terça-feira, agosto 05, 2008

auster [outra vez]

A Fnac volta a ser um vício diário. As prateleiras cheias de livros a cinco euros absolutamente irresistíveis. Mesmo que já tenha muitos dos livros que por lá andam a pedir para ser levados para casa. Como o magistral “The Brooklyn Follies”:

“Yes, I suppose you could. And you’d wind up regretting it every day for the rest of your life. Don’t go there Joyce. Try to roll with the punches. Keep your chin up. Don’t take any wooden nickels. Vote Democrat in every election. Ride your bike in the park. Dream about my perfect, golden body. Take your vitamins. Drink eight glasses of water a day. Pull for the Mets. Watch a lot of movies. Don’t work too hard at your job. Take a trip to Paris with me. Come to the hospital when Rachel has her baby and hold my grandchild in your arms. Brush your teeth after every meal. Don’t cross the street on the red light. Defend the little guy. Stick up for yourself. Remember how beautiful you are. Remember how much I love you. Drink one Scotch on the rocks every day. Breathe deeply. Keep your eyes open. Stay away from fatty foods. Sleep the sleep of the just. Remember how much I love you.”

O outro post já tem três anos... parece que estou a ficar velha.

sexta-feira, agosto 01, 2008

a mudança não é necessariamente uma coisa boa...

quarta-feira, julho 30, 2008

A Espuma dos Dias

Roubo o título a Boris Vian para falar de ti. Desta ilha habitada para não ser deserta, chamada de Porto Santo para não ser Madeira. Experimento o sol e o mar, a piscina e o sol outra vez. Deixo-me dormir na sombra da tarde que desce de uma manhã segura de si, certeira, capaz de conduzir o dia. Adormeço sobre a cadeira a que chamaram preguiça, espreguiçadeira no papel do aluguer por 5 euros, uma experiência para o corpo que nela se deita. Oiço o riso dos miúdos na água da piscina e levanto-me até lá. Dou cambalhotas e rebolo no sal que me sabe na boca. A pouco. E volto ao livro ou ao sono, a Ian McEwan que descubro uma outra vez numa praia inglesa, Chesyl, parece-me. E olho em volta para ouvir o que outros lêem, o silêncio das palavras que ficam, das páginas que folheamos. E à noite abraço-te. Ainda faltam 4 dias.

domingo, julho 27, 2008

Aguarde a sua vez



Diz-me como compras dir-te-ei quem és? Pus-me hoje a pensar que seria possível escrever um daqueles livros de personalidade - mas do género fast-food - para mulheres. Seria alguma coisa do género: saiba que tipo de pessoa é, confira os seus traços de personalidade pela forma como vai às compras.
As fúteis seríamos todas, está bem de ver. Quanto ao sub-tipos teriamos a fútil-racional, a fútil-pessimista, a fútil-impetuosa, a fútil fácil.

Vamos esmiuçar:
Fútil-fácil - aquela que entra, vê e compra. Não precisa, não tem dinheiro mas a verdade é que também não pensa

Fútil-pessimista - aquela que cede aos primeiros 30% de desconto nas promoções por achar que depois será tarde demais Qualquer mulher com um pingo de auto-estima sabe que menos de 50% não é saldo que se apresente. E esta é uma fasquia de exigência que nos separa claramente da comunidade masculina.

A fútil-optimista - (na qual eu me insiro :)Aquela que se apaixona por uns sapatos da Fly London em Maio, que em rigor não precisa deles mas que fica a remoer durante vários meses porque-são-mesmo-giros-nem-altos-nem-baixos-e-super-coloridos-que-dão-tanto-jeito-para-o-verão. Dois meses depois regressa à loja e consegue comprar o último par 37 com mais de 50% de desconto. Pelo caminho, ainda entra na loja ao lado e sai de lá com um vestido que já tinha experimentado três vezes (ainda bem que as empregadas mudam de turno) e que, sendo o único desde os tempos do -20%, ainda resistiu até aos 60%.

É possível ficar feliz com tão pouco? É sim senhora e ainda bem! Porque se nos pusermos a pensar a sério esta parece ser a condição feminina. Ser mulher é um acto de espera:

- que as maminhas cresçam
- e que depois não descaiam
- que nos deixem usar saltos altos
- que falte pouco para chegar a casa e tirar os sapatos
- que os pelos acabem de crescer para finalmente os poder tirar
- que as unhas sequem
- que a máquina acabe de lavar
- que a roupa acabe de secar
- que o período venha
- que não venha
- que ele telefone
- que eles nunca cresçam
- que eles cresçam para os ver vencer
- que os cabelos fiquem todos brancos que sempre é mais charmoso que às manchas

sexta-feira, julho 25, 2008

dias produtivos

o negro da contracapa está esbranquiçado pelo sal do mar. de entre as folhas saltam grãos de areia que piso com os pés descalços. copio as frases que esta tarde, sentada a beira mar para fugir ao calor, li com os pés na água, e me fizeram sorrir. volto amanhã. por enquanto, recuso a tendência de sofrer por antecipação e deixo-me ficar de portátill nos joelhos a sentir a brisa que arrepia a base do pescoço. foram dias produtivos. de sol. de mimo. de mar. de livros.

do ócio

- Que fizeste durante todo este tempo?
- Fiz amor - confessou Samantar com naturalidade.
- É um motivo muito nobre. Se é essa a tua desculpa, pela minha parte estás perdoado. [...]

Uma ambição no deserto, Albert Cossery

dos livros

"Os livros não servem para sermos mais "cultos", mais "informados", mais "preparados". Servem para estarem presentes quanto tudo o resto está ausente: eles são o refúgio do mundo quando o mundo persiste em avançar do avesso. Eles são o porto que nos aguarda quando a embarcação está perdida ou destruída. Eles são o primeiro e o último brinde aos amigos que não tivemos, aos sonhos que não vieram. E, como na canção francesa, a todas as mulheres que não nos amaram."

João Pereira Coutinho, in Expresso [12 de Julho 08]

segunda-feira, julho 21, 2008

[novos] vícios de verão


status report ii


Chegar a casa e regar girassóis, malmequeres, dálias, coroas imperiais e um sem número de coisas verdes, que não faço ideia de como se chamam, tornou-se numa espécie de relaxante diário. A água que me passa entre os dedos antes de chegar ao chão, que salpica para os pés, que me refresca nas noites que tem estado quentes. Como se querem. Os girassóis passam o muro e espreitam para o pátio dos vizinhos. O rosa choque da buganvília está enrolado nas grades da varanda. A Oliveira continua pequenina. E a magnólia não há meio de dar flores...

domingo, julho 20, 2008

post it

não ir para um festival, no meio de monsanto, de saltos altos.

sábado, julho 19, 2008

10 anos

Se estiver descalça, lado a lado com o F, ficamos praticamente da mesma altura. Falta um ou dois centímetros para que as nossas cabeças estejam ao mesmo nível. Mas o F. tem só 10 anos. Curioso, atento, perspicaz. Talvez porque as nossas cabeças ficam praticamente à mesma altura, esquecemo-nos muitas vezes que são só 10. E com isso somos desbocados. Medimos mal as palavras. E ontem à propósito de uns calções de banho, escolhidos por ele, e que são verdadeiramente aterradores, comparou-os com outros comprados pela mãe, e que no seu dizer são ‘gay’. Abri a boca de espanto. Perguntei-lhe se sabia o que estava a dizer. Que sim. Que são homens que gostam de homens. E continuamos a conversa primeiro com ele. Que ele não ligasse à opinião da tia, porque as miúdas iam gostar daqueles calções. E mais do que isso, o que gostariam mesmo era de lhos tirar. E eu chocada a dizer que o puto tem só 10 anos. Ele a rir com um sorriso constrangido, mas feliz porque o tratam quase como igual. Depois deixando-o um pouco de parte falando de filmes. Do tropa de elite, que ele viu com os pais, da Cidade de Deus e um pouco mais a despropósito do Delicatessen. Uma espécie de filme de culpa para a minha irmã. O Delicatessen tem uma cena absolutamente deliciosa em que um prédio inteiro, em que se ouve tudo, em toda a parte, age ao ritmo de um acto sexual. E eu a contar a cena, a falar de sexo, e agora nem vale a pena soletrar, porque o puto apanha tudo, e a esquecer-me que ele tem só 10.

sábado, julho 12, 2008

Heil Berlin II!






sexta-feira, julho 11, 2008

Heil Berlin!

A cidade recebe-nos com sol e o termómetro marca 32º. Passeamos a pé em direcção às Portas de Bradenburgo e miramos com gosto o Parlamento e a cúpula de Norman Foster. À chegada, o caos, múltiplos palcos e camiões, anúncios de um programa de televisão e os respectivos apresentadores em fotografia. Agarro-a pela mão para não perder de vista aqueles 11 anos despertos e curiosos. Explico-lhe o que sei e aprendo mais para ensinar. Visitamos o Reichstag e entramos num elevador que mais parece uma Torre de Babel. São todos mais altos do que nós. Falam línguas. Oiço espanhol, italiano, inglês e alemão. Falo o meu português para juntar a voz à multiplicidade. Ela ri-se e tapa os ouvidos. Descobrimos Berlim lá do alto e apontamos o que queremos ver. Três dias não chegam mas são suficientes. Assim andamos, entre a chuva e o sol, olhos postos na História e um ouvido sempre alerta. Falo-lhe de Hitler e de Eva Braun, do Genocídio e de Auschwitz. Ficamos chocadas. Deixo-me envolver pela fuga dos que passaram no checkpoint e dobraram uma Alemanha dividida. Visitamos o Leste, respiramos a Ocidente. As ruas pintam-se de grafittis e os becos mostram-nos o que se faz de melhor na arte da capital. Tiramos fotografias e sorrimos. Às vezes não, quase choramos. No chão, as marcas do Holocausto, o Museu do Judaísmo, tão moderno; a Sinagoga, a vontade de um povo perseguido e a humilhação.

Berlim é para ver, não apenas para visitar. Nesta segunda ida à cidade vejo mais, apreendo mais, sinto mais. E, de mãos dadas, corremos as ruas que conduzem a História e o passado. Bebemos da cultura e das gentes que agora sorriem, saímos do caminho para que uma bicicleta não nos atropele. Na Torre olhamos de cima e visitamos por alto. O cheesecake sabe melhor e vivemos então como se fossemos outras pessoas. Ela pergunta, eu respondo, se sei; procuro, se ignoro. E aprendemos juntas. Gosto disto. Quero voltar a senti-la comigo. Haveremos de conhecer mais.

quinta-feira, julho 10, 2008

desafios

é mais fácil ficar em Garbhapindasana por cinco respirações [inhale exhale inhale exhale...] do que expulsar o 'mundo' da minha cabeça.

Gourmet

Cheguei a casa e tarde mal disposta. Escondi-me no escritório, agarrada ao computador, para disfarçar a neura. Ele, que entretanto já me trouxe um cálice de vinho tinto, está na cozinha a fazer o jantar. "Mesa", chama. E em poucas linhas de um post acabo de perceber que depois de mais um dia bera tenho muita sorte em estar em casa. "Mesa", repete. Não devo abusar :)

dia de avio

recomeço

Regresso ao Yoga dois anos depois num dos meus eternos e infindáveis recomeços. Durante hora e meia estico-me, contorço-me, dobro-me. Regresso ao Yoga e percebo que não me lembro da ordem das posturas. Que não consigo seguir a regra dos movimentos. Que a série se perdeu nos confins da memória. Só uma vaga sensação de conforto resta ainda na caixinha verde alface, a tal do terceiro compartimento da esquerda a contar da pálpebra direita. Não faço mais de oito posturas, de novo repetidas para serem memorizadas pelos músculos, pelo cérebro. E aquilo que há uma semana atrás parecia uma excelente ideia é de repente um verdadeiro tormento, quando na manhã seguinte não consigo mexer os braços e as pernas. Quando dói tudo. Até o dedo mindinho do pé direito.

domingo, julho 06, 2008

O drama da planície

Há alguém a sofrer de enjoos e já se nota a barriga. Já não me lembro quem. Mal a conversa começou do outro lado da linha entrei em pause. Deve ser uma prima ou a filha de uma amiga calculo. São sempre. A vida da minha mãe está povoada de gravidezes alheias. Uma por telefonema pelo menos...sugestões em jeito de insinuações.Já me vou habituando e isso é o pior. Este mês gastei uma renda em testes de gravidez tipo-adolescente-histéria-ao-mínimo-atraso. O meu organismo, fiel como uma obra-prima de um mestre relojoeiro suíço, gosta de me pregar partidas de quando em vez. Fez das boas nos últimos tempos. Patidas, sem nada mais. "Já só faltas tu", disse-me ele na sexta à noite, em plena festa de vodkas tónicos. Apeteceu-me partir-lhe um copo na cabeça. Ou no mínimo mandá-lo à merda. Mas até os homens já se metem nestas coisas?? Descobri mais um pelo público... branco. Procurei, procurei mas não encontrei em mim gravada qualquer data a indicar que o prazo de validade tenha chegado ao fim. O pior é que tudo indica que sim. E ainda me criticam por não escrever mais neste blog!

sexta-feira, julho 04, 2008

profissão a quanto obrigas

"Uma gaja de vestido a falar com os bombeiros é capaz de sacar notícias. Vou é ter que rapar um frio do caraças por causa disso".
A.B.

quinta-feira, julho 03, 2008

alimentar o estômago e a alma

Jantar na minha irmã e sufocar nos abraços e beijos dos putos.

brincadeiras perigosas

Georg: Why are you doing this to us?
Paul: Why not?

Funny Games, Michael Haneke (1997)


Estreia hoje. Vi a primeira versão, numa noite de princípio de Verão no King. Já lá vão uns dez anos. Falada em alemão [o realizador é, senão me engano, austríaco] ficou-me para sempre cravada, num qualquer recanto da caixa verde alface. Não por ser uma boa memória. Apenas por ser memorável pela forma como retrata a crueldade humana. O mal pelo mal. É puro terror psicológico. Michael Haneke revisita agora esta família de férias junto a um lago. Pai, mãe e filho. Bonecos de trapos nas mãos dois rapazes imaculados, pelo menos por fora…

quarta-feira, julho 02, 2008

As águas de Junho

Dicilmente encontro prazer maior. Deito-me de costas e deixo que a água me leve, corpo flutuante, o biquini a aparecer à tona, uma barriguinha que se levanta e os olhos fechados a imaginar tudo isto. O céu azul, carregado e azul, umas nuvens brancas, leves, passageiras, sem pressa. E as vozes dos miúdos que já não se ouvem. É hora de almoço e as crianças têm de sair do sol. Deixo-me levar, na piscina de pastilhas azuis e brancas, em contratse com o céu, por cima os pinheiros altos, as pinhas ali penduradas, um pássaro que passa e asas que batem, também o meu coração. Lentamente. São os dias de Junho que querem terminar, mas deixam saudades, a Sul. Abro os olhos e dou uma braçada, mais uma e outra. Encontro-te do outro lado da água, sempre molhado, os pingos a escorrerem-te na face. Dou-te um beijo, suave como os dias. Estamos de férias. E não há nada melhor.

trânsito

Há duas coisas que levam os portugueses para as estradas: o sol e o fim do mês...

'Há-des' ter muitos amigos

"[...] a família tem por objectivo a procriação."

Manuela Ferreira Leite, em entrevista à TVI

terça-feira, julho 01, 2008

angústias

quando está no auge o primeiro dia [de cinco] de dores de cabeça, só consigo perguntar quando chega a menopausa...

segunda-feira, junho 30, 2008

prazeres de verão

A melancia, quando chegam ao fim os dias das cerejas.

sábado, junho 28, 2008

do tempo

"Mas tempo é dinheiro, o senhor está a esquecer isso - disse o coronel.
- Qual tempo! Há tempos em que se pode vender um mês inteiro por cinquenta cêntimos e outros em que não se vende meia hora por dinheiro nenhum [...]"

Anna Karenina, Lev Tolstoi da Relógio D'Água

postais

[cor]


[pele]


[fé]

Junho

Junho dá os últimos suspiros numa brisa morna. Viveram-se as férias. Passaram os Santos. Perdeu-se um campeonato. Fez-se [um]a [outra] festa numa noite ventosa. Junho recebeu-me em casa com 30º graus nos termómetros. Com um vento quente a descer a calçada. O sol a encadear nos prédios. Com os jacarandás contra um azul forte. Comi quilos e quilos de cerejas. Fui para Sul. Encantei-me com a cor do mar. Visitei um mini deserto. Fiquei coberta com a terra vermelha de África. Preguicei à volta da piscina. Pus as leituras em dia. Escandalizei-me com Roth. Deliciei-me com Juan José Millás. Li finalmente Dennis Lehane, o homem que inventou o ‘mystic river”. Comi quilos e quilos de cerejas. As últimas. Negras e doces, muito doces. Fiquei um ano mais velha. E diverti-me. Muito. Junho dá os últimos suspiros e como sempre começo a sofrer por antecipação. Os dias estão a ficar mais curtos e um dia destes, quando não estivermos a olhar, chega o inverno.

sexta-feira, junho 27, 2008

Mais vale tarde...


Parabéns Carrie!!!


P.S.: Esta imagem não é minha. Foi roubada!

6 anos

A cabecinha loira corre atrás de uma bola. É um dos gostos, uma das paixões da vida que hoje celebra 6 anos. Meia dúzia, como numa caixinha de ovos bem composta e arrumada na dispensa para omeletes. Chama-me de tia e é o único. Os outros sabem de cor o meu nome. Mas este insiste no parentesco, instigado pelos pais que assim preferem. Como se o respeito se visse só desta forma. mas não reclamo. Afinal, é o que sou: uma tia! E babada. Recordo as mãos pequenas e as exclamações que me fazem rir, penso nos livros que li e nas estórias que inventei. Preparo-me para a festa e levo presentes mais um beijo cheio de afecto. G. faz hoje seis anos e recordo os segundos de atraso na chegada à maternidade no dia em que nasceu: foi tudo tão rápido. Um aviso e já estava cá fora. E eu que corri para conhecê-lo e consegui, de fugida, avistá-lo numa maca encostadinho à mãe. Era o primeiro filho. Hoje não será preciso correr. Apenas por um beijo quando chegar junto dele. Terá tanta gente a querer mimá-lo. E serei apenas mais uma. Mas a tia. E isso conta...

Menina do Rio

Queixo-me da chuva mas deixo-me molhar pelas gotas que espaçadamente caem e me deixam com a marca de água. Rio porque faz rir, o momento. Rio que se fez de livros e de passeios, de boa comida e novos restaurantes, de algumas visitas e mais um doce pintado com suco de abacaxi. Perco-me nas compras dos preços baratos e caio na asneira do saco cheio. Faço contas e tenho vontade de partir. Tarde demais. Embrulho as sandálias em papel esmagado e trago tudo para casa. Umas para cada dia da semana. Quase. Não resisto ao chamamento de uma lembrança para ti, para ti, e para ti... os que amo receberão o meu riso, carteira vazia e um presente. Sei que não devo. Nem temo. Mas volto. E trago para a mãe, para o pai, para o petiz. E as amigas que fazem anos. Os mimos da feira Hippie. Tudo isto me custa. Tudo isto me vai deixar mal. E bem. Porque é assim que gosto. Embrulho o sol de uma manhã de praia em Ipanema e protejo-me da queima com mais um creme caríssimo. E novo biquini, a estrear no Posto 9. Retiro-me com a chegada da noite e procuro então aonde ir. Vamos. Damos as mãos de alegria porque a sorte nos trouxe aqui outra vez. Contamos os dias, fazemos promessas, nova viagem para fazer. O Rio sabe bem. Não é o melhor que sei, mas o melhor que posso. Um "oi" disfarçado de "olá", um gesto universal, uma hawaiana no pé e somos todos iguais. A visita ao camelot deixa-me embriagada: o cheiro a amendoim torrado, as marcas da contrafacção, o Rolex que não o é, e o Gucci que sonha sê-lo. A pobreza está ali. Desboqueiam-se telefones e as play stations que for preciso. Corro para sair de lá mas não me deixam. Prende-te o gosto pela maré, mar de gente que sabe a Brasil. Saímos. Venho de mãos a abanar. E a "Confeitaria Colombo" deixa-me com água na boca, 1001 sabores, doces que são, e uma memória que data de um século passado. O Presidente da República de Portugal mostra-se numa fotografia, à porta, ele e a mulher, que ali foram de visita. Sento-me à sombra de um espelho, as caravelas atrás iluminam a sala, em cima um espaço para refeições e dois namorados que se deixam fotografar. Tiro também a minha fotografia. Outra. Numa perspectiva de voltar. Porque o Rio vê-se por várias vezes.

Entretanto...

A caminho de Berlim, regressada do Rio (pela segunda vez, este ano), eis-me de volta à cidade capital. Tempo para pensar, reflectir, fazer planos e continuar. Tempo para tanto e falta muito mais. Sobram uns dias para o sol e a costumeira visita à Quinta do Lago. Sem custos adicionais.

Andou este blog interrompido e nada se pôde dizer. Mas há muito para contar. Vamos por partes. Deixarei aqui a minha, em breve.

terça-feira, junho 17, 2008

Mudança de Planos


Amanhã, e durante uma semana...


domingo, junho 08, 2008

Vamos?


O filme já estreou!


E depois...



... de dois meses consecutivos de trabalho, vou aprender e ensinar a importância desta capital na Segunda Guerra Mundial.


Eu fui...


... e vi-as chorar por causa dele!


Terça-Feira, em executiva...



sexta-feira, junho 06, 2008

[par]a Sul

Ainda ando por cá. Mas só mais um bocadinho. Os girassóis estão à espera que me vá embora. As coroas imperiais também vão florir. Quando estiver a sul. Entretanto as marchas vão descer a avenida. Vão comer-se sardinhas assadas com cerveja a rodos. Vai encher-se a Bica. Alfama. Vão continuar as vendas de livros no Parque Eduardo VII. Lisboa vai encher-se de sol, prometem os meteorologistas. Eu vou encher-me de areia. A pele a saber a sal. A sul.

quinta-feira, maio 29, 2008

em contagem decrescente

[António Sá - Rotas & Destinos]

quarta-feira, maio 28, 2008

dor de alma [ou o papel...]

É como se arrancassem bocados de mim, devagarinho, de imprevisto, quando não estou a olhar, como se assim pudessem enganar a dor. São bocados importantes de mim, que um dia, logo no primeiro dia, me farão falta.

- Mas eu não quero ir.

- Então não vás.

- Mas eu não posso não ir só porque...

- Então vai.

- Mas eu não quero ir.

- Então não vás.

- Mas se eu for...

- Então vai.

- Mas eu não posso ir só porque...

- Então não vás.

[...]

[És grande. Muito grande]

terça-feira, maio 27, 2008

Viagem no tempo







Depois de 50 anos de ditadura entrámos num clube de ricos que nos ajudou a minorar o que já pareciam séculos de atraso. Mas no velho continente ainda há milhões à espera desse salto em frente. Como na Geórgia, onde os "inimigos" do regresso ao berço europeu estão apenas do outro lado das magníficas montanhas do Cáucaso. (Embora ainda haja catinhos em Portugal onde estas imagens não destoam).

A feira

À primeira vista, ainda do outro lado do parque, não havia razões para tanto. Uma dúzia de pavilhões entrincheirados junto à tenda dos pequenos editores. Pavilhões com livros lá dentro, a mesma coisa uns metros mais abaixo. A diferença está na cor. O que me leva a pensar que não percebo a má vontade da Leya. Afinal as barraquinhas da feira até foram pintadas este ano! Como é que podem acusar a APEL de não querer inovar? Também barulho para nada.

Digam o que disserem, que a feira está morta, que este formato já não funciona, que é preciso modernizar, digam tudo isso, mas ainda assim não me convencem a deixar de ir. De Cumprir o meu calendário emocional. De me sentar no topo do Parque Eduardo VII com o rio lá bem ao fundo, os telhados de Lisboa pelo meio, e o burburinho das conversas em volta. Nada como descer a calçada entre as barracas, folhear livros, comparar preços com os desejos que colei nos pulsos agora na contracapa da Moleskine, subir a calçada pelo lado contrário, demorar tempos infinitos nas barracas preferidas, temperar tudo com o açúcar das farturas. O que não combina com a Feira do Livro é o frio de rachar, a chuva torrencial, os pés alagados e o corpo a tremer de frio. Não achasse eu que este blog está a um passo de se transformar num site da meteorologia e desatava a mandar vir com o tempo. Mas hoje não. Fico por aqui que já gastei as palavras para uma semana.

sexta-feira, maio 23, 2008

3 anos de Mais Cidade

A dizer coisa nenhuma. Ainda assim, gosto de aqui estar. Às minhas companheiras de viagem um ‘bem haja’ por existirem na minha vida. Aos outros, os que passam e deixam marca, os que vêm sem dizer palavra, o meu [nosso] obrigada.

[É estranho como me lembro tão bem do primeiro dia, da escolha do nome – autoria da Samantha -, dos primeiros posts, escritos em catadupa, quando a Carrie ainda não era Carrie, antes Bea, personagem de um livro que marcou uma vida, do enorme vazio que este espaço preencheu, do gozo que me deu desde o primeiro minuto. E apesar da dificuldade que tem sido estar mais presente, gostava sinceramente que continuássemos...]

status report

Girassóis, dálias e coroas imperiais devem florir dentro de dias. Os malmequeres, depois de lhes ser diagnosticada a morte prematura, estão verdejantes. Continuam a existir várias espécies não identificadas.

quinta-feira, maio 22, 2008

Identidade

Sabe quem eu sou? Demasiadas pessoas o sabem. Muitos descobriram já que esta Samantha não é loira como a da série, não dorme todos os dias com um homem diferente, não fala de sexo oral ao pequeno-almoço (mesmo que toque no assunto ao jantar)... A minha identidade foi descoberta e não sei se gosto disso. Venho menos a esta cidade por ser reconhecida. Venho a medo, sem saber se os que aqui passam me vêem como sou ou como imaginam que seja. Estas coisas dos blogs são estranhas e não me habituei a ser quem se sabe que sou. Prefiro o tempo em que Samantha, assumidamente é apenas uma mulher de mais de 40 anos, amiga das amigas do sexo e a cidade, desbocada, corrosiva, ordinária sem ser vulgar. Mas eis que o meu rosto saiu à rua e a minha personalidade passou a ter uma imagem. Eis que as minhas palavras passaram a ter um eu e os meus pensamentos são mais do que pura imaginação. Penso se vale a pena vir, desta forma. Venho para fazer companhia. Ficarei?

quarta-feira, maio 21, 2008

A minha passagem por Cannes

[Reuters]

terça-feira, maio 20, 2008

Maio

Esta cidade está quase a fazer três anos e não merecia ser tão mal tratada. Eu ando às voltas com a vontade de escrever, faz-me falta este exercício de exorcismo, começo posts mentais à saída da garagem, na descida para os Restauradores, mas quando chego à Avenida já a cabeça vai a mil hora, a pensar nas queixas, nas resmunguices, na vida que não se vive. Experimento frases soltas a meio de um cigarro enquanto olho os jacarandás no Largo do Carmo, raramente contra o céu azul, como deviam estar sempre os jacarandás, ficam mal no céu carregado de cinzento que parece chumbo, que me pesa nos ombros e na alma. Pensei em escrever sobre as cerejas, já pintam o verde da Serra e vieram por ai abaixo na carreira das seis, mas é sempre mais do mesmo. Acho que já disse tudo o que havia a dizer, basta procurarem nos arquivos em Maio de há dois anos, que não me apetece andar com links. Sei que este ano mal terei tempo para subir às árvores, comer directamente dos ramos, suster a respiração para não pensar nas vertigens enquanto salto para o chão, já enjoada com o peso das cerejas no estômago. Dar tempo para me recompor e voltar lá, ter que subir mais um pouco, procurar as que estão escondidas entre os ramos mais altos que o meu pai tenta a todo o custo vergar sob o peso de um arado velho, para que as cerejas não sejam somente comida de pássaro. Vão-me fazer falta estes dias, mas Maio este ano parece mais curto.

segunda-feira, maio 19, 2008

Letras maiúsculas

No espaço de três dias entrevistei o António Lobo Antunes e o José Saramago. E apetece-me (re)ler os dois!

Quidam

Acabei de chegar do Passeio Marítimo de Algés e de um espectáculo de 65 euros. É certo que fiquei num lugar que custava 90, mas apenas porque a arrumadora era simpática... Não posso dizer que foi uma desilusão, mas também não preencheu as minhas expectativas. Quidam é bem feito, tem qualidade, momentos espectaculares, mas não será o melhor do Cirque du Soleil. Nada do que vi esta noite me foi dado a conhecer pela primeira vez. Nada. Todos os números tinham qualquer coisa de Dejá vu. Havia, aliás, um momento de comédia que eu já tinha visto num qualquer Circo de Natal... Claro que o "palhaço" do Cirque é genial, mais bem vestido, com as feições correctas e os gestos no lugar... mas o número é o mesmo.

Não caiam agora as críticas a desmentir esta opinião dizendo que o Cirque du Soleil é único e eu não sei o que estou para aqui a dizer... Concordo: é único! Mas já não é tão único como noutros tempos e, para mim, não vale bilhetes tão caros. Bem sei que sou pouco dada a coisas de circo e os números de trapézio, cordas e malabarismo não são a minha paixão... mas, ainda assim, há coisas que me surpreendem. E o Cirque não me surpreendeu muito. Gostei do momento em que quatro meninas (teriam mais de 15 anos?) faziam um jogo de malabarismo com uma espécie de ampulheta gigante equilibrada numa corda. É uma brincadeira que já vi por aí, entre miúdos mas, claro, houve naquele número mestria e capacidades para lá do normal. Não digo que também não fiquei impressionada com a rapariga do hula hula... fiquei. Mas é imperdoável, por exemplo, que um malabarista deixe cair uma das bolas. Imperdoável porque o meu bilhete custou 65 euros. Imperdoável porque são muitas as equipas que formam a grande companhia que é o Cirque, e porque a escolha dos artistas é feita a dedo.

Mas o Cirque du Soleil é organizado, profissional, comercial. E nisso, não haverá melhor. Há ali muito trabalho, muito empenho e muito profissionalismo. E isso vale dinheiro. Além disso, há prazer, o que sabe bem apreciar. E não se denota cansaço, o que é impressionante. E há ainda os números em simultâneo, quando o nosso olhar se distrai por vários pontos da arena. E o guarda-roupa.

Os trabalhadores do Cirque du Soleil vivem como ciganos. Viajam, acampam, ficam uns dias e partem. É uma grande máquina, a companhia. As crianças têm que estudar com professores particulares porque não podem inscrever-se na escola; os casais formam-se no grupo; há uma mescla de nacionalidades que vai buscar os melhores de cada País... e há camiões de material, dezenas... para que o mundo se mude para cada cidade onde actuam.

Há, portanto, magia neste circo. E não há nada que choque, não há momentos mortos nem motivo para apontar o dedo (nem tem animais)... Mas eu só consegui levantar-me para sair. Mesmo quando muitos estavam de pé apenas para aplaudir.

Ao 17º...

Amanhã é o meu 16º dia de trabalho consecutivo...

quinta-feira, maio 15, 2008

Repetição por motivos nada técnicos*

Cansa-me a esquizofrenia destes dias de Maio. Esgota-me o cinzento do céu. Pesa como chumbo. Dói-me o frio despropositado. É uma tristeza que não consigo definir. Apenas esperar que passe depressa. Salvam-me os jacarandás* do Carmo. Floriram mais tarde este ano, mas chegaram [enquanto eu dormia] este fim-de-semana como prova da capacidade da reabilitação dos seres.

[a gerência pede desculpa pela repetição, mas a primavera que teima em não chegar anda a trocar-me as voltas]

quarta-feira, maio 14, 2008

formas de vida

“Há vinte anos, no meu país, pôs-se o problema de criar um fundo de pensões para os jornalistas, dado que no fim de todas as carreiras profissionais, supostamente, vem a reforma. No sindicato dos jornalistas chegámos a esta conclusão: era um problema que não se colocava, visto que na nossa classe quase ninguém vive até à idade da reforma. Esta é uma das características da nossa profissão, uma profissão feita de stress constante, nervosismo, insegurança, riscos e em que trabalhamos noite e dia.”

os cínicos não servem para este ofício’, Ryszard Kapuscinski

apetece-me [muito] ii

[desta vez já com viagem marcada]

quarta-feira, maio 07, 2008

Boas vindas

Quando me vê chegar os olhos amendoados ficam mais rasgados, a boquinha abre um sorriso doce, as mãos erguem-se. Apalpa o território que é o meu rosto para depois o lambuzar. "És tu", parece dizer quando puxa o cabelo e sorve o aroma da minha pele. Faz uma careta, emite um som esganiçado e volta a sorrir. Enrola-se à volta do meu pescoço, volta a olhar-me, encosta-se ao meu peito. Sinto a confiança, o carinho, a inocência.

Quando me vê chegar os olhos amendoados ficam maiores, o sorriso é franco, os braços abrem-se em arco. Aperta-me o pescoço e esconde-se entre os meus cabelos. "Olá!!!", grita quando enrola as pernas à volta da minha cintura. Dá-me um beijo e pede-me para brincar. Sinto a confiança, o carinho, a inocência.

Ele tem oito meses, ela tem cinco cinco anos e dão-me as melhores boas vindas do mundo. Têm o condão de com elas tornarem o meu dia muito mais feliz.

pergunta

Se um jornal for publicado apenas dia-sim-dia-não deixa de ser diário?

domingo, maio 04, 2008

BSB

Consegui os bilhetes à borla. Levei os meus sobrinhos mais velhos - ela de 10, ele de 7 - e uma amiga deles. Depois da típica refeição no McDonalds, o Pavilhão Atlântico. Não vamos ver nada, pensei. Enganei-me. Plateia a menos de metade e bancadas cheias. Bilhetes em pé, para a plateia a meio gás. Os mais velhos encostados às paredes; os mais novos - filhos, irmãos ou sobrinhos - junto ao palco, aos saltos. Os meus mantiveram-se ao meu lado, cá atrás, de onde se via melhor. A amiga era a que mais que mais dançava. Nunca tinha estado no Atlântico! Falámos do concerto que tinham visto dois dias antes: os GNR com a banda da GNR. E agora, ali estavam, à espera de ver aparecer os Backstreet Boys. Alguma cerveja a copo rodava no público, mas também se vendiam pipocas. Comprámos. Depois de um rapper qualquer, lá veio a banda dos quatro (ou cinco? perdi-me...) rapazes, outrora apetecíveis, 15 anos de carreira e alguma energia e estilo próprio. Mudaram de roupa três ou quatro vezes, durante o espectáculo. Os passos ensaiados, os gestos simultâneos, em coreografia. Vimos no you tube, não sabíamos quem eram, disseram-me os meus. E então? O meu pai gosta desta música, confidenciou o mais novo. Gosta? Uma daquelas conhecidas, de outros tempos. Lembrei-me de cinco amigos que chegaram a subir ao palco imitando os "rapazes da rua de trás". Cantavam os hits do momento e faziam o mesmo que eles, mas em gestos descoordenados. Um dia gravaram um vídeo na praia. Risos na sala. Vestidos de fato e gravata, camisa branca, uma autêntica Boys Band da Damaia. Genial! Aqueles eram os verdadeiros. Ri-me outra vez. As miúdas guinchavam por eles. Os pais, cá atrás, encostados. Os meus miúdos quiseram sair mais cedo. Já passava das 11 da noite. Ficaram para trás os aplausos e os gritos. Para a próxima vamos ver o Aznavour. É mais para a idade deles.

Fim de tarde

O sol põe-se à minha frente. Trago o portátil para o terraço e sento-me numa das minhas cadeiras novas - 49 euros, na area - depois de me ter espreguiçado na rede que trouxe há anos de uma viagem ao Brasil, mas que só ontem pude colocar na parede. Este meu cantinho agrada-me. Cheira a Verão. Pendem do céu uns cortinados vermelhos e amarelos que comprei para cortarem a luz. Não cortam. Mas ficam bonitos, presos em baixo. As cadeiras de plástico em ripas brancas têm agora uma almofada fofa. Tudo parece jogar. Mas amanhã regresso ao trabalho... e ninguém para aproveitar este espaço.

Big Brother

Sinto-me observada...

quarta-feira, abril 30, 2008

com vista para o mar

Para combater o mal estar. Para afastar a inércia. Porque os dias se querem de férias. Por isto tudo, arrasto o corpo para fora da cama, para longe do sofá. Entramos no carro sem destino definido, apenas com a vontade de sair. Acabamos em Peniche. No forte que um dia se fez prisão. Paredes altas, pátios de tamanho reduzido, onde um dia escorreram vidas mal tratadas. É estranho estar ali. O meu corpo não se faz meu, naqueles momentos, como se quisesse entrar na história dos outros. Acontece-me quando estou próxima do ‘segredo’, no pátio da cisterna, no parlatório, à vista das cartas escritas como cabulas numa letra indecifrável, perante os relatórios quase pornográficos de actividades tão inocentes como almoçar no restaurante x ou y fora dos muros do forte. Acontece-me de novo, o corpo que não quer ser meu, a vida demasiado insignificante, quando chego ao último piso do museu, as paredes que parecem sempre demasiado próximas, as celas demasiado pequenas, os miúdos de escola secundária que, sentados no chão do refeitório, ouvem a guia repetir, numa voz monocórdica, o nome daqueles que conseguiram fugir à prisão. Os mesmos miúdos que encontrei pela primeira vez no andar de baixo, por entre rendas de bilros, conchas e corais, ela a andar às arrecuas, ele com o braço à volta da sua cintura, alheios a tudo, olhos nos olhos, beijos [pouco] inocentes, ela a tropeçar na colega que parou para apertar os atacadores, a imagem que parece saída de um filme cómico. Os mesmos miúdos que vão comentar, à porta da cela onde esteve preso Álvaro Cunhal, ‘ena o gajo tinha vista para o mar’.

terça-feira, abril 29, 2008

altura de ir à bruxa

Foi preciso entrar de férias para ficar doente. Ou tenho mesmo muito azar ou há alguém que me quer muito mal.

quinta-feira, abril 24, 2008

Abril

Há uma brisa quente, como se o Verão tivesse vindo celebrar a liberdade. Há a música que entra pela janela. Famílias que descem a rua para desembocar no largo onde se fez Abril. Há isto tudo e uma festa na outra margem. E eu continuo fechada num open space laranja.

quarta-feira, abril 23, 2008

apetece-me [muito]


imitações

Leio, em jeito de obrigação, o ‘a casa quieta’ de Rodrigo Guedes de Carvalho. Em jeito de obrigação porque me inscrevi num painel da LeYa [ao que consta o bicho papão dos editores] para ‘dar opinião sobre livros’. ‘A casa quieta’ chegou pelo correio no final da semana passada e não li mais do que uma vintena de páginas. Sejamos sinceros. O livro é chato. Rodrigo Guedes de Carvalho tem pretensões de Lobo Antunes. Algo que claramente não é. E pior do que um mau original [28/5 a caixa de comentários está aberta para desancares] só mesmo uma péssima imitação.

terça-feira, abril 22, 2008

desafios

Três das adolescentes da minha equipa [a C. será sempre desta secção] comemoram os seus aniversários com poucos dias de diferença. À falta de agenda na altura certa combinam por estes dias uma saída para jantar e acabar no sítio do costume. Querem que dure a noite inteira. Parece que sou difícil de embebedar.

Quero estes!!!!!!!!!

Entre um blog e outro

Aqui está um post que eu gostaria de ter escrito. Que até pensei escrever. Este ficou de certeza melhor e diz o mesmo. Obrigada.

domingo, abril 20, 2008

Dias com Música

Lá andei pelo CCB - em trabalho, é certo - ouvindo aqui e ali as afinações de um violino, os sons de um acordeão, a sonoridade de uma flauta de bisel, o impacto de uma grande Orquestra. Os Dias da Música vieram colmatar a falha que ficou depois de se ter acabado a Festa. Dizem os saudosistas que foi uma pena, que nada substitui o que antes havia, que antes é que era. Talvez. Mas é de louvar o esforço de Mega Ferreira, que tenta, com menos espaço e meios, fazer um Festival de música para todos. E é ver famílias inteiras pelos corredores do Centro Cultural de Belém, é ver as crianças em workshops matinais que aprendem como se toca o si e o dó; é ver as avós que levam os netos, os filhos que levam os pais, os melónamos que se levam a sério.

Um acordeão, soube-o ontem, pode pesar 20 quilos. É incrível! Os acordeonistas têm cuidados com a coluna que passam pelo exercício físico. É que carregar o instrumento é carregar um grande peso. Quase como um balde de cimento, nas obras. Mas com a ajuda de alças protectoras e com o aval da élite. E um acordeão, para ser afinado, tem de ser aberto, o que acontece, normalmente, duas vezes por ano, na passagem para o Inverno e na passagem para o Verão. É um instrumento cheio de curiosidades. Consta que esta manhã, no concerto com a Orquestra do Algarve, foi um sucesso. As imagens mostravam o público a aplaudir de pé!

Gosto desta perspectiva de tirar o lado chato e elitista à música clássica. Os Dias da Música servem para isso: ouviu-se a música de câmara, certo, mas também world music e jazz. E para o ano, será Bach, o tema, depois de uma edição de "Duos, Trios, Quartetos & Outras boas companhias".

Curiosa foi a ausência do novo ministro da Cultura. Pinto Ribeiro, que à SIC Notícias disse, há dias, que queria fazer renascer a Festa da Música, faltou ao convite do CCB. É que faltam espelhos, nas salas de concerto...

sexta-feira, abril 18, 2008

o meu [projecto] jardim





























[o pior é identificar as ervas daninhas. Perceber o que é bom ou mau. Flor ou resto. Conheço as coroas imperiais, flores imponentes que de um dia para o outro, decidiram reinar neste projecto. Conheço o abacateiro, ali ao fundo, junto ao muro, uma cana a amparar-lhe o caule. A salsa também gostou da terra, já está boa para o corte, e as alfaces mesmo ao lado, falta-me plantar a hortelã e quem sabe alguns coentros. Quanto ao resto não sei, não faço ideia. Se não derem flor um dia lá terei que as arrancar.]

Basta!

Apesar de existirem tantas outras coisas que se podem fazer à chuva, nenhuma delas me dá o mesmo prazer do que se pode fazer ao sol. Já era hora de deixar entrar a Primavera. A sério.

terça-feira, abril 15, 2008

Centrum

Há dias não consegui lembrar-me do que tinha acontecido de grave em Nova Orleães. Dei voltas e mais voltas e tive de pedir a ajuda do público para concluir que, afinal, o Katrina tinha passado por lá. Sabia que tinha sido devastador, mas não me recordava do quê... Pela minha memória terá passado um furacão sem nome de mulher mas com terríveis consequências. Esqueço-me de coisas importantes. Não são coisas do dia-a-dia, apenas. Essas resolvem-se com uns lembretes no telefone e uma boa agenda de outlook... Não. São informações a reter: nomes de actores, de políticos ou de capitais... são dados históricos, relações internacionais, cultura geral. Perdi parte do que sabia. Esqueci, para sempre, temo. Não consigo lembrar-me do nome de dois dos assistentes de Hitler, quando acompanho de perto - por gosto - o período da Segunda Guerra Mundial; não me vem à memória o nome de um filme, de quem o realiza e de quem nele participa e, por vezes, nem sequer me lembro se já o vi - dei por mim, na FNAC, a pensar se já terei visto o "Fúria de Viver", com om mítico James Dean. Terei perdido esta pérola?. Parece-me que sim, que o vi, mas nem a presença de Dean me diz nada. E nas séries, por exemplo em "House", começo sempre por dizer "eu não vi este episódio" quando, descubro mais tarde, até identifico as caras e as doenças, as falas e os momentos de riso. É preocupante.

O mais incrível - e óbvio - nesta minha perda de memória é que, o que deveria ter esquecido, mantém-se firme na minha memória. Cá estão as más recordações, as mágoas, os momentos que me fizeram chorar... e aparecem assim entorpecidos como se tivessem acontecido mas pudessem repetir-se que eu nem me importava. É injusto. Em 35 anos de vida e alguma experiência juntei dados que gostaria de manter e recordar: visitei países e cidades interessantes (se não escrevesse os nomes nas fotografias esquecia-me de algumas); li livros e vi filmes incontornáveis, ouvi músicas e pessoas a não esquecer... porém, tudo o vento levou. Sem Clark Gable (olha, lembrei-me deste!).

Costumava dizer que tenho cultura de autocarro: sai tudo na paragem seguinte. Queria com isto dizer que só acumulava na memória o que me interesseva para um certo período. Ainda acontece assim. Por exemplo, se faço uma reportagem, preparo-me o suficiente para saber tudo sobre o assunto. Entrevisto, escrevo. E eis que uns dias depois não consigo referir dois dados que tenha retido do assunto ou da pessoa. Triste? Pior do que isso. Esta cultura de transporte público é tão ou mais preocupante quando se tem uma função em que todos nos julgam um bocadinho melhores, mais espertos. "Tu é que és..."... dizem-me. Sim, sou. E não me lembro porque me deram a mim tal cargo. Te-lo-ei merecido? Para já sei o meu nome e a minha morada de cor (excepto o código postal para o qual tenho uma cábula), sei o nome das pessoas de quem gosto e consigo adjetivá-las com duas ou três qualidades (esqueço-me do vocabulário para mais)... mas não me lembro de quem antecedeu a Putin no Governo russo... não consigo dizer agora qual foi o vencedor dos óscares do ano passado e também me esqueci do que li em "100 anos de Solidão". Exemplos do que é não saber. Não ter memória. Não existir ou, simplesmente, ter um passado que de nada valeu.

sexta-feira, abril 11, 2008

Sem voz

O Dia Mundial da Voz é depois de amanhã, sábado, dia 12. Mas não é sobre isso que venho discorrer. Penso hoje naqueles que têm voz mas preferem ficar sem ela, omiti-la, escondê-la. Penso nos que calam, nos que não podem falar, nos que não conseguem fazê-lo. E não, não são questões políticas que os impedem. Apenas o ser. Ser como são. Os que guardam a voz têm para si os problemas, vivem com eles, não partilham, não dizem a ninguém, não querem ser ajudados porque acreditam que não precisam de ajuda. Silenciam e são silenciados, amordaçados por uma maneira de estar. Tenho um caso bem próximo. Começa a complicar-se a vida que partilha com outra pessoa. Um problema por resolver, por falar, por destrinçar. E uma crise que se agudiza, mesmo quando, do outro lado, mais não há do que compreensão e afecto. Não discutem. Ele reserva para si o que o incomoda. Ela procura-o, enternece-se, cria plataformas para o diálogo. Nada, não existe. Ele amua ou exalta-se quando sente que a privacidade de algo por resolver não é respeitada. Esquece-se que já não é o único a sofrer com o que vai mal. Ela já não sabe como falar-lhe, escuta mas não consegue ouvi-lo, observa e não pode vê-lo. Não se encontram na cama. Raramente. Porém, amam-se. Deitam-se muito juntinhos, beijos na cabeça e no nariz, palavras doces e sábias, momentos de carinho e ternura. Nada mais. O sexo foi posto de parte como se a vontade tivesse partido para um lugar distante e não tivesse encontrado o caminho de volta. Ela martiriza-se, questiona-o, sabe que o problema não está do seu lado, mas do lado de lá. É ele quem precisa de agir. Mas não. Ele espera que o tempo passe e que a vida se arrume por si, como numa revista de interiores onde as almofadas jogam com o tapete. Ela sente-se sem chão. Age como se nada fosse mas sabe que tudo se passa. As mãos tocam-se. Partilham o espaço, os dias e as noites, partilham o carro e até o emprego. Os interesses. Partilham como irmãos. Quase... Ele quer, diz-lhe já no limite. Mas não pode, não consegue. Ela deseja, mas não depende apenas de um. E enquanto ele não for feliz, numa vida qualquer que não tem a ver com ela, não poderão ser felizes os dois. Calam-se, quando o silêncio pesa. E lá fora celebra-se a voz e muitos já falam tão alto...

quarta-feira, abril 09, 2008

apetece-me

terça-feira, abril 08, 2008

Fora de série

Não importa a hora a que chego a casa. À minha espera, um ecrã de 32 polegadas e vários canais no cabo. Faço zapping à procura de uma que tenha começado naquele momento, que se prepare para começar. E há sempre uma série para ver. Ontem vi três episódios de "House". Vi o primeiro episódio da primeira temporada que, por acaso, nunca me tinha passado pelos olhos - apesar de guardar religiosamente, em dvd, as três temporadas já editadas. Foi uma das séries que parou, por causa da greve dos guionistas em Hollywood. Presumo que, por isso, a Fox esteja a repetir episódios da temporada IV, agora no ar. A coisa foi de tal forma nos EUA que, Hugh Laurie, britânico, decidiu ir a casa com a família enquanto os homens dos guiões não se decidiam a regressar ao trabalho. E se é genial, o guionista de "House"! David Shore, se não me engano. Sim, é esse o nome.
Tenho visto muita coisa de crime: às vezes páro nos "CSI" mas gosto, sobretudo, do que se passa em Las Vegas. Os actores são mais credíveis. Por outro lado, apesar de achar que David Caruso é um cretino, que põe sempre os óculos da mesma maneira, que tem o andar pedante de todos os polícias que não valem nada... apesar de tudo isto, acho-lhe piada. Os gestos exagerados e o facto de levar sempre a melhor com um certo espírito de filme dos anos 30 faz-me gostar da série. Ainda assim, prefiro "A Patologista". Gosto dela. Não tanto quanto gosto de toda a equipa da Casa Branca, especialmente de Sam Seaborn ou de Josh Lyman. Aaron Sörkin (não sei se está bem escrito) é um judeu muito bom. Escreve lindamente para televisão e, nesta série, "Os Homens do Presidente", ficamos a perceber melhor porque se batem Hillary Clinton e Barak Obama por um lugar na liderança do Partido. Perceber esta série é entender melhor o sistema político dos Estados Unidos. Tenho andado a ver os episódios em dvd, um a um. São sete temporadas mas ainda vou na terceira, a caminho das eleições.
E depois há "Boston Legal". Fantástico, o Alan Shore. Um advogado de primeira com tudo o que é preciso para se gostar dele: o charme, a inteligência, o sentido de humor. Não precisa de ser bonito. É essencialmente um excelente actor.

É uma pena que não tenhamos capacidade para guiões destes, para séries deste calibre. Honra seja feita a "Conta-me como foi" que nos conduz ao passado recente do tempo de Salazar. Mas nada mais temos que se veja. Já não lamento as telenovelas - que abomino - mas as séries que não temos. Acho que é, sobretudo, um problema de conteúdos. Não temos quem pegue numa história e desenvolva um bom guião. Tudo nos sai assim teatral, à antiga, pouco profissional.

Felizmente o Reino Unido e, sobretudo, os EUA, dão-nos pano para mangas no que respeita a séries. Não gosto de todas. Não acho piada a "Perdidos" ou à "Betty Feia" (apesar dos prémios). Mas gosto de "Donas de Casa Desesperadas" como gosto de "Irmãos e Irmãs", como gostei de "Sete Palmos de Terra". Uma espécie de ar fresco na televisão que nos chega, uma escola de actores e de profissionais que me faz querer mais, para além da pura descontração. Tenho-me esquecido dos livros, é certo, mas não consigo afastar-me dos mundos diversos que uma boa série me oferece em casa.

Agora vou ver mais um ou outro episódio.

segunda-feira, abril 07, 2008

Da pertinência de um blog

Não fiquei nada surpreendida pelo facto da Carrie ter causado o pânico geral quando anunciou o seu adeus do presente blog. E, tal como salientou a Samantha, haverá concerteza leitores mais assíduos (dependentes, até) deste blog do que eu, que dele faço (?) parte.
Um blog como diário, um blog como psicólogo, um blog com caixa de mensagens, um blog como repositório, um blog como aconchego, um blog como diversão, um blog como licença de voyeur...
Há muitas razões a enquadrar a pertinência de um blog e tantas outras para não os ter, os ler, os partilhar. Válidas e pueris, egoístas e inexplicáveis, secretas e irracionais.
Mas basta haver um (autor, leitor, pesquisador, crítico) para que se lhe cole a qualidade de imprescindível. Tal como os diários, os psicólogos, os padres e todos os outros repositórios/alter-egos/confidentes de emoções do passado.
Outros, como eu, ainda não trilharam esse caminho e não conseguem deixar escorrer para os dedos os turbilhões de pensamentos que encerram na cabeça.
Porque é mais fácil, porque é mais cómodo, porque ainda não subiram esse degrau na escada da partilha ou da auto-estima.
Bem haja autoras (adoro-vos) e leitores (adoro-vos por adorarem as autoras) deste blog.

Assumidamente (!), Charlotte.

P.S.-Ganhei um portátil e, aparte algumas pesquisas de notícias e de leitura do mail, esta é a primeira "criação" intelectual/emocional que fiz a partir dele. Mas tal não configura nenhuma promessa de continuidade. A saber, por todas as razões acima enunciadas.

Velhice

Emocionam-me, os velhinhos. Não esquecerei uma reportagem sobre um lar em chamas, velhotes a serem retirados pela janela, alguns de fraldas, eu na redacção, lágrimas pela cara abaixo... Acho que foi da convivência, desde sempre, com os meus avós paternos. Ambos viveram comigo desde que nasci: no caso da minha avó, até casar e sair de casa, com 28 anos. No caso do meu avô, um pouco menos porque não resistiu a um cancro na próstata. Quando toda a gente se emociona com histórias de criancinhas eu viro-me para os velhinhos; quando toda a gente gostaria de ser útil num infantário ou numa casa de adopção, eu penso num lar ou num centro de dia. Quem sabe, no futuro, irei lá parar com o meu tempo livre, para poder dar uma mão, ouvir coisas antigas, sorrir com quem já nada tem para rir...

Oiço muitas histórias de velhinhos. São difíceis, muitos deles. A partir de uma certa idade - é verdade - regressam à infância e exigem cuidados, atenção e mimos que só um menino de 3 anos também exige. Às vezes mais. Contam-me histórias de mau feitio: idosos que reclamam com os filhos, que se dizem maltratados quando têm o melhor dos mundos, velhinhos que dizem "leva-me para um lar", avós que mentem, inventam doenças e males de alma para terem a eterna companhia dos filhos. Tornam-se pessoas egoístas, às vezes más. Sei de uma que há muito não sabe o que é viver do dinheiro que ela própria ganha. Nunca sobreviveu apenas da reforma, paga os medicamentos e nada mais: vive em casa da filha - sempre viveu - não compra alimentos, nem roupa, não paga luz, água ou telefone... Ainda assim, já na casa dos 90, reclama. Todos os dias reclama com a filha. Que não gostam dela, que estaria melhor num lar, que não a tratam bem... A filha sofre, chora, desabafa comigo e procura explicações para uma mulher que ama e de quem ouve, demasiadas vezes, "por ti o melhor era eu morrer, ficavas mais descansada...". Duro e injusto. Contam-me sobre outra. Na casa dos 80, vive com a irmã. Também ela já esqueceu muito do que devia lembrar-se. Também ela faz escolhas e, no caso, escolhe uma filha em detrimento dos outros. Também ela, injustamente. E um terceiro caso, de mais uma idosa, a viver sozinha, que procura todos os dias a visita do filho. Recusa-se a ir ter com ele, a passar os dias com ele, a estar na casa dele com a mulher que ele há anos escolheu como esposa. Porém, quere-o todos os dias debaixo das suas sais e, para isso, cria problemas, inventa mazelas, sofre sem pecisar de fazê-lo. Curiosamente todas mulheres: eis os casos de três mulheres, entre os 85 e os 95 anos. Acho que os velhotes são mais simples e mais cordiais, agradecem mais o bem que lhes fazem mas, infelizmente para eles, duram menos anos.

O que fará destas doces avós pessoas tão cruéis? Porque lhes dá a idade este direito de prejudicar, de magoar? São todas católicas. Praticam o bem na Igreja e temem a Deus. Porém, em casa, deixam que um certo "mafarrico" tome conta delas e fazem chorar quem mais as ama. Filhos e filhas suspiram e perguntam-se sobre o que mais podem fazer. Pouco ou nada, direi. Se às crianças podemos dar uma palmada e educá-las, aos velhinhos nada mais podemos fazer senão suportar, compreender, ter paciência. Custa, imagino. Mas só temos de rezar por não vir, um dia, a ser assim. E já, agora, que os nossos filhos sejam como nós... Ou como estes filhos de que aqui falo.

Pesadelos

Estava na Jordânia e não me lembrava do nome da capital. Só me vinha à cabeça a cidade maior do Paquistão. Mas eu estava na Jordânia. Havia helicópteros e eu, jornalista, ia num deles com o meu caderninho de capa castanha, o que trago agora na mala. Iam mais jornalistas, todas mulheres, naquele helicóptero que sobrevoava a cidade em chamas. Havia casas a arder e podíamos ver as pessoas a fugir, as divisões vazias, os telhados caídos que tudo deixavam a descoberto. Havia mais jornalistas e o R. estava entre eles. Perdi-me dele mas sabia que nos voltaríamos a encontrar. Quando acordei lembrei-me de Amã.

O meu irmão insistia em perseguir-me, em mentir-me, comprou um carro em nome dele e queria convencer a minha mãe de que o carro era para os dois. O meu irmão do meio. Havia um prédio de vários andares e correu atrás de mim piso a piso. Eu passei por famílias a ver televisão, cozinheiras de momento, sofás vazios... e ele à minha procura, aparecia sempre onde eu julgava estar escondida. Chorei toda a noite.

Eu nunca estive em Amã e nunca fui jornalista de guerra.
Eu e o meu irmão sempre nos demos lindamente e, nos tempos em que partilhámos carro, fomos sempre justos um com o outro... Já lá vão uns 7 ou 8 anos.

Que sonhos são estes, então? Virá Freud explicar-me?

domingo, abril 06, 2008

Reclamação

Só aceitei vir trabalhar porque os senhores da meteorologia disseram que ia estar mau tempo. Onde assino para ter o meu dia de volta?

estados d'alma [xii]*

Como um elefante numa loja de porcelana.

[*repetição por motivos nada técnicos]

sábado, abril 05, 2008

serviço público

Chego a casa e ligo a televisão à procura de alguma forma de abstracção. Liga-se como sempre na RTP1. Não oiço o que dizem, sabe-me bem a ‘companhia’, mas percebo que é um documentário. Quando olho para a televisão vejo uma mulher a beber qualquer coisa de dentro de um pequeno recipiente de plástico, do tipo que se usam nas recolhas de sangue para análise. Falam de comida e sabores. Só quando aparece a segunda a dizer que é ‘doce de ligeiramente frutado’, seguida da voz off é que percebo que estas mulheres estão a provar sémen. Para descobrir o que comeram os companheiros [se fizesse uma lista das palavras que odeio, esta estaria lá de certeza], diz a tal voz off. Alguém me explica a utilidade de tal coisa? Não seria mais fácil olhar-lhes para o prato?

Vício

Não trabalho mais que 10 horas por dia. Evito fazê-lo. E tenho sempre uma voz que me chama, final do dia, estômago a dar horas, as séries à espera de serem vistas e compreendidas na televisão. Arrasto-me de manhã de uma cama quente num quarto escuro que é só meu. Sou rápida nas coisas do banho e da roupa, um pózinho na cara para disfarçar olheiras... Mas é lento o tempo que passa entre o toque do despertador e o primeiro pé no chão. Dói-me. Custa-me. Pede-me a alma que não saia dali, que retome o sono e procure um sonho que me faça dormir melhor. Ainda assim saio, levanto-me, sigo de olhos semi-abertos até ao duche que me ajuda a viver mais um dia. A partir daí, o cérebro entra em acção.

Este ritual diário que me deixa doente todas as manhãs, as reuniões que se seguem, duas horas de paleio, egos cruzados e dores de cabeça, ideias falhadas e apostas ganhas; tudo isto me faz querer trabalhar mais. Ao fim do dia, já a lua no céu, penso que não deveria regressar já a casa. Lá vem a voz de que aqui falei. Desligo o computador, não sem antes passar os olhos pelo dia seguinte, pela agenda, pelas coisas por fazer. E tudo isso levo comigo. Esqueço-me de tudo no intervalo para a refeição (a única decente do dia) e no momento do chá em frente ao ecrã. Às vezes cidreira, às vezes sabores. Sempre com mel. Se partilho o sofá fico até mais tarde naquele consumo desenfreado de episódios de um dvd genial. Se estou só, calcorreio os canais como se fosse um homem e deixo-me ficar nos programas sobre crimes e advogados, sobre famílias e mulheres desesperadas, sobre médicos e casos de urgência. E de morte.

Desisto quando o que me resta é aquele canal que tem um tipo a fazer visitas pornográficas. Boçal. Evito o livro porque não quero pensar (é pena) mas vêm-me então os pensamentos do dia. Nessa altura, às voltas na cama, experimentadas todas as posições de descanso, o meu cérebro actua como se o duche estivesse de novo a molhar-me. Faço contas e balanços, planos e previsões; penso no que fiz e no que devia ter feito, no que disse e no que devia ter dito. Penso nas pessoas a quem não telefonei, imagino ideias para os dias seguintes, organizo um mapa que é tanto de trabalho como de complicações. Quando, finalmente, adormeço, estou já esquecida da razão que me levou a pensar em tudo. E isso obriga-me a fazer tudo de novo, no dia seguinte.

sexta-feira, abril 04, 2008

da paciência

E a meio da discussão é como se me tivessem posto um espelho à frente. Oiço-me pela primeira vez em anos. Apercebo-me da minha linguagem corporal. Da agressividade. Estou em território amigo e percebo que ajo como se estivesse em campo de batalha. Assusto-me. São milésimos de segundo para entender o que nunca tinha percebido. A pausa não chega para me travar. O tom irritado. A voz muitos decibéis acima do normal. A consciência de que não preciso de falar mais alto para me fazer entender. Que posso vencer apenas pela argumentação. Sei que estou certa. É assim todos os dias. Com tantas pessoas diferentes. Esgotei a paciência. Faltei à última distribuição do racionamento deste bem cada vez mais escasso.

Mentira

Eu não gosto de mentiras e há muito deixei de mentir. Aos 19 anos mentia ao meu pai quando, às cinco da manhã, ele seguia para o trabalho e eu me cruzava nas escadas com ele. Cansda, olheiras e cheiro a vodka-laranja, dizia-lhe que estava a chegar do trabalho. Ele acreditava. Mas eu ainda não era barwoman do Plateau...

Depois comecei a mentir ao meu namorado. Houve uma mentira dura, que veio depois de uma dura verdade. Numa noite de Inverno, quase a chegar ao fim do ano, num hotel à beira-mar, consegui contar-lhe que o tinha traído. Coisa complicada porque, já se sabe, as mulheres (muitas) quando traem, fazem-no com o coração. E eu estava com ele nas mãos, o meu namorado nos braços. Atirou-se para o chão a chorar. Foi penoso vê-lo naquele estado. A cena demorou muuito tempo, tanto que não sei se foram horas ou minutos, mas quando demos por nós estávamos já no dia seguinte. Perante as explicações e os porquês, perante a dor que me dava pena, perante a incredulidade e a injustiça, resolvi mentir. Disse-lhe que não, que não o tinha traído, que estava apenas a testá-lo, que me perdoasse a "mentira". Ele ficou descansado e voltou a sorrir. Não sei se alguma vez fez o mesmo mas, se sim, terá sido merecido. Anos mais tarde, já a caminho de assinar os papéis do divórcio, falou-me dessa noite e de como continuava sem saber o que realmente tinha acontecido. Arrependo-me hoje dessa mentira. Mais: arrependo-me (tanto) de o ter enganado porque essa é a mentira que mais abomino no ser humano. Nada justifica uma traição, penso agora. Nada. E demorei anos a perceber isso. Por isso não minto. A ninguém. Sou hoje clara como água e até evito as meias verdades. Aquela desculpa de não contar a verdade toda não me preenche, não chega.

Vem tudo à mesa isto por causa do dia das mentiras. Uma data universal que todos - e especialmente a Comunicação Social - usamos para uma pequena mentira. São, geralmente, mentiras que não prejudicam ninguém, uma espécie de "Inimigo Público" num só dia. Mas eu não gosto. Não colaboro, não minto. Serei como os ex-fumadores que se tornam fundamentalistas no dia em que abandonam os cigarros. Talvez seja assim... mas, de forma alguma, digo uma mentira. Sem querer parecer aqueles concorrentes do Big Brother cuja maior qualidade é ser "frontal" (adoram ser frontais!), sou assim uma espécie de grilo falante de mim própria, o anjinho a falar mais alto e a ensinar-me como dizer a verdade sem magoar em demasia. Às vezes falho. Mas prefiro essa falha a uma mentira. Verdade?

O Blog

De facto, como pergunta - e bem - a Carrie, para que serve um blog? Para que serve um blog onde deveriam escrever quatro pessoas e para o qual só duas contribuem regularmente (sim Miranda, sei que estás aí a ler - a Charlotte nem isso, paciência)? Serve para nós, que escrevemos, ou para quem nos lê? Acho que para todos. Eu escrevo no blog como quem escreve um diário. Às vezes invento, outras vezes conto o que me vai na alma; às vezes misturo ficção e realidade, muitas vezes divago. Venho aqui falar convosco e comigo própria. É como ir ao psicólogo, alguém nos ouve e pouco ou nada diz, mas nós falamos e ouvimos o que dizemos, em voz alta. Esse ouvir faz-nos pensar, meditar, tomar posições e fazer alguma coisa para mudar o que está mal. Quando passo por aqui sinto-me assim. Não leio muitos blogs. Na verdade, quase não leio blogs. E tenho pena. É como falhar os programas e as séries de telvisão que achamos interessantes: sabemos quais são, qual o canal e a que horas são transmitidos, mas raramente ligamos o aparelho. Com os outros blogs sou assim. Passo por um ou outro, raramente deixo um comentário, respondo muito pouco ao que comentam nos meus posts. Não é falta de educação, nem tão pouco desinteresse. É uma forma de estar na blogosfera. Dizia que gosto de aqui vir. Gosto de ler a Carrie porque é minha amiga e assim estou sempre a par do que se passa com ela (não é verdade que falhamos, tantas vezes, o contacto com os nossos amigos?). Acho-lhe piada e, claro, se ela abandonasse este barco, eu ia com ela. Este blog é, acima de tudo, um espaço de amizade. E gosto de quem por cá passa. Gosto de saber que nos lêem (não faço ideia quantas pessoas são por dia, não sei sequer usar aquele meter não sei das quantas) e acho óptimo que nos comentem. E sim, creio que isto é um pouco do que eu sou. Não está cá tudo mas, confesso, não escondo muita coisa. A maior parte dos que por aqui passam não me conhece, pessoalmente, mas talvez seja já capaz de traçar traços (e passo o pleonasmo) da minha personalidade que muitos dos que comigo lidam desconhecem. Sempre gostei de escrever, tenho uns caderninhos espalhados por aí com coisas que escrevi ao longo da vida. Quase sempre coisas tristes. Mas também diários de viagem e outro tipo de pensamentos. Passo os dias a escrever e a ler, o que eu escrevo, o que outros escrevem. Às vezes penso no blog como um prolongamento do trabalho e não me apetece ligar o computador. Outras vezes deito-me a imaginar o que gostaria de ter escrito, quase me levanto para vir aqui, mas então desisto e penso que amanhã também é dia. Depois passam-me as ideias e fico sem dizer nada. Já vai longa a meditação, assim tudo de seguida, sem parágrafos, que os abandonei neste blog. Queria apenas deixar claro que a blogosfera me agrada, mesmo que não discutamos aqui a política nacional, as opções mundiais ou o intelecto do povo. Às vezes são as coisas simples que nos fazem felizes. E esta cidade já contribui para a minha felicidade.

quarta-feira, abril 02, 2008

Adeus [ii]

O post ali de baixo foi mesmo uma brincadeira de primeiro de Abril. Mas os comentários dão que pensar. Conheço todas as pessoas que comentaram à excepção dos anónimos. Ou talvez conheça, não sei. E é com os anónimos que fico pasmada. Afinal quem são as pessoas que nos lêem?

Há quase três anos o Bandeira lincou a cidade e eu envie-lhe um mail, totalmente a despropósito, como são muitas das coisas que faço na vida, a perguntar porque o fazia. Depois fui percebendo que os links são aleatórios. Há quem linque todos os blogues sem qualquer critério, quem linque porque conhece os autores, quem linque porque gosta do que lê. Há muito de voyeurismo na leitura dos blogs.

E depois há pessoas como o anónimo das 9:10 AM… Escreve ele[a]: “Espero que seja um também devaneio, ou melhor, que seja uma mentira algo maldosa (porque magoa quem lê)”. Magoa? Mas que raio esperam de nós? Como se pode magoar quem não conhecemos? Quem não sabemos que existe?

Caro anónimo, desculpe se pareço pouco sensível ou mesmo bruta, quem me conhece sabe que não é defeito é feitio. Mas esta Cidade é uma brincadeira. Esta Cidade não somos nós. É apenas um pedaço de nós.

faço anos em Junho

terça-feira, abril 01, 2008

adeus

A vasculhar o documento Word que alberga muitos dos meus devaneios nesta cidade sem sexo, à procura de uma carta de despedida escrita há meses, encontro uma frase solta. “Qualquer coisa que precises tu diz-me (inclui castrações ao domicílio).” É uma frase das conversas esquizo que tinha com a Dia, noites longas partilhadas na janela do msn quando esta cidade fazia sentido. E esta cidade faz cada vez menos sentido.

A carta é um dos muitos drafts que durante muito tempo se amotinaram no blogger. Pensei em publicá-la hoje. Mas já nem isso faz sentido. Tantas vezes me perguntei hoje porque raio tenho um blog, sem chegar a conclusão nenhuma. E de repente a única coisa que faz sentido é pôr um ponto final do assunto. Não no blog que continuará por certo a albergar a Samantha. Mas apenas na existência da Carrie.

Por isso, a todos os que leram, comentaram, criticaram ou elogiaram, o meu agradecimento.