uma carroça. Sempre. A entrevista que deu à SIC Notícias, a propósito deste novo álbum assim o demonstra: cabelo despenteado como se tivesse visto o monstro de Loch Ness, óculos de sol pendurados na ponta do nariz, e uma voz arrastada, pensamento lento, whisky descontrolado. É uma pena.

Há uns dois anos assisti a um concerto ao vivo, no CCB. Completamente bebido. Chegou atrasado, tinha a camisa desaboatoada e mostrava o peito e a barriga descaída. Cantou afinado, porque tem voz, mas com o álcool sempre presente. Não muito tempo antes tinha-o visto no Pavilhão AtLântico, garrafa de água ao lado do piano, e algumas piadas sobre o passado. Mas o passado fez-se futuro e diz-nos o presente que Jorge Palma não abandonou a bebida. Está preso a ela, como ficamos presos à sua música. É uma pena.

O disco acabou e tenho vontade de pô-lo novamente a tocar. As músicas são todas boas, apesar de algumas ficarem mais no ouvido que outras. Mas diz-me a experiência que todas ficarão para sempre. Palma tem uma estrela (do mar) que faz dele um escritor de canções, um músico fantástico. Só não sabe como gerir a carreira.

Gostava de o ver sóbrio. Com a sobriedade com que faz um disco. Mesmo sabendo que muito do que nasce vem-lhe do estado já desviado da normalidade. Mesmo imaginando que a canção lhe surge com um copo na mão. Ainda assim, gostava de o saber sóbrio. É uma pena que ele não se sinta bem assim...

Lemmings

Ponho a tocar o 'cinema' do Rodrigo Leão. Ao meu lado, a C. sugere que dentro de momentos estaremos todos em fila a saltar pela janela. Só consigo pensar nos Lemmings e rir-me até às lágrimas. Sempre é uma variação do que tem acontecido nos últimos dias.

Estados d'Alma [viii]

Não queiras saber de mim
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate
Pior do que eu não há
Fico fora de combate
Como se chegasse ao fim
Fico abaixo do tapete
Afundado no serrim

Não queiras saber de mim
Porque eu estou que não me entendo
Dança tu que eu fico assim
Hoje não me recomendo

Mas tu pões esse vestido
E voas até ao topo
E fumas do meu cigarro
E bebes do meu copo
Mas nem isso faz sentido
Só agrava o meu estado
Quanto mais brilha a tua luz
Mais eu fico apagado

Amanhã eu sei já passa
Mas agora estou assim
Hoje perdi toda a graça
Não queiras saber de mim

Dança tu que eu fico assim
Porque eu estou que não me entendo
Não queiras saber de mim
Hoje não me recomendo

[Rui Veloso]

domingo, julho 08, 2007

Dr. House II

A TVI emitiu há dias o último episódio da terceira série de Dr. House. Não gostei! House despede Chase; e Cameron e Foreman saem de livre vontade, demitem-se. House não corre atrás de nenhum... Discordo! Não quero acreditar que House, o fantástico Dr. House protagonizado por Hugh Laurie, tenha tão fracos sentimentos, a ponto de não se importar de perder os seus três médicos. Os melhores.

Tento não perder um episódio de House. Já comprei as duas séries e aguardo ansiosamente a terceira, que deverá sair em Setembro. Gosto particularmente do desempenho do médico principal, coxo, arrogante, espirituoso, interessante, inteligente. Fico agarrada aos diálogos e tenho vontade de fazer rewind na televisão, para perceber melhor o que foi dito, e porquê. Mas isso só é possível nos dvds...

Na semana passada fiquei a saber que Hugh Laurie escreveu um romance. Está disponível na FNAC, já sei, esse Gun Seller, versão apenas inglesa. Ainda não tive oportunidade de comprá-lo porque não há na FNAC onde mais vezes costumo ir - pelo menos uma vez por semana - mas já vi que existe, na net. E vou lê-lo num ápice.

Fiquei a saber deste livro por causa de uma entrevista do actor no Inside Actors Studio, no AXN, creio eu. O homem é único e o sentido de humor de House está na pele de Hugh Laurie. Curiosamente, nessa entrevista, pude saber um bocadinho mais sobre a vida do senhor, nomeadamente os problemas com a mãe - que já morreu - por quem não se sentiu suficientemente amado. Fala dela com saudade mas com alguma amargura. Pelos vistos, os pais não se sentiam orgulhosos dele, e só quando ele pisou os palcos começaram a sorrir perante as suas piadas.

Laurie é um homem do riso. Contracenou com Rowan Atkinson (o Mr. Bean) e entrou em várias comédias. Mas, na minha opinião, é como House que cresceu. É no papel do médico alucinado que vive melhor. As expressões são as mais indicadas para cada momento, a pronúncia é americana e encenada - ele é inglês - e o andar, de bengala, é imitado na perfeição. Custou-me ver House andar sem coxear, na entrevista.

House também toca piano. Aliás, Hugh Laurie toca piano. E bem. Ainda para mais escreve letras, com piada, claro. O homem é brilhante. Não que os restantes actores não sejam bons - não sei se voltarão todos, na próxima série - mas House é o expoente máximo da boa interpretação.

Enquanto houver casos clínicos, ele lá estará para salvar vidas. E parte da minha semana.

sexta-feira, julho 06, 2007

Cash Flow

Chegava ao princípio do mês e já não tinha dinheiro. O ordenado voava com as contas fixas para pagar... Pagava a casa, o carro, o empréstimo pessoal... Pagava os médicos, a gasolina e a via verde. Não sobrava grande coisa para as refeições fora de casa, e muito menos para os extras. Passavam-se meses sem que comprasse uma peça e roupa, ela que era uma devota dos centros comerciais. Só não os visitava ao domingo, porque não gostava de ver os casais com o fato de treino igual, quase sempre em tons de roxo.

Esperava pelo IRS e pelos subsídios de férias e de Natal como quem espera um filho. Ali ficava com o ventre em festa, às vezes preso na amargura, apertado, enquanto não caíam os euros na conta. Julho e Dezembro eram os meses maiores. Nessa altura desforrava-se. Pagava as contas e lá ia às compras, à procura de um trapinho, que tudo lhe ficava bem.

Juntava trocos para a depilação e para arranjar as unhas. Não dispensava nenhuma destas obrigações femininas. Mesmo de calças compridas gostava de ter as pernas limpas, sedosas, como via nos anúncios de televisão. E usava um creme todos os dias, para hidratar a pele. E as unhas, pintava-as de vermelho - carmim, para ser mais exacta - sempre com uma manicure brasileira porque lhe tinham dito que eram as melhores e que faziam milagres com mãos estragadas.

Este mês estava lisa. Andava a planear uma viagem e nem sabia como pagá-la. Tinha imaginado Nova Iorque mas nem as promoções estavam do lado dela. Optou pela Europa, uma coisa mais perto, também uma cidade grande, mas com História. Escolheu Madrid e já tinha as agendas de exposições do Prado e da Rainha Sofia. Também já sabia que espectáculos podia ver na noite espanhola, na movida. E sabia em que restaurantes comer. Só não sabia como pagar tanta coisa. Tinha descontos nos museus, mas só isso. Teria de desembolsar para tudo o resto. A viagem estava permanentemente adiada.

Chorava baixinho, à noite, em casa. Sozinha, com os extractos do banco na mão. Nem tinha um ordenado baixo, mas as despesas eram mais que muitas. Era uma descontrolada com os presentes para os amigos e cada aniversário tomava-lhe uma parte da carteira gasta pelo uso. E havia os jantares, com festa. Tudo caríssimo. Limpava as lágrimas com os soluços e punha-se a pensar no que podia fazer para ser aumentada. Nada. Já tinha feito tudo o que era viável fazer. A economia estava em crise e a Fundação onde trabalhava não dava dinheiro. Estava sem saída.

Tinha uma nota de 10 no bolso dos jeans. Ia tomar um café, naquela noite de Verão. Foi quando a viu: uma velhota sentada à beira de uma árvore no meio da cidade. Não lhe pediu nada. Tinha o olhar preso ao chão e lenço verde na cabeça. Não tinha frio, que a noite aquecera, mas os cartões ao lado indicavam a cama para a madrugada.

Voltou para casa sem ter bebido o café. Sorriu quando sentiu o bolso vazio. Estava mais rica e percebeu porquê.

No mês seguinte sobrou-lhe dinheiro.

quinta-feira, julho 05, 2007

Ainda o divã...

Deitada, de barriga para cima, olhava o tecto em branco e perseguia os limites das paredes. Cheirava a mofo, ali dentro. Talvez porque a consulta dela fosse já a última do dia - já era noite cerrada - e o odor das pessoas se amontoasse na sala. Ela não gostava. Sempre que chegava substituia o guardanapo onde deitava a cabeça e não queria sentir o quente do corpo do paciente anterior.

Os outros doentes entravam e saíam sem olhar para ela. Nem boa dia, nem boa tarde. Teriam vergonha de assumir o divã? Ela sorria sempre que alguém passava e dizia aos amigos 'hoje vou ao médico dos malucos'. Sentia-se uma, às vezes. Não por causa da cabeça confusa - já se sentia muito melhor - mas porque continuava a ir. Já não tinha o que dizer e lá estava, agora quinzenalmente, no consultório do 11º andar.

'Hoje não tenho novidades, doutor'. Ele cofiava a barba e ficava à espera de mais. Ela ficava a olhar os tais pormenores na parede e no tecto e mantinha-se calada. Desistia quando pensava no dinheiro que aqueles 45 minutos lhe custavam. Então falava. Ocasionalmente falava do passado, mas era agora o presente o tema de conversa. Talvez por isso não tivesse o que dizer... o presente não a atormentava. Era praticamente feliz.

Raramente levava relógio e só sabia do fim da consulta pelas palavras dele. 'Então até para a semana'... 'Não, até daqui a quinze dias'... Sabia-lhe tão bem não voltar para a semana. Na verdade, saber-lhe-ia bem não voltar nunca mais. Mas o doutor era peremptório: 'Ainda não, ainda não está preparada'... Sentia naquelas palavras uma obrigação, e voltava.

O guardanapo de papel estava enrugado. Atirou-o para o lixo e pôs um novo sobre a almofada de veludo verde. Deitou-se de barriga para cima. Não tinha nada para dizer, e ainda lhe faltavam 45 minutos...

quarta-feira, julho 04, 2007

Amanhã na Dinamarca



Uma Casa da Ópera de "luxo", pela simplicidade das linhas de uma infra-estrutura que pode albergar mais de 1500 pessoas, equipada com tecnologia de ponta. Gerações vindouras vão agradecer para sempre ao armador e empresário petrolífero de 92 anos que deixou este tesouro de mais de 3 mil milhões de euros à sua cidade.

Hoje na Dinamarca





Preserva-se e acarinha-se o legado arquitectónico e cultural do povo e dos seus mecenas.

Ontem na Dinamarca




Há mais de um século que, numa linda praça, um português abriu o Café à Porta, na doce Copenhaga. Um tempo em que ainda deixávamos esta marcas de bom gosto.

terça-feira, julho 03, 2007

O meu hi5

Good Reads

segunda-feira, julho 02, 2007

Entre um blog e outro*

das coisas finitas, fazer amor é a melhor...
porque não se lhe conhecem contra-indicações.

Urgências

É urgente deixar de ler autores africanos. Principalmente os meus angolanos de eleição. Angualusa, Pepetela, Manuel Rui. Qualquer um deles me faz ter a certeza que estou no lado errado do mundo.

[URGÊNCIAS 2007
Em cena até 29 de Julho no Teatro Maria Matos, em Lisboa]

[im]pressões

Todos os dias, hora a hora, sinto na pele que o dinheiro não é tudo.

A Liberdade de Imprensa ou Momento corporativista

Movimento Informação é Liberdade [Alerta ao País]
O grupo de jornalistas abaixo assinados constatando que se encontra em marcha o mais violento ataque à liberdade de Imprensa em 33 anos de democracia, decidiu juntar a sua voz à de todos os cidadãos e entidades que se têm pronunciado sobre a matéria e manifestam publicamente o seu repúdio por todo o edifício jurídico aprovado pela Assembleia da República, ou à espera de aprovação, referente à sua actividade profissional, que consideram limitativo do direito Constitucional de informar e ser informado.

domingo, julho 01, 2007

Água benta

Acredito na família com o conceito que a Igreja lhe dá. Infelizmente a sociedade de hoje já não está preparada para um núcleo familiar à antiga (que não quer dizer que fosse perfeito ou honesto), um casal feliz com filhos, vários, e os avós, os tios, os primos...

Um dia tentei construir uma família e não resultou. Não desisti de uma segunda tentativa. Mas quando o fizer - acredito que tal acontecerá - a mesma Igreja em que acredito não me dará a 'benção'. Estarei fora das normas porque não viverei uma família num primeiro casamento. E é injusto.

Ela entrou ontem na dita família cristã. Estava de branco com umas florinhas amarelas no vestido, o mesmo fato que a mãe já usara em igual circunstância. Não chorou em momento algum. Nem quando lhe derramaram a água pela cabeça... Ali esteve, serena, atenta, curiosa.

Acredito que esta é uma família especial. Creio que - a ter filhos - eles farão sempre parte desta comunidade. Não hesitarei em baptizá-los. Mas será nessa mesma Igreja que vai condenar a minha união, esteja ela em que pé estiver. Não será uma união católica. Já tive uma...

Às vezes questiono-me sobre o valor da Igreja nas sociedades actuais. Pergunto-me se não seria melhor adaptar-se à realidade dos nossos dias. Já poucos fazem um casamento para a vida, e são menos ainda os que o fazem pela Igreja. Eu acreditei, quando apostei nessa solução. Fazia sentido, há seis anos. Hoje tenho dúvidas. Não pela fé e pela essência do cristianismo... mas pela forma como os católicos olham para as diferenças. Diferentes são os que não conseguem manter uma família à primeira. Diferentes são os que se amam e optam por não 'validar' essa união. Diferentes são os pais que não programaram os filhos, mesmo que os aceitem com todo o amor. Diferentes são os que não se regem pelas leis da Igreja. Muitas vezes porque já não podem...

Ela foi baptizada no seio de uma família perfeita. Também à luz da Igreja. Espero que cresça feliz pela opção dos pais. Também acredito que esta é sempre uma opção dos pais. Tão obrigatória como ir à escola...

Galináceos no Museu

Fila de espera para entrar. Longa mas rápida o suficiente para não desanimar. Domingo de manhã do primeiro dia de Julho. Algum calor e as crianças a brincar sobre o vapor de água que sai do chão. A fila continua, quase até ao Jardim das Oliveiras. À frente anuncia-se o Museu Berardo, portas abertas gratuitamente até às dez da noite. Amanhã já se paga bilhete.

Pessoas sozinhas, casais, grupos de amigos, famílias. Eu ia com os meus dois afilhados. Ela, 10 anos; ele 5. Têm a cabeça destapada e protejo-os do sol enquanto a fila não entra no edifício. Ele está irrequieto e começam os comentários à primeira obra, à porta, uma escultura de Joana Vasconcelos feita com garrafas de vidro. É verde, 'parece uma árvore'.

Entramos. Não sem antes passar pelos avisos de 'não comer, nem beber', 'não levar mochilas', 'sorrir', 'namorar', 'gostar'...

Começamos pelo Surrealismo - a fase preferida do nosso Primeiro-Ministro - e vemos Man Ray, Cesariny, Picasso, Dali... sentamo-nos nos bancos para observar obras maiores e descemos para o Minimalismo. É onde encontramos as magníficas fotografias de Helena Almeida.

Já com a hora de almoço ultrapassada, ele começa a sentir fome. Aguenta um pouco e continua a ver cada peça, ansioso por tocar nos quadros. Brincam os dois nas instalações aos quadradinhos de Pedro Cabrita Reis. É então que ele vê uns quadros feitos em relevo, cores espalhadas na tela, formas por definir... autor já esquecido.

- Tia, este aqui parece que tem um frango lá dentro!

Saímos para almoçar.