quarta-feira, agosto 02, 2006

Incontinência verbal

Percebo, pela terceira vez em menos de 24 horas, que fui atacada por um raro vírus de incontinência verbal. Se às situações reais, vividas entre as 18h e as 23h, juntarmos a produção bloguistica dos últimos dias, o caso ganho contornos de esquizofrenia.

Um dia destes apanhei, juntamente com o R., as cenas finais de um filme. Não faço ideia do título, apenas sei que era com a Michelle Pfeiffer e [acho] o Bruce Willis. Digo ‘acho’, porque o que realmente me deixou de boca aberta foi o discurso feito por ela, um pedido de desculpas ‘vomitado’, sem que a loira parasse sequer para respirar. Lembro-me que eu própria fiquei cansada e que a minha única reacção foi olhar para o lado e dizer: ‘Porra, as mulheres falam mesmo demais’. Dez minutos de frames para chegar a uma simples palavra: ‘Amo-te’.

Ontem aconteceu-me mais ou menos o mesmo. Ao lanche queixei-me do queque mal cozido até deixar o pobre do sr. M. ‘encostado’ à parede, não fosse o palavreado fulminá-lo logo ali. Deve ter ficado a pensar que raio de bicho me teria mordido, logo a mim que normalmente me limito a duas ou três palavras, dependendo do pedido, ao início e três no final. A conta se faz favor. Sai do café a fazer o mesmo comentário para o meu chefe, desta vez sobre mim própria: ‘Porra, as mulheres falam mesmo demais’. Algumas horas mais tarde, morta de cansaço, com a promessa de uma massagem a pairar-me na cabeça, farta de dirimir argumentos para ver o trabalho acabado, e depois de ter sido presenteada com mais uma prosa, depois da secção ter saído em peso quando ainda era de dia, ouvi o mesmo chefe dizer. ‘Vai-te embora que já não te posso ouvir’. Há ainda terceiro exemplo. Não me criticaram por falar demais, mas percebi rapidamente que tinha perdido uma excelente oportunidade para ficar calada. E esta prosa, que andava a rondar o teclado do Vaio vai para três quinze dias ganhou forma a caminho de casa. Posto isto, vamos lá ao que interessa.

Se esperam alguma novidade, alguma cacha, desiludam-se. A roda já foi inventada há anos e nesta coisa das relações entre mulheres e homens também não há nada de novo no horizonte. Não pretendo generalizar, nem o entendi só agora, mas desta vez deu-me para elaborar sobre o assunto. Efeitos do vírus de incontinência verbal...

Nas relações as mulheres falam pelos cotovelos. E não estou a incluir aqui a conversa mais banal, palavras ditas que se embrulham e deitam fora apenas para preencher o silêncio. Nas relações as mulheres querem esmiuçar tudo. Entender por A mais B porque é que as coisas acontecem assim e não de outra forma. Querem deixar bem claro, preto na transparência, cada pormenor do que sentem, do que fazem e do que dizem. E não basta dissecar até à exaustão os como e porquês da relação presente. Vamos ao armário e exigimos que se estendam os fantasmas, quais peças de roupa velha que se escolhem para dar na igreja, à vista de todos [ao caso dos dois]. Acreditamos que se falamos abertamente do assunto, qualquer que ele seja, então é porque não temos nada a esconder. Muitas vezes uma omissão pode valer tanto como uma mentira.

Os homens são exactamente o contrário. Fecham os armários da memória a sete chaves, esperando nunca, em momento algum, ter que resgatar nem que seja uma peúga. E na relação acreditam que um ‘amo-te’ digo de tempos a tempos, como quem pica o ponto à saída da repartição, é suficiente para manter acesa a chama. Nada de conversas supérfluas. Chamam-lhe pragmatismo. Há qualquer coisa nos genes que os impede de dizer directamente o que pensam e o que querem, limitando-se a remeter-se ao silêncio, dando rédea solta à imaginação feminina [e que imaginação!].

21 comentários:

Leão da Lezíria disse...

Amanhã comento. Pragmaticamente...

mac disse...

quase q apetece responder, por mim e/ou pela classe dos homens... essa malandragem... e aí iniciávamos um desfilar de prosas a favor e contra até chegar a um qualquer tribunal onde transitaria em julgado, nada mais ou menos do que "pois não se consegue decidir a favor de nenhuma das partes. dá-se por encerrado um assunto e recomenda uma coexistência pacífica entre estes dois povos tão diferentes"

Chatterbox disse...

Carrie, grande postada. Salve-nos esta incontinência...

Mac, fui verificar se era homem. Pois. Ainda assim, parabéns pela saída fácil: à falta de colaboração no processo comunicacional, adie-se a «sentença». Nada de novo. Nós gostamos de falar sozinhas. Mas... vi também de gosta de Elis Regina. Sugere-se assim um curso intensivo de interpretação do poema «Por toda a minha vida...» O TPC consiste em repeti-lo várias vezes em voz alta. Vai ver que não dói.

Leão, ainda a pensar na resposta? Chiça!

Carrie disse...

Chatter, Obrigada a duplicar. Poupas-me ter que responder ao Mac, que é um puto fantástico, mas depois têm destas saídas.

Também eu espero ansiosamente o comentário do Leãozinho :)

Carrie disse...

PS: E obrigada pelos comentários... porque estes dias tem crescido a sensação que ando para aqui [no blog] a falar sozinha e já estava quase a desistir.

Leão da Lezíria disse...

Mais uma vez, querida Carrie, tenho que te lembrar (logo a ti, mulher com mundo) que a vida é simples. Os homens não fecham nenhum armário, o que têm é processos de funcionamento tão estupidamente simples, que custa a compreender, é o que é. Dir-me-às onde está o valor acrescentado de remoer o passado, ou em pensar "e se eu tivesse feito de outra forma?" ou "será que ele disse aquilo mas o que queria era dizer aquilo?". Chegará o dia em que as mulheres entenderão que, quando dizemos "Quero ver o jogo na TV", isto significa exactamente, nem mais nem menos, "Quero ver o jogo na TV". Não quer dizer "Ela está horrível, prefiro ver o jogo na TV" ou "Estou a pensar noutra tipa, vou disfarçar e fingir que vejo o jogo na TV" e muito menos "A última queca foi tão mazinha que vou fazer de conta que gosto de futebol e fingir que vejo o jogo da TV". Agora transfere este conceito para a quantidade de interacções homem/mulher que acontecem por dia e chegarás à conclusão (fácil) que a vida é simples e pode ser vivida de forma simples, com ganhos reais para os dois lados (por exemplo, se o tempo desperdiçado em conversas surreais for usado a ver um filme em conjunto ou em sexo tântrico o ganho é mútuo). A vida real já nos causa problemas, porque é que havemos de invesntar problemas virtuais?

Outra questão, que não pode ser metida no mesmo saco, é a da eterna insatisfação das mulheres. O homem dos sonhos delas não existe, o que existe são tipos lindos, bons pais e excelentes cozinheiros, mas que cheiram mal dos pés. Ou tipos cheirosos, excelentes amantes, que ganham muito dinheiro, mas gordos e carecas. E isto é tão estupidamente simples que também custa a acreditar. Será pragmatismo, mas eu prefiro pensar que é a inteligência no seu nível mais primário encontrar um parceiro que cumpra os critérios essenciais para merecer aquela mulhere (umas valorizarão mais o aspecto físico e a inteligência, outras o sentido de humor e o facto de serem bons pais, outras ainda a lealdade e o clube da sua preferência).

Espero ter ajudado. É que é tão simples...


PS - Quanto áquela quesão do homem perfeito, aqui que ninguém nos ouve, é claro que ele existe. Está é fora do mercado...

Isabela Figueiredo disse...

Eu nunca perceberei.
Nós não falamos demais. Falamos. Achamos que falar resolve, cura, permite andar. Eles não querem resolver nem curar, apenas andar varrendo para debaixo do tapete. Uma relação não é para eles uma coisa complexa. É um contacto com altos e baixos. Não interessa saber porquê, mas claro que clamam para si o espírito científico e a filosofia. Eu acho que têm a filosofia toda concentrada no mangalho, mas Deus me perdoe se estou a generalizar, claro.

Leão da Lezíria disse...

Está perdoada, Isabela...

Chatterbox disse...

Leão… e sobre a eterna insatisfação dos homens? A mulher dos sonhos deles existe?

É que se é linda, boa mãe e excelente cozinheira, mas cheira mal dos pés… vocês não descansam enquanto ela não for a um dermatologista!

E nós queremos saber porquê!!!

Se for cheirosa, excelente amante, ganhar muito dinheiro, mas gorda… vocês não se emudecem com a dietazinha que tanto a poderia beneficiar.

E nós queremos saber porquê!!!

E isto não é estupidamente simples! Pelo menos não é simples ao ponto de nos deixarmos intrujar com o vosso pragmatismo.

E, por isso, nós queremos saber porquê!!!

Leão da Lezíria disse...

Chatter, sabes aquela do supermercado de homens? Era um supermercado de homens com 6 pisos, onde as regras eram que, se não te agradasse um homem de um piso, podias continuar a subir e ver o que havia no próximo. No entanto, não podias descer.

No 1º piso havia uma indicação à entrada qe dizia "Neste piso os homens são todos bonitos". Claro que as mulheres subiam...
No segundo piso, a tabuleta dizia "Neste piso os homens são todos bonitos e excelentes cozinheiros". Tentador, mas...subiu mais um piso.
No terceiro piso, a tabuleta dizia "Neste piso os homens são todos bonitos,excelentes cozinheiros e adoram crianças". Claro que ela continuou a subir.
No quarto piso, a tabuleta dizia "Neste piso os homens são todos bonitos,excelentes cozinheiros, adoram crianças e têm ordenados excelentes". Quase convencida, mas...
No quinto piso, a tabuleta dizia "Neste piso os homens são todos bonitos,excelentes cozinheiros, adoram crianças, têm ordenados excelentes e são óptimos amantes". Tentador? Bem, ela subiu ao sexto piso...
No sexto piso, a tabuleta dizia "Este piso só existe para demostrar que as mulheres nunca estão satisfeitas...".

Leão da Lezíria disse...

Chatter, sabes aquela do supermercado de mulheres? Era um supermercado de mulheres com 6 pisos, onde as regras eram que, se não te agradasse uma mulher de um piso, podias continuar a subir e ver o que havia no próximo. No entanto, não podias descer.

No 1º piso havia uma indicação à entrada qe dizia "Neste piso as mulheres são todas bonitas". Os homens subiam...
No segundo piso a tabuleta dizia "Neste piso as mulheres são todas bonitas e adoram sexo".

Não há registo de nenhum homem que tenha passado ao terceiro piso...

Chatterbox disse...

Carrie, desculpa-me por debochar este excelente post com cogitações menores, mas não resisto…
Pensamento do dia:
Os homens são como o pão de forma: são quadrados e têm o miolo mole.
PS Amamo-vos, ainda assim.

Leão da Lezíria disse...

Chatter, sê boazinha e vem ter esta agradável conversa na nossa casa...

PedroNuno disse...

Chatter, sem mais delongas, mulheres serão como pao de leite? redondinhas e com miolo doce? PS - disse "deleite" ? Amamo-vos, sobretudo assim. :)

Carrie disse...

Adoro quando as caixas de comentários ganham vida própria, por isso, Chatter, estás totalmente à vontade, a nossa casa é a tua [vossa] casa. Além de que não posso deixar de te dar razão.

Será assim, tão difícil de perceber que nós só queremos saber porque?! Que para [quase] tudo há uma razão. Que responder ‘porque sim’ ou ‘porque não’ é resposta para os putos de cinco anos quando queremos que eles façam o que nos mandamos [não… não é um recado… ]

Leão, Já pensaste que nós não andamos necessariamente à procura do homem ideal? [Se queres que te diga, duvido mesmo que isso exista] Que, sem sermos resignadas, não nos importamos que ele não seja uma estampa de revista, que tenha barriga, que não saiba cozinhar, que cheire mal dos pés [ok.. Deus nos livre de uma conjugação de factores]. Que a única coisa que queremos é que esse mesmo homem nos faça felizes?

E se procuramos alguma coisa é exactamente isso. Não temos a culpa que aos homens falte a imaginação necessária para nos dar momentos estupidamente simples de felicidade. [Eu ia começar para aqui a dar exemplos de gestos simples para que isso aconteça e a perguntar-te quando foi a última vez que os fizeste… mas corria o risco de sair envergonhada… tu não és exemplo…] E que com o tempo procuremos [outro] alguém que nos permita ser constantemente surpreendidas. [Sim, sei que estou a generalizar]

Se o gajo quer ir jogar bola com os amigos, beber uns copos ou ficar em frente à televisão a ver futebol [ok, nem é um bom exemplo, porque aqui o mais provável é que seja eu a impor o ‘programa’] por mim, na boa. Desde que depois volte para casa e mostre que é o bom amante de que falas. Sem desculpas de ressacas ou de que está demasiado cansado por correr atrás de uma bola. E depois disso, sim ainda vamos querer conversar...

“Nós não falamos demais. Falamos. Achamos que falar resolve, cura, permite andar”… Isabela, Não podia concordar mais.

Sim, Pedro, nós também não sabemos [ou não queremos] viver sem vocês.

Leão da Lezíria disse...

Carrie, o meu racional é o seguinte:

O dia tem só 24 horas, parte delas passadas a trabalhar, parte passadas a dormir, parte passadas connosco próprios.
É um desperdício passar as horas que restam em conversas esotéricas ou a fazer de conta que estamos a resolver não-problemas. Esse tempo deverá ser passado em coisas a sério.

Vejo, com agrado, que passas do registo de "quero um homem que passe o tempo a revolver o passado e a procurar nele coisa nenhuma" para "quero um homem que me surpreenda". Mas isto já é outra conversa...

Carrie disse...

Eu nunca disse que queria um homem que passe o tempo a resolver o passado. O 'ideal' é mesmo um homem com o passado resolvido. Estranhamente existem, assim como há mulheres com o passado resolvido.

O que não gosto é que me respodam 'porque sim' e de 'porque não'. Não gosta que fujam às conversas, as tais que tu chamas estéreis. Que calem o que às vezes é tão simples de dizer.

Leão da Lezíria disse...

Carrie, "porque sim" e "porque não" são respostas fantásticas para uma grande quantidade de perguntas de mulheres adultas. Por exemplo, se perguntares "porque é que queres fazem amor agora", "porque sim" é uma excelente resposta. Claro que ele poderia explicar que o dia lhe correu bem, que tu estás com aquela saia, que pensou em ti o dia todo, que está apaixonado por ti. O problema é que, se fôr dar essas explicações detalhadas (e as explicações das perguntas intermédias que se seguirão) já terá passado meia hora, tu já terás questionado a relação entre vontade de fazer amor e saia (e, claro, se outra mulher com a mesma saia lhe teria despertado também a líbido...). Resultado, ele teria perdido parte do desejo. Posso dar-te facilmete quinhentas boas aplicações da resposta "porque não" e "porque sim". 'Bora lá?

Carrie disse...

Esse é o género de pergunta que nenhum homem ouvirá da minha boca!

Miss Kin disse...

Esse é q é o problema, quanto mais eles se calam, mais nós os "ouvimos falar", o q no fim de contas se torna a nossa verdade das coisas, onde eles nem sequer tiveram opinião...
Quando depois se vai a ver, foi mesmo tudo ao lado!

Dia disse...

Ora porra... só agora tive tempo para vir comentar e com tantas observações na caixa de comentários esquizofrénica, perdi o fio à minha meada...
Escreverei no meu pasquim. Quando tiver tempo. E paciência. POrque o assunto é esgotante.