segunda-feira, maio 25, 2009

Estarei no sítio certo?

Ontem, domingo, pela manhã, numa Taberna em pleno Alentejo:

Eu - Bom dia, tem leite?

Taberneiro - Light? Tabaco?

Desfeita a confusão, o velhote foi ao fundo da loja, demorou uns 5 minutos, e trouxe um bule em inox com leite morno. Misturei-lhe café e quase vomitei quando percebi que aquela não era a minha temperatura ideal. Sou esquisita, nestas coisas das meias-de-leite, bem sei. Mas bebi tudo, por vergonha e agradecimento. À minha volta, homens da terra bebiam minis e vinho branco a copo. E comiam queijo alentejano. Bem-Haja a todos, por serem portugueses!

sábado, maio 23, 2009

estados d'alma

"so you bite on a towel
hope it won't hurt too bad"

[versos que hoje não me saem da cabeça.]

aniversário

O Mais Cidade faz hoje quatro anos. Por isso parabéns para nós. São quatro anos de alguns bons posts, muitos a dizer coisa nenhuma. Quatro anos de calendário sentimental. O Hobbes perguntava-me outro dia, a propósito de outro aniversário, se tenho todas as datas apontadas numa agenda ou se simplesmente me lembro de tudo. Tenho uma memória imensa para coisas inúteis, não era o caso do tal aniversário, mas muita coisa dos últimos quatro anos está aqui escrita, lembro-me de praticamente todos os posts que escrevi, alguns a sorrir, outros a chorar, muitos com raiva, outros com a doçura dos momentos bons. Este blog não sou eu. Mas é uma parte importante de mim.

Parabéns à Samantha que nunca me abandonou. E também à Charlotte e à Miranda que de vez em quando se lembram de passar por cá.

E obrigada a todos os que continuam a ler, a elogiar, a criticar. Agradecida.

sexta-feira, maio 22, 2009

telex

numa estrada sinuosa, a meio da serra. por detrás de mais uma curva, numa estrada ladeada de eucaliptos. dizem que se vende esperança. ainda pensei em parar. a comitiva ia demasiado depressa. talvez para a próxima.

quinta-feira, maio 21, 2009

Gostos ii ou adenda ao post anterior

Hoje aterrei duas vezes na Portela. Uma delas sem sair de Madrid, com um motor parado depois de se ter incendiado e com nevoeiro intenso.

gostos

Gaja que é gaja gosta de ir às compras, gosta de ter uma colecção de cremes, muitos acessórios, várias malas, uma colecção de perfumes, tem uma colecção de gloss e de sombras, gosta de discutir as últimas tendências da moda, gosta de sandálias de 7 centímetros, colecciona sapatos, é capaz de passar várias horas à conversa a discutir futilidades, mas convicta de que daquela conversa depende o futuro da humanidade. Gaja que é gaja gosta de portos, de paisagens de contentores, de fábricas de automóveis e gosta de aviões. Gosta de andar no meio de hangares, ouvir mangas a ser disparadas em 3,5 segundos com um ruído ensurdecedor, gosta de andar dentro de aviões descascados, gosta do cheiro de um hangar de pintura, de subir a andaimes, de espreitar para dentro da carcaça do avião, de ouvir falar de motores e componentes, de ver contentores de oxigénio desmontados, sabe que um A340-300 leva mais pessoas que o A320, mas menos que o A340-600.

quarta-feira, maio 20, 2009

Este Leão-Marinho beijou-me...

A room with a view

[Boulevard Gouvion Saint-Cyr Paris]

Paris

Não sabia que tinha saudades de Paris, não sabia que me faltavam as avenidas largas, os edifícios monumentais, os parques, os dourados, logo eu que odeio dourado, da ponte de Alxandre III, o rio que corta a cidade a meio, o romantismo dos prédios, as ruas a fervilhar de gente mesmo que os relógios se aproximem perigosamente da meia-noite, as floristas em cada esquina, os casais de namorados despudorados, que fazem desta a cidade do Amor. Não sabia que tinha saudades de Paris e 18 horas são manifestamente pouco para as matar.

['Room with a view' só amanhã, em diferido, o 'magalhães' não deixa descarregar as fotos]

terça-feira, maio 19, 2009

vontades ii


Ando há uma semana com vontade de acordar numa cama que não seja a minha. Amanhã acordo aqui.

segunda-feira, maio 18, 2009

dos dias bons ii

Começo o dia virada do avesso, despertador desligado a soco, só mais dez minutos, até que toca de novo e de novo o desligo. Passo uma hora nisto. Tempo mais do suficiente para imaginar todas as desculpas possíveis, algumas plausíveis outras nem por isso, hoje não é dia para sair da cama. Rendo-me ao inevitável. Não sei fazer gazeta. Estou intragável, mas meia hora debaixo de água ajuda a limpar a alma e as ideias. A vida não é má. Começo o dia com sorrisos, cumplicidades, pastéis de Belém cobertos de açúcar e o dobro da canela para adoçar as quase lágrimas. És sempre tu que aqui estás, para o que der e vier, nos bons, nos maus e nos piores momentos. Rimos muito. Começo o dia num jardim no meio da cidade, relva brilhante, acabada de cortar, que convida a tirar os sapatos, encostar ao tronco de uma árvore e não fazer, não pensar, não reagir. Começo o dia a olhar para um homem com sorriso e corpo de Adónis. A subtileza nunca foi o meu forte.

sábado, maio 16, 2009

dos dias bons

A C. insiste que a vida se resolve sozinha, repete-mo todos os dias, enquanto descemos a feira para voltar a subir logo a seguir, enquanto nos enchemos de sushi, enquanto trocamos mensagens compulsivas como adolescentes, enquanto bebemos um capuccino junto a uma janela de onde se vê a trovoada a rebentar no céu da cidade, quando lhe ligo a perguntar como está. Nos dias bons acho que a C. tem razão, que a vida se endireita, se apruma como quem alisa os vincos de uma peça de roupa, a vida alinha-se que nem livros numa prateleira ordenados por ordem alfabética e géneros, compõe-se como notas de música para uma peça de violino. Nos dias bons, em que o trabalho se multiplica, em que se escrevem-apagam-escrevem-apagam-escrevem caracteres a um ritmo alucinante, em que se enchem páginas de coisas fúteis transformadas em ‘pérolas’ a bem da nação, nos dias bons em que há sempre uma resposta do outro lado, em que o sol sobe a calçada e o cheiro dos jacarandás enche o Carmo, em que se trocam confidências e se discutem as vantagens e desvantagens do preservativo feminino, em que a vida não acaba à saída do pasquim e em que o melhor do dia é ainda uma promessa... e nos dias que se seguem aos dias bons, ao acordar com um cheiro que não está ali, que é apenas uma memória, é como se acordasse de um sono longo, é como se me abanassem para eu perceber, estremunhada, que o que está errado é o tempo que levo a consumir-me com o que não está nas minhas mãos. Nos dias bons penso que a C. tem razão. Que a vida se resolve sozinha.

quarta-feira, maio 13, 2009

Post-it

Não atravessar avenidas largas a correr, quando o sinal já está encarnado para os peões e o verde já caiu para os carros do outro lado do cruzamento. E, de preferência, se não for pedir muito, não deixar cair o telemóvel bem a meio da dita avenida quando os carros já estão em andamento. Ah! e não parar para apanhar o telemóvel, mesmo que se esteja à espera daquele telefonema que pode mudar a nossa vida. É tudo.

terça-feira, maio 12, 2009

1808

Laurentino falou-me do Brasil e de como a Corte portuguesa lá chegou há 200 anos. Perguntei se José Sócrates deveria agora fazer o mesmo que D. João VI: fugir. Riu-se. Terá tido medo de dizer que sim, que o Primeiro-Ministro devia fugir do País que há muito corre contra ele. A Rainha louca já não é Maria Pia; e o príncipe medroso será um ministro qualquer. Só a perversa Carlota Joaquina continua por aí. Quem tiver ouvidos, que oiça...

quando a vida se transforma numa BD ii

O Calvin vai perder o seu Hobbes. O facto, que se concretizará dentro de pouco tempo, não foi falado, talvez nunca o seja, mas um e outro sabem que é inevitável. Não será a primeira vez, mas esta amizade, que é tudo menos imaginada – sim, sei que o Hobbes não é um peluche, é um tigre – sobreviveu a piores vicissitudes. Mais um arranhão pode fazer mossa, deixar cicatriz, mas são essas as marcas que os ajudarão a contar a história mais bonita, o mito urbano que é só deles.

posts em diferido

Acordo estremunhada a meio da noite, sonho ou pesadelo?, a ausência, um vazio de alma preenchido por bolachas de gengibre. Os pés descalços no chão frio, o vento, a chuva lá fora, a ausência. Bolachas de gengibre e um cigarro meio fumado. Volto para a cama de olhos fechados, aos tropeções, adormeço em dois tempos.

[Para o R. que tinha saudades dos posts à Carrie]

bela vista

As melhores, infelizmente as piores também, coisas da minha vida tendem a acontecer sem aviso. Como hoje. Um presente em forma de trabalho. Sem aviso, o que me obrigou a vir a casa trocar de sapatos. Ninguém faz reportagem, ainda por cima correndo o risco de ter de fugir à polícia ou a um bando de delinquentes armados de cocktail molotovs em cima de uns Fly de sete centímetros. Foi esse o presente. A bênção de voltar ao mundo real, longe dos meus gestores xpto, no meio de gente de carne e osso, com muitas histórias para contar.

Escolhi uma história e parti daí para todas as outras. Escolhi uma história com vista sobre Tróia, a partir de uma janela com grades, num café minúsculo, quatro mesas meio desconjuntadas, um televisor a preto e branco, sem som e com a imagem cheia de grão. A mulher que me atende chama-se Maria Baião, vou sabê-lo mais tarde quando perceber que desta vez a cara não se vai fechar, que haverá conversa para durar enquanto ali estiver. Não foi sequer preciso dizer ao que vou, mesmo que tenha entrado a pedir uma água, e mais um café, se faz favor, qualquer coisa para não ser de novo corrida sem direito a bom dia. Fala-se pouco na Bela Vista por estes dias, e quando se fala é a medo, num sussurro, e pouco ou nada se diz.

O café Pôr-do-Sol fica perdido no fim do bairro Azul e a cara marcada de Maria não deixa dúvidas que esta terá pouco tempo, e principalmente paciência, para se deixar encantar por tais poesias. Maria desfia o rosário dos dias naquele bairro social, mostra as fotografias antigas, do tempo em que as prateleiras estavam cheias, de quando os fregueses eram como amigos, toda a gente se conhece no bairro, somos todos tão unidos, somos uma família, vou ouvir mais do que uma vez. E logo a ela que leva duas décadas da Boa Vista, logo ela que nunca recusou uma ajudinha, que sempre vendeu fiado, que guarda em casa o livro das dívidas, páginas e páginas preenchidas com letras e números infantis de quem deixou a escola muito cedo. A mesma letra que usou para escrever o pedido de ajuda ao Presidente da República, à presidente da Junta, ela que só quer um aconchego para se manter à tona, para garantir um fundo de maneio que lhe permita voltar a encher as prateleiras como nos dias bons. A mesma letra redonda e infantil com que preenche as queixas contra desconhecidos, sempre contra desconhecidos, logo ela que tão bem lhes conhece a cara, que tantas vezes os atende logo no dia a seguir a mais um assalto. Maria desfia as dores da vida do bairro a par das suas próprias dores, contando como a polícia lhe entrou pela porta adentro, como lhe levou o ouro, a máquina fotográfica, o computador, as munições de uma arma calibre seis ponto qualquer coisa. Ela que não sabe porque foram entrar lá em casa, tudo o que tem ganhou com o próprio suor, com o trabalho de uma vida, logo ela e o marido, doente dos nervos, que não saem da Boa Vista porque só os negros aceitariam comprar o café e ela sabe que não são gente de ganhar a vinha honestamente, que aquilo só podia meter droga e ela com essas coisas não quer nada, o meu marido é um homem decente, não aceita essas coisas, repete, enquanto as lágrimas caem despudoradas pela cara a baixo por entre olhares recriminadores ao marido. Lê-se ali que a culpa é toda dele, por ela há muito que se tinha feito à vida, ela que queria ser cabeleira, que nunca quis fazer vida de balcão, cujos sonhos não se escreviam com chávenas de café lascadas, e açúcar servido de pacotes de quilo para dentro de taças a servir de açucareiro, sonhos que não se escreviam com caixas desabitadas para enfeitar as prateleiras, nem grades de cerveja vazias, sem uma única garrafa selada para contar a história. Fico ali muito tempo, sem olhar para o relógio, sem a certeza de encontrar outra história como aquela. A história de uma mulher sem medo, porque quem já perdeu tudo, quem diz e repete que já pensou no suicídio, não teme pelos bens materiais e ao marido pouco amor lhe tem, são assim as vidas que se vivem contrariadas, sem afectos, apenas por convenção, por falta de alternativa.

Volto aos pátios do bairro azul, uma fila de casas de cada lado, as paredes cobertas de grafittis, as janelas partidas, a roupa estendida. Há bancos no centro do pátio, uma árvore aqui, outra ali. Volto às ruas onde desfilam os polícias, passo acelerado, semblante carregado, corpos armadilhados de coletes à prova de bala. Volto às ruas quase despidas de gente, onde se desperta aos poucos muito depois do meio-dia. No café da Júlia, no meio do bairro Rosa, do outro lado da avenida, vou encontrar o Manuel, cabo-verdiano de sorriso fácil, de voz cantada, sem alegrias que acompanhem o linguajar das ilhas. Manuel está com dois mais velhos, os dois com menos de 60 anos, os dois reformados, os dois sem meios de subsistência, pelo menos que se confessem. O cabo-verdiano atrapalha-se no discurso, fala das obras, das fábricas, diz que agora está a estudar, desabafa que está desempregado. E nada lhe vale, no centro de emprego só arranjam trabalho a quem recebe o subsídio, um luxo que perdeu há muito. Diz que vive de biscates, quando aparecem, e lá vem o discurso da crise, que agora não há trabalho, mas que sempre se arranja alguma coisa. Deixo-os a queimar a tarde ao sol, deixo-os para entrar no café da Júlia onde se joga as cartas sem preconceitos raciais. Na mesma mesa, brancos, ciganos, negros. No bairro somos todos muito unidos, somos todos uma família, e ninguém fala, porque não se faz queixinhas, não se diz mal da família, pelo menos pela frente.

Ninguém dá a cara, ninguém diz o nome, esta gente não existe, não entra nas estatísticas, o bairro da Bela Vista parou em 2006 com uma taxa de desemprego muito alta, com um abandono escolar obsceno, mas ninguém diz que não vai à escola. Nem a cigana de 15 anos que embala nos braços o filho de dois meses da irmã pouco mais velha, que faltou estes dias às aulas por causa da confusão, por medo, medo do que não se vê pelo menos à luz do dia. O Manuel já avisou, está tudo calmo agora, porque eles estão a preparar-se para logo à noite. Nada farão se chover, foi isso que aconteceu no Domingo, já mo tinham dito à porta do centro social, cigarros acesos para acompanhar a conversa, criar empatia com a auxiliar de educação que gasta os últimos minutos da hora de almoço a olhar a carrinha do corpo de intervenção parada do outro lado da rua. Ela que foi a primeira miúda a ficar grávida no bairro, nunca ninguém tinha sido mãe tão cedo, ela com 15 anos a andar na boca do mundo, um mundo que se reduz a três bairros feitos de cor que o tempo esbateu. A empatia não chega para que a Becas diga o nome à jornalista, um nome ouvido no meio da conversa, a conversa que dura para além dos cigarros, onde há queixas contra a polícia, os homens de azul que dois dias antes obrigaram toda a gente do bairro a deitar-se no chão, até a Fátima, grávida de fim de tempo, se já se viu uma coisa destas, eles que façam o que têm a fazer, mas que perguntem primeiro, que tenham tento no cassetete, porque o bairro tem gente boa, não é só marginais, as pessoas trabalham, temos cá de tudo, enfermeiros, polícias, fisioterapeutas, a culpa é dos jornalistas, eles é que levam estas coisas para a televisão, só mostram o que querem, olhe o coitado do Jorge, a tareia que apanhou, o desgraçado que só foi a casa da mãe, buscar a marmita, e eu levei lá ontem a televisão e julga que mostraram alguma coisa?

O dia vai passando na Bela Vista, as ruas continuam vazias, mas o café da Júlia, no bairro Rosa, está cheio, prepara-se o fogareiro, vão assar-se febras para o lanche. Mais acima, no bairro Amarelo, os polícias continuam sitiados à porta da esquadra, dois carros do corpo de intervenção, muitos polícias armados até aos dentes, carros de giro atravessados no meio da rua cortada ao trânsito. As pessoas amontoam-se nas varandas dos prédios em frente, são boas imagens para os ‘bonecos’ que sairão impressas nas folhas salmão. No ar uma espécie de burburinho surdo, um presságio do que está para vir, uma tensão latente que não se explica, mas que se sente na pele.

segunda-feira, maio 11, 2009

Momento do Dia

Entrevista a Estrela Canvas, empregada e amiga de Amália Rodrigues. Aos 18 anos partiu de Luanda e cruzou continentes para conhecer Amália. Telefonou várias vezes para casa da fadista e tinha sempre a mesma resposta: "A Dona Amália foi ao dentista". Cansada da desculpa, pôs pés ao caminho e foi bater-lhe à porta, na Rua de S. Bento. De novo, disseram-lhe: "A Dona Amália foi ao dentista". Perguntou: "Mas a Dona Amália ainda tem dentes?". Nisto, aparece à porta Amália, em pessoa. Estrela não conseguiu pensar e saiu-lhe: "Tem dentes, tem. E são bem bonitos!". A amizade durou até à morte da fadista.

e alguém se oferece para resolver o problema?

Jacarandá não rima com vento forte, chuvas incessantes e o ritmo dos limpa pára-brisas no máximo. O meu calendário emocional, onde as árvores do Carmo e da Rodrigo da Fonseca têm lugar de destaque, também se dá mal com estas temperaturas, com o vento que me acordou várias vezes, com a chuva que me deixou em angústia permanente durante toda a noite. Mesmo com a má vontade do S. Pedro, ou seja lá de quem for, os Jacarandás já floriram e eu estou para aqui a tentar convencer-me que não estão 15º e que não voltei a calçar sapatos depois dos pés se terem regozijado com sandálias de sete centímetros.

domingo, maio 10, 2009

estados d'alma

capaz de vender a alma ao diabo por 24 horas sem relógio

sábado, maio 09, 2009

palavras dos outros em dias de água

Peguei no meu coração
E pu-lo na minha mão.

Olhei-o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.

Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;

Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.

Fernando Pessoa

sexta-feira, maio 08, 2009

Estórias de Amor - A Faca

Naquela noite aventurara-se pelos subúrbios da cidade, rumo à casa que ele habitava com os pais, algures numa qualquer linha. A de Sintra. Não seria um prédio gigante, aquele, pois se nem tinha elevador... Saiu do comboio sozinha já a lua, comida de lado, estava bem alta. Mãos nos bolsos, mala a tiracolo mas bem presa no braço, passos rápidos rua acima à procura daquele número 37, um terceiro andar, direito. As varandas tinham sido fechadas pelos proprietários, alheios às leis camarárias. O arquitecto nem chegara a saber que ali nasceriam marquises. Já ninguém queria espaços abertos, vista de rua, só para o Verão. (Ela) Não se importou com os olhares, nem com os ruídos que atrás de si pareciam segui-la. Tinha agora 20 anos, e nenhuma vontade de viver. Ia pedir-lhe contas, dizer que estava tudo acabado, que não aguentava mais. A porta da escada estava aberta, ou não fosse aquele um bairro de gente conhecida - Porém, estouvada, descuidada. Subiu as escadas devagar, como se atrasasse o diálogo que a esperava acima. Sabia que ele estava só naquela noite de sexta-feira. Sabia que podia confrontá-lo a dois. Sem mais nada, mais ninguém. A porta abriu-se para deixar ver um roupão já russo, castanho claro (o chamado beje), com cinto de apertar à mão, barba por fazer e um comando de televisão no bolso. Parecia um filme americano: a imagem do homem que não interessa a ninguém, o desleixo, a desilusão. Seria fácil dizer ao que ia. Entrou. O discurso fluiu com a serenidade de uma mulher aperaltada diante de um homem sem estilo. Mas ele não a deixou acabar. Que não, que a amava, que teriam de continuar juntos, que não aceitava um não, muito menos uma despedida. Quis livrar-se dele. Sem pensar, correu porta fora e despediu-se com um nunca mais nos lábios rosados. Deixava-o em casa assim, de chinelos de dedo, sem marca, robe envelhecido, corpo mal tratado. Desprezível. Ele não terá notado, não terá assumido o espelho que ela quis então ser. Correu atrás dela. Os minutos que se seguiram fizeram lembrar um filme de terror, uma fuga à polícia, um assalto a um banco, uma corrida de estafetas, um lugar fugidio e uma vida para trás. Os chinelos seguiram-na, atravessaram ruas, calcorrearam passeios, correram, saltaram, nunca quiseram parar. Ele seguia sobre eles, qual Moisés sobre os mares, e abria caminho para apanhá-la. Pararam. Encostados a uma parede, gritaram. Sofreram. Estavam já longe de casa, mas perto de outras, onde vivia gente. À janela, uma mulher, desconhecida, faca na mão. Ameaçou-o. Que o matava se fizesse algum mal à miúda. Ela corou. Pois, se o amava... Os dois esconderam-se na noite e da mulher à janela da cozinha. Seguiram de mãos dadas, ele de chinelos, ela de sapatos. Calçado tão diferente que agora caminhava junto. Já não importava a aparência, àquela hora da vida.

'i'm a fool to want you'



[E eu nem sequer gosto de Chanel]

quinta-feira, maio 07, 2009

Estórias de Amor - A Farda

A noite fazia-se quente à medida que avançava. Naquele lugar à Beira-Tejo não era só a temperatura a subir. Havia Fiats e Fords, pequenos automóveis com donos sem dinheiro para pagar a gasolina, vidros embaciados e o lugar de trás ocupado. Ela era uma dessas raparigas no início da juventude, apaixonada, a descobrir um mundo a que muitos chamavam sexo mas que ela insistia em dizer que não era mais do que amor verdadeiro. No banco de trás, saia arregaçada numa lua de Verão, ele por baixo dela e ela ao colo dele. Encaixavam os corpos como podiam e não queriam saber que posições mantinham os do carro do lado, porque ninguém se importava com ninguém, quando o que importava era o que se passava dentro de portas e de vidros lisos. Tomara que fossem foscos. Respiravam fundo e entregavam palavras de gozo um ao outro. A saia cobria parte das pernas e as sandálias de salto há muito rodavam perto dos tapetes, descalças. Ele tinha os jeans a meio corpo, desapertados, boxers aos quadradinhos abaixo da anca, a a pele branca a roçar-se na dela.

O toque fê-los dar um salto. O Citrôen AX de um modelo antigo deu cor ao rubor que traziam no rosto. No vidro sem sombra, os nós dos dedos apagavam o terno embaciamento da noite. Deixavam marcas e faziam barulho. Lá fora, o homem de farda azul olhava para eles e gozava o momento. Calças à pressa puxadas para cima, as cuequinhas de renda arrastadas das pernas, sandálias que voltavam aos pés e um salto para a rua. Só ele, que ela estava demasiado embaraçada para existir.

Nos outros carros observava-se agora o Rio e a Ponte. A lua dava sinais de tréguas e todos respiravam fundo, os que não tinham sido surpreendidos pelos dedos da farda. Ele dava desculpas e tentava provar que não, que não era atentado ao pudor, que ali todos faziam o mesmo, que não havia crianças, nem velhinhos, nem turistas a passear ao longo da noite. No banco da frente, ela ouvia baixinho o que se passava lá fora. Via-o humilde e quase arrependido, à procura de uma justificação para não lhe resistir. Teve medo.

Tinham passado 24 horas. Ele esperava agora pelo homem da farda azul, numa rua algures na cidade. Sítio combinado, talvez perto da esquadra, ele nem sabia bem. No bolso, a vergonha da noite anterior e uma nota de 20 euros. Não se pedia mais a um rapaz de 19 anos. Viu-o chegar, assobio na boca e cassetete à cintura, talvez sem nunca ter sido usado. Ela em casa, a criar imagens de uma situação que não vivera até ao fim mas que também provocara. O arrependimento era de ter sido apanhada e prometeu não repetir a proeza. Pelo menos ali, à beira-Tejo. O polícia aproximou-se e sentiu-se satisfeito por ter criado problemas a mais alguém. Pouco importava se uma casa era roubada, ali ao lado, se uma mulher era violada, se uma idosa era espancada. Aquele rapazinho tinha de pagar por amar alguém, assim, desenfreadamente, à vista de todos, sem vergonha. E o polícia, que há muito não sabia o que era o amor.

A conversa acabou com menos 20 euros no bolso e uma tentativa de receber mais. Livrava-o da prisão, e da multa maior, e da vergonha na esquadra, é certo... mas queria a sua parte, o suficiente para uma bica e talvez três ou quatro jolas, que a tarde estava para esquecer. Ele libertou-se da nota sem medo. As mesmas calças que antes tinham sido arrastadas pernas abaixo, guardavam agora o vazio de uma noite que tinha prometido ser densa. Não olhou para o homem fardado quando lhe passou o dinheiro para a mão. Fixou-se na farda e sentiu vergonha. Não por ter sido apanhado em plena noite da cidade a fazer amor com ela. Mas porque no dia em que vivia, um homem só trocava o pudor por uma nota de 20.

quarta-feira, maio 06, 2009

pesadelo sem ar condicionado

A Carrie já esteve mais longe de vir trabalhar de biquini. E ainda estamos em Maio.

segunda-feira, maio 04, 2009

Da infância



Obrigada, Vasco Granja!

privação

Passei duas vezes pelo doloroso processo de deixar de fumar. O lema é mais do que conhecido, nada de grandes ambições, viver o dia para chegar ao fim sem voltar a tocar num cigarro. Agora descubro que há síndromes de privação bem piores que o da nicotina. E o meu único desejo é que os ponteiros dêem nova volta ao relógio. Uma hora de cada vez parece-me bem mais racional.

domingo, maio 03, 2009

Sim, a Feira

Ao terceiro dia de visita lá comprei um livro. Aliás, dois. A 6 e a 8 euros. E mais um Eça para a minha colecção adquirida ao longo dos anos neste (meu) sítio do costume. Ele comprou 83. Só hoje! Haverá melhor forma de poupar do que ler um livrinho emprestado?

vontades

haverá pouca coisa mais afrodisíaca do que o cheiro de uma noite de verão.

Pilhas de livros

Também já fui à feira e também comprei. Cinco livros, uns mais baratos do que outros. Ainda tenho para ai, numa pilha no chão ou na mesa de cabeceira, livros de feiras anteriores que ainda não consegui ler. O jeito que me dava que houvesse também uma feira do tempo...

Ainda a Feira

E ao terceiro dia, fiz directos toda a tarde. Ouvi um velhinho a relatar um jogo do Benfica - antes de saber que ia perder com o Nacional da Madeira - enquanto me dizia que a mulher gostava era de novelas, mas que ele, ele queria futebol. Mas tudo nos livros, que a televisão não chega. E onde se compra o livro do Benfica?, perguntou. Encaminhei-o para a rapaziada vestida de vermelho e disse-lhe que eram do clube, escondi o facto de serem apenas funcionários da Leya. Deixei-o ir à procura da leitura patriótica, do amor à camisola, e perdi-me a olhar para Lobo Antunes. António. É um homem como poucos, acho eu. Tem uma cadeirinha para cada leitor a quem dá autógrafos. Não se limita a apertar a mão e escrever "um abraço do António e veja lá se lê mais um e continua a comprar". Não. Espera, ouve, deixa-se levar, conhece, dá-se a conhecer. Adoro o homem, confesso. E ainda mais quando sei que a Margarida Rebelo Pinto pensa tê-lo como confidente e amigo e, afinal, pensa ele que ela é uma chata. Acha-a bonita?, perguntou-me um dia. Não. Os miúdos brincavam com meias e meias palavras ficavam sobre livros. Faziam fantoches com botões e outras coisinhas que se arranjam nas caixinhas da mãe - amanhã é dia da mãe, amo a minha - e dali contavam estórias com a ajuda de umas meninas com chapéus de palhaço, não, não eram bem palhaços, eram aqueles que tentatavam fazer rir os reis, os bobos. Eram chapéus de bobos. A feira do livro é um mundo e acontece muita coisa ao mesmo tempo. Os livros são uma vida, um amigo, uma paixão, um cheiro que se guarda, uma palavra que fica, uma lombada virada para nós. E ali estive, uma tarde, no meio de tudo isto. E de sol.

sábado, maio 02, 2009

jardim da estrela

Passo a tarde com os pés descalços enterrados na relva e com muito mimo. Delicio-me com palmo e meio de gente que se aninha nas minhas pernas e ri muito. Grandes olhos azuis de quem vê o mundo pelas primeiras vezes. É de riso fácil o A. Passo a tarde entre o sol e a sombra com gargalhadas sinceras, conversas boas, pura parvoíce e planos para o futuro que se quer mais leve, mais preenchido. Lembram-se noites compridas, de pura esquizofrenia, de caracteres fáceis, choro e riso. Recorda-se um casamento, mesmo ali ao lado, a viagem dos noivos no 28, os dias que então passaram. Passo a tarde em pura preguiça e esqueço por horas que a vida tem coisas lixadas.

quinta-feira, abril 30, 2009

Feira

Já há livros para comprar a preços baixos. Ainda assim, aproveitei o dia do aderente na FNAC e comprei um Robert Wilson por 10 euros. Estou fã. E um guia para a Bretanha, em castelhano porque não havia outro. Sonho vir a utilizá-lo em Junho. Se o meu companheiro de viagem aceitar. Até lá, viajarei pelas páginas em branco, de letras printadas. Oiço agora o tal companheiro ler um dos livros que comprou na Feira: "O Santo contra a Scotland Yard". Diz-me que devia saber o autor. Não sei. Vai ler outro: "O Companheiro Secreto", de Joseph Conrad. Lê e diz que é brilhante. Comprou 20 livros na Feira. Gastou 35 euros. Vale, ou não vale a pena? Amanhã vamos lá os dois. "Às vezes, quando tenho de ver um espectáculo ou um jogo, tiro umas coisas do frigorífico e janto por volta das seis e meia..." E enfantiza: Isto dá logo vontade de ler o livro. Por mim passava a vida a ler. Estou-me borrifando para o resto. É o meu companheiro de vida!

terça-feira, abril 28, 2009

Gripe Suína

Se no tempo dos três Porquinhos já existisse gripe suína, o Lobo Mau estava lixado!

segunda-feira, abril 27, 2009

Dias...

Música no CCB. Pelos corredores, sons de piano e teclados de quem nada sabe interpretar. Outros, talentosos, experimentam lentamente o de cauda ou o outro, vertical, e sabem de cor o que lhes canta o ouvido. Encontro um menino de doze doces anos que me diz gostar muito de Rachmaninov. Sorrio. Diz que é por causa de Rap II e Rap III - as mais célebres obras do compositor russo do séc. XIX. Tem um olhar seguro, o rapaz, e as mãos ágeis no piano que toca há seis anos. Mais ao lado, um casal de "jovens" idosos. Ambos de cabelos branquinhos, ela de braço dado com ele, mais baixinha, rabiosque de mais de 80 anos - nunca repararam como se percebe a diferença? - e um olhar atento aos pianos para venda. Conversam. Perguntam. No concerto de Filipe Pinto-Ribeiro, aquele onde o pianista assimila o tema musical BACH (que se traduz em notas musicais, em alemão)vêem-se olhos rendidos, fechados, uma sala cheia. Noutro lado, os contrabaixos dos Carlos - Barreto e Bica - parecem conhecer-se há anos e ali estão, em conversa, alegre, às vezes quase silenciosa. O concerto dura mais do que é previsto porque a plateia gosta. De Bach, sei que teve 20filhos, 7 da primeira, 13 da segunda mulher. Aprendo a compreender. O cravo para o qual compôs, o cravo que no 25 de Abril vejo andar, de um lado para o outro, carregado pelos homens a quem cabe o transporte de instrumentos. E fazem-se filas. Há iô-iôs com Bach gravado na face, concertos para todas as idades, crianças que escutam como se a música já fizesse parte da vida. E faz.

quinta-feira, abril 23, 2009

O PM e a TVI

Eu não aprecio os modos do Primeiro-Ministro, José Sócrates. Admito que é um homem inteligente, com capacidade de decisão. Mas isso não quer dizer que concorde com as decisões que toma. E, sobretudo, com o modo como as anuncia, como se anuncia.

Eu não gosto da Manuela Moura Guedes. Aceito que seja uma mulher inteligente e com uma vasta experiência (da publicidade ao jornalismo, quem diria? passando pela política). O que não significa que goste da forma como encara o jornalismo e como o apresenta. Como se apresenta.

Por isso... venha o Diabo e escolha...

há homens que sabem elogiar uma mulher

Hoje recebi uma mensagem que dizia: "Página 3 do Guardian: Tu."

quarta-feira, abril 22, 2009

na melhor esplanada de lisboa

Vesti o meu melhor sorriso, soltei o cabelo, deixei os ombros à mostra, deixei que os pés rejubilassem dentro de umas sandálias de sete centímetros. Desci ao rio, senti a maresia, o cheiro que faz saltar da caixinha verde alface mil recordações felizes. Tudo para esconjurar a tristeza e o mau humor.

segunda-feira, abril 20, 2009

Um novo medo

Hoje senti medo de te perder. Ainda nem tinha dado conta da tua idade, da tua fragilidade, dos teus cabelos brancos. Hoje vou rezar por ti, antes de adormecer. E vou querer ver-te, amanhã. E sempre. Porque não consigo imaginar os meus dias sem ti, avozinha.

sexta-feira, abril 17, 2009

Afectos

Um almoço para recarregar baterias para os próximos meses e a certeza que há pessoas que são para a vida toda. Obrigada.

quarta-feira, abril 15, 2009

Sem idade

No dia em que me cai no colo uma peça sobre o mais velho actor de filmes pornográficos do Japão, um assunto de sempre, à hora de almoço. O japonês tem 75 anos e usa placa. Nada o impede de fazer as actrizes 30 anos mais novas darem gritinhos para a câmara, com esgares ditos sensuais e poses arrepiantemente sexuais. Quando era miúda recusei-me a ver um filme de primeiro escalão em casa de um amigo porque, simplesmente, me enojava. Nunca achei piada, nunca me excitou, nunca achei interessante. Nem mesmo quando descobri que "Branca de Neve" e "???uma série de anões???", guardado pelo meu irmão em VHS era, afinal, um filme porno. Ao almoço a conversa da maternidade e da idade para ser mãe e mais não sei o quê... que já se faz tarde e que qualquer dia temos 40. Éramos três. E o raio do homem tem erecções aos 75 e diz que há-de continuar a carreira até aos 80.
Não é injusto, o mundo?

domingo, abril 12, 2009

94

Perguntou-me quantos anos eram. Uma e outra vez. Repeti-lhe a idade e no segundo seguinte esqueceu as minhas palavras. Estou muito velha, sorriu, quase nos 100 anos. Mostrei-lhe seis dedos e disse-lhe que tantos faltavam para o século. Que estava mesmo velha, repetiu. Mas que gostava de cá andar, que Deus Nosso Senhor é que sabia, mas ela gostava, pronto. Tinha uma camisola nova. Preta. Viu a flor que lhe ofereci e reconheu a planta: orquídea. Não mais se lembrou dela. Há-de regá-la, um destes dias, quando perceber que também ela pode morrer. A flor. Parabéns avózinha. 94 anos e um abraço do tamanho de um coração centenário. Com tudo o que cabe dentro de uma vida assim.

sexta-feira, abril 10, 2009

post à facebook

a carrie está a pensar seriamente em matar a samantha...

quinta-feira, abril 09, 2009

Neve II



Neve



segunda-feira, abril 06, 2009

post à twitter

Carrie voltou de férias feliz e com uma “pot belly”.

quinta-feira, abril 02, 2009

Andorra

Há três dias que nao pára de nevar. Levanto-me cedo e carrego o cansaco para o pequeno-almoco. Nada importa. Lá fora há uma brancura cândida, inesquecível, maravilhosa. As botas custam a calcar na entrada para as pistas. Tudo a postos: o gorro e as luvas, o tapa-orelhas e o forfet no bolso de lado. Vou esquiar. E descobri um novo sinónimo de alegria.

sexta-feira, março 27, 2009

acho que alugo aqui uma mesa

Regresso à melhor esplanada de Lisboa. O texto deixado a meio pelas 3 da manhã está finalmente completo, metido num email e remetido ao destino. Demasiado longo, mas ao fim de tanto tempo continua a faltar-me poder de síntese. Arrumo apontamentos, vou acompanhando, num sussurro, a voz da Maria Rita que sai das colunas. Ao fim de dois dias e meio sinto-me finalmente de férias. Espreguiço-me, numa manifestação despudorada de contentamento. Pouco falta para começar a ronronar. O próximo passo é pedir ao Francisco, que me liga o portátil à corrente, e vai passando a perguntar se está tudo bem, se posso alugar esta mesa, mesmo de frente para o Tejo. Assim trocava facilmente o Chiado.

quinta-feira, março 26, 2009

há vidas piores ii


Ainda por cima com este homem mesmo aqui ao lado...

[em versão não há condições]

há vidas piores

O rio corre vagaroso do meu lado direito. Das colunas sai o som de jazz característico das tardes passadas na melhor esplanada de Lisboa. Eu devia estar a trabalhar, mesmo que não me passe pela cabeça deixar este meu lugar ao sol. 4000 caracteres prometidos em dias que se querem de férias. Mas não tenho sorte nenhuma, ninguém me atende o telefone. As palavras, as que deviam ficar agora escritas na folha [quase] em branco não dão sinais de vida. Penso no Vian que deixei no carro para não ceder a tentações. Resta-me descansar a vista e a cabeça.

Pequeninos

Descobri recentemente, na TV Cabo, dois canais surpreendentes: o MVM TV e o RTV. Para quem pensava que o Porto Canal é hilariante, passe, por favor, nos canais 201 e 79. E a depressão vai-se embora. Sem comprimidos e terapias caras. Estou a falar de dois canais regionais que, como quase tudo o que é regional, são pequeninos. Não por terem meios escassos, cenários que são comprados no IKEA, espaços que parecem um TO no Bairro Alto (sem vista), iluminação precária no estúdio(?). São pequeninos porque estão repletos de clichés, apresentadores miseráveis, programas que querem ser ousados mas que se tornam ridículos, miúdas que saíram da escola e ainda nem sabem ler, quanto mais falar para uma câmara. Estou a exagerar? Assisti hoje a um programa - não me lembro como se chama - onde o entrevistado era Mário Dorminsky, o homem do Fantasporto. Talvez por estar agora envolvido na política, ao que parece na Câmara de Gaia, Dorminsky aceitou o convite da televisão local e foi entevistado, num frente-a-frente de nos atirarmos para o chão a rir. Perguntas: "Que amigo escolheria para salvar o Soldado Ryan?"; "Que mulheres escreveu no seu diário?" (numa referência patética aos filmes de Bridget Jones); "Quem escolheria para dançar consigo em Dirty Dancing?"... e assim sucessivamente, perguntas pessoais com a muleta dos filmes mais óbvios do mercado, onde não faltou a pergunta "Qual o seu Instinto Fatal". E Dosminsky respondia, animado, babado com a apresentadora - que, pelo que percebi na ficha técnica é também directora de Informação (!). Uma vez que estive a fazer zapping entre os dois canais, agora da minha preferência, não sei que programa vi em que canal. Porque ontem assisti a uma entrevista maravilhosa, feita por uma tal Sílvia, a um convidado surreal, dono ou director de uma revista que dá pelo nome de Noite.pt. E o apresentador, que iniciava todas as respostas por "Sílvia", era tão cretino como a apresentadora, incapaz de uma pergunta com sentido, de uma questão que valesse a pena.

Numa altura em que a ERC não permite um 5º canal (e acho bem) não se percebe como há espaço e antena para estes canais miserabilistas e miseráveis, com problemas técnicos que davam para parar um comboio durante um ano, e aspirantes a qualquer coisa que a imagem traz à vida das pessoas e que eu não consigo compreender. Aparecer no ecrã é tão importante que justifique esta vergonha? Quem investe nestes canais e permite que tão fraca qualidade vã para o ar? Quem vê estes programas fá-lo por razões de proximidade? (são os parentes das apresentadoras)... Enfim... perguntas sem resposta. A não ser, e se calhar só isso já chega, que estes canais tenham nascido para nos fazer rir. Se assim é, obrigada. Eu rio-me um pouco todas as noites, antes de passar o televisor para o modo DVD, e beber uma chávena de leite a ver mais um episódio de Sherlock Holmes.

domingo, março 22, 2009

lista de compras

Gelado de limão, cachaça e vodka.

sexta-feira, março 20, 2009

primavera

Há demasiadas borboletas e joaninhas à minha volta para conseguir pensar ou escrever. Ando distraída com as cores.

quarta-feira, março 18, 2009

Em estágio

Sem querer parafrasear os meus pais, ou tantas outras pessoas com mais (ou muito mais) de 30 anos, tenho que dizer que "no meu tempo, é que era"... No meu tempo, ser estagiário era estar interessado, empenhado, era gostar e lutar, era fazer, era aceitar, era tentar. Nunca, durante o meu estágio (não remunerado, durante 7 meses, arranjado por mim e não pela minha Universidade que se estava borrifando para pessoas como eu, mesmo sendo estatal) me lembro de ter dito "eu sei", "sim, sim", "pois claro". Nunca. Durante o meu estágio, e conhecendo já bem a redacção onde estava a fazê-lo (já lá tinha trabalhado durante três anos numa função diferente, é uma longa história...) bebia cada palavra dos meus editores e chefes. Lia com atenção os textos dos outros, procurava erros nos meus e aceitava as críticas sem uma qualquer desculpa esfarrapada. Sei que muitos, anteriores a mim, viram folhas rasgadas, lápis partidos, reportagens acabadinhas de escrever deitadas ao lixo. Já não havia disso, quando cheguei ao jornalismo, já lá vão 15 anos. Felizmente. Os estagiários já não eram tratados como lixo, ignorantes e incapazes. Mas havia respeito, noção, bom senso. Por parte da maior parte de nós, estagiários.

Hoje, não. Hoje, saem já sabichões das Universidades, quase sempre a Católica, muitas vezes a Nova ou a UBI. Tanto faz. Perguntam primeiro se podem ler para o microfone, dar a voz na televisão, mostrar a cara lá para casa. E só depois se lembram (lembrarão?) que ainda nem sabem fazer uma pergunta, que não conseguem escrever uma linha, que têm voz de copo de leite e imagem de quem agora nasceu. E não assumem nada disto. Ser estagiário hoje - salvo honrosas excepções - é ter a certeza de que se sabe mais do que é suposto saber-se. Um estagiário de jornalismo não lê uma página de jornal, mas sente que escreveria qualquer artigo em menos de um "ai". Não vê noticiários em nenhum canal, não questiona, mal sabe que em Espanha há um Rei e que por cá já se vê a República desde 1910, mas acredita que já merece um ordenado jeitoso, mais de mil euros, para começar, porque é preciso dinheiro para os copos e para roupinha nova, talvez um maço de tabaco por dia e duas bicas, pelo menos. Ser estagiário, hoje, é ter uma cara laroca e usar decotes generosos para chamar a atenção. É enturmar-se nas festas e tirar fotografias com os mais velhos. É sair cedo, chegar tarde, não acompanhar um trabalho até ao fim. É trocar a redacção por uma festa ou um jantar de um amigo. É não trabalhar ao fim-de-semana nem ao ensolarado feriado. É chegar a casa e dizer à mãe e ao pai "se calhar não é bem isto que eu quero" (agora que já gastaram uma fortuna em propinas), é não fazer mais do que aquilo que lhes é pedido... mesmo que nas entrelinhas haja oportunidades para agarrar.

Fazer um estágio é um exercício de aprendizagem. Partir para tal com a noção de tudo se saber, é a mais errada opção de que consigo lembrar-me.

sofrimento em formato mensal [vi]

Bem ou mal hoje pareceu-me uma brincadeira de crianças...

terça-feira, março 17, 2009

Confirma-se: é o Mestre

Não sou de chorar. Mas emociona-me esta música do filme Gran Torino, cantada pelo próprio Clint Eastwood com Jamie Cullum. Tem de ser ouvida em silêncio, com a alma posta em Paz e o coração em sossego...

segunda-feira, março 16, 2009

Os Produtores


Ossos do ofício, primeiro. Pura diversão, depois. Por duas vezes vi esta versão portuguesa de "Os Produtores", o mais famoso e premiado musical de sempre. Quando entrevistei Mel Brooks - o autor da obra de 1968, primeiro em filme - em L.A., mostrei-lhe o cartaz do elenco português e ele deliciou-se com Rita Pereira. É, sem dúvida, uma mulher escultural. E ele fixou-se nela. Mas a minha chamada de atenção vai para Miguel Dias e Manuel Marques. Miguel tem um voz muito bonita, forte e capaz de encher uma sala (por agora, a do Tivoli, em Lisboa), é bonacheirão q.b. e tem o timing certo para as questões de humor. Manuel Marques é o lingrinhas. E faz o papel na perfeição. E não se pense que é apenas porque o actor é pequenino e magro, como se espera da personagem Leopold Bloom. Não! Manuel, que vimos sempre com Herman José e agora muito bem, na série "Os Contemporâneos", é expressivo, engraçado, canta o suficiente para a interpretação. Pode não ser a Broadway, aqui em Lisboa, mas parece-me que este musical está muito acima daqueles que Lisboa tem e que são todos encenados por Filipe La Féria. A peça é talvez grande demais, mas isso já vem de origem. E os cenários precisam de uns arranjos, pois já andam a rodar desde a estreia, em Portimão. De saudar ainda a interpretação de Pedro Pernas. Nunca tinha ouvido falar nele, mas dizem que fazia anúncios de telemóveis, daqueles engraçados, que estão na moda. Pois no palco sai-se muito bem, tem voz firme e boa presença. Se fecharmos os olhos, nos momentos em que a orquestra ataca os instrumentos, até parece um espectáculo a sério. Para deixarmos de pensar que só "lá fora" é que se fazem coisas boas...

Bosch


Fiquei ali, a olhar para ele.
E depois parei na cafetaria para uma meia de leite.

*Tentação de Santo Antão, no Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

domingo, março 15, 2009

...

"mas o problema não é só aprender
é saber a partir daí que fazer"

sábado, março 14, 2009

estados d'alma

Os efeitos terapêuticos de uma boa noite de dança são frequentemente menosprezados.

sexta-feira, março 13, 2009

vou andar por aí



Este fim-de-semana vou andar por aí, com uma igual a esta na mão, a fazer os TPC. A fotografar sem rede, sem segunda oportunidade.

Cinco sentidos

Por estes dias a Serra está pintada de todas as cores, o branco das amendoeiras, o rosa das magnólias, o amarelo das Primaveras. Cheira a relva acabada de cortar, cheira a flores e pólen, cheira à promessa de verão. Os pés descalços na relva, as mãos na água gelada da piscina, o calor do sol na pele. Sabem a pouco as últimas tangerinas apanhadas da árvore, sonha-se com o sabor das cerejas. Na serra ouvem-se as abelhas em voo picado, os pássaros e o riso dos miúdos. E fica-se com vontade de não partir.

quinta-feira, março 12, 2009

medo

Na 2: passa '6 Billion Others'. Pessoas de todos os países, culturas, credos, raças, falam do seu maior medo. A fome. A morte. Ataques terroristas. O outro. A seca. A noite. As guerras. A maldade da humanidade. O medo em si. E o teu qual é?

segunda-feira, março 09, 2009

Rio - A Praia

Praia, 40º. A areia queima os pés e não são umas Hawaianas novinhas em folha que me vão salvar a pele. Duas cadeiras e um guarda-sol ferrugento alugam-se por tuta e meia. Pedimos água de coco e como melancia fresca, à dentada. O monte dos "Dois Irmãos" ergue-se lá para trás, quase a chegar ao Morro do Vidigal, uma das favelas maiores do Rio de Janeiro. O sol vai para lá, pôr-se, ao final de cada dia deste quente mês de Fevereiro.


Vende-se de tudo, por aqui. Passam homens e mulheres de corpo quente e bronzeado, muitos páram para tomar um banho no intervalo das vendas, regressam ao grito, à chamada de atenção. E vendem o mate e a linomada, os cremes para quem quer cor, a sanduiche no pão árab(i). Cantam. Calcorreiam a praia de Copacabana ao Leblon. Vendem barato: uma nota de dois reais serve para um cartuchinho de amendoíns com sal. Com 5 reais já se compra um lanche fresco, e bebe-se.


Famosas são as bundas. Brasileiras. Redondas e de calcinha pequena. Bochechas para fora, fio dental para dentro. E regalam-se os olhos dos cariocas. Mas, sobretudo, dos turistas, quase todos europeus - alguns americanos - homens branquinhos de países sem sol.

quinta-feira, março 05, 2009

Mega saldos

quarta-feira, março 04, 2009

Berlin

Vi Berlim pelo vidro de uma minivan. Ao longe o Bundestag, mais de perto as portas de Brandemburgo, o resto são imagens difusas de uma cidade limpa e organizada. Conheci três hotéis, duas salas de conferências e um centro comercial. Vi Berlim através de um vidro, a respirar com dificuldade, com ar condicionado a 40º graus. Mas vi por dentro um centro comercial, com café português de péssima qualidade e uma casa de fados improvisada. Enregelei à porta de um hotel à conversa com um ministro, o cigarro apertado entre os dedos para as mãos não tremerem, o sorriso forçado para não baterem os dentes. Não vi Berlim, a verdade é essa. Resta-me a Friedrichstrasse palmilhada já de noite à procura de sítio para jantar. A ponte sobre o Spree. Restam-me os jantares [um italiano e um vietnamita, com as salsichas prometidas para Munique], de copo de vinho na mão, boa conversa e gargalhadas. Resta-me o caminho entre o hotel e a porta da Brandemburgo e uma noite de [mau] fado. Resta-me o saxofone a aquecer a noite da Pariser Platz. Há uma fotografia da porta de Brandemburgo, a quadriga de frente, virada para leste. A prova que estive aqui. Passei os últimos dois dias na antiga RDA e a verdade é que nem dei por isso.

segunda-feira, março 02, 2009

A room with a view

[Friedrichstrasse, Berlin]

Fui

Chove em Berlim.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

wishlist


[via Pó dos Livros]

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Uma mulher sabe que está velha [ii]

Quando a irmã lhe diz do outro lado do telefone: 'O F. tem uma namorada.' E o F. é o puto que nasceu pouco tempo depois de eu sair da faculdade.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Uma mulher sabe que está velha

Uma mulher sabe que está velha quando nas duas horas seguintes a ter saído do emprego:
1)Vai à farmácia comprar shampoo
2)Vai à costureira buscar o casaco que precisava de um corte nas mangas
3)Vai ao supermercado comprar sal e chá e sai de lá com bacalhau à Braz congelado e flores
4)Vai à tinturaria levantar a sweater do marido que não pode ser lavada na máquina
5)Vai ao sapateiro pedir que arranje a asa da mala que se descolou
6)Vai ao multibanco levantar dinheiro para pagar à empregada
7)Vai ao quiosque dos autocarros comprar senhas para a mesma empregada
8)Vai à papelaria para comprar envelopes para o dinheiro da empregada e o recibo do segundo emprego
9)Vai aos correios enviar o recido do segundo emprego
10)Vai para casa carregada de sacos a desejar sentar-se no sofá para ver o Patrick Dempsey

Beira-rio

As nuvens parecem correr em fast forward, empurradas vertiginosamente pelo magnetismo da água apressada no rio que sobrevoam.
A cortar o horizonte está um bloco de betão e umas aranhas de ferro recebem os raios amarelo-ferrugem que rasgam um pouco o algodão que se move hoje com estranha pressa.
Duas asas desafiam o movimento no sentido inverso a esta corrida de fim-de-tarde.
O sol vai baixando e ofusca-me com o brilho triplicado pelo vidro por onde chega.
Cesária começa a falar desse caminho longo que deixa saudade.
O perfume das folhas negras do Ceilão aguarda dentro da porcelana que o liberte.
Faço-lhe a vontade e tento abstrair-me do palreio em volta.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Querido Sean,


Eu sou a Samantha e adoro-te. Tenho, por ti, a admiração que uma mulher pode ter por um homem que já foi casado com a Madonna (dizem-me que lhe batias, é verdade? Nem quero pensar nesse horror...) e que é um actor prodigioso, apesar de constar, que muito mal encarado. Vi-te em "Milk" e gostei. Ali, sorris como nunca e deixas passar uma imagem de homem doce e carinhoso, apaixonado pela vida... e por outros homens. Eu não me importo. Estiveste tão bem nesse papel que parecias o verdadeiro Harvey Milk, mas mais bonito e atraente.

Querido Sean, que bom que tenhas ficado à frente daquele monstro do Mickey Rourke, que já não estrela ovos na barriguinha de ninguém, mas antes anda para aí aos sopapos como se a vida se fizesse de wrestling e de homens machões e violentos. Mais feliz fiquei que tenhas ultrapassado aquele rapaz bonito, o Brad Pitt, que já basta ter a mulher que tem - linda, dizem-me - e que ganhou protagonismo num filme, para mim, sobrevalorizado. É verdade que se transformou, o rapaz, mas acredito que a maquilhagem e os efeitos especiais, as modernices do cinema, todo ele em computador, sejam os verdadeiros vencedores do Óscar.

Tu, não. Tu não precisaste de mais que uma barba comprida, uma camisa branca e um crachá no casaco. Bastou isso e uns beijos na boca - que bem que beijas, caro Sean - e brilhaste mais que as estrelas do Passeio da Fama em Hollywood. Vou aconselhar todos os meus amigos, para que te vejam neste "Milk". Vou sugerir o teu filme a todos quantos tiverem dúvidas a teu respeito. E no fim, ponho uma colher de "Suchard Express" numa caneca de loiça e bebo um copinho de leite, para adormecer. E só quero sonhar contigo.


Sempre tua,
Samantha.

sábado, fevereiro 21, 2009

Aufwidersehen



Mais vale tarde que nunca. 20 anos depois da queda, ich gehe nach Berlin.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Yo no creo en brujas

Qual é a probabilidade da gaja que nunca fica doente ter uma paragem de digestão no exacto dia em que tem uma viagem marcada para o outro lado do mundo? Qual é a probabilidade de ser ruim ao ponto de nenhum mal lhe pegar quando trabalha 16 horas por dia durante meses seguidos e desatar a vomitar a duas horas de ir para o aeroporto? De fazer o 'check in' e minutos depois estar a pedir à hospedeira para lhe resgatar a mala que desta vez não vai a lado nenhum? De se contorcer com dores de estômago junto da passadeira das bagagens à espera que lhe devolvam a mala sem ter sequer saído da Portela? Toda. É por isso que desta vez não há quartos com vista, nem postais escritos de parte nenhuma. Apenas uma enorme frustração e a certeza de não acreditar em bruxas, sem dúvidas de que elas existem.

Este blog não tem fax!

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Vetem o Carnaval... e o Magalhães

Por mim pode não existir Carnaval. Em toda a parte do mundo, Brasil incluído. Mas abro aqui uma excepção para Torres Vedras. Não por causa do cortejo e das meninas despidas a tremer de frio, todas com celulite e pele de galinha, que muitas são gordas e não é de palha, e outras têm barriguinhas a cair no biquini, e há as mães orgulhosas à volta delas a dizerem umas às outras "ai a minha Marlene está uma senhora, e já o senhor Quintas da padaria mo tinha dito, mas isto o tempo passa e nós achamos que elas são sempre umas meninas, ora veja lá dona Gorete"; não por causa dos homens mascarados de mulheres, que eles não imaginam o que é ser mulher ou não tentariam ser uma, porque só são mulheres quando não têm que gramar os maridos, e o parto, e a depilação, e os ordenados não equiparados e as outras coisas todas más na condição feminina, porque para eles ser mulher é ter mamas grandes e vestidos bonitos e uma bandolete no cabelo com meias de renda nas pernas, às vezes rotas, as meias; não por causa dos gigantones com o Cavaco e com o Sócrates, eles frente-a-frente e com dizeres do povo "toma lá" e um manguito do Zé, mais a carinha do homem que os aguenta nas costas a aparecer no buraco do botão do colarinho e, quem sabe, uma fotografia da Manuela Ferreira Leite de boca fechada, ou à conversa com o Salazar para combinarem a tal Ditadura de seis meses. Não! É por causa do Magalhães que deve haver Carnaval em Torres! Mas só antes da decisão do Ministério Público, porque agora já não tem graça. Quis o MP proibir a sátira ao Magalhães, pois que tinha uma página com raparigas nuas, ai pois tinha, e a pesquisa do google dizia "mulheres" e toda a gente sabe que o Magalhães não procura mulheres porque, como qualquer empregador que se preze, quer é um homem que não vomite na gravidez, nem tenha de sair mais cedo para ir com o miúdo ao médico, "ai senhor doutor que o menino só chora e não tem daquelas gotas para a barriga, as cor-de-rosa, que isto também pode ser dentes". E o MP sabe que é assim. E miúdas nuas no pequeno ecrã de um computador que é o orgulho nacional? Ainda fazia pesquisa sobre as mulheres que o Presidente condecora todos os anos, e já aí está o 8 de Março, não tarda nada, e o Magalhães ainda punha despida uma cientista desconhecida mas mais importante que o inventor do Prozac, ou uma empresária que não a Bibá Pitta, que essa também tem lá os afazeres dela, ou uma jornalista que chamou a atenção para questões sociais e até sabe escrever e trabalha na redacção de um jornal que um dia disse mal do Magalhães. O carnaval de Torres Vedras pôs em causa toda a dignidade de um País que, felizmente, dá para rir o ano todo. E os próximos cinco, já que a crise continua. E para o ano, o MP há-de proibir as meninas a abanar o rabiosque, porque são todas menores de 18 - já o sabemos - mas como uma é filha do senhor Presidente da Câmara, "ai que grande que ela está, e bonita, sim, e bonita, que a miúda faz-se", pois a catraia do Presidente tem direito ao Carnaval, desde que não mencione, nem escreva, no Magalhães. E por tudo isto, odeio o Carnaval.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Uma mulher sente-se velha II

Quando ...
1. se ri e os olhos já não riem com ela
2. olha em redor e escasseiam amigos
3. já não consegue ver a beleza no simples nem simplificar a beleza
4. tem a vista demasiado cansada para ler
5. não tem avós
6. os sobrinhos já não pedem mimos
7. perdeu a agilidade no humor
8 . os seus decotes deixem de ser uma provocação para ser um atentado
9. as meias de leite já não lhe sabem como antigamente
10. já tem pouca vontade de saborear a vida

Não é o caso. Principalmente a parte do decote :)

Muitos parabéns neste post atrasado. Mas tenho chegado a casa sem vontade de vir para o computador. Estou a ficar velha...

Rio... p'ra não chorar


Voltamos à Cidade Maravilhosa, logo após a loucura carnavalesca, para nos entretermos em mais uma livraria com cafetaria. Um suco de abacaxi com hortelã e um cheirinho a maresia.

36

Uma mulher percebe que o tempo passa quando vê uma criança e ouve o tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque num volume inusitado, cá dentro, o miúdo a sorrir e a apertar os dedos da mão direita, o tiquetaque, tiquetaque sem parar, a altos gritos. Uma mulher sente-se velha quando todos pensam, no dia do seu aniversário, que ela é, afinal, muito mais nova. Quando os ovários estão mais acabados que o rosto, mais enrugados, mais cansados de esperar. Uma mulher sente-se velha quando lhe oferecem um curso de cozinha, uma receita de waffles e uma máquina a compôr o arranjinho culinário. Quando lhe dizem que querem provar dos seus petiscos, das suas iguarias, coisas que ela não faz porque não tem, ainda, bocas pequenas para alimentar. Uma mulher sente-se velha quando recebe vales-oferta para uma loja de lingerie, quando a oferta é de 100 euros e requer tempo para escolher; ou quando recebe outro vale, outra oferta do mesmo valor, mas agora num SPA perto do sítio onde trabalha. Espera-se que saia, um dia, cansada e de olhos rasos, que entre pelo SPA adentro e diga bem alto "vá lá, dê-me 100 euros de uma nova vida". Uma mulher sente-se velha quando são muitos os sobrinhos a telefonar, já falam, já cantam "Parabéns a Você", já sabem que a tia faz anos e uma festa. E velha, quando não aguenta duas noites seguidas de folia, quando a cabeça cai na manhã seguinte, quando não bebe e, ainda assim, parece estar de ressaca. Uma mulher sente-se velha quando faz 36 anos, num qualquer dia 17 de Fevereiro de 2009.

De partida

A frustração de passar horas e horas fechada dentro de um avião é proporcional à vontade de partir. De andar de sandálias e camisolas de alças. De sentir na pele o calor de África. De me deixar embriagar pelas cores, pelo cheiro do calor. Regresso sete anos depois a uma terra que odiei à primeira vista, mas pela qual que me apaixonou perdidamente. Esta viagem é acima de tudo um recomeço. Cheio de sorrisos. Com muita vontade.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Quando a vida se transforma numa BD

"Você é o Calvin e ele o Hobbes."

[Ainda não sei se gosto da comparação...]

domingo, fevereiro 15, 2009

Marylin

Hollywood Boulevard é um misto de realidades. Ali estão o Teatro Chinês e o Kodak Theatre, aquele que todos os anos recebe a cerimónia dos óscares. Ali se encontram os turistas do mundo, sobretudo os do mundo chinês, e ali pisam as estrelas os visitantes, os actores e músicos, realizadores e artistas que a América reconhece. No chão, a assinatura e as mãos de Clint Eastwood, lado a lado com as da rapaziada do Harry Potter, ainda miúdos, pequenos. E eis que encontro Marylin. Duas, aliás. Vestem de branco como a actriz, moram ali, ao lado do pecado da luxúria, e arriscam fotografias a troco de uma nota de dólar. Convivem com o Pirata das Caraíbas e com Chaplin, não temem King Kong e sorriem para Batman e Robin, amigos. Uma mulher de mais de 50 anos interrompe-me o olhar para perguntar porque não falo com ela, porque não entrevistá-la? Porque sim?, pergunto. Diz-me que é Marylin, Marylin Monroe. Levanto o microfone e peço-lhe que se apresente. Vira-se de frente para a câmara e actua como uma estrela de Hollywood. Está ali. Pode ser uma. E não será demasiado velha para ser assim, Marylin?, pergunto. Explode. Que Hollywood não tem lugar para velhos, que ali está há muitos anos e sempre foi ela, a diva. E que a Marylin de branco, uma delas, é até alemã. Como pode uma alemã ser Marylin? Está zangada comigo e não percebe que, para mim, ela mais parece saída de O feiticeiro de Oz. A vestimenta lembra-me Mary Poppins e a maquilhagem não se adequa. Tenho pena dela mas, ao mesmo tempo, acho-a detestável. Pergunto porque não escolheu outra personagem, já que Marylin morreu bem mais nova do que ela é agora. Nova explosão. Ela quer ser Marylin, e mais nada. Nem se atreve a pensar numa Meryl Streep ou numa Susan Sarandon. Não, são velhas para a personagem que quer investir. Escolhe por isso a juventude e a beleza que já não pode imitar. Nem mostra as pernas, nem o decote. Pintou o sinal na cara e parece-lhe que basta. Sinto que tenho matéria para escrever e digo-lhe que a vejo como uma actriz. Pelo menos, assume a realidade que já não tem.

As Pipocas

A publicidade no cinema não é para a minha idade. Sento-me e vejo raparigas semi-nuas, que se chamam Joana, Catarina ou Teresa, miúdas sem um pingo de celulite e com as costelas todas marcadas sob a pele. Vejo rapazes de cabelo comprido, melenas a cairem-lhes sobre os olhos, boxers de marca, abaixo da cintura e jeans meio-rotos, largos, a pender nuns ténis All Star. Elas têm olhos grandes e maquilhados, cabelos compridos e soltos, saídos de um frasco de Élseve Lóreal. Meneiam o corpo ao som de uma batida pujante e juvenil, bebem cerveja ou falam ao telemóvel, respiram sexo, deixam na sala um certo mau-estar entre a juventude, os "vintinhos", rapazes de namorada ao lado e pipocas na mão. Doces. Viro-me para a frente e para trás e percebo que sou das mais velhas naquelas cadeiras da Lusomundo, bilhetes comprados com cartão zon e, por isso, a metade do preço. Eu e a Charlotte, as mais velhas. O filme é "O Estranho Caso de Bejamin Button", nem de propósito. A idade, a velhice, a meninice e o que levamos dela. E à nossa volta sorve-se coca-cola em copos gigantescos, ouve-se o palpitar dos dentes nas tais doces pipocas. Salgadas, também. Concentro-me no filme e esqueço a publicidade anterior. Oiço-os rirem-se nas partes em que apenas esboço um sorriso. Vejo que não compreendem como eu, aquele filme. Talvez não esteja assim tão entradota... talvez seja isto a experiência de vida. E não fui ao cinema pela carinha laroca do Brad Pitt...

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

a caminho [iv]

[Set.02]

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

tragam-me a metralhadora

Eu, romântica incurável, que derrete com mensagens pirosas como “o que não é normal é tu existires, porque os sonhos não tem realização material”, que viu dezenas de vezes o ‘Sleepless in Seattle’ e outros tantos filmes de argumentos lamechas com a Meg Ryan, que ainda este domingo reviu o ‘depois do amanhecer’, que verte lágrimas no cinema sem grandes pudores e que adora finais felizes, jantares à luz das velas, banhos de espuma, a acompanhar com um bom vinho, eu romântica incurável confesso que odeio, com todas as letras a capitular, o dia dos namorados. Sim. Tenho um problema com ursinhos e coraçõezinhos e todos os ‘inhos’ possíveis, mas odeio acima de tudo a massificação do sentimento, da banalização das datas, da obrigatoriedade de estar a dois e de mostrar ao mundo quanto se amam os pombinhos, mesmo que seja por um único dia em 365, que nos resto do ano ela ponha maquilhagem para esconder as nódoas negras e ele se arraste no trabalho para chegar a casa o mais tarde possível. Nada disso conta a 14 de Fevereiro, o que interessa é ter namorado e não sair da linha. Para não parecer anormal.E juro que pego na metralhadora ao próximo email/press release a lembrar a bela da data.

'restos' do almoço

"[...]Essa cena da vitimização é tramada. És tu e o Sócrates!"

Com o sol a bater no rio, peixe grelhado e bom vinho. É bom voltar ao reino dos vivos.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

tempo ii

Lido muito mal com o tempo. Com o que me falta. Pior ainda com o que tenho em excesso. Lido mal com os dias que se esfumam. Que passam por mim sem que os viva verdadeiramente. Lido pior com as horas que não passam. Sem que eu saiba o que vêm a seguir.

Vida


Roubadas em olhares.aeiou.pt

terça-feira, fevereiro 10, 2009

LA 2




segunda-feira, fevereiro 09, 2009

LA 1

Venho mais tarde contar as estórias. Para já, a ressaca, o cansaço. Mais de 35 horas sem ver uma cama. Dia difícil, após o regresso. Ainda bem que não ganho óscares todos os anos, ou não aguentaria a pedalada...

Modéstia

Quatro mulheres, esta manhã, no bar:

- A minha preferida é a Samantha.
- A minha também. Ela é fantástica.
- É a única insubstituível!

Eh, eh...
Falavam do filme. Não deste blog!

As minhas cuecas de Los Angeles

5 pares por 25 dólares e ainda ofereceram o cãozinho de pano. Tudo na Victoria's Secret. E porque a British Airways fez o favor de perder a minha mala em Londres. Valeu-me o cheque de 72 dólares para recuperar a higiene pessoal.

domingo, fevereiro 08, 2009

fora de prazo

uma mulher percebe que está de facto exausta quando quase adormece na marquesa enquanto lhe fazem a depilação.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Mudança [ii]

Primeiro estranha-se. Faz comichão na boca do estômago. Um nó na garganta. Depois, quando o coração que tudo ordena dá um descanso, pesam-se os prós e os contras. Rasga-se um sorriso. Ensaia-se uma gargalhada. E depois entranha-se. Ainda há [promessa de] vida para além do caos.

[mas continuo a precisar de shots de tequilha com sal e limão. só que agora por outros motivos]

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Um conde visionário ou a história de Serralves


O segundo Conde Vizela, Carlos Alberto Cabral (1895-1968), para além de ter sido um grande industrial, foi um homem culto e viajado que procurou aos mais renomados artistas do seu tempo para construir, mobilar e decorar a Casa de Serralves.

Entre eles, destaca-se o francês Émile Jacques Ruhlmann, um famoso decorador ao qual recorreu após visitar a Exposição Internacional de Artes Decorativas que teve lugar em Paris, em 1925.

A casa começou a ser construída nesse ano e os trabalhos terminaram só em 1944. Foi "um projecto ambicioso", que o conde conseguiu concretizar ao mesmo tempo que geria a Fábrica de Fiação e Tecidos do Vizela, uma das maiores do seu tempo.

A construção encontra-se amplamente documentada através da correspondência que o Conde Vizela e Ruhlmann mantiveram entre 1926 e 1939, "por vezes quase diária", segundo referiu o director do Museu de Serralves, João Fernandes.

"Tudo vinha de Paris", salientou João Fernandes, observando, no entanto, que "o Conde Vizela é o grande autor da Casa de Serralves", mas com Ruhlmann por trás.

Eurico Cabral ainda se lembra bem do tio, da casa que ele teve em Biarritz, França, e de como Serralves foi o seu "primeiro choque cultural", quando pela primeira vez lá entrou, em 1947.

"O meu tio reuniu praticamente toda a família aqui, quando inaugurou a casa", recorda ainda. Segundo conta, o segundo Conde de Vizela era homem de poucas falas, "sempre muito sério e que vivia muito isolado, sobretudo aqui em Portugal".

Tudo mudava quando se encontrava em Biarritz. "Ia às compras ao mercado, andava sempre sem gravata, coisa que nunca vi aqui, vestido com casacos desportivos, e ia à praia", conta Eurico Cabral, que guardou este acervo "em caixotes" porque se mudou há pouco tempo para Lisboa.

A Fundação de Serralves pretende "pôr à disposição do país" este acervo, de que também fazem parte fotografias tiradas pelo célebre Domingos Alvão, de modo a poderem ser consultado e sobretudo integrado numa "grande exposição" que vai fazer sobre a Casa de Serralves a partir de Julho deste ano.

A exposição integra-se no programa de comemorações dos 20 anos da criação da própria Fundação de Serralves. A propriedade onde se encontram a Casa e o Museu de Serralves foi depois comprada, em 1957, por Delfim Ferreira, Conde Riba d' Ave, a quem se deve a preservação deste património. Em 1986, o Estado português comprou-a.


Em contrapartida, estou a comer cerejas em Fevereiro.

dias de chuva

É oficial. Preciso de me embebedar até cair.

[adenda: de preferência com shots de tequilha]

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Próxima conversa

Mel Brooks, a propósito do musical "Os Produtores"...

Próximo destino