sábado, novembro 10, 2007

Inocente

Levámos mais de 20 minutos para deitá-la. Ali estava, numa camisa de noite cor-de-rosa e com umas meias quentes nos pés que estavam gelados. E, na cabeça, o duro golpe, fruto da queda daquela manhã, quatro pontos, cabelo molhado pelo sangue seco, ferida à vista, tudo à mostra por causa do cabelo fraquinho.

A minha avó de 92 anos passou um dia no hospital à espera de um TAC. Ela não vê bem, não ouve bem e está velhinha. As pernas já se furtam a um andamento compassado e custa-lhe estar de pé. Mesmo assim, uma auxiliar do Amdora-Sintra quis tirar-lhe a cadeira de rodas onde, durante horas, esperaria por um médico nas Urgências. Queriam roubar-lhe o assento. A uma velhinha indefesa. O que fazem estas pessoas que trabalham nos hospitais? O que as faz ser tão duras e incpazes de sentir algo por alguém? O que aconteceu à vocação quando se fala de profissões onde é preciso gostar do que se faz?

Não se deita do lado esquerdo porque acha que é cardíaca e não pode dormir sobre o coração. Não é. Mas não se deita sobre o lado esquerdo. A ferida na cabeça é do lado direito. Dói-lhe. Pergunta o que tem na cabeça. Digo-lhe que caiu, que levou pontos, que passou o dia no hospital. Não se lembra. Está muito cansada e olha para mim com um ar inocente. Passo-lhe a mão sobre os olhos e fico ali a fazer-lhe festas. Agradece-me os carinhos. Aperto-a com força.

A minha avó adormeceu e fiquei a vê-la dormir por uns instantes. Os velhos são como as crianças.

coincidências

conto com a escrita inteligente para escrever mensagens sem olhar sequer para o teclado. depois de teclar 'poesia' tenho escrito no visor 'sofria'. achei piada à coincidência.

Café chileno

No Chile bebe-se “Café com pernas’. E por muito que se estranhe não chega a entranhar-se. Conta a história que estes bares mais ou menos requintados foram criados durante a década de 90 para dar algum colorido à vida dos pobres chilenos oprimidos pela ditadura. O Haiti, um de muitos, é um espaço amplo, paredes-meias com o palácio presidencial, de porta aberta para a rua. De uma ponta a outra, diagonalmente à entrada, há um balcão que começa a [mais ou menos] um metro do chão. No espaço deixado vago vêem-se as pernas, sempre elegantes, das empregadas que servem cafés. Os vestidos, em azul e branco, são [muito] curtos. Mas há pudor na forma como o tecido lhes cobre o colo.

Naquele fim de tarde frio há pouco mais de duas dezenas de pessoas por ali. Encostados ao balcão, quase todos na idade da reforma. São talvez os que ainda têm memória do tempo em que está era a única forma de exercitar a imaginação. É um local turístico, mas algum pudor pelas pernas desnudas das moças, fez com que não tirasse fotografias. Arrependo-me. A realidade faz parte do colorido local e merece ser retratada. A alguns metros de distância, temos a versão menos recatada do “café com pernas”. O balcão é semelhante e a arquitectura rege-se pelos mesmos princípios. Mas aqui as pernas serão, talvez, o menos interessante. É tudo uma questão de gostos. Os tais que não se discutem. O espaço é muito pequeno e a porta está ‘encostada’ para a rua. Não há porteiro nem restrições à entrada. Lá dentro há muito fumo, mas não o suficiente que impeça de ver as mulheres, com minúsculos fios dental e saltos de 15 centímetros, que servem atrás do balcão.

Estas miúdas têm horário de função pública. Trabalham entre as 8 e as 21h [é a isenção de horário], não servem bebidas alcoólicas e ganham pelo que vendem e pelas fotografias [as que se deixam fotografar] que os turistas queiram pagar. Ninguém ficará rico por vender coca-colas e sumos de fruta... Elas não explicam – também não dizem quanto ganham de ordenado, limitam-se a sorrir quando perguntamos se é pouco –, mas calculo que a falta de álcool seja uma forma de evitar desacatos. Se querem bater que batam na mulher logo que chegarem a casa. Se não houver razão, que seja pelo facto da mesma, a mulher, não vestir aquela lingerie. E se veste, por ficar um verdadeiro estafermo!



sexta-feira, novembro 09, 2007

Ops... [ii]

Gosto de vinho chileno. E de Pisco Sour também.

Não admira que o homem escrevesse bem


[A Isla Negra não é uma ilha, mas apenas um pequeno pedaço de paraíso em frente ao Pacífico. Recebeu-nos numa tarde muito fria a ameaçar chuva. Aqui fica uma das três casas de Pablo Neruda. Não visitei a casa museu, cheia de quinquilharia. Tive pena. Haverá uma próxima?]

Te quiero

No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.
Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Tal vez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.

Pablo Neruda: Cien sonetos de amor

[Ouvido hoje em Isla Negra]

Descubra as diferenças

[Berlim, 1939 ou Santiago do Chile, quarta-feira à tarde?!]

A banda a tocar ao longe. E eu acabada de chegar, com vontade de ver tudo. A cidade, as ruas que interessam, ali ao lado pela primeira vez desde que aterrei. A estátua de Allende ali tão perto. Eu a querer fugir da comitiva. A boca seca do calor. Da antecipação. A banda a tocar cada vez mais perto e as figuras oficiais a dizerem-nos para entrar. É agora ou nunca. Está chegar a esfinge com quem não me consigo conciliar. É uma questão de pele. Empurram-nos para dentro do palácio. E eu a querer ver a praça. A querer sentir a vida. Eu de máquina em riste. A J. a dizer-me que pareço uma turista. Eu a fazer ar de ofendida. Que não. Que já mandei trabalho e mais virá logo que o homem bote discurso. O calor que aperta na sombra do Pátio de los Cañones. A banda que se cala e o homem que não chega. Agora ninguém nos deixa sair. Está calor. Tenho os lábios a ameaçar gretar, quero uma água e só me falam de protocolo. Os militares perfilados à nossa frente, mais o outro que espreita pela janela com ar de enfado. Está quente e sei que na próxima hora isto não dará em nada. A cidade que chama do outro lado do protocolo. Fico porque não tenho alternativa. Os passos que se calam sobre a passadeira vermelha. As honras militares e outros tantos salamaleques. Vou aonde não devo. Estou dentro do palácio porque tenho a mania que percebo de fotografia. Oiço a mulher em elogios de circunstância. E eu só penso em água. Passo pelos militares que se espalham pelos corredores do palácio. Chego à rua. Tenho uma boa meia hora para fazer o que quiser. Volto já.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Ops...

[...]

E agora vou dormir que o despertador toca às 7h00...

Postais do Chile

Passada a primeira prova. Escritos os primeiros caracteres que atravessarão os Andes, e depois o Atlântico, antes de serem impressos, saio para a rua com meia hora para matar a fome. É muita. O pequeno-almoço [frugal, como são todos em hotéis de duas ou três estrelas] passou há horas. Respiro fundo e deixo que se entranhe o cheiro quente dos destinos exóticos. Já ontem, mal se abriu a porta do A330, percebi que estava no ar. O cansaço, de mais de 13 horas de voo, só deixou que estranhasse o calor de Verão. Em Portugal está apenas calor, aqui é Verão [ou quase]. São coisas completamente diferentes. Vou senti-lo na pele e nos sentidos nos próximos dias.

Sento-me numa esplanada deste bairro de escritórios. Não tenho a menor noção da geografia de Santiago. Há montanhas em todas as direcções. Não me sai da cabeça a sensação de estar dentro de um ninho. Ou então de um vulcão. A cidade no meio. Aconchegada. Aos poucos, a cidade entranha-se. Facilmente me mudava para um país da América Latina. Gosto do ar cosmopolita e europeu desta cidade. Gosto apesar das tendências hitlerianas deste povo. Gosto do verde das avenidas, das árvores e arbustos em cada uma delas. Lembra-me Porto Alegre. Faz-me pensar em viagens com borboletas. Gosto dos cheiros. Dos sons. Das cores. Gosto da Plaza de Armas. Lê-se o futuro nas palmas da mão. Escolhe-se o destino em cartas de tarot, enquanto se fazem tranças em cabelos negros. Pinta-se o Che em cores garridas. A tradição espelhada na modernidade. A catedral reflectida num prédio que todos os dias se queixa porque se sente desenquadrado. Lá em cima, muitos metros acima do chão, cinco homens cobrem de verde uma estrutura metálica. Terá o Chile a maior árvore de Natal da América do Sul? As ruas repletas de gente. Gosto do ar despreocupado. Há malabaristas com bolas num parque de cidade. Casais que se comem à vista de todos. São despudorados os sul-americanos. Vi o mesmo, há uns anos, no México. Gosto dos pormenores que fotografo de cinco em cinco minutos. A S. chama-me picuinhas. Talvez. Sei que hoje tirei a fotografia que valerá por toda a viagem. E gostei.

A room with a view

[Av. Vitacura, 2929 - Santiago do Chile]

sexta-feira, novembro 02, 2007

Coisas que uma mulher é obrigada a ouvir

"Conheço quatro ou cinco tias de Cascais que se matavam umas às outras para ir a este jantar."

terça-feira, outubro 30, 2007

O petróleo a descer dos 90 dólares

E eu a decidir ir de metro para o pasquim. A deixar de fazer contas de cabeça de cada vez que vejo o preço do gasóleo. Sentada no único lugar livre, apesar de serem 10 horas, entalada entre a janela e um velho de tamanho considerável. Vai a ler o Outono do Patriarca. É da colecção do Público. Livros a cinco euros [era isso, não era?], de tradução duvidosa. Entalada junto a janela corro os olhos pelos ‘assassinos escondidos’. Volto a Sevilha. Fui à Fnac, mas não faltei ao prometido. Foi uma prenda. Disseram que a minha dor de cabeça, uma que durou mais de uma semana, tinha origem conhecida. Eu a dizer que não, que não precisava de um livro. Que tinha o que ler, que não valia a pena estar com coisas, que não ia pegar naquele. Talvez para a semana, antes de me por a caminho, que nessa altura comprava um kit de sobrevivência. E ele a contrariar-me, a dizer que tinha que ser, que não valia a pena resistir. A dor de cabeça já só aguentou mais um dia e mesmo assim foi de raspão. Sol de pouca dura. Um brufen e não houve mais agulhas espetadas sobre os olhos. Entalada junto à janela, ando pela noite de Sevilha, enquanto lá fora desfilam estações de cor azul. Saiu debaixo da terra para o vento frio de uma manhã de Outono. Chega-me a maresia do Tejo e sorrio. Entalada contra a janela perco o sentido às horas. Não sinto falta da música, das notícias, das sugestões da Evasões. Cá em cima custa-me deixar as páginas do livro. Vou contrariada para o pasquim. Arrasto-me sob um sol cada vez mais tímido. Consola-me saber que volto pelo mesmo caminho. Mais 20 minutos de leitura forçada antes de voltar para casa. Sorriu e penso que o lugar na garagem tem desvantagens. Tinha saudades dos transportes públicos. Esta semana, pelo menos, vou ler mais. A conta bancária agradece.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Sete horas

Aeroporto de Barajas, Madrid.
Voo com 5 horas de atraso. Mais duas de espera, para check in. E, em Lisboa, uma greve do handling para prolongar o tempo de recolha de bagagem.

No aeroporto, um homem com um cheiro de quem não toma banho há mais de um mês. Muito mais. Passa pela mesa e deixa um odor insuportável. Torço o nariz. Senta-se atrás de mim e reparo nele, cabelo colado à cabeça, oleoso, bebe uma cerveja. Lamento. Mas não aguento.

Oiço as palavras em castelhano com indicações anti-terroristas. Cuidado com as malas, e assim... E não deixe nada à mão de semear, olhe os ladrões. E este tagarelar no café.

Sete horas por um avião - da Vueling, ainda por cima - é muito tempo. Um desespero.

Em mãos, um relatório para apresentar ao patrão. Hoje é o último dia. Ainda não escrevi uma linha. Talvez amanhã. Ou esta tarde, durante a espera. Não me apetece, Não estou inspirada. Ele não vai gostar.

E deixei o livro na mala. Burra. Foi para o porão. Como posso ter deixado a primeira versão portuguesa de Hugh Laurie no porão? Recordo as últimas linhas de 'Viagem no Scriptorium', de Paul Auster. Já li, ficou em cima da mesa-de-cabeceira. E nada, comigo.

Sete horas à espera. E Barajas.

É coisa do Demo

É tudo para me desorientar. Só pode ser. Eu que ando há um mês a portar-me tão bem. Digo que já estou crescida. Que consigo entrar na Fnac, passear-me durante muito tempo e sair de mãos vazias. Nem mais nem menos do que levava quando lá entrei. E se levo, é só a vontade de comprar qualquer coisa. Um livro por mais pequenino que seja. Não me vergo. E não colo desejos nos pulsos, como diz a C. Já não roubo as etiquetas dos livros que quero comprar. Quadrados que depois passam do pulso para a parte de dentro da carteira. Religiosamente guardadas até ao dia que poderei dar asas aos desejos mais descontrolados. Para aqueles dias em que não há nada a fazer. Não há racionalidade. Nem falta de dinheiro que me convença. Naqueles dias em que livros trazem o oxigénio que me falta no peito. A adrenalina de um chuto. Já nem roubo etiquetas. Papelinhos que me lembram o que quero ler nos dias em que não há nada a fazer. Estou curada. Pensava eu. Depois o Zimmler volta a escrever sobre judeus. Espeta com eles exactamente em Berlim, há mais de 70 anos, quando o mundo não sabia ainda o que lhe ia acontecer. É uma relação estranha a que tenho com este inglês. Por isso é fácil resistir. Dizer que ainda tenho muito que ler. Há uma prateleira cheia de livros [quase] nunca abertos ou abandonados a meio. O pior é quando o Robert Wilson regressa com a Sevilha. Volta o Javier Falcón. É verdade que “As mãos desaparecidas” é um livro atabalhoado. Mas é Sevilha e eu não resisto àquela cidade. Mesmo quando as coisas correm mal – e podem correr tão mal. Pego naquele ‘Assassinos Escondidos’ e penso que um policial era tudo o que precisava para os primeiros dias de Outono com chá vermelho a fumegar na caneca e chocolate de caramelo ali ao lado. Cheiro-lhe as entranhas. Penso como poderíamos ser felizes os dois. Mas digo-lhe baixinho que terá que esperar. São só alguns dias. Afinal há uma viagem a caminho e alguém terá que me fazer companhia. [momentos de excepção que justificam tudo] Continuo a resistir. Com dor, mas resisto. Tanto sacrifício e penso que só podem estar a brincar comigo. A testar-me os limites. É coiso do Demo. Belzebu. Mezinhas de quem não me quer bem. Não está nas lojas, mas está escarrapachado nas páginas do Ípsilon. O mais antipático dos escritores angolanos voltou a escrever. Nem vou ler a crítica ao Pepetela. Vou passar por cima. Fingir que não vi nada. E já agora abster-me de ir à FNAC.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Anonimato

Esta é mais uma daquelas semanas em que queria ser como a Dia [era*]. Desbocada. Ou isso ou ter um blog ainda mais anónimo.

[*Eu expliquei ao J., em frente a um prato de pataniscas de bacalhau, que o culpava pelo silêncio prolongado do quintal que vivia empantanas. Imputei-lhe o crime de calar uma das ‘penas’ mais bonitas da blogosfera. Mas disse-lhe que não fazia mal. Entre duas garfadas de arroz de feijão disse-lhe que estava desculpado. É que a minha amiga está mais feliz. Isso vale mais do que muitas horas de boas leituras.]

Momento Nicola

Ela dizia-lhe baixinho ‘amo-te’. Ele puxava-a carinhosamente. Beijava-lhe paternalmente a cabeça. Ela ficava a sonhar com declarações de amor. Com o dia em que ele a beijaria a meio de uma frase.

domingo, outubro 21, 2007

A Lagartixa

Alguém me explique como se tivesse cinco anos...

1. Como é que uma lagartixa vai parar dentro da máquina de lavar, estando esta [a máquina] fechada?

2. Como é que a dita sobrevive a um programa completo?

3. Como é que consegue continuar viva [paradinha, mas de coração a bater] depois de duas centrifugações violentas?

sábado, outubro 20, 2007

Já diria Marcelo

Pode uma semana de trabalho infernal ser totalmente anulada da córtex central só porque é sábado?
SIM!
Mas é fácil fazer com que isso aconteça?
NÃO!
Uma massagem de shiatsu pela manhã pode ajudar?
PODE!
E se o massagista faltar?
NÃO!
E então três banhos de mar e duas horas ao soL, podem ajudar?
SIM!
E posso voltar a repetir amanhã?
SIM, MAS SÓ SE ESTIVER BOM TEMPO!
E segunda-feira?
SIM!
Mas é dia de trabalho. Posso telefnar a dizer que estou doente...
PODE!
Mas isso não é imoral?
É!
Mas posso fazê-lo?
PODE!

Ausência

Há tanto para dizer...
Uma viagem à Islândia, uma passagem por Nova Iorque, uma semana em Columbia...
E mudanças na redacção, uma entrevista aos Sigur Rós, outra prevista à Diana Krall. E o Rock in Rio em Madrid.

Mas há falta de vontade, neste regresso.
O sono que está mais longo, as manhãs que se fazem curtas, os dias que acabam no sofá e um bom filme para ver.

Voltarei, em breve.
Mas precisei de descanso, de tempo, de um vazio que se fez também na escrita.

Enquanto leio Lobo Antunes e Paul Auster. O mesmo Auster de quem já vi o filme.

Há tanto para dizer...

sexta-feira, outubro 19, 2007

Fim-de-semana [iii]

Espero que se acabem as últimas histórias que irão daqui para a gráfica. Hoje começa um fim-de-semana de dois dias. [Há semanas que não sei o que isso é. Salvou-me a pausa de quarta-feira.] Começa bem. Jantar de secção. O mesmo é dizer jantar de Gajas. Um único homem numa equipa de dez mulheres. Ele abandona-nos a seguir ao jantar. Depois logo se vê. Esperam-se horas de dança no “sítio em que se renova a carteira profissional” como diz a eterna estagiária. E um fim-de-semana inteiro para dormir…

A Caminho [ii]

[www.trekearth.com]

[Bloomberg]

quinta-feira, outubro 18, 2007

Tormento

do Lat. tormentu

s. m.,
acto ou efeito de atormentar
sofrimento doloroso;
tortura;
aflição;
angústia.

Ou estar enfiada no pasquim quando estou a 20 páginas de acabar o Fantasma do Hitler.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Post solar

Merecia um dia assim. Cuidar de mim. Fazer fotossíntese até a pele ficar vermelha com este sol de Outubro. O cabelo salpicado pelas ondas picadas do mar do Guincho. Um café ao final de tarde na Casa da Guia. Metade do Mailer despachado de uma assentada num prazer imenso. Não pensar no pasquim. Não querer saber. Engolir o medo. Pensar que tudo vai ficar bem. Mas isso foi depois. Depois de quilómetros e quilómetros [quase] sem destino. Música no máximo do volume. Chorar ao som dos Clã. De me lembrar da palavra dita numa noite à beira mar. De voltar a fazer a pazes com a Bethânia. É quando oiço Bethânia, aquele ‘Que falta você me faz’, que sei que vai tudo ficar bem. E vai. Não vai?

Muito a propósito

Só pra dizer que te Amo,
Nem sempre encontro o melhor termo,
Nem sempre escolho o melhor modo.

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

Só pra dizer que te Amo
Não sei porquê este embaraço
Que mais parece que só te estimo.

E até nos momentos em que digo que não quero
E o que sinto por ti são coisas confusas
E até parece que estou a mentir,
As palavras custam a sair,
Não digo o que estou a sentir,
Digo o contrário do que estou a sentir.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

E é tão difícil dizer amor,
É bem melhor dizê-lo a cantar.
Por isso esta noite, fiz esta canção,
Para resolver o meu problema de expressão,
Pra ficar mais perto, bem mais de perto.
Ficar mais perto, bem mais de perto.

Problema de Expressão, Clã

segunda-feira, outubro 15, 2007

A Moda engorda

[Declaração de interesse: Sou magra.]

A propósito da Moda Lisboa, a Notícias Magazine faz um especial sobre ‘Glamour xl’. E explica: ‘Porque nem todos têm as medidas ideais, sugestões muito fashion para quem tem uns quilinhos a mais. Tendências Outono/Inverno para todos os gostos de tamanhos’.

Vamos por partes. Cada um pesa o que quer ou pode. Engordar é tão ou mais difícil de emagrecer. E gostos não se discutem. Se todos gostássemos do amarelo esta vida era uma tristeza. Mas há limites mínimos de bom senso e bom gosto. Vestir uma mulher grande com uma mini-saia coleante uns vinte centímetros acima do joelho, quando o grande não refere necessariamente à altura, e cobri-la com um casaco tigreza e umas meias de renda é o mesmo que lhe oferecer um bilhete de metro para o Intendente. Ok. Uma corrida de táxi para a Passerelle considerando que os sapatos são Gianfranco Ferre, o que parece justificar o custo de 225 euros. O resto bem podia ir de metro. A questão é que não melhora. Na página ao lado é o decote que chama a atenção, mas passa. O problema é mesmo a soquete de algodão, verde aos losangos, bem marcado à volta do tornozelo e com uns quantos refegos, qual perninha de bebé arraçado de leitão. Não é uma questão de tamanho, é uma questão de tecidos, padrões, feitios. Não é uma questão de preconceito. Nenhuma daquelas peças ficaria bem numa mulher de 59 quilos e 1.70m. É uma questão de bom gosto.

domingo, outubro 14, 2007

Faço as pazes com Lisboa

Tenho encontro marcado para os lados da Sé. Às 16.15 impreterivelmente. Não gosto de chegar atrasada. Faço-me à estrada com tempo. Uma lucidez estranha apesar do cansaço de uma semana de trabalho de seis dias. Apesar de ainda não ter recuperado de uma quinta-feira que começou às 8h00 e acabou à 00h30 do dia seguinte. De nunca dormir o suficiente. De não conseguir adormecer profundamente. A cabeça sempre demasiado cheia. É o sol que me desperta. São as cores desta cidade num Outono adiado. Lisboa tem mais espaços verdes do que alguma vez tinha reparado. Há vida na Avenida da Liberdade. Turistas e lisboetas que desdenham dos centros comerciais. Espécie em vias de extinção que resiste a quatro paredes e respira o fumo dos tubos de escape. Há ainda mais a partir dos Restauradores. Afinal a Baixa não está sequer moribunda. Passar a semana do Chiado afasta-me destas paragens nos dias de suposto descanso. Há gente. Muita gente nos passeios à espera para atravessar. Nas esplanadas. Em frente às montras. Muitos turistas de máquina em punho. Estão bem com a vida. Deixo o carro na Praça das Cebolas. Subo com tempo e com calma. Gosto das ruelas, dos becos, das escadas escuras em túneis decadentes. Gosto das velhotas que espreitam quem passa. A roupa pendurada nas janelas. O ambiente de bairro que me lembra S. Bento. Cheira a grelhados. A peixe assado. Com tempo decido a entrar pela primeira vez no Pois, Café. Já por lá passei tantas vezes. À pressa. Hoje entro e procuro mesa. Há divãs e sofás, mesas de jantar, mesas de apoio. Escolho uma mesa de tamanho familiar [é mais fácil de abrir o Expresso], que partilho com dois casais estrangeiros. À minha frente esperam a conta. Os outros entretém-se com guias de viagens e um livro. Não consigo ver a capa. Não resisto a bisbilhotar as leituras dos outros. Há por toda a parte estantes com livros [quase todos estrangeiros] e placares de anúncios. Lêem-se livros. Joga-se às cartas. Saboreia-se apfelstrudel acompanhado de sumos de frutos. Há música e o ambiente mais ‘cosy’ que já encontrei num café de Lisboa. Não é um sítio de passagem. É para ir ficando, enquanto se vê a rua escurecer.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Dias longos

É imoral que o despertador toque quando lá fora não apareceram ainda os primeiros raios de sol. Já não é noite cerrada. Mas é demasiado cedo para o meu relógio biológico. Preciso de recuperar de uma noite de insónia. Preparo-me para o tormento que se queria mensal. Repetições antes do tempo. Estou no pasquim em menos de 15 minutos. Confirmo as maravilhas que uma via rápida pode fazer na vida de uma mulher. Desde ontem que estou mais feliz. Mais perto. Chego ao pasquim para descobrir que afinal não é assim tão mau. O coração ainda acelera. Mas as mãos tremem menos e as pernas nem me lembro delas.

[Foto: PF]
PS: Há coisas que não são para perceber. Apenas pelos entendidos na matéria

terça-feira, outubro 09, 2007

A sociedade de consumo engripou-me

Já não andava bem - clinicamente falando - mas hoje foi a gota de água.

8h30, manhã temperada.Dispo o casaco e de ombro ao léu saboreio o sol que começa a aquecer - "Há bolo rei", leio na vitrina de uma pastelaria.

15h30, ainda de ombro ao léu, resguardo-me na sombra do Martinho da Arcada. 28º graus diziam os termómetros. Numa pastelaria mais acima, os "pais natais" de chocolate ameaçavam derreter.

19h30 e está um daqueles fins de tarde de esplanada. No Cais-do-Sodré apregoam-se castanhas assadas.

E à minha caixa do correio não páram de chegar catálogos com promoções de Natal.

A minha sensibilidade diz-me que estamos no final do Verão, com um pé talvez já a entrar no Outono. Mas à minha volta querem fazer-me querer que já é inverno. E, baralhada, estou agora com uma gripe de caixão à cova. Até onde vai o poder da sociedade de consumo?

Vou fugir a dois cêntimos

Para Barcelona. Com bilhetes oferecidos pela eterna-estagiária. Obrigada.

Sonhos e pesadelos

Deito-me a pensar num email que tenho que escrever mal me sente à secretária. Escrevo e apago frases na cabeça. Viro-me de lado. Uma perna esticada, a outra encolhida. Acrescento novos argumentos. Deito-me de costas. Penso que tenho que mandar com conhecimento. Estou a entrar em parafuso. Junto os polegares e os indicadores em cima da barriga. Formo um triângulo junto ao umbigo. Li isto numa peça da concorrência. Qualquer coisa sobre a felicidade dos tibetanos. Preparo-me para deixar de pensar no que não devo. Chegam 12 horas de pasquim. Respiro fundo. O ar passa pelo fundo da garganta como a Isa me ensinou. Tento imaginar uma parede branca. Concentrar-me nela. As do quarto não servem. Tento algo com um pé direito mais alto. Nenhuma serve. As paredes vêm sempre com a estrutura que as envolve atrás. Agora estou a olhar para o CCB. E com elas imagens e pensamentos que atrapalham. Nada. Imagino-me no meu Rio. Mas o email continua cá. A raiva também. Imagino-me às 6 da manhã sob o orvalho de São Tomé. Há um imenso mar azul em frente. Há o barulho dos pássaros. Das rãs. O som da vida que desperta. Imagino-me deitada no sticky mat. Respiro cada vez mais fundo. O ar entra e sai dos pulmões cada vez mais devagar. O meu corpo está agora mais leve. A respiração mais lenta. Viro-me de lado. Junto um joelho ao peito e adormeço em paz. Hoje sonho com a praia da escada.

[No dia seguinte escrevi o mail, mas não o cheguei a enviar. As coisas resolveram-se por vias mais oficiais. A minha raiva ficou ali escarrapachada num ecrã de computador. Sem consequências de maior]

segunda-feira, outubro 08, 2007

Dizem que há uns senhores de bata branca que curam estas coisas

Tenho duas vozes na minha cabeça. São uma espécie de Grilo Falante, mas em duplicado. Vozes com desejos desencontrados. Uma espécie de anjo e demónio, se neles acreditasse. Tenho duas vozes na minha cabeça. ‘Hoje é o dia.’ Nunca estão de acordo. ‘Talvez seja melhor ponderar a decisão.’ Raramente se encontram. Mas nem por isso vivo mais descansada. A uma delas há quem chame demónios. Já me disseram para os mandar apoquentar outros. Não vão. Não arrendam pé. São capazes de se acanhar perante uma ordem mais incisiva. Deixam-se ficar num canto mais escuro. Tentam passar despercebidos. Dura pouco o amuo. Quando menos espero lá estão eles de novo. E voltam as vozes em duplicado. Cada uma a puxar para o seu lado. E as decisões duram o tempo do reinado de cada uma delas. Tenho duas vozes na minha cabeça. Mas ainda não falo sozinha.

Mulheres

O Público traz hoje a lista das 100 mulheres mais influentes do planeta. Nenhuma é portuguesa. Dá que pensar...

[Depois de ler o artigo e os argumentos, volto ao assunto.]

domingo, outubro 07, 2007

Coisas simples

Regressamos sempre aos velhos lugares onde amámos a vida. E só então compreendemos que não voltarão jamais todas as coisas que nos foram queridas. O amor é simples, e o tempo devora as coisas simples.

José Eduardo Agualusa, O Ano em que Zumbi Tomou o Rio

quarta-feira, outubro 03, 2007

Diz-me onde vais, dir-te-ei quem és

Nos últimos dois meses, e salvo semana e meia de férias, alguns jantares, bons livros e televisão/DVD, o meu hobby é ir ao Estádio da Luz.

[O facto de ter sacado do bloco para escrever este post durante o jogo também deve dizer muito. De mim, mas principalmente da qualidade do jogo.]

terça-feira, outubro 02, 2007

Outono

Ou como sair para almoçar e voltar transformada em miss t-shirt molhada.

PS: Devolvam-me o Verão!

segunda-feira, outubro 01, 2007

Não há duas sem três...

Fraquejei. Durante duas semanas não teria dúvidas se me perguntassem. Sou um rato. Cedi e voltei a ter os meus velhos amigos por companhia. O problema é que eles voltaram como se nunca tivessem partido. Donos e senhores do meu espaço. Da minha vontade. Com uma diferença. Com o prazer vieram pequenas nuances. Coisas que nunca antes me incomodaram começaram de repente a desorientar-me. Muito. Primeiro que tudo os cheiros. Em mim. Em casa. Depois a respiração. O hálito. De um dia para o outro estava a fumar tanto como se não tivesse parado. Amanhã volto a pôr um ponto final. Começo do zero com os riscos que tal decisão acarreta. As mãos desocupadas. Os nervos à flor da pele [nada de novo. com ou sem cigarros]. A ausência de uma desculpa para parar dois segundos a meio da tarde. A ‘solidão'. Já oiço o meu cunhado a dizer-me o quão amiga sou das farmacêuticas. Antes das farmacêuticas do que da Tabaqueiro. O preço é o mesmo. A diferença é que voltarei a respirar melhor. A casa voltará a cheirar a insenso. E eu vou ter muitas saudades...

Ufff

E as 9h00 solto um longo suspiro de alívio. As mãos ainda tremem. Sento-me, porque as pernas também não apram, enquanto vejo passar a imagem. Percebo onde estão os erros. Não há nada a fazer. Os nervos vencem sempre. Nada do que aconteça hoje pode ser pior do que aquilo que já passou. Agora só para o mês que vem. É um alívio profundo. Garanto-vos.

[Adenda: hoje vou para a cama [dormir!] às 20h]

domingo, setembro 30, 2007

Lições

“O que você sabe sobre o esquecimento, mais-velho? Há muitos exercícios para melhorar a memória, há até medicamentos, mas ninguém nos ensina a esquecer. Como alguém faz para esquecer?

O outro solta um riso manso.

“Tu não é daqui, certo? Tu não é brasileiro. Pela figura deve ser africano.” Suspira. “Minha avó era africana. Ela sempre me dizia que nunca se esquecem as lições aprendidas na dor. Vejo isso assim, como uma lição.”

'O ano em que zumbi tomou o rio', José Eduardo Agualusa

Tóquio

Ou como passar uma noite a rir à gargalhada até doerem todos os músculos do abdómen. Tricotar várias camisolas, numa secção de corte e costura, enquanto se dança até cair. Perceber que os Xutos escreveram a música que pode ser o meu hino de todos os didiários: A qualquer dia / A qualquer hora/ Vou estoirar, para sempre. Ter várias pessoas a apontar para mim quando a música começa... Compreender que não estamos sozinhas no escárnio e maldizer. Que há muita gente mal-fodida. Que se não o fossem a nossa vida seria mais fácil. É o mesmo sítio de sempre. Em versão melhorada pela necessidade urgente de sair de mim. O sítio onde, como diz a C., renovam a carteira profissional. ‘Quem quiser saber quem sai e quem entra dos jornais, só tem que passar por cá à sexta-feira à noite’. Um rés-do-chão mal amanhado, apertado, sem ventilação, de onde saio empestada de fumo, mas com o maior dos sorrisos. Deito-me cansada, mas feliz. Tenho que fazer isto mais vezes.

sábado, setembro 29, 2007

Estupidez feminina





Até onde pode chegar a estupidez feminina? Longe..., garanto-vos. Se não, vejamos:
Numa imagem digna de qualquer episódio do "sexo e da Cidade" cá estou eu, sábado à tarde, a fazer a ménage caseira, vulgo lide caseira porque isto da ménage sugere sempre andanças mais interessantes do que esfregar a cozinha ou descascar os lumes para a sopa que tenho ao lume.

Acabam de tocar às porta. É o senhor do supermercado com as compras e eu peço ao parceiro para o ir receber porque já não aguento dar mais nem um passo.

Cansada de esfregar? Nada disso. Mas já não me aguento em cima destes saltos de quase 10 centímetros que vieram agarrados aos meus novos sapatos lindos de morrer - como diria a Carrie - e em cima dos quais tenho passado as últimas duas horas de lides domésticas.

Estivesse eu nua com estes sapatos, uma meias de ligas e um avental e talvez até tivesse sorte nesta tarde chuvosa. Mas está frio e estamos de janelas abertas.

E enquanto não me conseguir aguentar nestes saltos sem fazer figura de gaja-parva-que-insiste-em-andar-com-aqueles-saltos-mesmo-parecendo-que-vai-dar-um-trambolhão-a-qualquer-momento resta-me continuar a usá-los em casa, ao fim-de-semana entre uma máquina de roupa e outra.

Há coisas fantásticas neste universo feminino, não há?

sexta-feira, setembro 28, 2007

O Sonho

Há sonhos quase tão antigos como o princípio dos dias. Os meus dias. Há memórias que me foram passadas. Reminiscências de outros que o tempo me impôs no cérebro. Hoje, tantos anos depois, é como se fossem minhas. Como se eu tivesse andado no planalto. Na serra. Junto ao mar. Memórias que recuperei numa versão mais distante – e noutra mais insular – muitos anos depois. Uma terra que me acolheu e onde me senti em casa. Há o cheiro de uma terra que foi minha por muito pouco tempo.Calor. Cores. Sons. Ambientes. Há um sonho que me tornou naquilo que sou hoje. Na profissão que tenho. Há dias em que penso que chegou o momento. Uma vontade do tamanho de um enorme agora-ou-nunca.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Com canetas?

quarta-feira, setembro 26, 2007

Fantasmas

Na verdade não tenho nada para dizer. Mas como toda as meninas abandonaram o barco, cumpre-me a tarefa de vos ir mantendo entretidos. Talvez pudesse falar de fantasmas. O do Hitler e o outro. Aquele com quem me cruzei um destes dias à hora de almoço. A meio de uma garfada de crepe embebido em chocolate de leite, com um pedaço de strawberry cheesecake no topo. Almoços pouco saudáveis que faço com a C. de tempos a tempos. Sabem bem grandes doses de calorias enquanto o calor que resta do Verão ainda se passei pelo Chiado. O garfo no ar a centímetros da boca e de repente lá estava ela. Demorei alguns segundos a reconhecê-la. Perdi a conta aos anos. Aos que passei sem a ver. Aos que passaram sem que me lembrasse dela. Nunca esqueci os anos em que me foi imposta. Com alguma condescendência da minha parte. Afinal os outros só magoam enquanto deixamos. Durante dois anos ‘partilhei’ com ela o mesmo homem. Partilha não é o termo certo. Pelo menos não era em simultâneo. Ou quero acreditar que não era. Ele, sem dúvida um dos homens da minha vida, tinha poucas ou nenhumas certezas na vida. E ia alternando entre as duas. Acho que dependia do lado para que acordava. Nunca percebi o que o motivava. Eu deixei-me andar ao sabor desta vontade até ao dia em que disse basta. Eles continuaram. Por uns tempos, pelo menos. Eu segui para outra vida com a consolação que ele não saiu a ganhar. Os homens da minha vida trocaram-me sempre por mulheres mais feias do que eu. Fraca consolação? Talvez. Ao vê-la por estes dias, sem um espelho por perto, tenho consciência que continuo a fazer virar cabeças. Duvido que ela se distinga numa rua cheia de gente. Acho que o R. tinha razão. Só havia um motivo para que aquele homem me trocasse por ela. Olho-a de novo quando saio da loja e penso no que ele repetia de cada vez que a víamos: ‘ela deve ser muito boa de mãos e de boca’...

Não me parece uma má sugestão

Estou a fechar o computador às 21h48, talvez o mais cedo que consegui esta semana, quando pisca no quanto inferior direito uma nova mensagem. Assunto: ‘Don't get mad, get Valium!’ Numa semana que começou no domingo e a que ainda faltam dois dias estava capaz de dar um saltinho ali à farmácia…

[E lembro-me do J.V.. Sim, eu sou aquela que passa a vida a queixar-se]

Ainda existem histórias de amor


O filósofo André Gorz, cofundador do Nouvel Observateur, e a sua mulher Dorine suicidaram- -se na segunda-feira em Vosnon. Ele tinha 84 anos, ela 83. É uma história de amor.

[...]
Dirigiu-se a Dorine, inglesa de origem, numa noite de neve, em 23 de Outubro de 1947, para a convidar para dançar e nunca mais a deixou. Ela foi atingida por uma doença evolutiva há numerosos anos. Tinham escolhido não ter filhos. André Gorz disse ao Libération em Setembro de 2006: "Em minha opinião, os bons pais são os que sentiram a falta de um pai na sua infância. Eu não tinha vontade de ser pai porque não amava o meu pai. (...) Nós os dois não temos continuidade, nem nada a transmitir. Não tínhamos de fundar uma família para lhe transmitir o que quer que fosse, porque nós próprios jamais tivemos família. Se tivesse tido filhos teria tido ciúmes de Dorine. Preferia tê-la apenas para mim."

No Público

Entre um blog e outro

Muitas vezes é numa noite de insónia que a gente abre os olhos.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Morrer de amor*

A C. diz-nos que agradece à mãe o facto de a lembrar que toda a vida jurou que morreria de amor. Diz que isso a ajuda a manter os pés na terra. Pressinto-lhe na voz alguma desilusão. Acho que gostaria que desta vez fosse a sério. Não para morrer. Apenas para ter a certeza que este é um amor maior.

Há alturas em que as ilusões - ainda que muitas não tenham um final feliz - ajudam a dar colorido à vida. Fazem-nos sair da cama de manhã. Lembro-me da primeira vez que acreditei que morreria de amor. Tinha uns 10 ou 11 anos. Não mais. Lembro-me do objecto dessa suposta morte. Não me lembro do porquê nessa altura específica. E durante uns dias praticamente não comi. Passei a acreditar que morrer de amor significa morrer de fome. A dor repetiu-se tantas vezes ao longo da vida. Achei sempre que nenhuma é tão grande como a que sentimos naquele momento. Nunca consegui por os sentimentos em perspectiva. Compará-los. Dissecá-los numa mesa de laboratório. Lembro da última vez que achei que morreria de amor. Foi a mais dolorosa das mortes. Com ela foi-se a capacidade de acreditar em histórias de amor. Achava eu. Agora, com a perspectiva que a distância permite, percebo que continuo a acreditar em histórias de amor. Há apenas uma diferença de género. Nem mesmo no grande ecrã todas as histórias acabam em drama.

[*ou um dos muitos posts que se acumulam há meses no blogger]

domingo, setembro 23, 2007

O princípio

Há um ligeiro tremor de mãos. Os olhos que não param quietos. As mãos que pensam mil vezes nos cigarros guardados na carteira. E de repente o trânsito pára. Vai lento pela lateral da avenida. Os números mudam rápido no relógio do carro. Está adiantado, mas nem isso me salvará de chegar atrasada. Desisto nos Restauradores. Agradeço os sapatos rasos e corro até à rua da madalena. Perco o fôlego na primeira subida. No Caldas tenho a certeza que vou desmaiar. O coração que pula na garganta. Boca seca. Dor de burro. Abrando o passo como quem abranda a vontade. Se chegasse realmente tarde nem valia a pena ir. São pensamentos fugazes. Há muito que não estava tão decidida a nada. A corrida seca-me as lágrimas que não param há dias. É do Outono? Talvez seja. O medo do fim.

Já estive aqui. Na noite de santos. Bebia-se cerveja e ginginha a rodos. Eu era aquela que, às 3h da manhã, continuava sóbria. A primeira a desistir. Saudades de casa. Do sofá. Da cama que se rebela quando lhe devo horas de sono [a expressão é tua. Eu sei. Está num dos primeiros mails]. Saudades de tudo menos daquilo. Daquela hora. Daquele sítio. Daquelas pessoas. Só estou bem onde não estou. Escreve bem o poeta. Talvez seja hora de lhe mostrar que nem sempre tem razão.

É um prédio branco. Mal tratado. Maquilhagem supérflua que não resguarda os efeitos dos anos. As escadas lembram as da Martinha. São apenas um pouco mais largas. Paredes descarnadas. Tinta a cair em postas. Nada ali é convidativo. Acolhedor. Ele espera-me a porta. Cabelo tão branco como a camisola de lã. Está quente ali dentro. A idade talvez lhe tenha arrefecido a carne. Convida-me a entrar. Há desarrumação por todo o lado. Os olhos fixam-se num painel de madeira. Olho sem ver. Quero começar. Acabar o mais depressa possível. A conversa vai ser longa.

sexta-feira, setembro 21, 2007

A explicação de todos os meus males

"A felicidade é um aborrecimento."

Titulo de uma peça do Ípsilon de hoje.

Alguém tem um escadote

“Às vezes os nossos desejos ficavam suspensos dos ramos mais altos das árvores mais altas e nunca conseguíamos subir o suficiente para lá chegar. Ou então esperávamos pacientemente até eles nos caírem no colo.”

in Paralelo 75 ou O segredo de um coração traído, Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira

sábado, setembro 15, 2007

Um pico de fé...



... dá jeito a qualquer um.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Dias para Recordar 1

Não usei véu na cabeça porque o meu cabelo era curto e nunca gostei muito do glamour daquele tecido à transparência. Tranparentes queriam-se os sentimentos. E só neles confiei naquele início de tarde de Sábado, 20 de Outubro de 2001. Em casa houve visitas e fotografias. As da praxe, com a família, mas sem espelhos e imagens reflectidas, telefones onde se finge falar, beijos trocados para a imagem. Não quis nada disso. Pedi naturalidade. E tive-a, em máquinas digitais, a cores e a preto-e-branco. Desci do terceiro andar com o vestido na mão, evitando os pisões tão típicos aos vestidos de noiva. O meu assentava-me bem e fazia de mim uma bonita menina, nos meus 28 anos que talvez parecessem 25; um pouco de salto para não crescer demasiado, mantendo a necessária elegância para a ocasião. E uma cor ténue no rosto.

Entrei no Peugeot descapotável do meu irmão. Ia ser conduzida por ele naqueles 500 metros até à Igreja, percurso que tantas vezes fiz a pé. Recebeu um telefonema: temos de esperar, os sogros ainda não chegaram. Pausa. Carro estacionado com noiva lá denro à espera dos pais do noivo. Hilariante. Podem seguir. E lá fomos, átrio adentro, saída em classe, ramo na mão direita e tulipas vermelhas, pose, sorriso, o meu Pai. Dei-lhe o braço e apertei-o. Era o momento.

Cantava-se o Ave Maria de Gunout. O órgão marca os passos na passadeira vermelha que tantas vezes pisei sem tal solenidade. Todos olham para mim. Sorrio. Sorriem-me. Uma espécie de montra adorada onde todos querem pôr defeitos mas, naquele momento exacto, só conseguem ver virtudes. As noivas são sempre tão lindas, não é?

A cerimónia começa. A música que os meus amigos cantam enche-me a alma. O espírito daquelas 300 pessoas faz-se sentir no silêncio que preferem preservar enquanto avançamos mais um passo. As alianças de ouro branco surgem na mão das crianças. Trocamo-las de voz trémula, um ou outro sorriso, um riso mais alargado. E as promessas de Amor. As que queremos para sempre.

O Padre esquece-se do abraço da Paz mas ele beija-me na testa como que a confirmar o acto. Estamos casados. Naquele momento ninguém imagina que é por pouco tempo. Estamos casados. Sorrimos e damos as mãos. Cantamos. Crianças fazem uma festa, fitas coloridas sobem ao alto, em arco; meninos trazem quadros pintados à mão que recebemos em tom de oferta. São os meus doces sobrinhos. O grupo continua a tocar, músicas que compus e escrevi, outras que outros fizeram, passagens de filmes que vimos. Alegrias feitas acordes. E no fim já todos dançam e batem palmas. Não é um casamento cigano, apenas alegria partilhada por dezenas de pessoas que gostam dos actores principais. O casal!

Estás muito bonita, disse-me mal cheguei junto dele quando o meu pai me passou a mão. Obrigada, consegui dizer. E, nesse dia, nunca chorei.

Workaholic

Regresso com vontade de trabalhar. Passo a semana de férias a pensar em projectos, ideias, coisas para fazer. Adormeço a imaginar reportagens, rubricas, temas para novas peças... e acordo com luzes a piscar, mais ideias, mais projectos. Ao fim do segundo dia de trabalho continuo sem dormir. São três da manhã. Ontem passava das quatro quando finalmente caí no sono. Leve. Hoje não sei a que horas o farei. É uma loucura esta vontade incontrolável de abrir o computador, carregar pastas de coisas 'a fazer', trabalhar, trabalhar ininterruptamente. Como se o dia não tivesse horas suficientes para fazer tudo. E não tem, por isso ocupo a noite com tais pensamentos. Há muito que isto não me acontecia. Olho para qualquer coisa e logo me surge nova forma de pegar no assunto. Trago na mala um caderninho onde aponto o que me lembro já fora do local de trabalho. Estou viciada. Não é saudável, mas é inevitável. Preciso de descansar o cérebro mas ele insiste em carburar. Peço-lhe que se cale a partir da meia-noite, que me deixe dormir, pensar na minha família, nos meus amigos, no meu namorado. Não. Atropela-me os pensamentos para mais uma ideia que me parece genial. No dia seguinte, mais um e-mail para os Directores. 'OK', dizem-me, 'Segue'. E tenho uma lista infindável de projectos para pôr de pé. Não sei como controlar este estado de ansiedade. Não consigo imaginar uma saída para esta amargura que é não pensar em mais nada. E daqui a nada levanto-me para ir trabalhar.

terça-feira, setembro 11, 2007

10 de Setembro, 14h18, 3870 kgs

Passamos minutos intermináveis a olhar, prendendo a respiração, falando em tom delicodoce, tocando ao de leve no lençol. De repente um som estridente inunda o quarto e um minuto de carícias depois cai o silêncio profundo. Passaram só algumas horas mas o amor começa a desmultiplicar-se em catadupa cá dentro. Foi assim, nos primeiros momentos que partilhei com o Tiago. O meu sobrinho é lindo e a sua vida resume-se por enquanto ao que está no título. Mas vai trazer-nos longos anos de alegrias. Disso não há dúvida.

P.S.-A C. é uma mãe e pêras, não fosse ela minha mana!

Arrumações

Eu já tinha lido em qualquer revista feminina, ou visto num programa da Oprah, que se pode aferir muito do nosso interior pela forma como organizamos (ou não!, no caso) os milhentos pormenores da nossa rotina. Achei que era mais uma daquelas metáforas que alguém laboriosamente produz numa redacção onde se publica uma vez por mês ou há 20 produtoras de conteúdos. Mas não são só pérolas da psicologia "de trazer por casa". Notei uma real coincidência, por estes dias, entre a dificuldade em pôr ordem na minha cabeça e na minha secretária (e bagagem do carro, e mesa da cozinha, e armários de roupa, e....uff). Já peguei vezes sem conta em caneta e papel para elaborar daquelas listinhas ordenadas do "a fazer", tanto em matérias de sacos de revistas, camisolas que não uso e embalagens fora de prazo; como com os passos seguintes para a minha vida a muito curto prazo. Claro que tinha a desculpa da falta de tempo para o primeiro caso e de falta de informação para o segundo. Mas não é verdade. Perco algumas horas preciosas em frente ao AXN e Fox e já tenho dados mais do que suficientes sobre o que é expectável para os próximos meses, a nível pessoal e profissional. Mesmo assim, vou adiando as arrumações. Algum dia ainda me caem as revistas no chão ou os sentimentos aos pés. Espero que me venha a fúria das limpezas de Primavera (interna e exterior) antes da dita estação do ano!

domingo, setembro 09, 2007

Dias para Recordar

Entrei a medo no confessionário. Tinha andado semanas a preparar-me. A catequista, a Dona Emília, dissera-nos que tínhamos de ir lá e dizer os nossos 'pecados', aquilo que tínhamos feito nos últimos 7 anos, já que foi nessa idade a minha primeira confissão. Segundo ano da catequese, 2ª classe na Escola Primária, e um sem número de erros a recordar para dizer ao Padre. Sei que era psicólogo, o padre, e estava habituado a estas confissões de garotos, receosos dos males do mundo. Sentei-me à frente dele numa cadeira de madeira. Perguntou-me o nome, talvez me tenha perguntado outras coisas, não sei... Ter-lhe-ei dito os meus pecados de enfiada, poucos, provavelmente, num esforço de memória para não ficar mal. Ouviu-me carinhosamente e explicou-me o que fazia eu ali... Para mim era apenas a preparação para o dia em que vestiria o vestido cor-de-rosa, até aos pés, em que poria na cabeça a fita florida a condizer. O mesmo fato que tinha usado para levar as alianças num casamento. Mas havia mais: estava ali para me preparar para comungar. E eu sabia que só as pessoas boas e livres do tal 'pecado' podiam fazê-lo. Diz o Acto de Contricção... 'Meu Deus, porque sois tão bom...' Reza dois Pai-Nossos e uma Avé Maria. Saí sentindo-me uma santa, um daqueles pastorinhos que tinha conhecido num livro e que tinham visto a Nossa Senhora. Os joelhos assentaram trémulos no banco da Igreja e rezei. Quando saí estava feliz. E lembro-me de ter pensado na minha avó. Se ela comungava todos os Domingos, era porque era também Santa, ela sim, uma mulher tão boa, a quem eu não via um só defeito. Disse-lhe isto, quando cheguei a casa. E dois dias depois vesti o vestido e comunguei. Amen. E voltei para o meu lugar.

Quinta do Lago 4


sábado, setembro 08, 2007

A Fábula - 3

Naquela noite ficaram sozinhos na mesa da esplanada. Ele brincava com o copo com três pedras de gelo a refrescar o whisky. Ela bebia um gin tónico, sabor a cenoura. Conversavam. Não estavam à vontade para falar de tudo, mas já se sentiam próximos o suficiente para partilhar ideias. Todos os amigos tinham partido. O Panda coçou a cabeça e cofiou o pêlo do bigode. Falavam sobre literatura e ela deixava-se levar pelas suas palavras sábias. Às vezes interrompia-o, para uma ou outra pergunta. Ele olhava-a nos olhos e oferecia-lhe as respostas como quem dá um ramo de flores. A coelhinha tinha as orelhas bem ao alto, feliz por aquela conversa, pela oportunidade de ouvir o panda falar do que tão bem sabia. No interior da discoteca tocava Madonna e dançava-se ao som de Hung Up.

Perdeu-se nas explicações literárias e imaginou-o num beijo quente, pêlo com pêlo, nariz contra nariz, patas esquecidas no corpulento panda gigante. Ele recitava Pessoa e mostrava-lhe cada estrofe de Tabacaria. Não imaginava o que lhe corria no pensamento. O barman chegou junto deles quando viu o copo de whisky vazio. Sim, mais um, com as três pedras de gelo. A interrupção fê-la acordar e voltou à literatura. Ele estava agora calado, olhar no Rio que brilhava em frente com a lua cheia a dar-lhe cor branca. Tocou-lhe na pata. Então? E Pessoa? O toque assustou-o e fê-lo sorrir. Veio o whisky. A discoteca estava agora cheia mas o espaço que ocupavam, na esplanada, parecia vazio. Não importava os empurrões, as cadeiras que batiam umas nas outras, as vozes sonantes que faziam o burburinho do bar. Importava que estavam ali, só os dois, finda uma noite que se fez animada pelo resto da floresta. Voltaram a conversar, mas falavam agora de cinema. Pararam no Paraíso, com Giuseppe Tornatore e as lágrimas cairam do focinho da coelha. Emocianava-se sempre, com esse filme. Ele continuou a falar de Totó até reparar no pêlo molhado, nas orelhas caídas, no bigode sem vida. Eu também choro com esse filme, disse-lhe. E confortou-a com a grande pata, passando-a sobre a cabeça. O gin acabou e ele limpou-lhe os olhos. Quando a discoteca fechou saíram juntos. Era quase manhã.

Quinta do Lago 3

O Sol já se pôs na Ria Formosa. As férias chegaram ao fim. Comemos no Gigi mais uma vez, agora com os amigos. Pedimos um Pregado (um peixe) para seis. Vemos depois na factura que pesava 2.38 Kg. Custou-nos 185 euros, só o peixe! As gaivotas sobrevoam a praia e deixam toda a gente a olhar para o céu. Passam os aviões já com o trem de aterragem, vão aqui para perto, para Faro, onde chegam turistas todos os dias. Continuamos rodeados de ingleses. São agora mais barulhentos. Talvez porque tenham bebido. Jogamos Trivial em grupo e aproveitamos todos os momentos para mais um cartão. Rimo-nos com as respostas e elogiamos a cultura de cada um. Há coisas fantásticas. Na piscina tomamos banho ao fim do dia. A água está morna e só temos frio à saída. Voltamos a jogar. Saímos quando o sistema de rega nos dá outro banho e as melgas saem de casa para nos vir morder. Estamos todos picados e não comprámos Fenistil. São as férias de Verão. Bebemos sangria e vinho tinto. Eu não, fico-me pela coca-cola com gelo e limão. E bebo um galão antes do jantar. As osgas acumulam-se na parede da casa. Branca. Contámos 10. Pequenas e grandes, imóveis. Já não me assustam. As baratas desapareceram. As dores de cabeça é que não. Consumimos um House atrás do outro, mesmo os repetidos. Deitamo-nos tarde e só saímos da cama quando a SIC Notícias anuncia o Jornal do Meio-Dia. Kate e Gerry McCann foram constituídos arguidos. Pavarotti morreu. Estamos no Algarve dos ricos. Mas tenho saudades de casa.

sexta-feira, setembro 07, 2007

Começaram as aulas

Lembro-me do frio do estômago. Uma sensação muito parecida à das borboletas. A ansiedade dos últimos dias. Era muito mês de férias! No final havia uma ida à Baixa. A papelaria ficava ali a meio da subida da rua da madalena. É claro que já não existe. De lá vinham os livros. Os mesmos que folheava com muito cuidado. Mas primeiro abria-os a meio e enterrava lá o nariz. Aspirava com força. Repetia o exercício com todos. Como se o cheiro da matemática, ou do meio físico e social, fosse diferente do de português. E havia os cadernos e os dossiers. Sempre gostei mais de folhas soltas que depois arquivava em argolas. Era mais fácil manter um caderno limpo. Sem gralhas. Sem rasuras. E depois havia as canetas. Uma palete inteira de cores com que nunca consegui fazer nada de jeito. Ainda hoje jogar ao Pictonary é um verdadeiro tormento. O estojo. A mochila nova [nos anos de sorte]. Espalhava tudo em cima da cama. Contava os dias que faltavam para o início das aulas. Para encher os livros de letras e de números. E na véspera não dormia. Ficava deitada, de olhos fixos no tecto, à espera da hora de acordar.

quinta-feira, setembro 06, 2007

À porta do Céu II

Chegava a casa já noite escura vindo da mercearia de Campolide. Passava o dia a pesar a fruta na balança que, naquele tempo, não era electrónica e exigia contas de cabeça. Lembro-me dele com a caneta pendurada na orelha, sempre pronto a apontar os números num papel, capaz de somas e divisões num segundo. Também o vejo a cortar o frango numa altura em que não existia ASAE. Tirava o bicho já morto do frigorífico e cortava-o em quatro para depois embrulhá-lo em papel pardo. Com, ou sem miúdos, conforme o pedido do cliente.

No passado, outras profissões: sapateiro e guarda-nocturno. Ainda hoje sei onde estão gurdados os materiais que usava para arranjar meias-solas. Colou-me alguns sapatos e sabia cosê-los como ninguém. Noutros tempos, fazia-os novos para a minha avó vender na Feira da Ladra, em Lisboa.

Chegava a casa já noite escura. Subia ao terceiro andar já com algum custo pois a idade começava a pesar. Eu teria uns seis ou sete anos e esperava-o cá em cima. Já lhe conhecia o andar na escada de 52 degraus. Entrava na primeira porta à direita, o quarto dele e da avó. Eu já lá estava. Desapertava-lhe então os atacadores e não o deixava baixar-se. Tirava-lhe os dois sapatos e punha-lhe os chinelos a jeito. Ele calçava-os pronto para ir lavar os pés, descansá-los em água morna. Mas antes, a recompensa: tirava do bolso das calças um punhado de Smarties. Eu que não gostava de chocolate fiquei a adorar aqueles pedacinhos coloridos, vindos da mão do meu avô.

Esteve 10 anpos com um cancro e fez inúmeras operações e muitas mais passagens pelo hospital. Era um doente exemplar. Não se queixava, era simpático, agradecia todo o apoio prestado. Tinha até uma enfermeira, do Hospital Amadora-Sintra, que lhe mandava postais no Natal. Confesso que tinha ciúmes. Falava dela como de um anjo da guarda, o mesmo nome que me deu quando, já muito próximo da morte, olhou para mim enternecido depois de mais uma crise de dor.

Há momentos que não podem ser escritos. Há pedaços da nossa vida que não têm letras capazes de os exprimir. Já passaram oito ou nove anos, confesso que me perdi nessa data. E ainda bem... prefiro guardar os sorriso e outras memórias como a mão cheia de Smarties coloridos. Eu acredito no Céu. Sempre acreditei. E imagino-o por lá, ainda solteiro - é tão bom manter a minha avó - talvez num jogo de cartas com os amigos, passatempo que lhe ocupou boa parte da velhice. Ou então a tocar guitarra e a cantar músicas que não voltei a ouvir.

E já estará de chinelos, para não magoar os pés.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Memórias de um almoço [*]

"Não tenho memória. Acordo todos os dias feliz."

"Andamos todos a fingir que somos normais."

[*Com uma daquelas pessoas que sentimos que gostam realmente de nós quando insistem em ver-nos mesmo depois de 20 desculpas e 10 reuniões que atrapalham e adiam almoços combinados. Pelos sorrisos, pelas lágrimas, pelas gargalhadas.Obrigada F.]

terça-feira, setembro 04, 2007

À porta do céu

Abriamos a porta do galinheiro pela manhã e lá íamos nós. Eu mais a receio, sem saber muito bem o que esperar das galinhas. Haveríamos sempre de encontrar um ovo posto pela fresca pronto a estrelar para comer com pão. Foram assim muitas manhãs de verão da minha infância. Ovo posto, ovo no prato, com sabor exclusivo a férias grandes. Por vezes eram verdadeiros acampamentos casa fora. Mais de 10 primos a partilhar camas, alguns dos quais nem falavam português e outros em idade de não saber falar mais nada. Mas lá nos iamos entendendo e, meio a medo, perseguíamos vacas até que elas se virassem para trás pondo-nos em fuga e corriamos atrás de sapos na esperança de que não fossem eles a correr atrás de nós. E ela, orfã quase desde sempre, adorava ter a casa cheia.
Desses dias recordo-me também de ir apanhar toranjas com a minha avó e do dia em que as primas-meninas a sentaram no alpendre e, como que brincando à bonecas, lhe fizeram trancinhas e lhe pintaram os lábios com baton. Nunca antes deveria ter posto baton. O meu avô não gostou. Deve ter achado a brincadeira jocosa, ao ver a mulher que nunca soube ler ou escrever sentada com laços na cabeça. Mas nada disso, só queriamos "enbonecá-la". Poucos anos depois ele morreu, deixando-a atarantada. Ele sempre fora o homem lá de casa e ela nem sequer dos tostões tinha noção pois as contas sempre as fizera ele enquanto ela amassava o pão ou ia buscar água à fonte. Pelo que, pelos meus 20 anos, veio feliz dar-me uma moeda de 20 escudos.
Aprendi a gostar mais da minha avó já crescida. Velhinha, já tão velhinha, foi a primeira pessoa a dizer-me que estava na altura de eu sair de casa, de "juntar os trapinhos" porque o casamento era coisa de outros tempos.
Acho que a idade lhe apurou o humor e era muitas vezes assim que nos entendíamos. Trocando piadas e piropos. Nos últimos meses que passou num lar, deram com ela várias vezes de manhã a perguntar à companheira de quarto se ainda estavam vivas ou se já tinham morrido. "Se estamos a falar uma com a outra é porque não morremos", concluiam. E preparavam-se para mais um dia. A minha avó foi uma resistente. E eu que não acredito no céu adorava que ele existisse nem que fosse só por esta noite pois tenho a certeza de que o meu avô estaria sentado à porta à espera dela.
E vocês, do que é que se lembram?

Em nome da verdade

Até posso aceitar que façam links para o blog ‘da’ Samantha, mas que lhe desejem que se concretize um horóscopo que me é dirigido… Aí parece-me importante repor a verdade. Até porque a Sam é, de facto, ‘naturalmente calma e encantadora’. No meu caso aquela previsão é uma verdadeira piada, por certo entendida por poucos.

Adiante. O mais cidade é um blog partilhado. Somos quatro. Juntas há dez anos e sem intenção de nos separarmos. Os nomes estão ali em cima do lado esquerdo. Logo no topo da coluna para não haver enganos. Já viram? É certo que da Miranda lemos pouco, da Charlotte nem vale a pena falar, mas quando aparecem, aparecem com [muito] estilo. Toda a gente sabe que quantidade não é sinónimo de qualidade. [Não desfazendo amiga Samantha]. Por isso, e para que não se cumpram os receios da Samantha logo ao início do blog, eu prometo estar mais presente. Mas agora vou ali escrever sobre economia angolana e chineses. Volto já.

Tenho a vida de empantanas [*]

Leia-se o amortecedor do carro está a pingar. A garantia a chegar ao fim. O seguro não está pago. Podia ser pior. Tenho o seguro do carro na família. Só assim consigo que me enviem a carta verde ainda antes de pagar um tostão. Não por falta de dinheiro. Ainda que este não abunde. Mas pela incapacidade de me lembrar que devia ter informado a mudança de morada. A factura deve andar por ai. Algures entre Lisboa e a Serra. Um dia destes deve voltar ao destino.

Faço listas intermináveis de coisas por fazer. Num [raro] acesso de responsabilidade para o resto da minha vida. O resto da minha vida é aquela que teoricamente existe fora do jornal. Estou a ser injusta. Há vida e há pessoas que me aturam. Que me apaparicam. Mimam. Acaba aqui o aparte para poder continuar a queixar-me da vida. Estou a meio da lista de ‘to do’ para hoje. Tem tudo a ver com o carro. O peugeot que faz um ano. Que perde a garantia dentro de dois dias. Que tem o desplante de ter um amortecedor furado. E a oficina sem hora para me aturar. A concorrência vai emprestar-me um carro para substituir o meu. Tudo graças aos bons ofícios da minha eterna estagiária. Amanhã fico sem carro. E com a vida ainda mais empantanas.

[*Em versão post-em-diferido. Ontem não houve tempo para acabar]

segunda-feira, setembro 03, 2007

Quinta do Lago 2

A empregada brasileira fala inglês connosco. Pede-nos desculpa quando se lembra que somos, afinal, portugueses. Os únicos do jantar, até à chegada de um casal simpático com um pastor alemão. Na ardósia o menú está em inglês. Mas não pedimos o que está lá escrito e como apenas uma tosta mista, ao jantar. Pagamos com American Express, o que até tem graça... As cadeiras de vime estão cheias de estrangeiros que pedem fast food e vêem televisão. São calmos, apesar de turistas. Ninguém grita. Ainda assim, constato que os britânicos vestem mal, que elas são mal feitas e que todos têm dinheiro. Não gosto das sandálias que usam e custa-me vê-los com a pele vermelha do sol. Deviam pôr mais protector. A empregada volta a falar inglês e pede desculpa. Sorrimos e respondemos na língua de Camões. Mas, secretamente, penso que gostava de ter aquele sotaque shakespiriano. A Quinta do Lago está cheia de gente rica.

A Fábula - 2

Estava lua cheia e a toca também. Numa mesa da esplanada a coelhinha sorvia vagarosamente um sumo de cenoura sem alcóol. Bebia pela palhinha colorida que lhe tinham dado ao balcão. Estava maquilhada, mas discreta: um rímel negro a realçar-lhe as pestanas e, no pêlo do rosto branquinho, um blush rosado que lhe ficava bem. Estava com duas amigas, uma girafa simpática e uma lontra sorridente. Ela também sorria. Na mesa ao lado estva o panda gigante com o grupo do costume. Bebia um whisky com três pedras de gelo e batia a pata ao som da música, um hip hop que nem sequer admirava e do qual desconhecia o autor. Mas estava na moda. Não tirava os olhos dela e um dos do grupo reparou. Não lhe disse nada mas contava fazer uma ou duas perguntas no dia seguinte, quando estivessem a sós. Ela estva sossegada, nessa noite, com o corpo respirado e o pêlo sequinho apesar do calor da noite. Era Verão. Já tinham sido apresentados mas estavam ainda no limiar da vergonha quando os seus olhos voltaram a cruzar-se. Ela sorriu envergonhada e ele levantou-se. Tremeu. Foi encostar-se à cadeira da girafa para dar as boas-noites e comentar a música. A lontra começou a falar mas não era com ela que queria conversa. O sumo de cenoura chegou ao fim. Uma pedra de gelo ficou a derreter no copo de plástico.

domingo, setembro 02, 2007

A Fábula - 1

Viviam os dois na imensa floresta. Ela, uma coelhinha triste, divorciada de um sapo que nunca chegara a ser príncipe. Ele, panda gigante, uma espécie de Rei na terra onde tantos o admiravam e dele faziam exemplo. Era um urso quase feliz, não fora a solidão que conhecia havia 10 anos. Um dia - já noite feita - dançavam os dois na toca do costume uma música alta que pedia suor. Ela, no meio da pista, batia os pés de coelha no chão de terra, agora um tambor. Ele abanava as ancas, pesado, copo na mão e cigarro no canto da boca, orelhas espetadas e olhar de lince que havia belos animais naquela toca nocturna. Numa determinada música cruzaram olhares. Ela teve apenas tempo para sorrir; ele respirou baixinho e um suspiro doce exalou o fumo do Marlboro Ligh. Tinha já o pêlo eriçado e caíam-lhe as calças do corpo felpudo. Coçou a cabeça e viu-a abanar o rabo: duas vezes. Depois saiu. Ainda foi atrás dela mas desistiu quando a viu entrar no carro. Apanhou um taxi e atravessou o rio. Pensou nela enquanto dormia.

Foi preciso ‘abalar’ Agosto

Trago para casa o som das ondas a enrolar na areia. Rasteiras. Mar chão como gosto. Trago o riso das crianças. Areia a rodos. A pele vermelha. Cheiro a creme. Mimos partilhados sob um sol escaldante. Jornais cheios de areia. O livro a mais de meio. Os pés que se queixam dos saltos de sexta à noite. Os membros entorpecidos por horas de dança. Tóquio e Jamaica em versão ‘quinta-de-casamento’. O álcool que não chegou a fazer efeito. A cabeça [finalmente] vazia. Foi preciso abalar Agosto…

Promessas

"A forma naturalmente calma e encantadora como vai esta semana contactar com os outros vai tornar mais agradável o seu ambiente quotidiano."

[O meu horóscopo, na Notícias Magazine, para semana que ai vem.]

sábado, setembro 01, 2007

Quinta do Lago 1

Almoçámos no 'Gigi'. E que almoço! Carabineiros, uma corvina assada com o mais apurado dos temperos, ameijoas, picanha, mexilhão e claro, uma meia de leite a fechar. Preço de amigo e um grupo simpático como companhia. Atravessámos a Ria Formosa pela ponte de madeira, primeiro maré baixa, depois águas subidas e a passarada fora de terra.

Esta é uma terra de gente com dinheiro. O nosso almoço no 'Gigi' ficaria em perto de 100 euros por pessoa, não foramos nós amigos do dono. Ainda assim, quando chegámos, havia fila de espera, portugueses e estrangeiros aguardavam um lugar no restaurante de madeira negra entre a praia e a Ria. Gente conhecida, claro, e o patrão, que hoje fez 70 anos.

A Quinta do Lago destaca-se neste lado do Algarve. Quarteira é um horror, com aqueles apartamentos empoleirados, ruas cheias de gente, anúncios luminosos dos anos 80 e semáforos em cada esquina. Vilamoura é assustador, com uma marina decrépita e restaurantes com karaoke. A Quinta do Lago destaca-se por causa do ambiente: tudo verde, estradas cuidadas, jardins bem regados, e as casas escondidas entre o arvoredo.

É por isso imperdoável que estejamos num apartamento repleto de osgas e baratas gigantes. Já matámos dois destes insectos nojentos e, à hora a que escrevo este post, duas osgas enormes passeiam-se sobre a janela do quarto. Felizmente, do lado de fora!

À parte a flora... tudo corre bem. O apartamento é espaçoso e vai custar-nos quase nada - mais uma vez graças ao amigo Gigi - temos um jardim ao lado da sala e um belo relvado para descansar. Três salas de banho! E uma pequena cozinha para os pequenos-almoços de cereais com iogurte. Também tem TV cabo.

Eu não sou fã do Algarve, mas espera-me uma semana de calmaria com a metereologia a dizer que o sol vai brilhar. Tenho a companhia certa e nada para fazer. Apenas os livros, a praia, filmes para ver na PS2...

Vou dando notícias...

Uma espécie de exéquias

"Como é que eu não hei-de sofrer do coração?", ouço do outro lado da linha como se a expressão ainda se aplicasse neste mundos dos telemóveis. Mas que ficou, ficou. E é assim que do outro lado da linha (da antena?)a conversa vai chegando ao fim. São lamúrias de mãe às quais, tanto quanto o possível, tento manter-me imune. Mas percebo-a. O filho, meu irmão, morreu. E o pior é que ainda está vivo.
A minha mãe não se conforma. Não entende, não admite. Eu ainda admito, talvez por achar que entendo. Vejo-lhe nos olhos todos os fantasmas que também já foram os meus e mais alguns, que lhe entraram alma dentro com a idade e dos quais nunca se livrou. Sem grande luta, tornaram-se residentes. Culpas, tê-las-á. Ausências, certamente.
Sempre que penso nele assusta-me saber que somos da mesma cepa. E tento encontrar aquele momento no tempo que terá ditado a cada um a sua sorte. Uma vírgula no ponto certo da frase, uma pausa mais demorada, um olhar mais lato, um amor mais ponderado. E amigos que fizeram toda a diferença e sem os quais nunca seria quem sou.
O meu irmão morreu? Ainda me custa acreditar... É que não tenho mais nenhum.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Saída de emergência

Olho para o relógio quando já passou a hora do almoço. Quando já fechou a mercearia, onde compramos água, fruta e coisas várias fora do prazo. Já fechou a mercearia. O Alcobaça nem chegou a abrir. E a preguiça de descer o Sacramento não me deixa levantar da cadeira. Olho para o relógio quando a hora do jantar é já uma miragem. Desço à garagem e pela primeira vez esta semana não oiço os números do euromilhões quando dou à chave. Têm sido assim todos os dias. Sempre o mesmo anúncio. A mesma gaja a repetir os números num altifalante de aeroporto. E todos os dias a sensação que aquilo é um sinal. Amanhã jogo. Entro no carro com a certeza que quando chegar os putos estarão a dormir. Que não terei um sorriso dos que fazem tudo valer a pena.

Acelero na Avenida enquanto faço ‘contas’ de cabeça. Penso que nada pode correr assim tão mal. Tem que haver uma explicação. Tem que haver uma fórmula para evitar tanta trapalhada. Isto não é vida. O caos não é vida. Pelo menos de forma permanente.

Penso que encontrei a Dia de passagem. Tentou contar-me, na janela de vizinha virtual, como ‘nada de extraordinário lhe acontece’. Na versão da Dia isto quer dizer que tem mil histórias para encaixar em posts. Gostava tanto que voltasse a escrever. Faz-me falta o ritual diário de lhe visitar o quintal antes de mais nada. Diz que tem a casa cheia de fantasmas. Sempre gostei dos fantasmas da Dia. E de repente percebo o quanto lhe sinto a falta. Das noites passadas à frente de uma garrafa de vinho e um maço de cigarros. Da esquizofrenia das conversas de adolescentes. Dos amores desencontrados. Até chegar o João. Tenho saudades da Dia, que mal vejo desde que casou. Culpa minha. Do trabalho que me consome os dias e a paciência.

E sem que dê por ela lá estão outra vez os cenários do caos. Como é possível não haver uma solução? Para já aproveito a luz de saída de emergência. E um casamento torna-se de repente no melhor programa de que me consigo lembrar[*]. Contento-te com um interregno de 48 horas. Domingo estou de volta. Mas amanhã vou para a praia. Ainda que só por umas horas. Ainda que arrisque um cancro de pele. E à noite bebo até cair.

[*]A minha imaginação é maior que isto. O meu nível de exigência também. Mas foi a única forma de me escapar num dia de semana.

terça-feira, agosto 28, 2007

Jardim Celestial

Quando era mais nova uma amiga disse-me que deus colhia, na Terra, as mais belas flores que queria ter no Céu. Por isso morriam as pessoas de quem gostávamos. Sempre quis acreditar nesta versão simples da morte... uma explicação singela que nos deixa com uma imagem bonita num momento em que tudo parece negro.

Hoje, uma amiga perdeu a mãe. De repente. Não consigo imaginar o sofrimento que ela agora tem. É demasiado duro ver uma mãe sofrer e, ao fim de três dias de uma profunda dor, deixar-se cair ao som das máquinas obrigadas a desligar-se porque acabou a esperança.

Quero pensar que a minha amiga perdeu a mãe por ela ser uma linda flor. E que no Céu, há um jardim imenso onde todas as plantas estão viçosas e onde há quem converse com elas. Para que cresçam felizes.

Agora algo realmente importante [ii]

Futebol? Qual futebol? Depois do Triatlo, nada como um bom triplo salto.

























[Nélson Évora, campeão do Mundo de Triplo Salto. Foto da Reuters]

segunda-feira, agosto 27, 2007

Piada de mau gosto

Tento. Faço os impossíveis. planeio tudo. E cruzo os dedos em frente aos lábios. Juro que não farei mais nada que seja ficar na praia de manhã à noite. Repito que pensarei apenas em mim. Que não existirá mais nada. Eu e o universo mágico das páginas de algum livro. Mas no fim nada acontece. Nos dois únicos dias que tenho para ir a praia, fica mau tempo. Rio para não chorar. O sol faltou à chamada. A pele não ficou a saber a sal. As toalhas não cheiram a protector solar. Não há areia entre as páginas do livro. Há apenas a sensação que nada sabe a nada. Que o Verão está no fim sem ter sequer começado. Nunca Agosto se arrastou tanto nas páginas do calendário. E eu penso aterrorizada que o Inverno está já ai.

[pior do que não ter tido direito a nada disto, é achar que consigo sentir tudo isto enquanto escrevo. A areia. O calor. Os cheiros. Sentir que as palavras são uma entidade física palpável]

sábado, agosto 25, 2007

Momento baby blog

O G. [4 anos] está sentado entre a A. e a televisão. No ecrã passa um anúncio de telemóveis. Não faço ideia qual é o operador. Vemos a câmara aproximar-se muito dos corpos nus e pintados a azul e laranja. Ninguém presta grande atenção até que o G. diz ‘olá’. Não é um ‘olá’ qualquer. Traz uma entoação de espanto. Eu olho para a A. depois para o R.. Desatamos os três a rir. É então que o G. se vira e diz ‘as miúdas’ com uma entoação no mínimo marota. Juro! E o R. jura que não lhe ensinou nada daquilo. Duvido...

quinta-feira, agosto 23, 2007

Noites Longas

Intercalamos perguntas e respostas na noite que se quer quente a cada Verão. Fumas um cigarro atrás do outro e sugas o fumo pausadamente à medida que medes cada palavra nos cartões coloridos. Já comprámos todos os jogos disponíveis e esgotam-se as respostas que desconhecemos. Continuamos a jogar. Encostados no sofá procuramos posições confortáveis e já estamos descalços. Sabe-me bem ter-te comigo. Contas as respostas certas que são mais tuas que minhas e eu esqueço-me delas. Tu não. Falho por não saber e sorrio. Respondo de qualquer maneira e ris-te. Se acerto ficas danado, como se pudesse vencer-te. Somas mais pontos. Não sei como será quando acabarem os cartões. Gosto de ficar ali, noite dentro, numa espécie de concurso de cultura geral onde não há prémio maior que a tua companhia. Tu podes ganhar o jogo, mas quem ganha a noite sou eu.

Post-it

Não juntar as palavras "brincar com" e "mete-lo todo lá dentro" na mesma frase, ainda que se esteja a falar de um título. Principalmente quando estamos a falar alto para a outra ponta da redacção.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Cabeças Complicadas

Há pessoas - especialmente mulheres - que teimam em inventar problemas onde eles não existem, que não sabem viver sem um 'senão', que só se sentem bem quando alguma coisa corre mal. Porque quando tudo corre bem, desconfiam...

Estas pessoas dificilmente serão felizes - ou passarão por breves momentos de felicidade. São pessoas negativas, com uma perspectiva derrotista e que só conseguem ver um dos lados da balança. O que cai. Elas são assim por culpa delas, porque não se controlam, não se esforçam, porque desistem.

Por exemplo: uma pessoa arranja um namorado. Ele é carinhoso, atento, cuidadoso, cumpridor. Manda mensagens, telefona, espera por ela à porta de casa e nunca se atrasa. É um rapaz bem parecido, não fuma, não bebe em demasia, controla-se, sabe apreciar outras mulheres mas fá-lo de uma forma discreta e educada. Ainda assim, perante este romance, a 'nervosinha insatisfeita' acha que há qualquer coisa que não pode estar bem na relação. Provavelmente ele anda a enganá-la com tanta boa vontade, quer pregar-lhe uma partida e tem outra namorada, anda a perder tempo com ela só para se aproveitar... Mais: esta insuportável queixosa não aproveita os dias com o novo namorado, antes se esgota a pensar se será amanhã que ele acaba com ela... porque nada pode ser tão bom!

Outro caso: uma pessoa arranja um emprego. É bem paga, os colegos são gente simpática e cordial, os chefes são honestos e observadores. É elogiada quando faz bem, é incentivada, tem uma secretária e um computador só para ela... Mas a 'nervosinha insatisfeita' não está contente, claro. Para ela este só pode ser um emprego temporário, claro que os colegas estão a fazer bluff e, à primeira oportunidade, vão lixá-la; naturalmente os chefes não são observadores mas sim controladores. Porque nada pode ser tão bom!

Há pessoas que deviam consultar um psicólogo pelo menos uma vez por semana por causa disto. Deviam ter mais auto-confiança, deviam sentir-se seguras, deviam aproveitar o bem que a vida lhes traz. Mas, estas pessoas, insatisfeitas, preferem passar o tempo a pensar no lado mau de uma boa vida, preferem desperdiçá-lo com longas conversas sobre os malefícios da perfeição. Estas pessoas não merecem o bem que têm.

É que, já se sabe, de facto as coisas podem dar para o torto, mais dia, menos dia. Mas não aproveitá-las enquanto estão direitas é uma falta de amor à vida. E uma tremenda chatice para quem está ao lado.

terça-feira, agosto 21, 2007

[...]

Entrar no pasquim às 8h00, sair às22h depois de gastar pouco mais 20 minutos a almoçar diz muito sobre a minha vida. Ou a falta dela.

Uma e outra vez

Não há nada a fazer. Ao fim de dois dias, quando a semana ainda não vai a meio, quando faltam três edições para preparar e levar às bancas, estou pronta para baixar os braços e ir para casa. Dormir. Muito. Dormir e ficar horas a fio de livro na mão. Não pensar em nada. Não falar com ninguém. Enterrar os pés na areia. Torrar ao sol até as gotas de suor se acumularem no umbigo. Mergulhar lentamente num mar gelado e voltar para a toalha. Para ler mais. Torrar. Enterrar os pés na areia. Pronta para me embrenhar numa vida limite que não é minha. E quando esta acabar recomeçar. Há uma história de terroristas à minha espera. Não fazer mais nada. Alhear-me do mundo. Uma e outra vez.

Manhã de [des]gosto

Há vantagens em chegar ao pasquim quando as senhoras da limpeza ainda se arrastam de secretária em secretária. Ultrapassada a razão[*] que me leva a estar aqui a horas tão impróprias. E a caminho de recuperar o estado meio zen possibilitado pelo estado de sono e destruído em dois minutos de directo. Consigo voltar ao blog e pensar que talvez seja altura de libertar uns quantos drafts. Ocupam espaço e criam pó nas estantes do blogger. Pois. Mas para isso era preciso que conseguisse dar o salto. Há um que tem qualquer coisa como ano e meio. Nunca viu a luz do dia, pobrezito. Está pálido, magro, enfezado. E não há meio de conseguir pôr-se de pé. Falta-lhe um fim. A coisa começa bem, mas não acaba. Posso sempre optar pela versão cobarde. Não assumir nada. Aplicar-lhe com firmeza umas reticências. Deixar que os quatro ou cinco gajos que ainda aqui vêm decidam o resto. Podia transformá-lo num conto [semi] erótico. Daqueles que já se escreveram por aqui. Um elevador tem grandes potencialidades. Ou posso simplesmente deixá-lo ficar. Esperar Que morra de velhice. Que as traças o ataquem. Que se dissolva e escape entre os dedos ao mais sauve dos toques.

Mulheres ao Volante [ii]


Concedo que os números [estatísticas da Direcção Geral de Viação] são enviesados porque existem mais homens na estrada do que mulheres. Mas é indiscutível que são eles os principais causadores de acidentes. Acidentes causados muitas vezes por falta de civismo, o mesmo de que acusas as mulheres. Porque lhes salta a tampa se são ‘picados’ por uma mulher [ou homem] que conduz mais rápido que eles. É a velha teoria da ‘minha é maior que a tua’.

Não tenho pudor em dizer que me incluo na lista dos que buzinam e chamam ‘palhaço’ [na versão soft] ao condutor da frente, mas parece-me que a generalização peca. Como aliás todas as generalizações. Também concedo que tenho muitas vezes o que chamas de atitude de ‘chica esperto’. Sou capaz de ultrapassar uma fila inteira de carros para entrar muito mais à frente, mas sou incapaz de pedir que me deixem entrar, limito-me a aproveitar o facto de muita gente demorar duas horas, mais coisa menos coisa, a tirar o pé do travão e a pôr o carro em andamento. A distância que deixam do carro da frente é sempre mais que suficiente. E há que aproveitar oportunidades. Se não consigo entrar, acontece-me com frequência ao contornar a praça de Espanha, por exemplo, sigo em frente e vou pelas Amoreiras.

“Creio que a tendência da mulher é sentir-se diminuída em relação aos homens, no que toca à condução.” Importa-se de repetir? Ou de explicar? É que essa coisa dos complexos de inferioridade está mesmo a tirar-me do sério...